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Abrindo nosso tesouro

“... todo escriba que se fez discípulo do reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”

(Mateus 13:52)


Nestas palavras do Senhor Jesus vemos a transformação operada em um escriba que se faz discípulo do reino dos céus: o escriba, estudante e mestre da lei em Israel, ocupava-se só com as coisas velhas do passado, mas o discípulo acompanha o seu Mestre e o seu tesouro agora contém coisas novas, além das velhas, e ele as aprende para seu próprio uso e para ensinar aos outros.

São assim as Escrituras Sagradas, pois a Bíblia se compõe de coisas velhas, o Antigo Testamento, e de coisas novas, o Novo Testamento. É uma biblioteca com sessenta e seis livros, escritos originalmente em um punhado de idiomas através de milênios, por autores de diversas ocupações, desde reis até pescadores, dos quais uma pequena minoria se conhecia pessoalmente.

No entanto, a leitura dos seus livros nos indica claramente que todos eles têm em comum um Autor Supremo, e por causa disso compõem uma Obra completa e harmoniosa, um só Tema, uma Mensagem vinda do próprio Criador, e a história da humanidade, desde o seu início até o distante porvir, focalizando-se apenas nos fatos mais importantes para a nossa instrução. Ao contrário de praticamente todas as obras literárias, pouco ou nada se sabe sobre alguns dos seus autores humanos, pois nenhum se apresenta em prólogo e seu nome apenas consta do texto quando é parte da narrativa.

A Bíblia é um tesouro inexaurível, que nos surpreende pelas riquezas que contém, prontas a serem descobertas e aproveitadas. O seu conteúdo divino é poderoso para salvar e transformar as almas, pois “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). Vamos abrir o nosso tesouro conscientes do imenso valor que tem, e permitir que a sua mensagem nos encaminhe pelas veredas divinas.

A Palavra de Deus é poderosa para convencer o homem da sua situação faltosa diante do Criador, o que é chamado “pecado” na Bíblia, e de fazê-lo compreender o grande Preço que Ele pagou para que fosse perdoado, desde que se arrependa e tenha humildade suficiente para aceitar esse Preço e submeter-se à vontade de Deus. Tudo está lá em suas minúcias, e a isto chamamos o Evangelho (“notícias boas”) de Cristo.

Já se propuseram vários métodos para facilitar a leitura dessa biblioteca de Deus, variando em seu grau de simplicidade e profundidade conforme o nível intelectual e espiritual daqueles a quem são dirigidos. Fundamentalmente, o tesouro se abre com uma chave de uso geral que compreende as regras de interpretação, chamada “hermenêutica”. A interpretação correta das Escrituras é quase tão importante quanto a doutrina da sua inspiração verbal divina, pois é a interpretação errônea que dá origem à maioria das heresias e outros males que vemos por aí. Vejamos as regras de interpretação:

  1. Espécie de literatura: antes de se ler um texto, verificar sempre a que espécie de literatura pertence: nosso tesouro tem várias, como relato histórico, composição poética, parábola, carta de ensino, e profecia. Se for relato histórico, o texto descreve fatos que realmente aconteceram; se poesia, a linguagem é figurada, com uso de metáforas; as parábolas são narrativas de fatos comuns ou alegóricos que encerram um preceito; as cartas contêm mensagens, ensinos e explicações sobre temas e textos bíblicos; as profecias são mensagens vindas de Deus através de homens escolhidos, incluindo informações sobre acontecimentos futuros, cuja autenticidade é provada pela sua realização, às vezes séculos mais tarde.
  2. Contexto físico: para se entender um texto é essencial estudar o contexto físico: a natureza das pessoas envolvidas, o tópico, e o seu relacionamento com os versículos imediatos, etc.
  3. Contexto histórico: descobrir o que estava acontecendo quando o texto foi escrito, ou a que está se referindo. Só assim é possível compreender muitas das profecias do Velho Testamento, e também verificar o seu cumprimento, ou acompanhar o sentimento revelado nos Salmos, etc. Na maioria das vezes o contexto histórico pode ser encontrado na própria Bíblia, mas uma boa enciclopédia pode também dar informações esclarecedoras, como seriam os povos e costumes comuns da época, religiões, etc.
  4. Significado das palavras: depois de termos identificado o tipo de literatura, e os contextos da passagem em consideração, é importante estudar o sentido gramatical e o significado das palavras. Sempre deveríamos procurar o significado literal, sem logo assumir que haja algum sentido misterioso, oculto. Se o sentido literal faz sentido, não procuremos encontrar outro sentido. O Senhor Jesus dizia: “Não tendes lido... ?” (Mateus 19:4, Lucas 6:3). Evidentemente Ele assim confirma que as Escrituras são claras, literais. Um pouco dessa clareza às vezes se perde por causa da tradução feita para uma língua que não tem um equivalente perfeito da expressão nos idiomas originais, ou uma palavra que tem vários sentidos diferentes, dependendo do seu contexto. Para não interpretar incorretamente, sempre que houver dúvida deve-se verificar como a palavra é usada na passagem, em outras passagens do mesmo autor, e em outras partes da Bíblia. Algumas Bíblias facilitam a procura indicando as concordâncias, existem obras de concordâncias publicadas como a de Strong, e mesmo programas de computador gratuitos como e-Sword. A Bíblia também usa figuras de linguagem, e é essencial reconhecê-las para compreender corretamente algumas passagens bíblicas. Quando a Bíblia usa um símile, uma metáfora ou uma hipérbole, a passagem deveria ser interpretada de acordo com o uso normal desse tipo de linguagem. Em outras palavras, não se pretende que tudo na Bíblia seja entendido literalmente, mas as figuras de linguagem se identificam claramente dentro do contexto. Por exemplo, o primeiro capítulo de Gênesis é um relato histórico, portanto não cabe ali a interpretação de que seja uma figura de linguagem. O contexto é crucial.
  5. Harmonia: sendo a Bíblia inspirada pelo Deus da verdade, ela não se contradiz. As Escrituras estão todas em harmonia entre si. Devemos, portanto, comparar texto com texto para ter certeza que nossa interpretação é correta. Se houver desarmonia, o erro foi nosso e precisamos examinar o texto mais cuidadosamente.
  6. Relevância: tendo Deus entregue a Bíblia para a transformação da nossa vida, e não simplesmente para nosso estímulo intelectual, o texto terá sempre alguma relevância para nós. Isto não faz parte do processo de interpretação, mas é mediante confiar e obedecer à Palavra de Deus que a compreendemos melhor (Mateus 13:14-17). 7.
  7. Alerta: esta última regra é uma advertência: cuidado com os falsos mestres e enganadores. O Senhor Jesus nos preveniu contra os líderes religiosos que usam a tradição dos homens para invalidar a Palavra de Deus (Marcos 7:5-13). O apóstolo Paulo preveniu os crentes da igreja de Corinto contra os que usam as Escrituras para seus próprios fins, muitas vezes para seu ganho pessoal (2 Coríntios 2:17). O apóstolo Pedro nos preveniu contra gente que torce alguns pontos difíceis de entender para sua própria perdição (2 Pedro 3:16). É preciso ter muita precaução contra os que “descobrem” algo novo e surpreendente na Bíblia, bem como os que “enfeitam” o relato bíblico e tratam os seus acréscimos como se tivessem a aprovação de Deus. Os crentes devem, por isso, manejar bem a Palavra da Verdade (2 Timóteo 2:15).
  8. A vontade de Deus é que aprendamos e apliquemos a Sua Palavra às nossas vidas. Ao invés de procurar ajustar a Bíblia aos nossos pensamentos, ao seguir estas regras sensatas estaremos habilitados a compreender melhor o que Deus está realmente dizendo e o que isto significa para nós.

Assim, poderemos abrir o nosso tesouro para de lá reverentemente tirar tudo que precisamos para nortear sabiamente a nossa vida, aprofundando-nos cada vez mais nas maravilhas que Deus, por meio dela, vai nos revelando, e acompanhar os ensinos e o exemplo dados pelo nosso Salvador e Mestre, o Senhor Jesus Cristo.

Harmonizemos, portanto, as nossas vidas com a Sua Palavra e, obedientes, sigamos o Seu caminho que nos conduz à eternidade em paz e comunhão com o nosso sublime Criador.

autor: R David Jones.