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Quem são os irmãos?

 

Transcrito por James D. Crawford

de

"O Amanhecer sobre a América Latina",

Editado e publicado pela Echoes of Service

Traduzido por R. David Jones 

 

Cada página que vem a seguir contém a resposta a esta questão dada por um colaborador diferente, a fim de mostrar a medida da liberdade espiritual na aplicação dos princípios da igreja do Novo Testamento. 

 

 


  

1. Resposta de John Heading

É um fato interessante que, talvez, uma grande proporção dos membros de igrejas locais dos “irmãos” não poderia dar uma razão coerente a respeito do motivo porque são membros dessas igrejas, nem responder com precisão a pergunta: "Quem são os irmãos?”

A resposta pode ser dividida em várias partes: 

  1. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo e outros usaram a palavra traduzida como "irmãos" no sentido de pertencer a uma família cristã, tendo Deus como Pai, cerca de 80 vezes. Portanto, o nome é procedente.
  2. Ao longo dos séculos da história da igreja, houve grupos de crentes que procuraram, de uma forma especial, serem fiéis ao Senhor e à Sua Palavra apesar da perseguição e das atrações de associações eclesiásticas maiores.
  3. Desde 1825 existiram homens fiéis que se sentiram guiados por Deus para se afastarem das suas conexões eclesiásticas a fim de buscar a simplicidade das Escrituras no modo de se reunirem em Nome do Senhor, baseando o seu serviço e comunhão na leitura e estudos do Novo Testamento, em vez da tradição transmitida pelas gerações anteriores.
  4. Uma grande variedade de 'salões', 'salões do Evangelho', 'salas', 'capelas', 'igrejas evangélicas' – assim chamados das formas que se quisessem – podem ser encontrados em todo o mundo, de desenho antigo ou moderno, nas grandes cidades ou pequenas aldeias, em distritos industriais e acadêmicos povoados, ou em selvas e desertos, com congregações grandes e pequenas, independentes uma da outra, mas todas dependentes de orientação divina do Espírito Santo, mantendo-se em comunhão umas com as outras como possuidoras de objetivos, aspirações, interesses, motivação e desejo de servir ao Senhor de acordo com as Sagradas Escrituras.

 O Evangelho da graça de Deus se manifesta na vida de todos os cristãos e por eles é proclamado, quaisquer que sejam suas ligações com movimentos evangélicos ou não evangélicos. Quando esses cristãos têm a feliz experiência de ser um instrumento nas mãos de Deus para levar uma alma perdida a Cristo, esta geralmente será levada para a mesma associação religiosa que a do evangelista. O novo convertido terá pouco conhecimento do fato que existem igrejas e igrejas, cultos e cultos, doutrinas e doutrinas, práticas e práticas, já que a fé cristã está repleta de diferenças que são úteis ou inúteis para o desenvolvimento de um convertido em sua fé.

Mediante campanhas evangelísticas, reuniões evangélicas, escolas dominicais, reuniões de jovens, acampamentos, trabalho ao ar livre, trabalho pessoal etc., ganham-se convertidos para Cristo. Tanto em seu país de origem como no campo missionário, os irmãos têm sido particularmente atuantes nesta área de testemunho.

Os convertidos, frequentemente sem terem tido conhecimento bíblico anterior, são em seguida introduzidos às reuniões das igrejas dos “irmãos” em algum salão de reuniões. Até então, eles poderiam ter considerado tais salões como lugares de culto religioso, de alguma forma diferente das igrejas e capelas mais formais das grandes denominações, embora desconhecendo os detalhes.

Antes de sua conversão, uma pessoa comum observaria esses salões da mesma forma como os das seitas heréticas; ela poderia ter lido os quadros de avisos contidos na fachada desses salões e notado os vários tipos de reuniões ali realizadas, talvez contrastando a “Ceia do Senhor" ou "Partir do pão”, a “Reunião de Oração”, o “Estudo Bíblico”, o “Ministério da Palavra", a "Pregação do Evangelho”, o “Encontro de Jovens" com os cultos tradicionais realizados pelas "igrejas" por ali existentes. Ela poderia ter observado os crentes que entravam e saíam de um desses salões no dia do Senhor, ou num dia de semana à noite, e se perguntado como poderiam encontrar algum interesse ou satisfação em assistir às reuniões anunciadas. Se tivesse olhado mais de perto, teria visto nesses crentes uma profunda devoção ao Senhor que permeava todos os campos da vida cotidiana, um interesse reverente na Palavra de Deus que orienta os cultos e todas as atividades da vida, e um zelo que mantém prioridades quanto à vida familiar, a ocupação diária e os serviços na assembleia, pois todos fazem exigências sobre o tempo dos crentes.

Ao se converter ao Senhor, essa pessoa entra em contato próximo com o que ela tinha apenas observado em sua vida enquanto não era convertida. Uma vez que a verdade evangélica do Filho de Deus, o Seu sacrifício, ressurreição e ascensão, e os meios de arrependimento, conversão e fé, são todos encontrados nas Escrituras, ela se compromete a este aspecto da fé que salva, como uma nova criação em Cristo, e deve agora seguir para alcançar as outras verdades encontradas nas mesmas Escrituras, como o batismo, comunhão e serviço.

Os antigos aspectos de religião que não têm base na Palavra de Deus precisam ser descartados, e as Sagradas Escrituras devem ser estudadas regularmente a fim de descobrir o caminho de Deus mais perfeitamente. A sua vida diária também deve ser alterada de modo a ser adequada à presença interior de Cristo. A conduta e os interesses devem ser examinados para ver se estão de acordo com a comunhão com outros cristãos que parecem ser tão diferentes e santificados em suas vidas cristãs maduras. Este processo pode ser doloroso, no entanto que bênçãos se encontram além para o vencedor, quando ela entrega a sua vida a Cristo, dizendo: "Senhor, que queres que eu faça?".

Essa busca da fé leva o novo convertido para a comunhão com uma assembleia local - ele vai lançar o seu destino com o povo de Deus - ele será um dos "irmãos", como Paulo coloca, "um de vós" (Colossenses 4:12). Mas é evidente que tem de haver um compromisso definitivo absoluto à assembleia local, o que é essencial para que haja uma manifestação clara de zelo e fidelidade. O desejo após o genuíno leite espiritual da Palavra lhe permitirá discernir por que ele está entre “irmãos” e não com os outros cristãos que estão tão salvos pela graça quanto ele. Ele pode não saber nada sobre as razões históricas enunciadas em nosso segundo parágrafo; ele vai saber somente o que a presente assembleia local de “irmãos” representa e por que tomam essa posição. Ele saberá que as suas razões, como são baseadas na Palavra de Deus, deverão tornar-se suas também.

Observando uma assembleia local de “irmãos” que andam à luz das Sagradas Escrituras, os novos convertidos verão que as reuniões regulares se realizam porque "não devem abandonar a sua congregação” (Hebreus 10.25). Dependendo das circunstâncias locais e das oportunidades que podem ser captadas, o Evangelho será pregado usando o talento local e pregadores e evangelistas visitantes. Nos assuntos da assembleia, os “irmãos” devem continuamente "perseverar na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações" (Atos 2:42).

Haverá desenvolvimento de “dom”, pois é dada a promessa que o Senhor o distribui para “cada um” (Efésios 4:7). Haverá o reconhecimento de anciãos ou supervisores divinamente colocados na assembleia; como os que apascentam o rebanho eles guiarão no serviço de Deus, e exercerão disciplina quando esta for necessária. Haverá muita ajuda mútua entre os membros, pois os crentes devem "fazer o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gálatas 6:10). A Palavra de Deus será estudada em seus aspectos históricos, típicos, poéticos, proféticos, eclesiásticos, morais, cristológicos e soteriológicos. Haverá apoio à obra missionária, com interesse de orar ouvindo os testemunhos dos missionários quando eles tiverem "relatado tudo quanto Deus fizera por meio deles" (Atos 14:27). Nenhuma heresia ou falsa doutrina será permitida, nem serão toleradas práticas estranhas em desarmonia com as Escrituras.

O recém-convertido irá descobrir que estes são "os irmãos". Esta fé e prática conquistaram os corações de muitos homens e mulheres fiéis, suas vidas se ligaram nesse testemunho sabendo que agradam ao Senhor e glorificam o Seu Nome. Alguns ouviram o chamado de Deus para o campo missionário; outros dedicaram seu tempo integralmente ao serviço do Senhor em seus países de origem, mas a maioria serve ao Senhor localmente, em suas horas livres, entre os jovens, nos lares das pessoas de idade, nos hospitais, pregando e ensinando o Evangelho e a Palavra de Deus, muitas vezes com grande poder como aqueles equipados por Deus, enquanto outros trabalham sem serem vistos, lidando com as necessidades ocultas de muitas almas. Nenhuma lista pode esgotar as ocupações daqueles que servem ao seu Senhor, nenhum homem sendo o ministro para uma congregação em grande parte indolente. Esse serviço é independente de patrimônio histórico, cultura e origem; a atividade dos “irmãos” segundo a Escritura é essencialmente adequada para cada convertido em todas as partes do mundo alcançadas pelo Evangelho. Apesar de possuírem um patrimônio histórico, os “irmãos” de hoje podem ser reconhecidos como sendo uma comunidade atualizada, provendo um testemunho poderoso ao Senhor até a Sua volta prometida aos Seus.  

 


 2. Resposta de T. Ernest Wilson

Os irmãos podem ser simplesmente descritos como grupos de cristãos, encontrados em muitos países do mundo, que tentam com toda sinceridade praticar os princípios da igreja primitiva como delineados nos ensinamentos de Cristo e Seus apóstolos no Novo Testamento. Qualquer observador inteligente olhando para as principais igrejas da cristandade, hoje, não pode deixar de notar uma grande divergência entre o ensino e as práticas da igreja primitiva, e o que está sendo ensinado e praticado hoje. No decorrer da história da Igreja, o Espírito Santo levantou homens de visão espiritual que se preocuparam muito com esse declínio e Deus os tem usado para redescobrir a verdade há muito perdida.

No século XVI Martinho Lutero ficou horrorizado com o afastamento do cristianismo primitivo e seu protesto vibrante resultou na Reforma. Ele recuperou a grande verdade da justificação pela fé somente na morte vicária de Cristo. Os reavivamentos evangélicos no século XVIII sob os Wesley e Whitefield foram sem dúvida uma obra do Espírito Santo, mas ambos os movimentos não conseguiram reviver muita verdade vital enterrada sob os rituais e a tradição.

No século XIX, o Espírito Santo Se moveu novamente. Foi o que aconteceu simultaneamente em partes amplamente espalhadas pelo mundo, cada um completamente independente do outro. Homens espirituais piedosos, muitos deles estudiosos e teólogos, foram levantados para promover as verdades bíblicas que haviam sido ignoradas e negligenciadas durante séculos. Muitos eram jovens cheios de um desejo ardente de voltar para a Bíblia e praticar o que aprenderam dela.

Deve-se lembrar, porém, que em todas as épocas da história da igreja houve pequenos grupos perseguidos que se juntavam em toda a simplicidade para a adoração e o testemunho. A hierarquia eclesiástica reinante os atacou e tentou destruí-los. E. H. Broadbent no seu importante livro "A Igreja Peregrina" traça a sua história através dos tempos.

A origem do povo conhecido como "os irmãos" (no Reino Unido) pode ser atribuída a um grupo de jovens, a maioria deles de origem aristocrática, que se reuniu na casa palaciana de Lady Powerscourt, localizada perto de Dublin, na Irlanda. Numa manhã de domingo, em 1830, quatro deles se reuniram em uma casa em Dublin para celebrar a Ceia do Senhor. Os números gradualmente cresceram e então alugaram um prédio para realizar suas reuniões de adoração e o ministério da Palavra. O líder desse grupo foi John Nelson Darby, que por convicção renunciou sua posição como cura (pároco ou vigário) na Igreja da Irlanda. Quase ao mesmo tempo outro grupo começou a se reunir de forma semelhante em Plymouth, na Inglaterra. O crescimento aqui foi rápido e em pouco tempo mais de mil pessoas se reuniam em nome do Senhor. Os de fora os chamavam de 'Irmãos de Plymouth' e o nome aderiu a eles desde então, mas eles preferiam ser conhecidos simplesmente como irmãos ou cristãos (Atos 11:26). Simultaneamente outro grupo de crentes se reunia em Bristol, sob a liderança de George Muller e Henry Craik. O nome de Anthony Norris Groves era proeminente no início do movimento. Atribui-se a ele fazer as sugestões que mais tarde foram desenvolvidas nos princípios obtidos das Sagradas Escrituras sob os quais os irmãos se reuniam e realizavam os trabalhos da igreja.

A partir deste início pouco auspicioso, grupos se multiplicaram em toda a Grã-Bretanha, EUA, Canadá, Antilhas e em muitos países estrangeiros. No continente da Europa, eram encontrados na França, Alemanha, Holanda, Escandinávia, Itália, Espanha e na Rússia. Muitas assembleias surgiram ao longo do vale do Nilo, no Egito. Parte da maior expansão foi na América do Sul, especialmente na Argentina, Brasil e Venezuela. Praticamente todas as repúblicas latino-americanas têm assembleias. A África Central e a do Sul viram uma bênção fenomenal. Fred Stanley Arnot foi o pioneiro. Ele penetrou no coração da África, com o Evangelho em 1881 - 1886, antes da ocupação colonial belga ou britânica.

O movimento que começou em Dublin, Plymouth e Bristol, em 1830, continuou com a comunhão dos irmãos uns com os outros por quase 20 anos, mas em 1848 se dividiram em dois grupos distintos. Darby, influenciado por sua origem episcopal, iniciou uma forma central de governo da igreja, o que ditava a política, procedimento e disciplina para cada indivíduo e à assembleia local à qual estava ligado. Passaram a ser conhecidos como "irmãos exclusivos". Darby era um estudioso, teólogo e linguista brilhante. Traduziu a Bíblia das línguas originais para o inglês, alemão e francês, e outras obras para o italiano. A ele se atribui a recuperação de muitas verdades, especialmente ao longo das linhas dispensacionalistas e proféticas. Mas a sua política de controle centralizado resultou em sucessivas divisões ao longo dos anos. Por outro lado, aqueles que permaneceram com Antony Norris Groves e George Muller e que seguiram os princípios enunciados no início por Groves se tornaram conhecidos simplesmente como "irmãos", sem o “i” maiúsculo.

Seria oportuno neste momento delinear quais são esses princípios. Como cada assembleia local é autônoma sem qualquer declaração de fé, apenas a Bíblia, pode haver pequenas diferenças de interpretação em certas áreas, mas o quadro geral é o seguinte:

Antes de tudo estes irmãos se apegam firmemente às doutrinas fundamentais históricas do cristianismo, a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, coiguais e coeternos, a divindade essencial e a verdadeira humanidade impecável do Senhor Jesus Cristo, Sua morte vicária na cruz pelo pecado, Sua ressurreição corporal e ascensão, Seu trabalho Sumo Sacerdotal e Sua volta para literalmente reinar durante um milênio. Acreditam no céu para os regenerados e no castigo eterno para os que rejeitam a Cristo. Sustentam sem reservas a inspiração plenária e a inerrância da Sagrada Escritura nos escritos originais.

Mas há uma série de doutrinas distintivas que sentiram que haviam sido perdidas ou alteradas e que procuram enfatizar e praticar:

1. A igreja do Novo Testamento é chamada de “o corpo de Cristo" e tem apenas uma Cabeça, o Senhor Jesus Cristo. Cada crente nascido de novo é um membro desse corpo. Começou no dia de Pentecostes e será concluída no Arrebatamento. 

2. A igreja local é composta de crentes nascidos de novo reunidos no nome do Senhor Jesus, recusando qualquer título denominacional, que iria colocá-la num campo sectário e negar a verdade de um só corpo. É autônoma; responsável à Cabeça, o Senhor Jesus Cristo, que segundo a Sua promessa está em seu meio (Mateus 18:20). Há comunhão calorosa com outras igrejas locais, mas nenhuma federação.

3. A igreja local é governada por uma pluralidade de presbíteros com autoridade delegada pelo Senhor ressuscitado para exercer a liderança e a disciplina. O clero ou o ministério de um só homem na igreja são desconhecidos no Novo Testamento. Os anciãos são constituídos pelo Espírito Santo (Atos 20:28). Eles não são autonomeados, mas reconhecidos pela igreja local como aqueles que estão equipados a fazer o trabalho (1 Tessalonicenses 5:12-13).

4. O sacerdócio de todos os crentes. Cada crente participa de um sacerdócio santo para adorar e real para testemunhar (1 Pedro 2:5,9). Isso anula totalmente uma casta de clérigos e uma de leigos. Há uma gloriosa liberdade para a adoração e o ministério dirigidos pelo Espírito.

5. O papel das mulheres na igreja. Elas devem ficar em silêncio no que se refere ao ensino público na igreja (1 Coríntios 14:341 Timóteo 2:11-15). Sua submissão à sua posição é indicada ao colocarem uma cobertura sobre a cabeça (1 Coríntios 11:1-16). Mas a mulher crente tem uma esfera tremendamente importante do serviço, tanto no lar como entre outras mulheres (Tito 2:4).

6. O batismo por imersão em nome da Trindade somente para crentes nascidos de novo, mediante confissão de fé.

7. A prioridade e a importância da Ceia do Senhor, observada no primeiro dia de cada semana. Nunca há presidente nem anciãos presidentes: reconhecem o senhorio de Cristo e a soberania do Espírito Santo para liderar e orientar a adoração e o ministério da Palavra.

8. A interpretação dispensacionalista da Sagrada Escritura. A importância da distinção entre: (a) a vocação terrena e as promessas feitas a Israel no Antigo Testamento, e (b) a vocação celestial da igreja no Novo Testamento.

9. Embora possa haver casos de divergência de ponto de vista com relação à ocasião da vinda do Senhor, seria verdadeiro dizer que a maioria dos irmãos crê e ensina que o arrebatamento da igreja acontecerá antes da tribulação e do milênio.

10. A pregação do Evangelho, tanto em sua pátria como fora, sempre caracterizou as igrejas dos irmãos. Tem sido observado que, em proporção ao número dos que permanecem em sua pátria, os irmãos têm mais obreiros de tempo integral em missões pelo mundo do que qualquer outra entidade evangélica. Seguindo o exemplo de Anthony Norris Groves e George Muller eles saem recomendados pelas suas igrejas locais, sem salário fixo, confiando somente em Deus para as suas necessidades e suprimentos. 

 

 

 

Estes princípios podem parecer idealistas e impraticáveis neste mundo moderno, mas muitos milhares de servos de Deus nos últimos 150 anos têm provado por experiência própria que o trabalho de Deus, feito à maneira de Deus, pode contar com a bênção de Deus.

 



3. Resposta de  H. D. Erlam

Esta é uma boa pergunta, uma vez que os irmãos, embora não tenham nenhuma organização central ou sistema de controle, ou, na verdade, qualquer hierarquia de gestão, têm-se propagado por todo o mundo durante os últimos 160 anos, e fizeram um impacto evangélico bastante fora de proporção com os seus números.

Enquanto se pode dizer que houve grupos de cristãos ao longo dos séculos desde os tempos do Novo Testamento que se reuniram em conformidade com os princípios revelados no Novo Testamento (como tem sido bem documentado por Broadbent, Carron e outros), houve, no entanto, um notável despertar no início do século XIX para a comunhão que os cristãos podiam desfrutar juntos nas Escrituras, uma fraternidade que tinha sido em grande parte perdida sob a restrição do formalismo desenvolvido a essa altura pela igreja estabelecida.

Em vários lugares da Grã-Bretanha e da Europa, e independentemente uns dos outros, pequenos grupos de cristãos começaram a se reunir para estudo das Escrituras, fora de quaisquer limitações eclesiásticas ou restrições denominacionais à sua veemente investigação do ensinamento divino, e logo descobriram que os sistemas e práticas da igreja existente formando a maior parte da sua prática e experiência religiosa não podia ser sustentada pela evidência do Novo Testamento. Muitas das pessoas nesses grupos, por conseguinte, se retiraram das suas conexões anteriores e começaram a realizar reuniões entre si para estudo da Bíblia e, como resultado iniciaram a reunião para a Ceia do Senhor semanal, seguindo o exemplo da igreja primitiva, como visto no livro dos Atos dos Apóstolos e em 1ª Coríntios.

Este movimento espontâneo, em seguida, atraiu outras pessoas que estavam também pesquisando as Escrituras e, por fim, a existência destes grupos logo se tornou amplamente conhecida em todo o Reino Unido, Irlanda e no continente europeu. Porque um dos primeiros desses encontros se localizou em Plymouth na Inglaterra, os cristãos dali se tornaram conhecidos como “irmãos de Plymouth”. Os membros desses grupos no entanto tinham evitado adotar qualquer nome sectário, usando apenas o termo bíblico tão usado para grupos semelhantes no livro dos Atos, descobrindo que outros os designavam como Irmãos, e mais tarde Irmãos Abertos para os distinguir de um partido que tinha se separado, que mais tarde se tornou conhecido como Irmãos Exclusivos.

Assim como os grupos dos cristãos do Novo Testamento, os irmãos se tornaram muito ativos. Na verdade, iam por toda parte, anunciando o evangelho (Atos 8:4), e também pode se dizer que eles transtornaram o mundo (Atos 17:6). Por exemplo, bem do outro lado do mundo, na Nova Zelândia, é evidente que o contemporâneo surto de emigração para esse novo país em desenvolvimento ensejou a ida de evangelistas para lá também. Outros irmãos, notáveis por seu dom como pregadores e expositores das Escrituras, vez por outra visitaram essa colônia (como então era) durante o século XIX, de modo que se estabeleceu um testemunho muito ativo também entre os antípodas (da Inglaterra).

Paralelamente a este impulso positivo em proclamar o Evangelho, desenvolveu-se uma notável compreensão do conteúdo profético das Escrituras, que em si mesma atraiu muitos dos sistemas eclesiásticos. Esse desdobramento das Escrituras realmente refletiu uma das principais características do assim chamado "movimento dos Irmãos”, a presença entre eles de um número significativo de homens que estavam completamente familiarizados com as suas Bíblias e bem capazes de expor a Palavra de Deus. Aqui reside outra característica deste movimento, a aceitação da Bíblia como a Palavra inspirada de Deus, a única e última autoridade para toda doutrina e prática.

A doutrina adotada pelos irmãos nunca foi formulada como uma declaração de fé, mas é claramente entendida como envolvendo o estado universal de pecador do homem caído, incapaz de fazer ele próprio qualquer sacrifício expiador, sendo a sua redenção assegurada apenas mediante a morte de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e obtida essencialmente por uma fé pessoal na Sua morte sacrificial, como estabelecido na primeira metade da Epístola de Paulo aos Romanos. Uma fé firme na ressurreição corporal e na ascensão de Cristo, e do Seu retorno pessoal, primeiramente para o arrebatamento da Sua Igreja e depois para reinar na terra, também é mantida.

O batismo por imersão é observado, limitado aos que confessam ter fé pessoal em Cristo; por isso, o batismo infantil é rejeitado. A observância semanal da Ceia do Senhor, como a parte central do culto de adoração é mantida, e aqui uma pluralidade de participantes é o padrão, decorrente das evidências bíblicas do sacerdócio de todos os crentes, mediante o qual todos os irmãos em qualquer igreja local podem exercer a função sacerdotal de oferecer adoração, estando isso também em conformidade com os princípios vistos em 1 Coríntios 14:26, 29-31. Um irmão pode anunciar um hino, com outro liderando em uma oração de agradecimento e adoração, ou em uma leitura da Sagrada Escritura e uma exposição adequada à adoração. Nessas reuniões de lembrança um tema determinado frequentemente surge que em si próprio destaca o espírito de adoração. Não há uma ordem em particular regulamentada ou predeterminada para tais contribuições nesta reunião, e, no entanto, o sentido geral de reverência e responsividade devocional é muitas vezes evidente, estando todos sujeitos à liderança do próprio Espírito Santo.

Foi já mencionada a atividade vigorosa na pregação do Evangelho, e isto não foi menos evidente no início da colonização da Nova Zelândia, pois irmãos dedicados se submeteram a itinerários longos e árduos em que eram essencialmente pioneiros, a cavalo, a pé ou usando carroças (ou carruagens) puxadas por cavalos, para penetrar todas as partes do país onde os colonos se encontravam, à medida que a terra se abria para a agricultura, sendo que parte do seu território era bastante inóspito segundo os padrões mais conhecidos por eles em sua pátria, a Grã-Bretanha. Mas seus trabalhos foram recompensados na medida em que muitos se converteram ao Senhor, não só entre os colonizadores europeus, mas também entre os nativos maoris, tendo alguns irmãos aprendido o idioma nativo para melhor alcançar estes indígenas.

O resultado desses esforços foi tal que um grande número de assembleias foram estabelecidas em todo o país, tendo a grande maioria continuado até os dias atuais, sendo que atualmente existem cerca de 250 delas em uma população total de pouco mais 3.000.000 de habitantes. Não se sabe exatamente o número de adeptos na Nova Zelândia, uma vez que os irmãos nem sempre se declaram como tal nos recenseamentos e, além disso, não dispõem de alguma autoridade organizada ou central de controle, da qual se poderia obter tais estatísticas, mas uma estimativa a grosso modo poderia chegar a uma porcentagem de cerca de 1% da população, ou uns 30.000.

Uma característica dos irmãos tem sido sua forte ênfase no evangelismo. Este estendeu-se rapidamente para além das suas fronteiras nacionais, pois muitos irmãos e irmãs deixaram a sua terra nativa para levar a mensagem para outras terras. Um trabalho muito frutífero foi desenvolvido na África Central,  enquanto muitos também serviram na Índia, na China e no continente sul-americano.

Com o tempo o mesmo ardor missionário tornou-se evidente na Nova Zelândia, e um grande número saiu deste país, de forma especial para a Índia, a China e a África, embora sejam raras as áreas do mundo onde os neozelandeses não tenham servido de alguma forma ou outra. Os números têm sido altos em relação ao conjunto total da população. Se perguntarmos o que motivou tantos a irem para o exterior com o evangelho, muitas vezes para áreas linguísticas difíceis ou de culturas tão fundamentalmente diferentes, é mais provável receber a resposta que atenderam a um definido impulso do coração e um apelo do Senhor para tal serviço missionário.

Aqui encontramos novamente uma distinta característica dos irmãos: sem qualquer autoridade centralizada, ou supervisão de um conselho ou sociedade, eles podem sair por conta própria de uma assembleia local, com a recomendação dessa assembleia, para o trabalho que se sentem chamados a assumir, muitas vezes sem ter qualquer apoio financeiro garantido ou regular, e depois continuar a trabalhar num campo estrangeiro por muitos anos.

Finalmente, uma estudante no último ano da sua faculdade de medicina participou de uma equipe, sob os auspícios de um grupo de assistência, para desenvolver um programa de curto prazo em uma determinada área. O interesse dos seus companheiros logo foi despertado quando notaram que ela era convidada todas as noites para sair, enquanto eles apenas se assentavam em torno da sua base com pouco ou nada para fazer. Após indagações eles todos sentiram que também deviam se juntar aos irmãos, porque ela havia encontrado irmãos ali (Atos 28:14). E para aqueles irmãos que não são missionários que viajaram muito, até mesmo em países estrangeiros de línguas desconhecidas, a fraternidade e o amor fraterno e a comunhão que experimentaram é ainda outra característica dos irmãos.

 

autor: James D Crawford.