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O chamado para a obra missionária

 

Entre Seus servos, alguns ouvem o chamado de Deus para deixar os seus lares e serví-lo em lugares distantes, carentes ainda do testemunho vivo do Seu Evangelho.

Para ilustração escolhi alguns dentre os que conheci pessoalmente, vindos de diversos países para o Brasil, na esperança que sirvam de orientação para os leitores destas páginas.

São eles, em ordem alfabética:

Domingos Lipsi

George S. Orr

Guilherme Maxwell

Jaime Crawford

João McClelland

Ricardo D Jones

Samuel Curran

Vejamos as suas páginas, individualmente, a seguir:  

 


 

Dominic Lipsi

 

Relatado por Margery Riecke Lipsi (esposa):

Dominic (Domingos) Lipsi nasceu em uma família italiana, sua mãe era católica romana e seu pai era ateu. Quando ele tinha 11 anos de idade, resolveu seguir seu pai, e nunca mais freqüentou a igreja. No final de sua adolescência, durante a grande depressão econômica, ele aceitou trabalhar para a máfia, em Nova Jersey. Algum tempo depois, ele deixou a máfia e começou a procurar a verdade acerca da vida após a morte.

 

Ele e seu amigo Charlie foram visitar o Sr. Taylor, um professor de uma escola vocacional. O Sr. Taylor explicou o caminho da salvação e convidou os dois rapazes a visitá-lo em seu lar. Sua esposa deu ao Domingos dois folhetos, “Salvação Simplificada” e “O Remédio de Deus para o Pecado, Medo e Morte”. Ele leu ambos os folhetos viajando de trem para um acampamento do Corpo de Conservação Civil (um tipo de Guarda Civil desenvolvido para manter ocupados jovens durante a grande depressão) em Georgetown, Delaware. Naquela noite Deus falou com ele de uma forma poderosa, ele aceitou a Jesus como seu Salvador e Senhor, e sua vida foi completamente transformada.

Ele deixou o acampamento, voltou para casa e foi visitar o casal Taylor, que o ajudou no seu grande desejo de conhecer mais a Bíblia. Naquele verão ele foi todas as noites para as reuniões em uma tenda perto da residência do casal, onde a cada semana havia alguns dos melhores ensinadores dos EUA, e alguns da Inglaterra, que ensinavam as Escrituras. No outono ele freqüentou a Escola Bíblica de Camden e participava fielmente na Igreja.

Nas reuniões na tenda, ele ouviu muitos bons missionários falarem acerca da necessidade daqueles que nunca tinham ouvido o Evangelho, ficou muito impressionado por um missionário do Brasil e desde então sentiu um grande desejo de servir o Senhor aqui. Seis anos depois de sua salvação ele veio para o Brasil. Domingos falava italiano no seu lar e isto foi uma grande ajuda para aprender o português.

Eu, Margery Riecke Lipsi, nasci num lar protestante, onde aprendemos a respeitar e amar a Deus. Pensávamos que iríamos para o céu baseados nas nossas boas obras. Quando eu tinha 14 anos de idade fiz minha “confirmação” (profissão de fé) em uma igreja luterana. Mais tarde um pastor modernista, que negava a autoridade das Escrituras, se tornou o pastor daquela igreja.

Minha irmã mais velha, Louise, foi com amigos para a Escola Bíblica de Philadelphia e lá ela foi salva. Já que o pastor luterano não pregava as Escrituras, ela deixou a igreja e me levou com ela para uma igreja bíblica grande, onde fui confrontada com a verdade que só Jesus salva, não as boas obras. Através do testemunho de minha irmã, de uma excelente professora de Escola Dominical e da pregação da Palavra, eu fui salva.

Ouvimos muito acerca de missões e tínhamos missionários que visitavam a igreja freqüentemente; eu estava muito interessada. Na véspera de Natal daquele ano eu aceitei o Senhor Jesus como meu Salvador e Senhor e, naquela noite, sozinha em meu quarto, eu dei minha vida a Ele para O servir. Eu tinha 14 anos de idade e daquele momento em diante, ansiava ser uma missionária.

Pensava que seria na China, pois seis anos depois de ser salva a Louise foi até a China onde serviu ao Senhor fielmente por 51 anos. Foi através do marido dela que entramos numa igreja evangélica independente, não denominacional. No meu último ano de Escola Bíblica vim a conhecer o Domingos na reunião missionária de jovens na igreja. Tivemos simpatia um pelo outro por causa do nosso interesse mútuo por missões. Um ano e meio depois de começarmos a andar juntos, nós nos casamos.

Não podíamos sair logo rumo ao Brasil por causa da 2a. Guerra Mundial, pois a ninguém era dado passaporte para deixar o país. Depois do nascimento de Louise e David pudemos sair. A igreja com que nos reuníamos, Ashland Gospel Chapel, nos recomendou ao serviço do Senhor no Brasil.

Ao final de 1947 chegamos em São Paulo onde fomos recebidos, animados e ajudados de muitas formas pelo irmão Edward Hollywell com quem nos correspondíamos. Quanto à China, o Senhor sabe, a porta se fechara para aos missionários e Domingos deixou claro que se eu fosse me casar com ele, eu teria que vir para o Brasil!

Depois de alguns meses na cidade de São Paulo, Domingos começou a procurar um lugar onde o Evangelho ainda não havia sido proclamado, pois concluiu que havia muitos brasileiros bem dotados assim como missionários pregando o Evangelho naquela cidade. Edgard de Almeida falou ao Domingos sobre Campinas e as oportunidades ali, portanto Domingos foi a Campinas de trem e visitou o Seminário Presbiteriano onde encontrou um jovem que o ajudou a procurar uma casa.

Após várias visitas ele encontrou uma e na semana seguinte ele me levou com as crianças para vê-la. Quando Domingos foi pagar o aluguel dos primeiros meses foi-lhe dito que tinha que pagar um suborno de cento e cinqüenta reais, ao que respondeu que ele não usaria o dinheiro do Senhor para pagar um suborno e isso foi o fim daquilo.

Na semana seguinte ele foi outra vez de trem para Campinas e encontrou o seu amigo Antônio do seminário. Estavam no centro de Campinas sem saber onde procurar, quando um homem se aproximou. Domingos pediu ao Antônio para perguntar-lhe se sabia de alguma casa para alugar, mas Antônio teve vergonha. Então Domingos, que já falava alguma coisa em português, dirigiu a pergunta ao homem.

Ele respondeu que não sabia de casas em Campinas, mas sabia de uma casa que estava sendo construída em Sousas, e assim na semana seguinte ele foi a Sousas de bonde. Foi-lhe dito que o alfaiate, que também possuía o armazém, era o dono da casa nova em cima do morro. Quando Domingos foi ver o alfaiate, ele descobriu que o alfaiate era o mesmo homem que ele havia encontrado na rua em Campinas! Domingos alugou a pequena casa na hora e foi assim que aterramos em Sousas.

Embora tenhamos tido dificuldades (nosso carro foi certa vez atirado dentro do rio) os anos em Sousas têm sido frutíferos e felizes. Não havia um protestante ou estrangeiro na cidade, por isso éramos uma verdadeira novidade, e isso ajudou porque o povo queria conversar conosco. Com a ajuda do Senhor iniciamos a igreja de Sousas, depois tivemos reuniões em uma casa em Campinas (que tornou-se numa obra) depois demos início ao acampamento Betel.

Dois anos mais tarde começamos a igreja de Vila Mimosa, em Campinas. Domingos viajou para outros lugares, e esteve com os índios em Mato Grosso. Uma das maiores bênçãos em nossas vidas é que os nossos 5 filhos seguiram ao Senhor e, crescendo, ajudaram muito no trabalho do Senhor. Desde que Domingos foi para o lar do céu, em setembro de 2002, eles continuaram a ajudar nas igrejas e no acampamento. Davi e Jônatas agora moram nos Estados Unidos, mas são uma parte importante do trabalho aqui. Durante estes últimos 10 anos o Timóteo tem continuado o trabalho do acampamento com a ajuda dos seus dois filhos e os outros netos. Louise, Gary Bryar e Jeanne também têm dado muita ajuda.

 

 

 


 

George S. Orr

MINHA CONVERSÃO E CHAMADA

por George S. Orr

Nasci em Dublim, capital da Irlanda, no dia 27 de dezembro de 1918, o mais velho de 7 irmãos, e não posso deixar de mencionar as orações de meus pais e o ambiente cristão em que fui criado.

Num domingo cedo, na minha infância, um irmão missionário na Índia veio almoçar em nossa casa depois da Ceia do Senhor. Dizem que ele me tomou nos braços e orando a Deus pediu para que eu fosse salvo e me tornasse um missionário.

Quando eu tinha seis anos de idade, alguém que me desejava bem e tinha um cuidado pela minha alma, pediu que eu assinasse um papel confessando meus pecados e aceitando a salvação. Fiz isto para agradar, mas não era do coração e sabia que não era salvo.

Comecei a trabalhar aos 14 anos numa importadora de chá. No serviço entrei em contato com alguns crentes que tentavam forçar ou me embaraçar para que eu me salvasse, mas, por ser tímido, não gostava de ser encurralado e me tornei um adolescente rebelde.

Cheguei aos 17 anos, ainda no caminho espaçoso que conduz a perdição. Mas Deus foi misericordioso, e na memorável noite do dia 23 de abril de 1936, eu estava numa reunião para a pregação do Evangelho, tendo sido convidado de uma maneira tão graciosa, por um irmão idoso, que eu não pude recusar.

Um missionário da Jamaica estava pregando em Êxodo, capitulo 2, sobre Moisés, o bebê condenado a morrer, mas que foi salvo pela filha do rei. Enquanto ele falava tive uma relação pessoal com Deus. Eu me reconheci como um pecador e implorei para que Ele olhasse para a cruz em vista dos meus pecados. Que momento incrível quando me vi incluído na obra de Cristo na cruz, meus pecados lavados e perdoados.

Tudo mudou quanto as minhas perspectivas e prioridades. Comecei a participar de todas as reuniões da igreja local, e depois de algum tempo fui batizado e recebido à comunhão da igreja. Comecei a me envolver com as atividades da igreja e posso me lembrar do dia em que, com joelhos tremendo, subi em uma plataforma para pregar pela primeira vez.

Deus, na Sua própria maneira, fez-me pensar no Brasil e na Sua obra neste grande país. Os irmãos da igreja local tinham uma reunião para oração por missionários, onde liam e apresentavam as características de vários países, o trabalho de Deus neles, os missionários e os problemas que enfrentavam, e orávamos por eles. Às vezes recebíamos visitas de missionários que nos contavam algo das suas experiências na obra do Senhor.

Durante este tempo, reli o livro "Aventuras com a Bíblia no Brasil" de Fred Glass, que eu tinha recebido como prêmio da escola dominical anos antes. O livro descrevia sobre o Brasil rural sem falar nada das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, que viríamos a conhecer alguns anos depois.

Comecei a escrever a um missionário do Brasil que morava na Inglaterra querendo saber mais a respeito do país e do trabalho lá realizado. Comecei a sentir que deveria ir e ajudar na obra de Deus. Mas então, em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial e toda a navegação de passageiros civis parou. Mas mesmo durante a guerra a idéia não me deixou e era assunto de muita meditação e oração.

No final de 1941 uma moça chamou-me a atenção, e depois de muita oração e consideração eu combinei um encontro para uma curta caminhada. Eu queria ter certeza que era a vontade do Senhor, e que ela também teria o desejo de servir ao Senhor onde quer que Ele guiasse. Portanto uma das primeiras coisas que disse a ela foi "Você já teve pensamentos sobre servir a Deus em outro país?". Tendo estabelecido que tínhamos isso em comum, retornamos à casa dela praticamente noivos. Martha e eu nos casamos em 4 de abril de 1944, e até agora ela tem sido uma preciosa ajudadora e é amada por todos que a conhecem.

A guerra ainda estava em andamento e era um tempo quando o povo tinha só o suficiente para se alimentar e tudo era racionado, e eu comecei a pensar que Deus talvez poderia sustentar a mim no Brasil, mas poderia cuidar de mim e de minha esposa também? Continuei a orar e procurar a direção de Deus.

A guerra terminou no final de 1945 e depois de um tempo os navios começaram a deixar os portos da Irlanda para países distantes. Enquanto ainda procurava a confirmação quanto a vontade de Deus para nós, certa noite, em uma reunião de ministério, o pregador lendo Jeremias, capitulo 1, uma palavra me chamou a atenção: IRÁS ("a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto eu te mandar, falarás” v.7).

Falei aos irmãos da igreja quanto ao nosso objetivo e eles estavam contentes em nos apoiar e nos recomendar para a obra do Senhor. Depois disto arrumamos as coisas, compramos passagens, e no dia 18 de outubro de 1947, deixamos a nossa terra natal rumo ao Brasil com um certo temor e conscientes da nossa fraqueza, mas confiando no Senhor. Ele nunca nos falhou!

Chegamos no Brasil no dia 5 de novembro de 1947, com um filho de dois anos de idade, sem ter onde morar, não conhecendo ninguém e não sabendo falar português.

Foi-nos sugerido que deixássemos a maior parte da nossa bagagem na casa de oração em Santos e ficássemos algum tempo com um missionário inglês em São Paulo (com quem não havíamos nos encontrado antes). Algumas semanas depois, houve uma enchente em Santos que atingiu a casa de oração e estragou grande parte da nossa bagagem, incluindo os livros.

O Sr. Hollywell, o missionário inglês, nos ajudou nos primeiros dias até acharmos um lugar onde morar, era um homem muito ocupado, pois sabia que seu tempo era curto. Ele morreu 6 meses depois, de câncer.

Uma vez que aprendemos o suficiente da língua portuguesa para podermos nos comunicar com as pessoas, foi um grande privilégio contar-lhes a boa notícia do amor de Deus, da morte de Seu Filho e salvação disponível a todos.

Durante a maior parte dos nossos anos no Brasil, moramos em São Paulo e Paraná, mas em muitas ocasiões viajamos a outras partes, do Norte, na beira do Rio Amazonas, ao Sul, no Rio Grande do Sul, para apontar pecadores ao Senhor Jesus Cristo e ajudar e ter comunhão com o povo de Deus.

Deus tem sido bom, Ele nos abençoou com mais seis filhos e nos acompanhou a cada passo do caminho. O que temos feito por Ele, não é preciso dizer; tudo tem sido anotado por Aquele que pode avaliar o que foi de ouro, prata, pau ou palha.

Nos últimos anos devido a problemas de saúde ligados a idade avançada, e minha esposa tendo de passar por algumas cirurgias, não tem sido possível voltar, mas ainda mantemos contatos e estamos a par da obra de Deus no Brasil via cartas, e-mails e telefonemas. Continuamos a orar pelo trabalho e pelos amigos que fizemos.

Em agosto, deste ano, tive que instalar um marca-passo no meu coração, ao entrar na sala de cirurgia eu disse aos que estavam lá: "Se algo der errado, não se preocupem, minha passagem ao céu já está paga!".

Como é pouco o que fazemos por Ele, quando consideramos o muito que Ele tem feito por nós!

Nosso irmão foi levado para a presença do Senhor em 18 de maio de 2006. Agora o seu filho Alan gentilmente nos forneceu mais detalhes da sua vida, que transcrevemos a seguir:

Quando George nasceu, sua mãe escreveu um poema contendo sete estrofes, das quais a terceira vai assim:

"Senhor, oramos que o receba de volta de nossas mãos, 
Nós o cederíamos a Ti sem tardar. 
E que nestes últimos dias, mesmo ele 
Permaneça em pé na brecha que se abre, por Ti."

Sua mãe foi chamada para o lar na glória quando ele tinha 17 anos de idade.

(Depois de chegar pela primeira vez ao Brasil,) tendo já aprendido o suficiente do idioma, ele teve o grande privilégio de proclamar o Evangelho.

Eles logo se mudaram para Santo André, satélite de São Paulo, e pouco depois para um lugar afastado, nas divisas de Santo André, o povoado de Vila Luzita, onde uma igreja eventualmente se formou e ainda se reúne ali até hoje. Enquanto estavam em Santo André seu segundo filho Alan nasceu.

Seu movimento seguinte foi para a cidade de Niterói, do outro lado da baía de onde está o Rio de Janeiro, onde procuraram também ajudar as igrejas ao redor daquela grande metrópole. Seu terceiro filho Kenneth nasceu em Niterói.

Mudaram-se então de volta para o Estado de São Paulo e ajudaram na igreja em Souzas, perto da grande cidade de Campinas.

Sua próxima mudança foi para o Estado do Paraná, onde moraram numa pequena casa atrás da casa de oração de Ahú de Baixo e ajudaram no trabalho ao redor daquela grande cidade. Aqui foi onde nasceu seu quarto filho, Eric.

Em seguida, mudaram para o norte, ao Estado de Minas Gerais, onde por alguns anos ele trabalhou como empregado na construção de uma grande usina hidroelétrica durante o dia, e continuou a evangelizar à noite. Dali ele também auxiliou igrejas como a de São Joaquim da Barra no Estado de São Paulo e igrejas no Estado de Minas Gerais. Hilda, a sua primeira filha, nasceu ali.

Depois de uma temporada na Irlanda do Norte em 1957/58 eles voltaram para ajudar a pequena igreja em Vila Luzita por alguns anos. Edna, sua segunda filha e Leslie, seu quinto filho e caçula, nasceram em Vila Luzita.

Então mudaram para o Estado de Santa Catarina, ao sul do Paraná, morando na cidade de Joinville onde algumas almas foram salvas.

O movimento seguinte foi de volta para o Estado do Paraná, primeiro para a cidade de Maringá e mais tarde mais para o interior, para a distante área rural de Japurá. Havia uma igreja em Japurá e mais tarde foi instituído um centro para conferências. Enquanto estavam ali, puderam ajudar igrejas novas como aquelas em São João do Ivaí, Paranavaí e Umuarama.

Alguns anos depois mudaram para um vilarejo chamado Quatro Barras, nos arredores de Curitiba, onde deram início a uma pequena igreja, e puderam ajudar outras igrejas inclusive a que se encontra em Vila das Oficinas. Em Quatro Barras também se estabeleceu um centro de conferências.

Continuaram trabalhando a partir da base em Quatro Barras até que, devido a problemas ligados ao avanço da idade, não puderam regressar mas continuaram em contato com os santos ali por correspondência, e-mail ou telefone.

Embora tenham passado a maioria dos seus anos no Brasil nos Estados de São Paulo e Paraná, muitas vezes viajaram para outras partes do país, desde o norte, nas margens do Amazonas, ao sul no Rio Grande do Sul, para apontar os pecadores a Cristo e ajudar, e ter comunhão com o povo de Deus.

Eles tiveram experiência das bênçãos e da bondade de Deus e da Sua presença em cada passo do caminho. O que fizeram por Ele foi tudo anotado por Aquele que é capaz de avaliar o que foi ouro, prata, madeira ou palha. Quão pouco é o que é feito por Ele, quando pensamos no que Ele fez por nós!

No início de maio de 2006 ele foi hospitalizado várias vezes. No dia 18 de maio ele foi chamado ao lar para estar com o Senhor.

Ele gozava do carinho de muitos e isto se refletiu nos e-mails que têm chovido do Brasil recentemente. Ele amava o povo brasileiro e os brasileiros, por sua vez, amavam George e Martha.

Como sinal do seu carinho o povo decidiu dar o nome de "Dona Martha Orr" a uma pequena escola. Uns dois meses antes do seu passamento ele recebeu um e-mail de uma igreja no Brasil que lhe deu muita alegria. O texto dizia que "Cornélio quer que o Senhor George saiba que ele se tornou um cristão." Cornélio tinha resistido ao Evangelho por muito tempo, mas agora, que alegria quando uma semente plantada décadas atrás dá fruto.

2 Julho de 2006

 


William (Guilherme) Maxwell

Compilado por Anna Maxwell Penna (filha):

Agnes (Ana) teve a gentileza de fazer este relato para publicação, e diz: “O meu pai sempre tem prazer em contar como foi o seu chamado para o campo missionário e vou tentar reproduzir sucintamente, usando as suas próprias palavras”:

Eu me converti aos doze anos, depois de ouvir uma mensagem onde o pregador citou o versículo: “o meu Espírito não agirá para sempre no homem” (Gn. 6:3), e como era a terceira vez que Deus me convencia do pecado e da necessidade do arrependimento para a conversão, senti naquela noite como se fosse 'agora ou nunca' e me entreguei ao Senhor Jesus como meu Salvador.

Nestes anos todos, fui infiel muitas vezes, tive dias de fraqueza espiritual, mas nunca, nunca duvidei da minha salvação. Cresci junto com meus irmãos (que eram quatro, mais uma irmã) e os jovens da igreja, freqüentando todas as reuniões e participando, na medida do meu crescimento, de todas as atividades da igreja local - Shiloh Hall, Glasgow, Escócia.

Junto com um grupo de amigos fazíamos pregações ao ar livre no centro de Glasgow, e eu era um dos ”Acampantes da Tenda Verde do Evangelho“, passávamos parte das nossas férias armando a nossa barraca em algum lugar de praia ou em alguma vila no campo e não só descansávamos, mas também pregávamos o Evangelho.

Namorei uma jovem, amiga desde a infância, a Leila Crawford, e já durante o namoro conversávamos sobre o desejo de servir ao Senhor onde Ele nos mostrasse, com algum interesse no exterior, mais especialmente Índia ou África. A Leila então resolveu estudar enfermagem sentindo que com isto estaria mais preparada para servir ao Senhor. Casamo-nos em 1936, eu trabalhava como vendedor, montamos o nosso lar em um apartamento muito bonitinho e continuamos muito felizes trabalhando e ajudando os irmãos de Shiloh Hall nas diversas atividades.

Certa noite, depois de uma reunião, voltávamos a pé para casa na companhia de outra irmã de mais idade, que a certa altura nos disse: "Willie, eu sempre achei que você estaria ocupado no serviço do Senhor". As suas palavras tiveram um forte impacto, mas eu ri e respondi: “Eu estou ocupado no serviço do Senhor”, ao que ela retrucou seriamente: “Você sabe muito bem o que eu quero dizer”. E eu sabia mesmo! Aquela noite eu e Leila conversamos e oramos mais uma vez colocando-nos à inteira disposição do Senhor.

Porém, em vez de as portas se abrirem diante de nós, aconteceu o contrário e eu contraí uma enfermidade, muito séria para a época - tuberculose! E agora, Senhor? O que fazer? O que será do nosso chamado?

Começou então um período de tratamento muito sério, no qual fui muito ajudado pela minha esposa e sua família, ficando hospedado por alguns meses na fazenda dos seus pais onde o ar era mais puro. Durante todo este período tínhamos sempre em mente que o Senhor nos chamara, e que este era apenas um período transitório de espera e de treinamento para o serviço que viria a seguir.

Finalmente o médico deu o diagnóstico de que eu estava curado e as portas começaram a se abrir novamente. Ouvimos, certo dia, o relatório de um missionário que trabalhava na Argentina e o nosso coração foi tocado, mas o caminho não se abriu para aquele país, embora as nossas atenções já estivessem voltadas para a América do Sul. Logo depois veio às nossas mãos um livro chamado “Aventuras com a Bíblia no Brasil" escrito por F.C.Glass, contando a sua experiência como colportor e suas aventuras distribuindo e vendendo Bíblias.

Nesta época, também tivemos o privilégio de receber em nossa casa para um fim de semana o Sr. John Murray, convidado pela igreja local para uma série de reuniões especiais. Esta era a sua primeira viagem de volta à Escócia, bastante doente devido à verminose que o atacara. Falou-nos do trabalho no interior de Minas Gerais, em Ituiutaba, e da necessidade de mais obreiros naquele grande país.

Mais ou menos na mesma época ficamos conhecendo o Sr. Edward Hollywell, que servia ao Senhor em São Paulo, que também nos contagiou com seu entusiasmo pelo trabalho do Senhor naquele país tão grande e para nós praticamente desconhecido. Sentimos então com certeza que o Senhor nos chamava para o Brasil. Era uma convicção serena que resultou em paz e alegria interior. Durante todo este tempo os irmãos de Shiloh Hall nos deram todo o seu apoio em ajuda e oração.

Começamos os preparativos e depois de alguns meses partimos da Central Station em Glasgow, no dia 25/03/1938, quando um grupo grande de irmãos (umas duzentas pessoas) foi se despedir de nós. Enquanto o trem lentamente deixava aquela plataforma os nossos jovens corações batiam mais fortes sentindo já a saudade que seria nossa companheira pelo resto dos nossos dias e ao mesmo tempo a força e o poder que o Senhor nos dava, junto com o desejo ardente de levar a gloriosa mensagem do Evangelho àqueles que não a conheciam. Enquanto o trem ganhava velocidade ouvíamos cada vez mais longe as vozes que cantavam, até que o único som era o do trem que nos levava para cada vez mais longe dos nossos queridos, e o nosso coração se elevava ao Senhor em oração para que Ele nos abençoasse e nos usasse no Brasil.

Partimos de Londres no dia seguinte a bordo do navio Highland Monarch. Enquanto observávamos a terra se distanciar cada vez mais, que desolação encheu o nosso coração. Ansiedade, saudade, expectativa... Fortalecemo-nos, porém, no Senhor lembrando que Ele estaria conosco onde quer que fôssemos, e o que poderíamos desejar mais? Chegamos a Santos depois de 22 dias de viagem, após termos passado por Recife e Salvador onde a beleza deste país, já amado por nós, acabou de nos conquistar.

Em São Paulo, fomos recebidos pelos irmãos Sr. Edward Hollywell e Sr. Frederick Smith, com quem ficamos hospedados por alguns meses aguardando a direção do Senhor quanto ao próximo passo. Depois de uma passagem rápida por Ituiutaba, fomos para São Joaquim da Barra onde pudemos ver almas salvas e uma igreja estabelecida. Depois da morte do Sr. Alexandre Simpson em 1950 mudamo-nos para Uberaba, onde estou até hoje, sempre na dependência da direção do Senhor.

NR. Este amado irmão foi levado ao céu pelo Senhor para estar em Sua presença em 15 de agosto de 2005.

 

 


 

 

James (Jaime) D. Crawford

 

Relatado por Jaime D. Crawford: 

Transcrevemos a seguir o que nos foi fornecido pelo querido irmão Jaime Crawford que, com sua esposa D. Jenny há muitos anos tem perseverado na Obra do Senhor em São Joaquim da Barra-SP e arredores, bem como contribuído com seus talentos para a 16a. Edição do hinário Hinos e Cânticos, e a fundação da Associação Cristã Editora que assumiu os direitos desse hinário:

Quando eu tinha seis anos de idade meus pais se mudaram da cidade de Glasgow para um sítio em Newton Mearns, onde fui criado. Nós assistíamos às reuniões na igreja na aldeia de Newton Mearns, a 7 km do sítio. Para chegar lá, andávamos 2 km a pé e depois 5 km de ônibus, mesmo assim era difícil o meu pai perder uma reunião. Não havia “obreiro em tempo integral” na nossa igreja, mas cada irmão e irmã contribuía para o bem estar de todos.

O meu pai iniciava os hinos na reunião da Ceia e gostava muito de trabalhar com crianças, o que eu também gosto de fazer até o dia de hoje. Anualmente a igreja convidava um evangelista para realizar uma campanha de evangelização e, de quando em quando, recebíamos ensinadores para ministrar a Palavra.

Na casa dos meus pais sempre havia visitas, alguns por motivo de saúde e outros missionários de várias partes do mundo: Índia, África e América do Sul. Tive a oportunidade de conhecer muitos dos “pioneiros” na Obra do Senhor em várias partes e vibrávamos quando davam os seus relatórios na nossa igreja.

Eu me converti na adolescência e, terminando os anos escolares, comecei a trabalhar com o meu pai no sítio. A juventude foi passada à sombra da 2a Guerra Mundial (1939–1945), durante a mesma o lema foi “economia em tudo!”. Sem dúvida durante aqueles anos aprendi muitas lições que serviram bem na obra missionária.

Durante a guerra fui batizado e comecei a namorar uma moça chamada Jenny Allan, cujos pais reuniam-se na mesma igreja. Já estávamos começando a nos envolver com os trabalhos da igreja e em 1946 recomeçaram as reuniões ou conferências (semelhantes as da “IDE”), duas vezes por ano, na cidade de Glasgow. Nós queríamos assistir às reuniões em um local, mas estava completamente lotado e aqueles que não cabiam no salão foram encaminhados para um outro lugar onde conseguimos assistir à uma das conferências, não onde tínhamos a intenção de ir, mas o pregador Sr. Archie Naismith nos desafiou de tal maneira que resolvemos entregar as nossas vidas ao Senhor.

Após a reunião fiquei com medo de comentar algo com a Jenny (do fato) que Deus havia falado comigo e pensei: “ela pode não ter sentido Deus falando com ela e dizer que termina por aqui o nosso namoro”. No outro fim de semana quando nos encontramos, tomei coragem e falei com ela, e ela disse: “mas eu pensei que ele estava falando só comigo e já decidi, vou fazer enfermagem”. A Jenny deixou o seu emprego como secretária em um escritório e ingressou na Victoria Infermary para um curso de cinco anos aprendendo enfermagem. Os irmãos da igreja me ajudaram muito e me animaram a estudar os cursos por correspondência da Escola Bíblica Emaús, e envolver-me mais no trabalho da igreja.

A Obra do Senhor no Brasil estava sempre perante nós, porque a minha irmã Leila estava no Brasil junto com o seu marido William Maxwell, servindo ao Senhor desde 1938. Quando voltaram para Escócia em 1946 ficaram uns meses no sítio dos meus pais.

Em 1950 e 1951 passei as férias ajudando o irmão Willie Scott, um evangelista no sul da Escócia, e aprendi muito com ele. Mais tarde ele abriu o primeiro lar para crentes idosos entre os irmãos no Reino Unido. Quando faleceu o jovem missionário Alex Simpson, que servia na Escócia e no Brasil, os irmãos em Greenview Hall, Pollokshaws, realizaram uma reunião especial e um dos pregadores foi o irmão Leonard Nye, de Sacramento-MG, Brasil, e novamente senti o desejo de ir preencher as “brechas nas fileiras”.

Casamos em dezembro de 1951 e recebendo a recomendação da igreja partimos para o Brasil em abril de 1952. Durante os anos de preparação para servir o Senhor no Brasil, juntamos das nossas economias o suficiente para pagar a viagem da Escócia para o Brasil e também nos sustentar no período de transição.

Após esse período, o Senhor assumiu a responsabilidade de suprir TODAS AS NOSSAS NECESSIDADES: espirituais, emocionais e materiais, e depois de 51 anos o nosso testemunho é que DEUS É FIEL apesar da nossa INFIDELIDADE.

Chegamos a Santos no dia 20/04/1952, domingo, depois de uma viagem marítima de dezoito dias. Os irmãos William Maxwell, Harry Ruston e George Orr estavam ali para nos recepcionar e ajudar-nos a passar pela alfândega, uma tarefa sempre traumática! Depois subimos para São Paulo onde ficamos com Sr. Ricardo e D. Maria Jones até segunda-feira à noite, quando iniciamos a viagem para Uberaba, onde chegamos na tarde de terça-feira. Guilherme e Leila haviam preparado um quarto espaçoso para nós, ficamos e nos reunimos com eles na casa de oração local até janeiro de 1953. Eles foram os nossos professores na língua portuguesa e ao mesmo tempo nos ensinaram coisas importantes acerca da cultura brasileira.

No mês de julho daquele ano surgiu um problema grande na igreja em São Joaquim da Barra com a chegada de duas senhoras que tentaram desviar os crentes novos dos ensinos bíblicos, o que causou uma grande preocupação aos irmãos Guilherme e Leila, sendo eles os pioneiros do trabalho naquela cidade.

Em dezembro de 1952 eles sugeriram que nos mudássemos para aquela cidade a fim de dar apoio aos irmãos ali residentes. Julgamos que eles sabiam as necessidades da Obra muito mais do que nós e nos mudamos para São Joaquim da Barra em janeiro de 1953, que se tornou a nossa “Jerusalém” onde começamos a trabalhar na região.

Não somos “especialistas” em nada, mas aprendemos a fazer com toda a nossa energia TUDO que o Senhor coloca perante nós e para Ele “só o melhor serve".

Desde a mocidade tem sido o nosso privilégio conhecer muitos servos do Senhor. Um deles, saindo da casa dos meus pais pela última vez, colocou sua mão na minha cabeça e disse: “Jaime, tenha um alvo alto e mantenha a cabeça baixa”; outro disse: “Sempre procure construir e manter unido o povo do Senhor”. Um outro que foi amigo íntimo até o seu falecimento disse: “Jaime, mantenha-se no meio do caminho, mesmo quando lhe borrifarem lama dos dois lados!”.

O mesmo Deus que nos chamou continua a chamar, basta colocar-nos em posição para ouvi-Lo, e, ouvindo-O, que estejamos dispostos a OBEDECER (Atos 26:19).

Jesus, Senhor e Mestre, quero entregar-me a Ti, 
Pois sobre cruz sangrenta, por mim morreste ali. 
Meu coração Te oferto por trono Teu Senhor, 
Vem ocupar, sim, dominar meu ser, por Teu amor.

Cânticos de Sião No. 92

 

 


 

John (João) McClelland

 

Relatado por Margaret Louise McClelland (esposa):

Tanto eu quanto João tivemos o privilégio de sermos criados em famílias cristãs, membros de casas de oração. Aos dez anos de idade (ambos em 1930), ainda sem conhecermos um ao outro, tivemos a experiência de entregarmos nossos corações e nossas vidas ao Senhor, e desde então aplicamo-nos em nos prepararmos para futuramente sermos usados por Deus no Seu serviço missionário.

Através dos anos, João, procurando informações, chegou a fixar o seu desejo no Brasil, enquanto eu não tinha destino fixo em mente. Um tio meu, que era missionário na Malásia, cansava de me escrever encorajando-me para ir para lá, mas Deus não me deu o desejo de pensar nisto.

Mais tarde, a família de João veio morar mais perto da igreja onde minha família se reunia e ficamos nos conhecendo. Com tempo começamos a namorar e em 1944 nos casamos.

Em 1946 os irmãos de Central Gospel Hall, em Toronto, no Canadá, sabendo do nosso interesse no Brasil e em consideração ao nosso envolvimento no trabalho da igreja, ofereceram-nos uma "carta de recomendação". Requisitamos, então, um "visto" de entrada no Brasil. O Consulado Brasileiro estava fornecendo apenas "vistos temporários”, que deveriam ser renovados a cada dois anos, mas, mesmo assim, a resposta foi negativa, e continuou voltando um "recusado" a cada nova tentativa.

Isto era difícil de entender, porque vez após vez recebemos sinais de que Deus queria que continuássemos pensando na Obra d’Ele no Brasil. Depois de orarmos muito, começamos a duvidar.

Como já estávamos com a carta de recomendação consultamos os irmãos acerca da possibilidade de irmos a uma cidade no norte da província de Ontário para ajudarmos na obra lá, e, com Sua bênção, fomos. Certamente os dois anos que passamos ali foram bem abençoados por Deus, no entanto o Brasil estava sempre em nossas mentes, e não deixamos de sentir que a mão de Deus estava sobre nós para o Seu serviço ali - no tempo da Sua escolha. Continuamos tentando obter o "visto".

Certo domingo, depois de dois anos, João estava no quarto orando antes da Escola Dominical quando eu entrei para chamá-lo. Ele estava ajoelhado, com o livro de corinhos diante dele em cima da cama, e estava chorando, falando em voz alta: "Senhor, eu preciso ter uma reposta “hoje”. Por favor, Pai, me dê uma resposta “hoje”! Se estamos errados no nosso desejo, por favor, mostra-nos agora, e voltaremos a Toronto e diremos aos irmãos que erramos e esqueceremos o Brasil”.

Ao pegar o livro de corinhos ele o abriu ao acaso e imediatamente me chamou - "Vem ver!". Na página que se abrira tinha um corinho que ele nunca havia reparado, cuja tradução era: Jesus te ama, é verdade - Mas Ele ama os BRASILEIROS também - E o meu mandamento divino é - Leva o meu evangelho para eles. Uma notinha embaixo dizia que qualquer nacionalidade poderia substituir "brasileiros" para formar outras estrofes. Mas lá estava, na primeira estrofe, a resposta imediata do Senhor, e nunca mais duvidamos!

Mais uma vez fizemos o requerimento para o "visto" e desta vez a resposta chegou em forma de pergunta - "Não podemos fornecer visto temporário, mas podemos oferecer um visto permanente. Isto é aceitável?". Renovações não seriam necessárias! Porém, havia um problema: teríamos de estar no Brasil dentro de sessenta dias. Eu já estava grávida de sete meses de nossa primeira filha, e só de pensar em dar a luz num lugar estranho, de clima tropical (iríamos para Santarém, no Pará) e em condições desconhecidas, e eu já com vinte e nove anos, era muito assustador. Hoje não seria, mas cinqüenta e seis anos atrás certamente era!

Contatamos o Consulado e nos aconselharam a deixarmos vencer o “visto” e solicitá-lo novamente depois que o bebê nascesse. Que angústia! Será que iríamos lutar mais dois anos, talvez para obtermos um “visto temporário”? “Por quê?”, perguntamos a Deus, e Sua resposta foi “aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus”.

Então Marilyn nasceu, pedimos novamente o "visto" e recebemos um permanente! Desembarcamos em Belém em 11/11/1948, de onde partimos para Santarém, sendo recebidos pelo Sr. José Penna e sua esposa D. Almerinda. Ficamos com eles até acharmos uma casa para alugar e começamos a ter aulas de português com o Sr. José.

O Sr. José Penna já estava em Santarém havia alguns anos, vindo de Pernambuco, e um grupo de crentes vindos de outras igrejas reunia-se para pregar o Evangelho, mas não como uma igreja neo-testamentária. Eles não faziam batismos nem celebravam a Ceia do Senhor, e as irmãs não faziam uso do véu. O Sr. José nunca havia tomado a Ceia e não queria iniciar a prática, mas concordou em ser intérprete enquanto João dava ministério acerca destes assuntos. Isto resultou no batismo daqueles que não haviam sido batizados nas suas igrejas de origem, depois do qual um grupo de mais ou menos 12 pessoas - as irmãs com véu - sentou-se para "lembrar o Senhor" conforme o Seu desejo, e uma igreja neo-testamentária se formou. Louvado seja Deus! Se foi para isto que Deus trouxe João McClelland ao Brasil, realizou-se ali o Seu objetivo.

João continuou ministrando por interpretação, porque logo no início, por motivos alheios à nossa vontade, as aulas de português foram interrompidas e não foram retomadas.

É notável como Deus está sempre no controle, porque durante este tempo recebemos uma carta de Domingos e Margery Lipsi, que não conhecíamos e com quem nunca tínhamos nos correspondido, dando-nos "boas-vindas ao Brasil” e convidando-nos para irmos a Sousas para trabalharmos com eles. Até tinha uma casa para alugar, ao lado da casa deles! Depois de considerarmos este convite com muita oração perante Deus, sentimos que era a direção dele, e no fim de 1949 nos mudamos para Sousas.

Contratamos um professor para aulas de português, e por três anos gozamos de doce comunhão naquele lugar, antes de irmos para Vila Luzita, em Santo André, a pedido de George e Martha Orr e, depois, para São Paulo, a pedido do Sr. Ricardo e Sra. Maria Helena Jones.

Nesse período João sentiu-se chamado para o ministério de evangelismo, e viajava muito, às vezes ficando longos tempos fora de casa. Deus abençoou, e a colheita de almas salvas foi grande. A essa altura Deus tinha nos dado quatro filhos e essas ausências de João eram muito sentidas. Resolvemos então nos radicar em Ribeirão Preto (SP), com o propósito de fundarmos uma igreja local e, dessa forma, João passaria menos tempo viajando e mais tempo em casa. Fizemos a mudança em março de 1964. Com a ajuda de Deus o nosso propósito foi conseguido e hoje tem duas igrejas locais em bom andamento naquele lugar.

Em 1984, quando estávamos no Canadá, Deus levou João para junto de Si. Eu voltei em 1985 para Ribeirão Preto, passando mais dez anos lá antes de vir para Muriaé (MG), para morar perto de meu filho Joe e sua família, e para ser útil na medida do possível na Obra do Senhor.

As memórias são muitas, e teria muitos detalhes interessantes para relatar, mas conforme foi sugerido, por ora me ative ao "chamado".

 


 

 

Richard (Ricardo) Dawson Jones

 

Compilado por Grace Jones (filha):

Algum tempo depois da sua conversão, meu pai começou a sentir que o Senhor o estava chamando para trabalhar em tempo integral como missionário no exterior. Ele era membro de uma igreja que se reúne em Clumber Hall, na cidade de Nottingham. Embora professor na escola dominical e bem ativo nos trabalhos de evangelização promovidos pela igreja, inclusive reuniões ao ar livre, ele sentia que o Senhor queria que ele fosse levar a mensagem do Evangelho a outro país mais carente.

A esta altura ele e minha mãe já eram noivos. Tanto ela como a família dela não gostavam da idéia, pois ela era a caçula em uma família bastante unida e amorosa. Mas, depois de se casarem, meu pai ainda sentia que Deus o estava chamando para o serviço missionário e sentia-se culpado por não obedecer.

Minha mãe continuava a resistir, até que um dia, enquanto estava ocupada com serviços caseiros e pensando sobre o assunto, um pensamento lhe veio à mente: "Deus me deu este marido, mas se eu tentar impedi-lo de fazer o que Deus quer que ele faça, Deus poderá levar meu marido para Si!". Foi um pensamento muito solene, portanto ela passou a pedir a Deus que se Ele realmente queria que eles fossem trabalhar como missionários, que Ele tirasse dela todo o seu medo e falta de vontade. Uma manhã, quando ela acordou, ela sentiu que realmente não tinha mais medo nem objeções. Então ela contou isso ao meu pai – deve ter sido um grande alívio para ele!

Como meu pai falava bem o francês, acharam que provavelmente iriam à Algéria ou ao Congo Belga, onde o francês é a língua oficial. Mas não tinham certeza, então continuaram orando e pedindo a Deus que os guiasse. Depois de algum tempo houve uma conferência missionária em Clumber Hall e, como era costume, havia uma banca com livros missionários à venda. Meus pais decidiram comprar um livro para cada um. Assim fizeram e o livro que minha mãe comprou foi "Aventuras com a Bíblia no Brasil" – escrito por um "colportor" no começo do século XX, chamado Frederick Glass.

À medida que lia o livro, ela passou a sentir uma grande certeza de que era o Brasil o país ao qual Deus os chamava, mas ela não disse nada ao meu pai e quando ambos haviam lido seus livros, eles os trocaram e cada um leu o livro do outro. Quando meu pai terminou de ler o outro livro, ele disse à minha mãe, no dia seguinte: "Tenho certeza de que Deus quer que vamos ao Brasil". É lógico, isso confirmou o que minha mãe havia pensado e foi assim que chegaram à decisão.

Informaram a igreja e depois de orarem sobre o assunto a igreja confirmou a decisão. Em seguida comunicaram à família da minha mãe, que foi muito do contra, e o pai dela até se negou a se comunicar com eles durante uns dois anos, quando já estavam no Brasil! Foi muito difícil para ela porque era uma pessoa muito amorosa. Mas, enfim, eles se reconciliaram e o pai dela começou a lhes escrever.

Chegaram ao Rio de Janeiro em 3 de dezembro de 1925 e foram acolhidos pelo irmão Percy Ellis e esposa, que não haviam conhecido previamente, mas que lhes hospedaram no seu próprio lar durante um mês. Depois alugaram um quarto para si e mais tarde ficaram na casa de uma família cristã enquanto esta foi viajar.

Depois de uns 9 meses no Rio a família voltou e meus pais acharam que já conheciam o idioma português o suficiente para começar a trabalhar por conta própria em outro lugar. Julgaram que deveriam ir para algum lugar onde não houvesse qualquer trabalho evangélico. Examinando o mapa do Brasil viram a cidade de Uberaba e acharam que talvez fosse um bom lugar para começar. Como ninguém soubesse muito acerca dessa localidade, depois de orar eles indagaram da Sociedade Bíblica do Brasil se podiam informar algo a respeito dessa cidade. A pessoa com quem falaram lhes disse: "Pelo que podemos ver pelos registros, não deve haver qualquer trabalho ali – faz anos que não temos qualquer pedido de Bíblia dali!" E foi assim que decidiram ir para Uberaba.

Naqueles dias a viagem do Rio até Uberaba só era possível de trem, via São Paulo, e era uma viagem longa e cansativa. A viagem durou quase dois dias e eles não conheciam ninguém – nem em São Paulo nem em Uberaba.

Em Uberaba eles inicialmente foram se hospedar num hotel barato. No dia seguinte à chegada, acharam que já era tempo de começar a pregar ao ar livre. Foram primeiro ao delegado de polícia para ver se seria necessária qualquer autorização oficial. Ele lhes perguntou o que iriam pregar e qual era a sua religião, em resposta meu pai abriu sua Bíblia em Mateus 5 e leu parte do Sermão da Montanha. Quando terminou, o delegado disse: "Se é isso que vocês vão pregar, esta cidade precisa disso – é uma verdadeira Babilônia!". Mas, só para ter certeza, ele iria consultar o quartel-general em Belo Horizonte, e pediu-lhes que voltassem no próximo dia.

Mais tarde, naquele mesmo dia, eles estavam sentados num banco numa praça da cidade e uma senhora sentou-se ao lado deles e começou a conversar. Quando ela ouviu que eram missionários evangélicos, ela disse: "Esta cidade é muito religiosa!". Mais tarde, pela experiência, descobriram que ambas as afirmações eram verdadeiras.

No dia seguinte voltaram ao delegado que havia recebido uma resposta positiva de Belo Horizonte – eles poderiam ter suas reuniões, contanto que não se envolvessem de qualquer maneira com política, que logicamente eles não tencionavam fazer. No mesmo dia, à noite, fizeram a sua primeira reunião ao ar livre numa praça, só os dois. Começaram a cantar e, como ambos tinham boas vozes, atraíram um grupo de pessoas, a quem foi pregada a primeira mensagem do Evangelho. Eles notaram que havia soldados estacionados nos quatro cantos da praça! Evidentemente o delegado não queria qualquer problema ou talvez os soldados estavam ali para proteger esses estrangeiros. E foi assim que tudo começou!

Desde aquele dia, em 1926, o Evangelho tem sido pregado fielmente em Uberaba e mais tarde em muitas cidades e aldeias circunvizinhas. De certo meus pais ficariam muito surpresos e felizes se soubessem quantas casas de oração existem agora no Triângulo Mineiro e por todo o Brasil!

Nota: veja também o memorial que foi dedicado a este pioneiro na obra do Senhor no Brasil clicando AQUI

 

 


 

Samuel Curran

 

Relatado por Eleanor May Curran (esposa)

Em 1958, Samuel Curran junto com sua esposa, Da. Eleanor May Curran, atenderam ao chamado do Senhor para saírem da sua terra, a Irlanda do Norte, e virem ao Brasil para o serviço missionário. O irmão Samuel trabalhou principalmente em Osório-RS e na região circundante, até que o Senhor o chamou para Si em 25.07.1987. Foi sepultado nessa cidade. Diz seu filho Samuel (Jr.) que ele tinha um coração para o gaúcho e era um gaúcho de coração. Sua esposa Da. Eleanor voltou para a Irlanda do Norte pouco depois, vivendo a sós durante 17 anos, durante os quais ela fez visitas curtas com freqüência ao Brasil, sendo a última em 2000. Agora sofre da doença de Parkinson e desde março deste ano vive num lar para idosos administrado por cristãos em Belfast, Irlanda do Norte. Dois dos seus filhos, David e Andrew, faleceram em 1978 e 1977, respectivamente. Atendendo à minha indagação sobre a maneira em que eles se sentiram chamados para este trabalho, o seu filho Samuel (Jr.) me encaminhou uma carta que fora enviada pela sua mãe ao neto Richard, contendo todo o relato. Traduzo, portanto, a seguir, o teor da carta para a informação e edificação dos leitores.

Querido Richard,

Gostei de vê-lo tão bem e de conversar com você recentemente. Fiquei meditando sobre a sua pergunta a respeito de como foi que começamos a pensar em ir ao Brasil e não me senti contente com a resposta que dei. Raras vezes me perguntam sobre isso e não é o tipo de assunto que nos cabe impor aos outros. Refletindo, concluí que minha resposta imediata a você foi fraca e decidi lhe escrever esta nota.

Na realidade meus primeiros pensamentos a respeito de como eu deveria dedicar a minha vida me vieram depois que me casei e tive o meu primeiro filho, o David. Eu deveria ter uns 25 anos de idade. Eram pensamentos muito íntimos e eram mais uma indagação pessoal sobre a maneira em que passava a minha vida. Pensava: “fiz um bom casamento, tenho um filhinho, meu marido ganha o suficiente para termos uma vida razoavelmente confortável. Tenho amigos e família, estou em comunhão com a igreja local, mas o que é que Deus está obtendo da minha vida?”. Eventualmente, relatei meus pensamentos ao seu avô e … surpresa das surpresas … a sua resposta foi: “que estranho que você esteja pensando assim, pois esses são exatamente os meus pensamentos também”.

Desde aquele dia seu avô começou a passar as tardes dos sábados (ele trabalhava meio dia aos sábados naquela época) andando pelo campo, conversando com as pessoas e distribuindo literatura cristã. Nem sempre o recebiam bem!! Ele me disse que, certa ocasião, quando a mulher de um fazendeiro abriu a metade de cima da porta, ele percebeu pela expressão “azeda” nos olhos dela que ele estava por ouvir uma reprimenda. Quando ele lhe ofereceu um folheto, ela disse “Você está mal empregado num dia bom como este quando a colheita precisa ser recolhida”. Ele respondeu: “senhora, já trabalhei por cinco dias e meio esta semana e estou usando meu meio dia livre para fazer isto”. O rosto dela se abrandou e ela perguntou: “você é da igreja presbiteriana ali em cima?” Ele respondeu “Não, eu me reuno com os crentes de Ballywillwill Gospel Hall” e ela então lhe disse: “Ah! Eles são bons” e, esticando o braço, pegou o folheto. (Depois de estar no Brasil por alguns anos seu avô andou fazendo a mesma coisa e algo semelhante aconteceu. A mulher, uma pessoa de aparência severa, abriu a porta e disse: “Não! Não queremos mais religiões por aqui! Já temos demais!” Seu avô respondeu: “Mas não estou aqui para falar de religião”. Ele perguntou: “porque então está aqui?” “Estou aqui para falar da pessoa do Senhor Jesus Cristo”, disse ele. “Ah!” ela disse “isso é diferente” e estendeu a mão para os folhetos.)

Passaram-se alguns anos, continuamos falando sobre aqueles pensamentos e nossas convicções aumentavam. Eventualmente sentimos que deveríamos fazer alguma coisa em definitivo. Um dia, enquanto trabalhava na fábrica de móveis em Portadown, seu avô encontrou algumas revistas usadas para embalagem e descobriu histórias das mais interessantes e retratos de índios da América do Sul e isso parece ter conduzido os seus pensamentos à necessidade existente em tantos lugares na América do Sul.

Oramos muito sobre isso por algum tempo e escrevemos para missionários na América do Sul: Peru, Venezuela, etc.. Ainda, sentimos que ninguém nos podia aconselhar. Seu avô queria tanto estar bem certo que não estava forçando o desfecho e embora alguns a quem ele escrevera sem dúvida nos dariam as boas vindas alegremente -- ele continuava incerto.

Um dia eu disse a ele: “você não ficaria feliz em ir ao sul do Brasil onde o irmão João McCann trabalha?” Mas ele respondeu: “Não! Eu temeria estar indo só porque o conheço”. Fim de conversa. Eu disse :”só tem um jovem de uns 22 anos com ele”. Ele disse: “Não, iria ficar parecendo que eu estava forçando o desfecho”. Eu disse: “Em nossa idade (eu com 33 anos e ele com 35) e com 3 filhos (o menor com 3 ½) não faríamos melhor trabalhando com alguém como os McCanns?”

Depois de alguns dias o irmão J McCann, que antes não tinha procurado nos influenciar de uma maneira ou outra nos escreveu e disse: “Sam, você tem certeza que Deus não está orientando você para o sul do Brasil, pois gostaríamos muito de tê-lo aqui?”.

Li a carta quando chegou e parecia ser uma coisa tão certa que fui ao quarto, fechei a porta e me ajoelhei e agradeci a Deus pela resposta depois de tanta luta.

Quando o seu avô voltou para casa, sua primeira pergunta foi: “alguma carta hoje?” Eu respondi com naturalidade que sim, havia uma, e ele disse: “De quem?” Eu, procurando manter a calma, disse: “Só uma do John McCann” (eu não queria influenciá-lo com meus pensamentos). Ele tomou a carta e foi para a sala de estar para lê-la. Fiquei de olho para ver o que ia acontecer. Ele desceu pelo corredor e entrou no quarto, fechando a porta. Um pouco depois ele veio até a cozinha, olhou para mim e disse: “Você leu a carta?” E eu disse “Li”. Ele disse: “O que você achou?” Eu disse: “Eu fiz exatamente o que você fez. Entrei no quarto, fechei a porta (para que o nosso caçula, o Andrew não me interrompesse) e agradeci a Deus pela resposta”. Ele disse: “Isso é exatamente o que acabei de fazer”. Nós nos abraçamos e fluíram lágrimas de agradecimento e alívio. (Isto deve ter sido no início de 1958). Pouco depois saímos com destino ao Brasil em 18.6.1958.

Eleanor May Curran, 21.10.2003.

 

 

 

 

 

autor: R David Jones.