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O dom de socorros

O que vem a ser e como reconhecer o dom de “socorros”?


Dois dons: o de socorros e o de governos mencionados em 1 Coríntios 12:28, têm duas características em comum: a) não são repetidos, precedidos da pergunta “são todos?”, como os demais nos versículos 29 e 30, e b) são os únicos dois de toda a lista, exceção feita aos mestres, que sobrevivem até hoje.

A palavra socorros é a tradução do vocábulo grego antilambanomai, que significa “segurar com as mãos” e aparece uma única vez em todo o Novo Testamento. Tradicionalmente tem se entendido que se refere à função do diaconato numa igreja local, bem como à ajuda aos pobres e enfermos. Falta, no entanto, uma base bíblica para essa limitação, e uma função dentro de uma igreja nem sempre corresponde a um dom espiritual.

No Velho Testamento encontramos muitas vezes a palavra socorro e outras dela derivadas, quase sempre com referência a algo provindo de Deus, como vemos nos seguintes exemplos:

• Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações (Salmo 46:1).

• Presta-nos auxílio na angústia, pois vão é o socorro do homem (Salmos 60:11 e 108:12).

• Nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra (Salmo 124:8).

Prestar socorro é evidentemente uma característica de Deus, incomparavelmente superior à capacidade de qualquer ser humano em prestar ajuda ao seu semelhante.

Deus estabelece socorros na igreja: são pessoas especialmente dotadas para “segurar com as mãos” o que está em risco de cair. Impelidas pelo poder de Deus elas agem em apoio dos outros membros e das atividades da igreja, a fim de que não se desanimem nem desvaneçam os seus esforços. O seu campo de atuação é vasto, mas exige certas características:

• Plena consciência da sua função - Quem auxilia não concorre para substituir ao que está auxiliando, mas seu objetivo é sustentá-lo ou colocá-lo de pé novamente para que continue a desenvolver o seu trabalho. Deus não faz o trabalho dos Seus servos.

 • Humildade - Deve ser a característica de todo o crente, mas especialmente de quem presta socorro. Ele é um servidor (diácono em grego) de outros irmãos, que talvez estejam à testa de algum trabalho. Ele não deve esperar que o seu nome ou o seu trabalho seja “glorificado”, pois geralmente está na retaguarda e pouco aparece.

• Dependência e obediência à vontade de Deus - Para que Deus o possa usar nessa tão nobre função é essencial que esse servo esteja em perfeita comunhão com Ele: aprendendo e cumprindo a Sua Palavra, mantendo suas mãos e coração limpos, e sempre que possível tendo paz e comunhão com os seus irmãos na fé.

Temos todos o dom de socorro? Significativamente ele não foi citado entre aqueles precedidos da pergunta “são todos?” cuja resposta é “não”, mas foi pulado junto com o de governos. Isso me diz que todos temos o potencial para exercer esse dom, desde que adquiramos aquelas características que, aliás, devem ser de todo o crente.

Se assim é, porque não o exercitamos? O apóstolo Paulo exortou a Timóteo que não se fizesse negligente para com o dom que havia nele, e mais tarde, que reavivasse o dom de Deus que havia nele (1 Tim. 4:14, 2 Tim. 1:6). Se negligenciarmos o dom que há em nós, ele se amortecerá, e perderemos oportunidades para servirmos à igreja e de ganhar o nosso galardão no tribunal de Cristo.

Dentro da nossa igreja local sempre aparecem oportunidades de apoiar trabalhos desenvolvidos por outros que se encontram à sua testa, e que muitas vezes se afadigam em sua tarefa, sem desejarem “incomodar” outros irmãos para ajudarem a carregar o seu fardo. Precisam de socorro, mas não querem pedir. Estamos sempre atentos para essas oportunidades, ou esperamos primeiro ser solicitados e, mesmo assim, só aderimos se nos for oferecida alguma compensação ou posição de honra? Essa é uma atitude “do mundo” e certamente não é espiritual.

Em uma situação semelhante, na Seara do Senhor encontramos aqueles que, como o apóstolo Paulo, saem para espalhar a semente e outros, como Apolo, que vão regá-la a fim de que Deus lhes dê o crescimento. Estes estão na vanguarda do seu trabalho. Mas todos precisam de socorro humano de tempos em tempos: nas enfermidades, em ocasiões de grande pressão, precisam de quem esteja disponível e possa ir até o seu lugar de trabalho para segurá-lo em suas mãos. Mesmo até para dar-lhes a oportunidade de voltarem às suas famílias e renovarem seu relacionamento com a igreja de origem, por um tempo.

Podemos dizer: Deus proverá, e também estou certo disso. A provisão de Deus vem na forma daqueles que Deus estabelece para isso, seus servos que são chamados e estão dispostos ao trabalho de socorro. Estamos atentos ao chamado de Deus, para aproveitarmos as oportunidades? Às vezes encontramos entre as cartas que vêm para nossa redação o clamor de um ou outro obreiro para que alguém venha em seu socorro. Ficamos felizes quando sabemos que o pedido foi atendido, mas sentimos que muito mais poderia ser feito neste setor da obra.

Sem dúvida há irmãos ocupados na maioria do tempo com atividades seculares, mas que gostariam de servir ao Senhor como socorro em seus períodos de férias, por exemplo, em outros locais. De nossa parte, poderíamos ser úteis provendo aconselhamento e os meios de comunicação a fim de que esse serviço possa ser prestado onde nos parece ser mais necessário dentro do nosso conhecimento, e mais apropriado para esses irmãos.

Cremos que nisso estaremos agindo conforme a vontade do Senhor, e pedimos as orações dos irmãos para que Ele nos indique o melhor caminho a seguir, e que aqueles que se sentirem movidos a fazer uso dessa oportunidade de trabalho entrem em contato conosco para que possamos coordenar os nossos esforços da melhor maneira possível.

Ao concluir, lembremos que irmãos que fizeram uso desse dom foram honrosamente lembrados pelo apóstolo Paulo em suas epístolas: Febe, Priscila e Áquila, Urbano, a mãe de Rufo, Timóteo, Tércio (Romanos 16.1-22), Epafrodito (Filipenses 2.30), entre muitos outros.

autor: R David Jones.