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A Caminho do Apocalipse - 10

“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia,
e guardam as coisas que nela estão escritas;
porque o tempo está próximo”

Apocalipse 1:3

CAPÍTULO 10

Este e o próximo capítulo fazem parte do segundo grande parêntese existente em Apocalipse (capítulos 10:1 a 11:13). Vimos o primeiro parêntese no capítulo 7, inserido entre o sexto e o sétimo selo, agora vemos este segundo entre a sexta e a sétima trombeta. O primeiro nos revelou aqueles que entrariam na grande tribulação e aqueles que dela sairiam por terem alcançado a Salvação. Neste segundo veremos o propósito e o poder de Deus sendo reiterados, e que não haverá mais delonga para a execução do Seu plano. Diz o anjo: “já não haverá demora” (v. 6b). O propósito do interlúdio deste décimo capítulo é o de anunciar que quando o anjo estiver para soar a sétima trombeta “cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas” (v. 7).

Ao adentrarmos a este capítulo nos deparamos com a revelação de João que viu “outro anjo forte descendo do céu” (v. 1). O vernáculo “outro” nos remete a alguém da mesma espécie, ou seja, a um anjo, e não ao Senhor Jesus como é afirmado por alguns comentaristas. Conforme já mencionei no capítulo 8, a encarnação, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus, com sua forma humana permanente, dispensam qualquer aparição em uma forma angelical. Inobstante a isso, o Senhor Jesus não juraria para Si mesmo (vs. 5 e 6), pois Ele foi partícipe de toda criação: “Tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16).

 Diz Alford a esse respeito: “Este anjo não é, e não pode ser, o nosso Senhor. Tal suposição seria uma quebra de toda a consistência da analogia do Apocalipse. Conforme observado no capítulo 8:3, os anjos são ministros dos propósitos divinos e os executores dos acontecimentos apocalípticos, mas sempre distintos da Pessoa divina”. Diz também Ladd: “No Apocalipse anjos são sempre anjos; Cristo nunca é aqui chamado de anjo. Este anjo jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos (v. 6), e isto é significativo quando vem de um anjo, mas difícil de aplicar a Cristo. Além disto, este é somente um mensageiro; não é dado a ele um papel da divindade, e ele também não é adorado”.

 É claro que sempre se respeita aqueles que têm pensamentos divergentes, mesmo porque há forte indício que este anjo poderia se tratar de um ser divino tendo em vista as características extrínsecas que ele apresenta (v. 1), semelhantes às do Senhor Jesus em Apocalipse 1:15-16. Todavia, essa aparência não é suficiente para se asseverar que este anjo se trata do Senhor Jesus, elas evidenciam tão somente a glória celestial que o reveste. Inverossímil a sugestão que esse anjo forte seria Lutero e que o livro aberto (v. 2) se refere à Bíblia por ocasião da reforma protestante, algo totalmente contrário ao texto sagrado.

 Uma vez esclarecido o controverso existente acerca desse anjo, passemos à análise deste capítulo. O versículo 2 relata que na mão desse anjo está um livro que sem dúvida contém o registro dos assustadores flagelos que ainda estarão por recair sobre a humanidade, conforme veremos no capítulo 16. João deveria comer esse livro (v. 9), à semelhança do ocorrido com Ezequiel que teve que comer o rolo que continha terríveis juízos que sobreviriam a Israel: “Então vi, e eis que uma mão se estendia para mim, e eis que nela havia um rolo de livro. E estendeu-o diante de mim, e ele estava escrito por dentro e por fora; e nele estavam escritas lamentações, e suspiros e ais” (Ezequiel 2:9-10).

 A seguir João ouve sete trovões (v. 3) que continham em si vozes inteligíveis e de imediato ele começa a escrevê-las, porém foi orientado para que não o fizesse, que guardasse aquela revelação em segredo (v. 4). Não se deve conjecturar em torno de qual seria o conteúdo dessas vozes, é uma revelação de exclusiva propriedade de Deus. O mesmo ocorrera anteriormente com o profeta Daniel e o apóstolo Paulo (Daniel 12:4; 2 Coríntios 12:4 – o fato do número do capítulo e do versículo serem os mesmos em ambas as passagens é mera coincidência, não há nada sobrenatural ou misterioso nisso).

 Após essa revelação de exclusivo conhecimento de João, o anjo faz um solene brado de juramento de que não haverá mais demora (vs. 5 e 6). Aquilo que era iminente passa a ser imediato. O tempo de espera está a se findar. Assim que começar o soar da sétima trombeta, naqueles dias se cumprirá o “segredo de Deus” outrora anunciado aos seus profetas e servos (v. 7). Tremendo juízo paira sobre as cabeças da humanidade. Dentro do plano determinado por Deus, se aproxima o tempo em que será estabelecido o reino milenar e mundial do Senhor Jesus Cristo que há milênios fora revelado pelo Seu profeta: “Eis que vem o dia do Senhor... naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras... e o monte será fendido pelo meio... será um dia conhecido do Senhor... E o Senhor será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o Senhor, e um será o seu nome” (Zacarias 14).

 Assim como ocorrera no versículo 4, novamente João ouve a poderosa voz vinda do céu, sem dúvida a do Senhor Jesus, que lhe ordena para que pegue o livro que se encontra na mão daquele anjo forte (v. 8). Ao fazê-lo, João recebe a ordem para que o comesse com a observação de que o seu paladar seria doce ao mastigá-lo, como só é a Palavra de Deus (Salmo 119:103; Jeremias 15:16; Ezequiel 3:3), porém haveria amargor em seu ventre (vs. 9 e 10), pois nele continha os juízos de Deus previstos para a Terra e seus habitantes.

 Diz MacDonald acerca disso: “Conforme predito pelo anjo, o livro é doce como mel, mas amargo ao estômago. Para o cristão é doce ler sobre a resolução de Deus de glorificar o Seu Filho onde, outrora, fora crucificado. É doce ler acerca do triunfo de Deus sobre Satanás e todas as suas hostes. É doce ler sobre o tempo em que todas as injustiças na Terra serão corrigidas. Ao mesmo tempo, contudo, o estudo das profecias também tem um sabor amargo. Há amargor no próprio julgamento produzido pelas Escrituras proféticas. Há amargor na visão dos julgamentos que em breve sobrevirão ao judaísmo e à cristandade apóstata. Há amargor em contemplar a condenação eterna de todos os que rejeitarem o Salvador”.

 O conteúdo deste livro absorvido por João foi para lhe dar a força indispensável para o restante da missão que ele tinha que executar. Havia para ele uma duríssima tarefa pela frente. Era necessário que ele transmitisse aquilo para muitos (v. 11). João cumpriu cabalmente com a sua parte e nos deixou revelado fielmente esses acontecimentos.

 O mesmo ocorre em nossos dias. O verdadeiro cristão não pode quedar-se inerte diante de tamanhas revelações. A omissão será a pior das decisões e haverá um preço a ser pago por isso, pois se não houver quem pregue acerca dessas ocorrências como as almas se livrarão de tão grave desígnio?

 Lembremo-nos, novamente, dos tempos de Noé. As pessoas viviam na incredulidade e praticavam toda sorte de imoralidades que as conduziram à morte. Contudo, Deus não deixou de adverti-las a esse respeito através desse Seu servo. Segundo Pedro, Noé pregou fervorosamente sobre um avassalador juízo que cairia sobre aqueles que desprezavam a Deus (2 Pedro 2:5). Por mais absurdo que lhe poderia parecer, Noé foi temente a Deus e aparelhou uma arca pela qual condenou a humanidade impenitente (Hebreus 11:7). Deus não está a nos pedir que construamos outra arca, mas que testemunhemos perante os incrédulos acerca das verdades contidas neste magnífico Livro. Estou a fazer a minha parte, prezado leitor. Bem haja se assim o fizer! Permita Deus que assim seja!

autor: José Carlos Jacintho de Campos.