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Quem são os irmãos? (2)


Os irmãos podem ser simplesmente descritos como grupos de cristãos, encontrados em muitos países do mundo, que tentam com toda sinceridade praticar os princípios da igreja primitiva como delineados nos ensinamentos de Cristo e Seus apóstolos no Novo Testamento. Qualquer observador inteligente olhando para as principais igrejas da cristandade, hoje, não pode deixar de notar uma grande divergência entre o ensino e as práticas da igreja primitiva, e o que está sendo ensinado e praticado hoje. No decorrer da história da Igreja, o Espírito Santo levantou homens de visão espiritual que se preocuparam muito com esse declínio e Deus os tem usado para redescobrir a verdade há muito perdida.

No século XVI Martinho Lutero ficou horrorizado com o afastamento do cristianismo primitivo e seu protesto vibrante resultou na Reforma. Ele recuperou a grande verdade da justificação pela fé somente na morte vicária de Cristo. Os reavivamentos evangélicos no século XVIII sob os Wesley e Whitefield foram sem dúvida uma obra do Espírito Santo, mas ambos os movimentos não conseguiram reviver muita verdade vital enterrada sob os rituais e a tradição.

No século XIX, o Espírito Santo Se moveu novamente. Foi o que aconteceu simultaneamente em partes amplamente espalhadas pelo mundo, cada um completamente independente do outro. Homens espirituais piedosos, muitos deles estudiosos e teólogos, foram levantados para promover as verdades bíblicas que haviam sido ignoradas e negligenciadas durante séculos. Muitos eram jovens cheios de um desejo ardente de voltar para a Bíblia e praticar o que aprenderam dela.

Deve-se lembrar, porém, que em todas as épocas da história da igreja houve pequenos grupos perseguidos que se juntavam em toda a simplicidade para a adoração e o testemunho. A hierarquia eclesiástica reinante os atacou e tentou destruí-los. E. H. Broadbent no seu importante livro "A Igreja Peregrina" traça a sua história através dos tempos.

A origem do povo conhecido como "os irmãos" (no Reino Unido) pode ser atribuída a um grupo de jovens, a maioria deles de origem aristocrática, que se reuniu na casa palaciana de Lady Powerscourt, localizada perto de Dublin, na Irlanda. Numa manhã de domingo, em 1830, quatro deles se reuniram em uma casa em Dublin para celebrar a Ceia do Senhor. Os números gradualmente cresceram e então alugaram um prédio para realizar suas reuniões de adoração e o ministério da Palavra. O líder desse grupo foi John Nelson Darby, que por convicção renunciou sua posição como cura (pároco ou vigário) na Igreja da Irlanda. Quase ao mesmo tempo outro grupo começou a se reunir de forma semelhante em Plymouth, na Inglaterra. O crescimento aqui foi rápido e em pouco tempo mais de mil pessoas se reuniam em nome do Senhor. Os de fora os chamavam de 'Irmãos de Plymouth' e o nome aderiu a eles desde então, mas eles preferiam ser conhecidos simplesmente como irmãos ou cristãos (Atos 11:26). Simultaneamente outro grupo de crentes se reunia em Bristol, sob a liderança de George Muller e Henry Craik. O nome de Anthony Norris Groves era proeminente no início do movimento. Atribui-se a ele fazer as sugestões que mais tarde foram desenvolvidas nos princípios obtidos das Sagradas Escrituras sob os quais os irmãos se reuniam e realizavam os trabalhos da igreja.

A partir deste início pouco auspicioso, grupos se multiplicaram em toda a Grã-Bretanha, EUA, Canadá, Antilhas e em muitos países estrangeiros. No continente da Europa, eram encontrados na França, Alemanha, Holanda, Escandinávia, Itália, Espanha e na Rússia. Muitas assembleias surgiram ao longo do vale do Nilo, no Egito. Parte da maior expansão foi na América do Sul, especialmente na Argentina, Brasil e Venezuela. Praticamente todas as repúblicas latino-americanas têm assembleias. A África Central e a do Sul viram uma bênção fenomenal. Fred Stanley Arnot foi o pioneiro. Ele penetrou no coração da África, com o Evangelho em 1881 - 1886, antes da ocupação colonial belga ou britânica.

O movimento que começou em Dublin, Plymouth e Bristol, em 1830, continuou com a comunhão dos irmãos uns com os outros por quase 20 anos, mas em 1848 se dividiram em dois grupos distintos. Darby, influenciado por sua origem episcopal, iniciou uma forma central de governo da igreja, o que ditava a política, procedimento e disciplina para cada indivíduo e à assembleia local à qual estava ligado. Passaram a ser conhecidos como "irmãos exclusivos". Darby era um estudioso, teólogo e linguista brilhante. Traduziu a Bíblia das línguas originais para o inglês, alemão e francês, e outras obras para o italiano. A ele se atribui a recuperação de muitas verdades, especialmente ao longo das linhas dispensacionalistas e proféticas. Mas a sua política de controle centralizado resultou em sucessivas divisões ao longo dos anos. Por outro lado, aqueles que permaneceram com Antony Norris Groves e George Muller e que seguiram os princípios enunciados no início por Groves se tornaram conhecidos simplesmente como "irmãos", sem o “i” maiúsculo.

Seria oportuno neste momento delinear quais são esses princípios. Como cada assembleia local é autônoma sem qualquer declaração de fé, apenas a Bíblia, pode haver pequenas diferenças de interpretação em certas áreas, mas o quadro geral é o seguinte:

Antes de tudo estes irmãos se apegam firmemente às doutrinas fundamentais históricas do cristianismo, a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, coiguais e coeternos, a divindade essencial e a verdadeira humanidade impecável do Senhor Jesus Cristo, Sua morte vicária na cruz pelo pecado, Sua ressurreição corporal e ascensão, Seu trabalho Sumo Sacerdotal e Sua volta para literalmente reinar durante um milênio. Acreditam no céu para os regenerados e no castigo eterno para os que rejeitam a Cristo. Sustentam sem reservas a inspiração plenária e a inerrância da Sagrada Escritura nos escritos originais.

Mas há uma série de doutrinas distintivas que sentiram que haviam sido perdidas ou alteradas e que procuram enfatizar e praticar:

1. A igreja do Novo Testamento é chamada de “o corpo de Cristo" e tem apenas uma Cabeça, o Senhor Jesus Cristo. Cada crente nascido de novo é um membro desse corpo. Começou no dia de Pentecostes e será concluída no Arrebatamento.

2. A igreja local é composta de crentes nascidos de novo reunidos no nome do Senhor Jesus, recusando qualquer título denominacional, que iria colocá-la num campo sectário e negar a verdade de um só corpo. É autônoma; responsável à Cabeça, o Senhor Jesus Cristo, que segundo a Sua promessa está em seu meio (Mateus 18:20). Há comunhão calorosa com outras igrejas locais, mas nenhuma federação.

3. A igreja local é governada por uma pluralidade de presbíteros com autoridade delegada pelo Senhor ressuscitado para exercer a liderança e a disciplina. O clero ou o ministério de um só homem na igreja são desconhecidos no Novo Testamento. Os anciãos são constituídos pelo Espírito Santo (Atos 20:28). Eles não são autonomeados, mas reconhecidos pela igreja local como aqueles que estão equipados a fazer o trabalho (1 Tessalonicenses 5:12-13).

4. O sacerdócio de todos os crentes. Cada crente participa de um sacerdócio santo para adorar e real para testemunhar (1 Pedro 2:5,9). Isso anula totalmente uma casta de clérigos e uma de leigos. Há uma gloriosa liberdade para a adoração e o ministério dirigidos pelo Espírito.

5. O papel das mulheres na igreja. Elas devem ficar em silêncio no que se refere ao ensino público na igreja (1 Coríntios 14:34; 1 Timóteo 2:11-15). Sua submissão à sua posição é indicada ao colocarem uma cobertura sobre a cabeça (1 Coríntios 11:1-16). Mas a mulher crente tem uma esfera tremendamente importante do serviço, tanto no lar como entre outras mulheres (Tito 2:4).

6. O batismo por imersão em nome da Trindade somente para crentes nascidos de novo, mediante confissão de fé.

7. A prioridade e a importância da Ceia do Senhor, observada no primeiro dia de cada semana. Nunca há presidente nem anciãos presidentes: reconhecem o senhorio de Cristo e a soberania do Espírito Santo para liderar e orientar a adoração e o ministério da Palavra.

8. A interpretação dispensacionalista da Sagrada Escritura. A importância da distinção entre: (a) a vocação terrena e as promessas feitas a Israel no Antigo Testamento, e (b) a vocação celestial da igreja no Novo Testamento.

9. Embora possa haver casos de divergência de ponto de vista com relação à ocasião da vinda do Senhor, seria verdadeiro dizer que a maioria dos irmãos crê e ensina que o arrebatamento da igreja acontecerá antes da tribulação e do milênio.

10. A pregação do Evangelho, tanto em sua pátria como fora, sempre caracterizou as igrejas dos irmãos. Tem sido observado que, em proporção ao número dos que permanecem em sua pátria, os irmãos têm mais obreiros de tempo integral em missões pelo mundo do que qualquer outra entidade evangélica. Seguindo o exemplo de Anthony Norris Groves e George Muller eles saem recomendados pelas suas igrejas locais, sem salário fixo, confiando somente em Deus para as suas necessidades e suprimentos.

Estes princípios podem parecer idealistas e impraticáveis neste mundo moderno, mas muitos milhares de servos de Deus nos últimos 150 anos têm provado por experiência própria que o trabalho de Deus, feito à maneira de Deus, pode contar com a bênção de Deus.

 Artigo transcrito por James D. Crawford de "O Amanhecer sobre a América Latina",
editado e publicado pela Echoes of Service e traduzido por R. David Jones

autor: R David Jones.