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O estigma de Gamaliel

As únicas referências que encontramos acerca desse membro da seita dos fariseus estão em Atos 5:34 e 22:3. Entre os cristãos ele tornou-se célebre pelo fato da sua oportuna intervenção junto ao sinédrio que evitou que os apóstolos do Senhor fossem mortos prematuramente. Por sua vez, entre os Judeus, ele era considerado um “rabã”, ou seja, um mestre acima de um rabino, em reconhecimento ao conhecimento escriturístico que possuía.

Conforme comentado pelo irmão Ricardo David Jones, “Gamaliel foi o primeiro dos sete rabãs e mais tarde presidente do sinédrio, tal o apreço que gozava. Sem dúvida a recomendação que fez quanto ao tratamento dos apóstolos era politicamente conveniente para ele naquela ocasião, ao enfrentar os saduceus. O argumento se baseava na experiência tida nos dois casos de subversão mencionados em Atos 5:36-37, e ele colocou Deus no meio para dar-lhe mais força”. Assim como foi “conveniente” para Gamaliel, esse mesmo pronunciamento tem sido usado por muitos para justificar iniciativas que não têm respaldo na Palavra de Deus. Logo, esse parecer tornou-se um lamentável estigma.

Figurativamente, estigma significa aquilo que “marca”, que “assinala”. A grande verdade é que aqueles que passaram a se respaldar no parecer de Gamaliel, em sua maioria, transformaram esse conselho em um “sinal” da parte de Deus para gerarem algo por vezes infamante, vergonhoso ou herético. Criaram os maiores absurdos sob a “marca” de que se aquilo que estavam propondo não estivesse vindo da parte de Deus certamente sucumbiria e isso é totalmente falso, pois, se assim fosse, não teríamos esse mar de “igrejas apóstatas” e “seitas” em nome de Cristo.

Gamaliel pode até ter sido usado pelo Senhor para que os Seus apóstolos fossem poupados da morte intempestiva, mesmo porque Deus pode usar até os ímpios para que os Seus soberanos propósitos se cumpram. Todavia a história não revela que Gamaliel tenha se convertido ao Senhor, apesar de certamente ter ficado extremamente impressionado com o testemunho de Jesus. Muitos em nossos dias, dentro das próprias igrejas, encontram-se na mesma situação, ou seja, influenciados, mas não convertidos; iluminados, porém sem experimentarem a verdadeira regeneração espiritual.

Tenho observado que, com certa constância, avoca-se o parecer de Gamaliel para justificar determinadas atitudes ou projetos que surgem a fim de garantir que a novidade lançada veio do coração de Deus: Se esta obra vem dos homens perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los (Atos 5:38-39), apesar de saberem que o conselho de Gamaliel serviu exclusivamente para a libertação dos servos de Deus, naquele momento, pois a perseguição à Igreja prosseguiu feroz inclusive com a participação de Saulo, um dos seus alunos, por certo o melhor, que consentia na morte de Estevão (Atos 8:1), e daí para frente levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém e todos os crentes foram dispersos com exceção dos apóstolos.

Na medida que se estigmatiza esse pronunciamento, tornando-o como se uma prova fosse da concordância de Deus para determinadas realizações, é o mesmo que dizer-se que o Senhor sempre age dessa maneira para conduzir os propósitos para a Sua Igreja e sabemos que isso não é verdadeiro, pois muitas instituições religiosas e entidades dominantes surgiram sob a sombra dessa marca: se isto não tivesse vindo de Deus, não teria subsistido. Houve muitos que se enriqueceram ou satisfizeram as suas vaidades egóicas na busca do poder temporal, sob a fachada de um rótulo que na verdade mascara as suas verdadeiras intenções, e muitos ainda surgirão até a vinda do nosso Amado Redentor para buscar a Sua Igreja que por certo aqui encontrará, naquele glorioso dia, somente um pequeno remanescente, porém fiel, daqueles que não se iludiram com as artimanhas do inimigo das nossas almas e com os estigmas criados pelos homens para se aproveitarem da boa fé daqueles que verdadeiramente têm a Jesus como o absoluto Senhor das suas vidas. É uma pena que muitos têm se deixado levar por esses modismos.

Existe uma tradição histórica (preservada por Clemente de Alexandria e por Eusébio) que Jesus teria recomendado aos Seus apóstolos que permanecessem em Jerusalém por um período de 12 anos para que os judeus não tivessem a desculpa de alegarem que nunca ouviram acerca de Cristo e terminado esse prazo os apóstolos sairiam pelo mundo levando para os povos e nações gentílicas as Boas Novas da Salvação. Partindo-se do pressuposto que aquela igreja local permaneceu ali reunida ao longo desse tempo, vemos que o propósito de Deus começou a se cumprir não por causa do parecer de Gamaliel, mas mediante os Seus supremos desígnios. Ele permitiu a feroz perseguição contra os milhares de crentes que se reuniam em Jerusalém para que, dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria (Atos 8:2) levassem, por causa da fé que possuíam, o Evangelho aonde quer que fossem e alguns deles chegaram à cidade de Antioquia, na Síria, quando foram chamados de “cristãos” (Atos 11:26).
Essa ocorrência com a igreja primitiva se contrapõe ao pensamento daqueles que defendem um modelo institucionalizante para as igrejas locais. Segundo R. H. Nichols (The Growth of the Christian Church), “naquele tempo uma igreja cristã era formada em um pequeno grupo de crentes vivendo numa grande comunidade pagã. Eles se tratavam mutuamente por irmãos em Cristo e realmente agiam como irmãos e se reuniam em casas. Na igreja do primeiro século não havia credos ou declarações formais, eram independentes, com governo próprio decidindo todos os seus negócios e problemas. Insistentemente afirmavam que pertenciam à única igreja universal, pois todos eram um em Cristo, mas nenhuma organização de caráter geral exercia controle sobre as inúmeras igrejas espalhadas por toda a parte”. Isso ocorreu não por conselho de Gamaliel, mas por ser o modelo preestabelecido pelo Senhor para a Sua Igreja.

Para alguns pode parecer que essa capilaridade de igrejas locais surgida com a dispersão contrariaria a oração de Jesus que rogou para que fôssemos unidos assim como Ele era com o Pai. Estarmos unidos necessariamente não significa estarmos todos juntos em um mesmo lugar, debaixo de uma placa ou sigla, ou abrigados por uma entidade pára-eclesiástica. A nossa união é eminentemente espiritual conforme vemos claramente na Palavra de Deus e A. W. Tozer demonstrou essa preocupação ao escrever em sua série de livros sobre determinadas uniões: “Unir-se sempre e os homens serão irmãos apesar de tudo, é algo que a igreja iluminada pelo Espírito não aceita. Num mundo caído como o nosso a unidade não é um tesouro que deva ser comprado ao preço da transigência… O poder se encontra na união das coisas homogêneas e na divisão das heterogêneas. Talvez aquilo que precisamos nos círculos religiosos de hoje não seja mais união, mas uma certa divisão sábia e corajosa. Todos desejam a paz, mas pode ser que o reavivamento use a espada”. Certamente Tozer não acreditava, há mais de 40 anos atrás, que o parecer de Gamaliel fosse o divisor de águas, ou seja, a forma de sabermos se o Senhor aprovou esta ou aquela iniciativa humana.

Creio que nunca é demais lembrar os preciosos ensinos de William MacDonald em seu livro “Cristo Amou a Igreja”, onde ele demonstra com enorme inspiração divina e extrema clareza que a Igreja não depende do parecer de Gamaliel ou de uma instituição religiosa para o exercício do seu ministério. Infeliz daquele que supõe que a Igreja de Cristo depende da sabedoria humana para que os seus propósitos se cumpram aqui na terra. A Igreja sempre será poderosa, apesar dos membros que ela possui serem fracos. Ela sempre será poderosa, porque Cristo é a Cabeça espiritual da Igreja.

William MacDonald lança em seu livro uma pergunta intrigante: Que há de fazer a pessoa, depois de ter obedecido a injunção bíblica: Saí do meio deles? Ele mesmo dá a resposta propondo o seguinte plano bíblico:

• Reuni-vos em simplicidade cristã com os crentes que assim procedem.

 • Uni-vos a Cristo somente e fazei do Seu Nome o único centro de atração. Conquanto deste plano não resulte o ajuntamento de multidões, pelo menos reúne um grupo de crentes fiéis que não se deixará facilmente mover por provações e desânimos.

 • Quanto ao lugar das reuniões, uma casa serve muito bem para esse fim e as Escrituras fornecem-nos muitos exemplos disso (Rm.16:5; 1Co.16:19; Cl.4:15; Fm.2). Os que exigem edifícios esplêndidos com ricos paramentos ainda não descobriram a suficiência da Pessoa do Senhor Jesus Cristo, em Nome de Quem o Seu povo deve se reunir.

 • Não adoteis nenhum nome ou plano que exclua da comunhão qualquer verdadeiro crente.

 • Não aceites nenhuma filiação denominacional e recusai firmemente qualquer domínio ou interferência externa, que possa impedir a soberania da igreja local.

 • Resisti a tendência constante de deixar que o ministério caia nas mãos de um só homem. Deixai antes que o Espírito Santo use os diferentes dons que Cristo deu à Igreja e dai lugar à manifestação ativa do sacerdócio de todos os crentes.

 • Reunir-vos regularmente para oração, estudo da Palavra, parti do pão (Ceia do Senhor) e comunhão. Depois empenhai-vos num esforço ativo de evangelização, tanto individual como coletivamente.

 • Em suma, procurai reunir-vos como as Igrejas do Novo Testamento fazia, no verdadeiro sentido da palavra, representando fielmente o Corpo de Cristo e obedecendo aos mandamentos do Senhor.

Finalizando entendo que não menos importante é o prefácio desse livro, escrito há mais de 40 anos atrás por José R. Couto: (ipsis litteris) “Cada uma das igrejas permanece em directa comunhão com o Senhor e d’Ele recebe autoridade; assim é responsável para com Ele. Veja-se Apocalipse capítulos 2 e 3. Não lemos na Escritura que qualquer Igreja deva superintender sobre outra ou que deva existir qualquer união de Igrejas. As relações entre as Igrejas locais manifestam-se pela comunhão pessoal que reina entre os seus diversos membros" (Actos1:8). Permita Deus que assim seja!

autor: José Carlos Jacintho de Campos.