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Início das igrejas locais

“É correto afirmar-se, como está sendo divulgado em nosso meio, que a formação de igrejas locais, independentes das instituições denominacionais, foi originada no ano de 1825, em Dublin, na Irlanda, pelo chamado 'movimento dos irmãos unidos'?”

Esse tipo de afirmação decorre quando se ignora ou se negligencia a verificação do fundamento dessas igrejas e o seu caráter, bem como a sua existência através da era cristã, prevista na profecia bíblica e confirmada pela história.

Definimos as igrejas locais, independentes das instituições “denominacionais", como as congregações de crentes que não se subordinam a uma organização eclesiástica externa. Variam entre si, mas creio que o interlocutor tem em vista aquelas que procuram seguir fielmente o ensino encontrado na Bíblia, observando-o em seu relacionamento com Deus e no comportamento dos seus membros.

O seu fundamento é o ensino dos apóstolos e profetas que ali se encontra do qual o Senhor Jesus Cristo é a base (Ef. 2:20). Qualquer modificação é rejeitada. Suas principais características são:

  1. formadas mediante a direção do Espírito Santo (At. 16:6,7);
  2. as Escrituras Sagradas são a sua única regra de fé, não se subordinando a diretrizes e tradições estabelecidas por homens (Cl. 2:8);
  3. supervisionadas por “bispos", membros da igreja reconhecidos por serem irrepreensíveis e dotados de certas qualidades morais e espirituais (1Tm. 3:2, Tt. 1:7);
  4. alguns dos seus membros, pessoas reconhecidamente respeitáveis, são designadas para a provisão de serviços (1Tm. 3:8);
  5. cada igreja se subordina diretamente ao Senhor Jesus que é o seu titular (Ap. 1:20);
  6. cada igreja é um organismo cujos membros servem em diferentes funções e dependem uns dos outros, sendo todos importantes (1Co. 12:12-27).

A PRIMEIRA IGREJA EM JERUSALÉM

Igrejas assim já existiam no início da cristandade, começando com a primeira igreja, a de Jerusalém. Foi formada no início por discípulos do Senhor Jesus, muitas pessoas que se converteram com a pregação dos apóstolos nos primeiros dias, e outros que o Senhor lhes acrescentava (At. 2:47). Veio a ter muitos membros, era supervisionada pelos apóstolos e presbíteros (At. 21:18, Gl. 2:9), e servida por “diáconos” escolhidos criteriosamente (At. 6:3). As reuniões se faziam diariamente no templo e nas residências (At. 2:46).

O SURGIMENTO DE OUTRAS IGREJAS NA JUDÉIA E SAMARIA

Após a morte de Estêvão, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém, e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria, e iam por toda parte pregando a Palavra. Lemos que, depois da conversão de Paulo, a igreja tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, e crescia em número: havia, portanto, muitas congregações espalhadas por essas regiões, aparentemente independentes de Jerusalém. Estas igrejas locais novas, praticamente só de judeus conhecedores do Velho Testamento, eram ensinadas a tradição oral (1Co. 11:22, 2Ts. 2:15, 3:6), suplementada por profetas providos pelo Espírito Santo para as suas circunstâncias especiais. Não existindo ainda as escrituras divinamente inspiradas do Novo Testamento, recorriam algumas vezes aos apóstolos em Jerusalém para esclarecimento de algum ponto duvidoso importante (At. 15:2), pois os apóstolos eram reconhecidamente instruídos pelo Espírito Santo em toda a verdade (Jo. 16:3).

O INÍCIO DAS IGREJAS DOS GENTIOS

Com o ministério de Paulo houve um grande impulso na evangelização dos gentios, e igrejas locais, simples congregações de crentes, formavam-se por toda a parte. Em todo o relato do Novo Testamento, não vemos qualquer vínculo eclesiástico entre elas - eram todas independentes. É absolutamente correto dizer, portanto, que o início das igrejas locais independentes deu-se na era apostólica, e mais, eram as únicas em existência naquele tempo. No último livro a ser escrito, o Apocalipse, notamos que houve algumas transformações ao aproximar-se o fim do primeiro século da era cristã: as cartas às sete igrejas da Ásia Menor (caps. 2 e 3) nos mostram que cada uma se distinguia muito das outras. Como o livro inteiro é uma profecia, entendemos que aquelas igrejas, existentes quando foi escrito, eram também tipos de igreja local que podem ser encontrados a qualquer tempo da era cristã.

ETAPAS HISTÓRICAS

Ainda mais, do ponto em que nos encontramos na história, constatamos que cada tipo de igreja predominou sucessivamente através dos tempos, na ordem dada na profecia, dando-nos ainda mais uma prova da sua autoria divina. Vejamos apenas alguns detalhes, diretamente relacionados com o presente assunto:

  1. “Éfeso” (do fim do primeiro século até aproximadamente o ano 170 A.D.): “… Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.” Do significado da palavra “nicolaítas” em grego, entendemos que eram alguns que procuravam dominar os demais membros da igreja. Era o clericalismo incipiente, ainda rejeitado pela maioria das igrejas daquela época. Mas os nicolaítas tiveram sucesso em alguns lugares, chamaram as suas igrejas de católicas (universais), e promoveram uniões e hierarquias.
  2. “Esmirna” (de 170 a 312): “ ...Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) … Não temas as coisas que tens de sofrer...” .Houve perseguições ferozes por parte dos imperadores romanos, resultando na purificação de grande parte das igrejas. Umas até se livraram das práticas nicolaítas, mas outras se deixaram atrair pelo movimento catolicista.
  3. “Pérgamo” (de 313 a 606): “ … tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão … também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.” Em 312 o imperador romano Constantino legalizou e adotou pessoalmente a “religião” cristã, fazendo-se seu “pontífice” ou sumo sacerdote. Introduziu inúmeras práticas pagãs, e os nicolaítas fizeram um progresso enorme. Com a supremacia do “clero” no primeiro Concílio das igrejas “universais” em Nicéia em 325 sua doutrina se firmou permanentemente.
  4. “Tiatira” (de 606 a 1.500): “ … Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha.” O “papa” Bonifácio III fez-se coroar “bispo universal", e deu-se a si mesmo o título de “vigário de Cristo", “herdeiro de São Pedro” e outras coisas mais. Ele e os seus sucessores procuraram assumir o controle supremo de todas as igrejas no império romano, usando de todos os meios inclusive a força das armas, a tortura e a pena de morte se não houvesse submissão. O bispo metropolitano de Constantinopla conseguiu manter sua independência, mas procurou fazer o mesmo com as igrejas da Europa oriental, reunindo-as com o nome de Igreja Ortodoxa, instituição esta tão corrupta quanto a romana. As igrejas independentes que conseguiram escapar à perseguição viviam escondidas, portanto o pouco que foi registrado de que temos conhecimento se limita a algum relato sucinto das atrocidades praticadas contra os crentes que eram apanhados. Elas não se deixavam corromper, conservando a fé que tinham.
  5. “Sardes” (1.500 a 1.750): “… tens nome de que vives e estás morto … consolida o resto que estava para morrer … lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te… tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas”. Tendo a instituição católico-romana baixado às maiores profundezas da heresia, idolatria e imoralidade, escaparam dela alguns crentes sinceros e influentes como Tyndale, Cranmer, Le Févre, Farel, Lutero, Calvino, Zwingli e outros, que se voltaram novamente ao Evangelho e às doutrinas dos apóstolos, rejeitando a autoridade do papa e grande parte das heresias católico-romanas. Apoiados por algumas monarquias européias estabeleceram “igrejas reformadas” em seus países, instituições mais ou menos semelhantes à católico-romana de onde haviam saído, mas isentas da sua idolatria e imoralidade. Assim mantiveram na sua direção os nicolaítas cujas obras são detestadas pelo Senhor. Na realidade não tinham vida espiritual porque eram em sua maior parte compostas e dirigidas por descrentes. Também perseguiram todos os que não se submetiam à sua autoridade. Perseguições terríveis foram promovidas nesse tempo pelos papas e seus asseclas, multidões sendo levadas ao martírio, em grande parte pela ordem dominicana que se responsabilizou pela inquisição. Populações inteiras foram destruídas, dizimadas ou obrigadas a emigrar para fugir à prisão ou morte. Ainda assim, alguns crentes fiéis e igrejas independentes conseguiram escapar e permaneceram incontaminados.
  6. “Filadélfia” (1.750 a 1.940): “… eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar … tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.” Período caracterizado por igrejas pobres em recursos financeiros e materiais, e de pouca influência, mas que tinham um grande desejo de aprender e obedecer fielmente a Palavra de Deus, e de praticar a caridade e o amor fraternal. Foi-lhes aberta a porta da oportunidade: não havia quase lugar no mundo onde um missionário não pudesse ir. O Evangelho foi levado até a China, Japão, Coréia, Índia, África, América Central e do Sul, e houve grandes “reavivamentos” na Europa e na América do Norte. O adjetivo “evangélico” passou a ser usado para distinguir essas igrejas, por causa do seu zelo em proclamar o Evangelho de Cristo. Desde a segunda guerra mundial o zelo missionário tem diminuído, e também muitos países já se opõem à entrada de missionários em seu território.
  7. “Laodicéia” (desde a segunda guerra mundial até hoje): “...porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca ...", ou seja, a maioria das igrejas são inúteis para o Senhor porque não pregam o Seu Evangelho, e não procuram manter-se imaculadas do mundo (Tg. 1:27) porque estão conformadas com ele. São cegas com relação às coisas espirituais, sem discernimento, sem esperança quanto à vida eterna, e não aguardam o retorno de Cristo (2Pe. 2:1-22, 3:3-4).

Mas, como no passado, ainda hoje temos as igrejas independentes, que rejeitam a “doutrina dos nicolaítas” e as suas obras, mantendo-se firmes nas doutrinas dos apóstolos. Não são resultado de nenhum movimento humano, mas do Espírito de Deus “que, como o vento, ninguém sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo. 3:8). Elas variam entre si, no tempo e no espaço, mas em geral se assemelham à igreja de Filadélfia. Não têm vínculo administrativo com outras igrejas, subordinação ou compromisso com pessoas, sociedades, instituições ou governos.

Através dos tempos, os crentes que assim se reúnem não assumem um nome senão o de Cristo, mas têm sido apelidados de diversas formas pelos que pertencem às instituições: priscilianos, paulícios, valdenses, albigenses, lolardos, hussitas, irmãos unidos, anabatistas, darbistas, irmãos abertos, e por aí vai …

Desprezados, perseguidos, martirizados, repetidamente provados, sempre uma minoria frente às instituições poderosas aliadas ao poder temporal.

Meus irmãos, sejamos exortados por estas lições da Bíblia e da história, e guardemos firmes a nossa fé, pela qual lutaram multidões de crentes antes de nós, mesmo ao custo das próprias vidas rejeitando qualquer submissão a uma autoridade humana que se contrapõe às claras diretrizes encontradas na Palavra de Deus.

Caso queiram maiores detalhes da história das igrejas independentes, leiam os artigos sobre “A Igreja Peregrina” do irmão Jaime C. Jardine, publicados nos números 76 a 82 da revista “Vigiai e Orai” e encontrados no “site” www.irmaos.com/ .

autor: R David Jones.