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A Caminho do Apocalipse - 13 (3)

"Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo" Apocalipse 1:3

Capítulo 13 (3)

Após os comentários introdutórios expostos nas duas crônicas anteriores, vamos à avaliação dos dez primeiros versículos contidos neste 13° capítulo, que descrevem o surgimento da primeira "besta", lembrando que ainda estamos no terceiro dos quatro grandes parênteses existentes em Apocalipse, que teve início no capítulo 12:1 e se estenderá até o 14:20.

Nesta sua nova visão João contempla algo aterrorizante. O mesmo dragão – o diabo – personificado no capitulo 12 agora se encontra em pé na praia do Mar Mediterrâneo que banha a costa oeste de Israel. Ali João observa atentamente a chegada das duas "bestas" convocadas pelo diabo para executar a execrável missão de assumir malignamente o governo absoluto do mundo e estabelecer o movimento religioso que irá lhe prestar adoração. Isto foi algo que o diabo sempre acalentou, haja vista a absurda proposta que ele fez ao Senhor Jesus quando da tentação no deserto: "Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos... se prostrado me adorares" (Lucas 4:6-7). Como diz W. Kelly, Satanás seguirá os dois caminhos que lhe são peculiares para enlaçar as duas classes de seres humanos que sempre existiram neste mundo: Os que desejam ardorosamente o poder e os que se ligam à religiosidade meramente formal.

Essas duas "bestas" atenderão exatamente a essa perspectiva diabólica. A primeira será um autoritário líder político e militar com grande capacidade intelectual. Por sua vez, a outra será o grande líder religioso que se apresentará como o Messias prometido a Israel e, pelos grandes sinais sobrenaturais que somente ela operará, conforme vemos neste capítulo, aglutinará em torno de si as demais religiões, inclusive o cristianismo apóstata existente à época.

Muitos comentaristas tratam a primeira "besta" como o "chefe" dessa dupla diabólica, mas isso não é necessário que aconteça. Por definição, o "chefe" sempre será o diabo, ele é extremamente ambicioso, arrogante e egoísta, jamais abrirá mão dessa prerrogativa, ambas as "bestas" serão apenas coadjuvantes e uma não será superior à outra, terão funções distintas, mas formarão uma só entidade, como almas gêmeas, com o único objetivo de fazer a vontade do "chefe". Infelizmente a massacrante maioria da humanidade dará crédito a elas.

A interpretação acerca da inferioridade da segunda "besta" é porque está escrito que ela exercerá a autoridade da primeira "besta" (v. 12). Todavia, ao analisarmos o versículo 3, vemos que o poder da primeira "besta" pertence ao diabo, o grande mentor de ambas, que irá tornar a primeira o grande líder mundial para que haja o total extermínio daqueles que se converterão a Deus ao longo da grande tribulação. Não há dúvida que a segunda "besta" será extremamente atuante nesse governo globalizado como poderoso Ministro de Estado, pois terá o controle monetário de todas as nações (v. 17 e 18). Mas isso é assunto para a próxima crônica.

João vê emergir do mar a primeira "besta" (v. 1), sua aparência é bastante similar a do diabo conforme visto no capitulo 12. Por sua vez, a semelhança revelada no versículo 2 combina com as características das quatro bestas contidas em Daniel 7. Escreve R. David Jones: "Este é o homem que se revelará no início do período da tribulação, destinado a conquistar o mundo (montado no cavalo branco em Apocalipse 6.2), subjugando três reis de uma confederação de dez (Daniel 7:24-26, Apocalipse 17:12-13), ele continuará conquistando os demais até adquirir todo o domínio em três anos e meio". Essa é a expectativa do diabo com a chegada dessa criatura repulsiva que por certo virá do ocidente tendo em vista que na visão de João ela emerge do mar, ou seja, fora do continente, a oeste de Israel.

Pelo tanto que se tem escrito a respeito das descrições simbólicas dessa "besta", impressiona o apego que se dá às suas características extrínsecas. A maior preocupação de muitos está em desvendar o significado dos chifres, diademas etc. Conforme interpretado no capítulo 17, os chifres representam governantes que farão parte de uma confederação global sobre a liderança da primeira "besta". Qualquer especulação torna-se infrutífera, pois ficar imaginando que nações serão essas é sobremodo artificial, pois, em termos geopolíticos, o mundo tem se alterado substancialmente após o rompimento da antiga "cortina de ferro" (URSS) e a queda do muro de Berlim (Alemanha Oriental), todas as previsões anteriores sobre essas dez nações caíram por terra e muitos livros se tornaram inúteis.

Se não bastasse isso, qualquer exercício de adivinhação acerca dessas nações será inócuo tendo em vista a gravíssima crise econômica contemporânea que perturba a economia mundial. As teorias econômicas, até então praticadas, já não estão a cumprir com os seus objetivos. Décadas atrás, ninguém em sã consciência afirmaria que a China poderia se tornar uma nação economicamente dominante. Essa realidade caminha a passos largos. O mundo carece de uma nova ordem econômica, quem criá-la certamente terá enorme prestígio e poder. Esse grande artífice, tão desejado, poderá ser esta primeira "besta" que virá. Por isso entendo que o mais importante a ser avaliado é o caráter intrínseco desses dois personagens.

Uma coisa me impressiona! É a fixação que há, por grande parte dos escritores, pelo ressurgimento literal do "império romano" que seria restabelecido com a assunção dessa primeira "besta". A única coisa que restou desse império, além das ruínas arqueológicas, é o Vaticano. Com o papado, iniciado quando Constantino era imperador de Roma, império e igreja andaram como "a mão e a luva" por séculos. A "mão" sumiu, o italiano de hoje nada tem a ver com o romano de outrora. Longe disso! Do antigo império restou somente a "luva", a igreja romana, cujos dirigentes conseguiram sobrepor-se às crises e perseguições que surgiram ao longo dos séculos, ao contrário dos imperadores romanos que sucumbiram. Se houver alguma semelhança com o cruel imperador que está por vir, será somente quanto ao ideário romano de conquista do mundo, todavia outros tiveram o mesmo desejo, a exemplo de Hitler na segunda grande guerra mundial que nada tinha a ver com o antigo império romano.

Esse satânico império terá as mesmas características de Roma na conquista da supremacia mundial e até a mesma localização europeia, mas não passará disso. O repulsivo Nero jamais será ressuscitado como alguns absurdamente sugerem. Haja imaginação! Esteja certo, caro leitor, o líder bestial, que virá, será em tudo muito pior que qualquer antigo imperador que o mundo já viu. Essa ideia de "império romano" começou com aqueles que acreditam equivocadamente que o Apocalipse é um livro somente histórico e, portanto, descreve acontecimentos pretéritos.

Outra grande especulação é acerca da ferida mortal que acometerá a primeira "besta", cuja cura deixará a humanidade maravilhada e passará a segui-la. A sugestão que mais se dá é que ela será morta e o seu mentor a ressuscitará. O diabo nunca terá esse poder que somente a Deus pertence, é impensável a suposição que Deus lhe outorgará essa autoridade. Certamente a "besta" sofrerá um atentado, pois isso está revelado (v. 3), por certo o próprio diabo providenciará que tal aconteça para induzir as pessoas de uma pseudomorte. Isso fará parte de uma imensa encenação para que se creia que o diabo é deus ao fazê-la "ressuscitar" e as pessoas passarão a adorá-lo juntamente com a "besta" (v. 4). Quanto à pergunta contida nesse versículo acerca de quem poderá pelejar contra a "besta", a contundente resposta está no capítulo 19. Paulo já havia previsto esse acontecimento ao revelar que o Senhor Jesus destruirá o iníquo com o simples sopro da Sua boca (2 Tessalonicenses 2:8).

Conforme já vimos anteriormente, esse "príncipe" que virá fará firme aliança com muitos, principalmente com Israel, possibilitando, inclusive, a reedificação do Templo de Jerusalém, mas após três anos e meio no exercício do seu mandato como "imperador do mundo" (v. 7), ele se virará ferozmente contra Israel e por mais três anos e meio proferirá com grande arrogância (v. 5) muitas blasfêmias a Deus e àqueles que já se encontram na presença do Senhor (v. 6), e aniquilará os crentes (v. 7) que se converterão na primeira metade desse período de tribulação.

Não deixa de ser impressionante a revelação de João que toda a humanidade prestará adoração a essa "besta", com exceção, é claro, daqueles que se converterão a Deus na primeira metade desse espaço de tempo (v. 8). Essa imensa maioria que lhe prestará adoração são aqueles que entrarão em juízo por não darem crédito à verdade, antes se deleitarão com a injustiça, conforme afirmado por Paulo em 2 Tessalonicenses 2:12.

Neste trecho, algo extremamente importante ressalta-nos aos olhos. Leia atentamente, caro leitor, o versículo 9... "Se alguém tem ouvidos, ouça".  Expressões semelhantes a esta lemos por sete vezes neste livro: 2:7, 11, 17 e 19; 3:6, 13 e 22. Entretanto, em todos esses trechos há uma complementação: "ouça o que o Espírito diz às igrejas". Por que será que no versículo em questão (v. 9) ele não mais diz "às igrejas"? A resposta é por demais simples. Antes do início da tribulação a Igreja de Deus, que é formada por todos aqueles que verdadeiramente têm ao Senhor Jesus como único e suficiente Redentor, não estarão mais presentes aqui, já terão sido arrebatados e estarão no regaço do seu Senhor (João 14:1-3). Incompreensível, portanto, a insinuação de que a Igreja não será arrebatada antes da chegada da tribulação.

Quanto ao versículo 10, sobremodo interessante o pensamento de W. Kelly: "Estas importantes palavras têm por objetivo guardar os santos de tomarem o poder em suas mãos. Eles podem clamar a Deus, pedir-Lhe que Se levante para julgar a Terra, mas não devem eles próprios combater... a "besta" levará muitos ao cativeiro, mas ela própria irá cativa; matará a muitos, mas ela própria será morta". Portanto, graças a essa certeza, os que creem devem esperar com perseverança e fidelidade, pois Quem fez a promessa é absolutamente fiel.

Lembremo-nos de que esta advertência não se aplica exclusivamente ao tempo que está por vir, mas a todos os filhos de Deus independentemente da época em que aqui estiverem. Que não haja em nós nenhum sentimento de vingança, pois "a mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor" (Romanos 12:19).  Permita Deus que assim seja!

 

autor: José Carlos Jacintho de Campos.