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O estilo de vida espiritual superior dos crentes

Hebreus 10:19-25

 

Nós, os crentes, temos duas certezas magníficas:

1. Um "grande sacerdote" (Hebreus 4:14) supervisionando "a casa de Deus" (Hebreus 3:1-6).

O Senhor Jesus está firmemente a gerir os assuntos de Seu povo.

2. Temos “ousadia” para entrar no Santo lugar pelo sangue de Jesus.

A palavra “ousadia” no grego transmite a ideia mais robusta de "liberdade de acesso" e "transparência". A razão pela qual podemos possuir uma atitude ousada ou confiante é que possuímos acesso superior ao trono da graça de Deus (Hebreus 4:16). Não precisamos ser como os sacerdotes levitas, que somente se aproximavam do Santo dos Santos uma vez por ano, em um espírito de timidez provisória. Em vez disso, nossa abordagem deve ser caracterizada por temeridade, quando entramos diariamente na presença de Deus. Este acesso especial é algo de que os sacerdotes de Israel poderiam apenas ter sonhado, uma autorização diária ilimitada, íntima, sempre disponível para desfrutar de uma audiência pessoal com o Altíssimo. Este acesso só tornou-se possível "pelo sangue de Jesus".

Este acesso é feito por um novo e vivo caminho que o Messias inaugurou para nós. Ele próprio orientou Seus discípulos neste conceito, ensinando que Ele é exclusivamente "o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6).  Este caminho conduz diretamente através do véu do santuário celestial (Hebreus 9:3), identificado aqui como Sua carne. Tal linguagem metafórica ou tipológica é empregada para esclarecer que, como apenas uma espessa cortina conteve o acesso gratuito para a presença de Deus no tabernáculo terrestre, também na Sua encarnação o corpo humano de Jesus serviu como uma barreira à presença de Deus. Na morte de Jesus, o véu do templo foi rasgado e o acesso ao Santo dos Santos foi aberto, temporariamente (Mateus 27:51, Marcos 15:38, Lucas 23:45). O rompimento do corpo de Jesus, como o rasgar do véu, abriu o caminho para a presença de Deus, permanentemente. Jesus revelou Deus para nós.

Neste texto de Hebreus 10, encontramos três exortações, que estão ligadas às três grandes virtudes cristãs: (v. 22), esperança(v. 23) e amor (v. 24).

1. A fé para entrar na presença de Deus:

A primeira das três exortações se relaciona com a fé (v. 22), chamando os crentes para chegarem perto de Deus. Esta é exatamente a mesma palavra e tempo usados anteriormente (Hebreus 4:16), em um convite para aproximação do trono da graça. Pode-se entrar na presença de Deus com um coração sincero e em inteira certeza de fé. A frase "tendo o coração purificado da má consciência" usa linguagem ritualística, sacerdotal, para indicar a justificação e a santificação posicional que os crentes possuem através da aplicação metafórica do sangue de Cristo. "Tendo sido purificado", reflete a forma em pretérito perfeito de rhantizō, "aspergir." Isto significa que nossa salvação ocorreu no passado, mas continua em efeito, que este processo de limpeza foi feito por outrem e que nós próprios não desempenhamos nenhum papel em fazê-lo acontecer.

A frase "o corpo lavado com água limpa" tem gerado uma variedade de interpretações, entre as quais a de que se relaciona metaforicamente com o ritual sacerdotal de lavagem, e a de que se trata de uma referência ao batismo. Assim como “aspergido”, mencionado logo antes, a palavra traduzida “lavado” está também em forma de pretérito perfeito significando, em primeiro lugar, que a lavagem ocorreu em um momento anterior, mas continua em efeito, e que foi executada por outra pessoa sem nós mesmos termos desempenhado qualquer papel nela. É mais provável que seja uma alusão a uma das contribuições proféticas de Ezequiel às disposições da nova aliança, especificamente a da regeneração espiritual. Deus prometeu através do profeta “então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei." (Ezequiel 36:25).

2. A esperança em Jesus Cristo:

A segunda das exortações é com relação à esperança (v. 23), “retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança" (Hebreus 3:6,14, 4:14). O conteúdo de nossa esperança é, sem dúvida, o nosso grande Sumo Sacerdote Jesus Cristo, que nos purificou permitindo nosso acesso a Deus. O adjetivo aklinē, "inabalável", não é usado em qualquer outro lugar do Novo Testamento, aparecendo aqui para nos lembrar a permanecer firmes em nossa fé. Quando se apresentam problemas e a fé começa a titubear, para evitar a derrapagem espiritual é necessário manter-nos focalizados no Senhor Jesus, "porque fiel é aquele que fez a promessa". Podemos manter a nossa esperança porque o objeto de nossa esperança, Jesus Cristo, nunca vai nos abandonar.

3. O amor entre os irmãos:

A terceira das três exortações é em relação ao amor (v. 24). O autor chama seus leitores a considerar cuidadosamente como estimular um ao outro com amor e boas obras. Esta admoestação opõe-se à casualidade no relacionamento entre irmãos tão comum em nossos dias. Muitos de nós nos damos por satisfeitos em simplesmente arrastar nossos corpos (e os dos nossos filhos) ao recinto onde se reúne a igreja no fim de semana, sorrir agradavelmente para nossos vizinhos e suportar pacientemente o culto que se segue. Nossos pensamentos vão para longe, e custa-nos muito esforço concentrar sobre assuntos espirituais.

Mas devemos descobrir maneiras de incentivar a comunhão dos crentes em manifestar amor e empenhar-nos em boas obras. Aqui o amor não é uma emoção, mas uma atitude de ação voluntária.  Somos instruídos a amar, portanto é algo que se pode e deve fazer. O amor é a raiz da planta da qual as boas obras são o fruto. Pelo nosso exemplo e por nosso ensino, devemos nos estimular  uns aos outros para esta atividade.

Devemos perseverar em nos reunir, e não simplesmente abandonar a igreja local levianamente por qualquer motivo, ou mesmo sem nenhum, como alguns fazem. Isto pode ser considerado como uma exortação geral para todos os crentes a serem fieis na sua frequência à igreja. Sem dúvida, encontramos força, conforto, alimento e alegria no serviço e adoração coletiva. Pode também ser visto como um incentivo especial para os cristãos quando passam por momentos de perseguição. Há sempre a tentação de isolar-nos a fim de evitar a prisão, censura e sofrimento e, portanto, ser um discípulo secreto.

Basicamente o versículo 25 é uma advertência contra a apostasia: “abandonar a nossa congregação” significa deixar de se reunir com os outros irmãos em Cristo. Alguns judeus estavam deixando o cristianismo para reverter ao judaísmo quando este livro foi escrito. É preciso nos exortar uns aos outros, especialmente tendo em conta a proximidade do retorno de Cristo. Quando Ele vier, os crentes perseguidos, em ostracismo, desprezados, serão vistos como estando no lado vencedor. Até então, existe necessidade de firmeza e perseverança.

A referência a “aquele dia” tem sido compreendida de diversas maneiras. Existem apenas três outras referências absolutas no Novo Testamento onde a palavra "o dia" fica isolada, sem qualificação:

  • Romanos 13:11,12... “a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando nos tornamos crentes. A noite é passada, e o dia é chegado; dispamo-nos, pois, das obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz”. O tempo presente para todo crente é como o findar de uma noite de pecado com a expectativa do dia da glória eterna logo em seguida.
  • 1 Coríntios 3:13... “a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um...”. O “dia” aqui se refere ao tribunal de Cristo, quando serão revistas todas as obras de cada crente feitas para o Senhor.
  • 1 Tessalonicenses 5:4... “Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que aquele dia, como ladrão, vos surpreenda”. É importante notar a mudança do pronome "eles" nos versículos anteriores para “vós” aqui e nos versículos seguintes. O “dia do Senhor” será um tempo de ira para o mundo que não foi salvo, e virá como um ladrão na noite para eles (v. 2). Não surpreenderá nenhum crente, porque nenhum estará nessa escuridão.

Em cada uma destas referências, o significado do “dia” está claro no contexto. Mas neste texto de Hebreus a palavra “dia” parece, à primeira vista, estar sem contexto. No entanto, certamente se trata de um dia definido, já conhecido pelos crentes daquela época. O “dia do Senhor” foi profetizado e anunciado desde o Velho Testamento, com o qual os hebreus a quem foi dirigido o livro estariam bem familiarizados. Em Jeremias 46:10 está escrito: “...aquele dia é o dia do Senhor Deus dos exércitos, dia de vingança para ele se vingar dos seus adversários...” (Jeremias 46:10).

Os leitores originais do livro entenderiam "o dia" como abreviação do “dia da expiação”, um termo usado na tradição judaica. A literatura rabínica frequentemente refere-se a este feriado ordenado na lei de Moisés simplesmente como “ha Yom”, "o Dia", o dia final, definitivo. O retorno de Jesus Cristo no alvorecer da idade messiânica para julgar o mundo e salvar o remanescente do Seu povo Israel, arrependido, será o derradeiro cumprimento do dia da expiação. Entendemos portanto que em Hebreus 10:25 é feita referência a esse mesmo dia, o dia da segunda vinda do Senhor Jesus Cristo ao mundo, desta vez para seu julgamento, dando fim à grande tribulação de Israel.

autor: R David Jones.