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A Autobiografia de John G. Paton - 2

O CLAMOR DOS MARES DO SUL

— John G. Paton, depois de chegar em Glasgow, trabalhou como professor por um curto período de tempo e como missionário com a Glasgow City Mission por dez anos, entre 1847 e 1857, onde teve muito êxito na tarefa de evangelização e no combate contra o alcoolismo.

Durante todo o período que passei na Missão, continuei penosamente com os meus estudos, primeiramente na Universidade de Glasgow, depois na Faculdade de Teologia da Presbiteriana Reformada e em classes de medicina no Andersonian College.

Nunca consegui a erudição que tanto desejei, visto que não tive a oportunidade de formar um bom alicerce nos meus primeiros anos escolares. Todavia, eu contava muito com a presença do Mestre Amado em todos os meus esforços; algo que tristemente faltava a muitos estudantes melhores que eu. Fui sustentado pelo sublime alvo que ardeu durante todos aqueles anos dentro da minha alma, ou seja, ser qualificado como pregador do Evangelho de Cristo a fim de ser reconhecido e usado por Ele na salvação de homens que pereciam.

Contente como me sentia e bem sucedido pelas bênçãos de Deus, mesmo assim eu ouvia continuamente o clamor dos pagãos perecendo nos “mares do sul”. Eu tinha percebido que poucos demonstravam interesse por eles, enquanto eu bem sabia que muitos estavam prontos para fazer a minha obra e levá-la avante.

Sem revelar o meu estado de espírito para qualquer outra pessoa, isto foi o supremo assunto da minha meditação e oração diária. Foi isso que me levou a entrar nos estudos de medicina, e me propus a fazer o curso inteiro. Todavia, ao final do terceiro ano, um incidente me impeliu, de imediato, para o campo missionário estrangeiro. A Igreja Presbiteriana Reformada da Escócia, na qual fui criado, estava pedindo por um outro missionário para se ajuntar a John Inglis no seu grande trabalho nas Novas Hébrides. Dr. Bates, o excelente presidente da Comissão de Missões entre Pagãos, estava muito entristecido porque por dois anos o seu apelo tivera falhado.

— John assistiu a uma reunião do Sínodo onde ficou evidente que ninguém mostrou o desejo de fazer aquele trabalho.

Novamente a causa foi colocada solenemente perante o Senhor, em oração, e uma nuvem de tristeza parecia pairar sobre todos os presentes. O Senhor ficou dizendo dentro de mim: “Visto que ninguém melhor qualificado pode ser encontrado, levante-se e ofereça a si mesmo!”. Quase irresistível foi o impulso que tive para responder em voz audível: “Eis me aqui, envia-me a mim!”.

Todavia, sentia muito medo de confundir as minhas próprias emoções com a voz de Deus. Por isso resolvi fazer disso o assunto de meditação e oração por mais alguns dias, e considerar a proposição de todo aspecto possível. Além disso, fiquei muito preocupado acerca do efeito sobre as centenas de jovens, e outros, agora ligados a todas as minhas classes e reuniões.

Mesmo assim, senti uma certeza crescente que aquilo era o chamado de Deus ao Seu servo, e que, Aquele que estava pronto a me empregar no Seu trabalho no exterior, era também capaz de providenciar, imediatamente, o que seria necessário para a continuação do trabalho em Glasgow. O clamor e a necessidade dos pagãos sempre estiveram soando em meus ouvidos. Via-os perecerem por falta do conhecimento do verdadeiro Deus e Seu Filho Jesus, enquanto meu povo tinha a Bíblia aberta e todos os meios da graça ao alcance, caso a rejeitassem, a rejeitariam propositalmente por sua conta e risco.

— Após muita oração, John se ofereceu para o trabalho nas Ilhas Novas Hébrides, sendo aceito com grande alegria pelo Dr. Bates.

Quando se tornou conhecido que estive me preparando para ir ao exterior como missionário, quase todos estavam totalmente contra a idéia, com exceção do Dr. Bates e um colega estudantil. Meus queridos pais, quando os consultei, responderam-me “que há muito tempo eles me tinham entregue ao Senhor, e neste assunto também me deixariam ao dispor de Deus”. De outros lugares fomos pressionados com fortes oposições.

Entre os muitos que procuraram me deter, havia um velho e querido cristão, cujo argumento principal sempre foi: “Os canibais! Será comido pelos canibais!” Por fim lhe respondi: “Sr. Dickson, o senhor já está muito avançado em anos e a sua expectativa é de logo ser colocado no túmulo e ali ser comido pelas minhocas. Devo confessar ao senhor que se eu tão somente posso viver e morrer honrando ao Senhor Jesus, pouco me importa se eu for comido pelos canibais ou pelas minhocas, pois, no Grande Dia, meu corpo será ressuscitado tão bonito quanto ao do senhor, na semelhança do nosso Redentor vivo”. O velho, levantando as mãos num gesto de discordância, saiu da sala exclamando: “Depois dessa, não tenho mais nada a dizer!”.

— John conta como o Senhor providenciou a continuação da obra de evangelização em Glasgow e como abençoou aquele trabalho. Pouco antes de sair da Escócia, ele se casou com Mary Ann Robson.

No dia 23/3/1858, na presença de uma grande multidão e depois de um sermão maravilhoso acerca de “Passa a Macedônia e ajuda-nos” (Atos 16:9), fomos ordenados solenemente como ministros do Evangelho e designados como missionários às Novas Hébrides. No dia 16/4, partimos da Escócia viajando para o campo missionário.

— John e Mary, depois de uma visita a Austrália, chegaram nas ilhas Novas Hébrides no dia 31/8. O jovem casal logo foi designado para estabelecer uma nova base missionária na ilha de Tanna, um povo indígena totalmente ignorante quanto à civilização ocidental, a não ser pela exploração por parte de alguns maus comerciantes. Depois de poucos meses na ilha, John sofreu um duríssimo golpe.

Eu e a minha jovem e querida esposa, Mary Ann Robson, desembarcamos em Tanna no dia 5/11/1858 com plena saúde e cheios de grandes esperanças santas e amorosas. No dia 12/2/1859 ela deu à luz a um filho; por dois dias tanto a mãe quanto a criança pareciam prosperar, e o nosso exílio na ilha ficou cheio de gozo!

Todavia, a maior das tristezas viria logo após aquele gozo. As forças da minha querida Mary não deram sinal de recuperação, pois sofrera uma crise de malária alguns dias antes de dar à luz. No terceiro dia após o parto, mais ou menos, a crise se repetiu com severidade, aumentando a febre a cada dois dias, por quinze dias. Seguiu-se a isto a diarréia, sintomas de pneumonia e um pouco de delírio de vez em quando. Num momento totalmente inesperado, veio a falecer no dia 3/3.

Para culminar as minhas tristezas e completar a minha solidão, o bebê me foi tirado no dia 20/3, após uma semana de enfermidade. Deixo àqueles que já passaram por trevas semelhantes se simpatizarem comigo; quanto aos demais, seria mais do que inútil descrever as minhas tristezas. Se não fosse por Jesus e a comunhão que Ele me outorgou, certamente teria ficado louco e falecido ao lado daquele túmulo solitário.

Não posso afirmar que entendo o mistério de tais visitações, quando Deus leva embora jovens, que prometem e parecem tão necessários para o Seu Serviço, mas uma coisa sei e sinto, que à luz de tais situações nos convém amar e servir o nosso amado Senhor Jesus para que estejamos prontos quando Ele nos chamar para a eternidade.

autor: James Jardine.