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A simonia

Atos 8:9-25

Simão era um nome comum nos tempos do início da igreja de Cristo, e muitas tradições e lendas surgiram em torno do personagem mencionado nesta passagem bíblica, que veio a ser apelidado de “o Mago”. Em português e algumas outras línguas derivou-se dessa pessoa a palavra “simonia”, que significa a comercialização de coisas espirituais, ou temporais ligadas às espirituais.

Este homem, e muitos outros antes do tempo em que o gnosticismo se intensificou, praticava mágica ou feitiçaria que explorava a superstição e credulidade do povo em Samaria, ganhando para si fama e muito dinheiro. O povo dizia que ele era o “Grande Poder de Deus”, uma centelha da maior divindade, impersonificando o próprio Deus.

Mas muitos do povo creram em Filipe quando veio pregando sobre o Reino de Deus e o nome de Jesus Cristo, e foram batizados. Também Simão, que se apegou a Filipe, admirado com o que este podia fazer. Pelo que se seguiu, entendemos que Simão não havia realmente se convertido e só queria descobrir como Filipe fazia os milagres.

Quando os apóstolos, todos em Jerusalém, souberam do que estava acontecendo em Samaria, enviaram Pedro e João para lá. É interessante ver que a decisão foi tomada em grupo: estes dois notáveis apóstolos não agiram por conta própria. Ao chegarem lá, notaram que o Espírito Santo não havia descido sobre nenhum dos samaritanos, diferentemente dos judeus convertidos, sobre os quais Ele vinha logo depois da sua conversão e batismo (Atos 2:38).

Pedro e João, portanto, oraram pedindo que esses samaritanos recebessem o Espírito Santo, e lhes impuseram as suas mãos, um sinal de solidariedade usado entre os judeus. Os samaritanos então receberam o Espírito Santo.

A Bíblia não explica porque, embora tenham crido e sido batizados, os samaritanos não receberam logo o Espírito Santo como os judeus estavam recebendo, mas é provável que fosse para manifestar a comunhão de judeus e samaritanos na igreja de Cristo. Os judeus não se davam com os samaritanos, e para que essa separação não continuasse na igreja, antes de lhes dar o Seu Espírito, Deus enviou os apóstolos para orar pelos samaritanos, e colocarem suas mãos sobre eles para provar que participavam do mesmo Espírito. Nada se diz sobre o dom de línguas, como se fosse prova do dom recebido.

Fica claro aqui que passar pelas águas do batismo ou qualquer outra cerimônia não salva, não faz com que o Espírito Santo entre na vida de uma pessoa, muito menos o faz um membro da igreja de Cristo.

Evidentemente Simão não se encontrava entre aqueles sobre quem os apóstolos haviam orado e imposto suas mãos, e não entendeu o seu significado. Ao ver aquilo, julgou que o Espírito Santo era dado assim (não era, veja-se o exemplo de Cornélio em Atos 10:44). Sua cobiça imediatamente lhe deu uma ideia que achou lucrativa: comprar esse poder dos apóstolos, pois pensava que ao apoderar-se dele teria a oportunidade de enriquecer-se ao vendê-lo para outros por bom preço, como decerto fazia com a sua mágica e manteria o seu prestígio que agora estava em jogo.

Apesar da sua confissão de fé e batismo, Simão cria que “tudo tem um preço” com se diz hoje em dia. É normal num mundo de subornos, materialismo e procura de riquezas. Mas Simão foi surpreendido com uma repreensão severa de Pedro.

Pedro viu, pela proposta que lhe fora feita, que o coração de Simão não era reto diante de Deus apesar da sua confissão de fé e batismo, e estava destinado à perdição eterna (João 3:16). Ele realmente não havia se convertido, pois:

  • Estava destinado à perdição eterna: “vá tua prata contigo à perdição” (nenhum verdadeiro crente irá para a perdição – João 3:16).
  • Não estava em comunhão com a igreja: “Tu não tens parte nem sorte neste ministério”.
  • Não havia acolhido a Palavra de Deus: “seu coração não era reto diante de Deus” (Lucas 8:15).
  • Demonstrava falta de regeneração: estava em “fel de amargura, e em laços de iniquidade”.

O poder do Espírito Santo nunca esteve à venda. Tampouco outras bênçãos de Deus, como a prosperidade material nesta vida, podem ser compradas. No reino de Deus, do qual fazem parte os que foram santificados pela graça de Deus mediante a fé em Cristo Jesus aqui na terra, todos têm o Espírito Santo. Simão não O tinha, e Pedro lhe disse que precisava arrepender-se e rogar ao Senhor para que lhe fosse perdoado por ter tido essa ideia cobiçosa. Pedro ainda parecia estar em dúvidas se Simão alcançaria o perdão de Deus.

Deus é bondoso, compassivo e de grande benignidade (Salmo 145:8). O Senhor Jesus ensinou que “Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada” (Mateus 12:31). Estaria Pedro pensando que Simão talvez tivesse cometido este pecado? Pedro deixou aberta a esperança de perdão, se Simão se arrependesse e rogasse perdão ao Senhor. Simão se assustou, mas não deu sinal de arrependimento, apenas pediu que os apóstolos interviessem a favor dele e rogassem ao Senhor para que o castigo que Pedro mencionara não viesse sobre ele. Ficou evidente que Simão nunca havia mudado a sua vida, e continuava no seu caminho distante de Deus, apesar da sua profissão de fé e batismo.

É a atitude de multidões que não querem um compromisso pessoal com Deus, e recorrem à intermediação de falsos sacerdotes, e a “santos” mortos etc., tentando assim obter o perdão dos seus pecados. Mas o Senhor Jesus disse claramente: “Quem não crer (no Evangelho) será condenado” (Marcos 16:16). A salvação não está à venda, e Deus é justo e punirá os que rejeitarem o perdão dos seus pecados mediante a fé em Jesus Cristo.

Nada mais sabemos sobre Simão, o Mago, pois seu nome não aparece mais nas Escrituras Sagradas. Mas o relato feito a respeito dele é um alerta solene que ressoa através dos tempos contra a simonia, tão em voga em nossos tempos quando o mercantilismo com as coisas de Deus enche os templos dos vendedores de prosperidade e outras “graças”. Alcançarão eles o perdão de Deus mediante o arrependimento? O apóstolo Pedro não tinha certeza disto no caso de Simão.

Tenhamos todo o cuidado para que esse mal terrível não entre em nosso meio.

autor: R David Jones.