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A Caminho do Apocalipse - 17 (2)

"Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo"
Apocalipse 1:3

Capítulo 17 (2)

A crônica anterior foi encerrada com um “mistério” contido no versículo 5 deste 17° capítulo. Na fronte da estranha figura da mulher nele revelada, a qual representa o sistema religioso e comercial que será instituído em meio à grande tribulação, está escrito algo que o anjo desta revelação destaca como sendo misterioso: “Babilônia, a grande, a mãe das meretrizes e das abominações da terra”. De plano, as pessoas são levadas equivocadamente a uma postura mística diante da expressão “mistério”, todavia o Senhor Jesus deixou asseverado que “nada há oculto, que não seja revelado, nem escondido, que não venha a ser conhecido” (Lucas 8:17). Não existe nada de “místico” nessa assertiva angelical, afirmações nesse sentido não passam de bobagens criadas pelos ocultistas, prática esta que lamentavelmente campeia entre vários que se identificam como “cristãos”, mas que por suas práticas se desqualificam e deixam revelado que não passam de meros rótulos institucionais.

Por oportuno, em crônica recente acerca da expressão de Paulo contida em 1 Coríntios 2:7, Jayro Gonçalves deixou asseverado o entendimento correto sobre o significado de “mistério” nas Escrituras: “A palavra “mistério” no Novo Testamento tem o sentido de algo que está sendo revelado, não alguma coisa que nos mistifica. Nesse sentido o ensino de Paulo é que Deus Se revela aos que dEle se aproximam em Cristo. O conhecimento de Deus é, pois, “misterioso” no sentido de que o homem natural, agindo por suas próprias faculdades, não pode recebê-lo (1 Coríntios 2:14)... Uma verdade antes oculta, agora revelada por Deus e aceita somente pela fé... não tem o caráter de misterioso ou enigmático que o homem tem dificuldade em resolver, mas um segredo que ao homem é totalmente incapaz de penetrar... Paulo diz “outrora oculto”, acentuando o fato de que os homens que não estão em Cristo estão ainda às escuras em relação a tal segredo”.

Diz também acerca disso R. David Jones: “Vemos que os mistérios da Bíblia são realidades antecipadamente conhecidas por Deus e reveladas na ocasião oportuna para a sabedoria da humanidade, em contraste com a sabedoria resultante da filosofia humana (veja especialmente 1 Coríntios 2:1-16 e compare com Mateus 11:25). O contraste não consiste em que a filosofia é humanamente compreensível enquanto os mistérios estão obscurecidos, mas que a filosofia é produto de pesquisa intelectual humana, enquanto os mistérios são revelação divina e se discernem espiritualmente... A fé cristã não tem doutrinas secretas, pois seus mistérios são revelações feitas à humanidade por Deus pelo Seu Espírito em tempo oportuno de coisas que Ele, ciente de tudo, já sabia antecipadamente”.

Portanto, por definição, a palavra “musterion” contida nas Escrituras tem o significado etimológico de uma revelação divina que não pode ser alcançada pela inteligência, filosofia ou sabedoria humana sem o auxílio de quem a explicitou: o próprio Deus. Deixando, pois, o misticismo de lado, prossigamos ao que interessa.

Diante daquele “mistério” representado por aquela extravagante personagem (v. 5), prossegue João: “Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com grande espanto” (v. 6). Por certo a cena não foi nada agradável aos seus olhos e grande foi o espanto do consagrado apóstolo. Imaginemos, caro leitor, a figura grotesca que ele estava a contemplar! A figura simbólica de uma mulher completamente bêbada e totalmente ensanguentada pelo martírio que será cruelmente aplicado àqueles que estarão a professar o senhorio do Senhor Jesus Cristo em suas vidas durante o trágico período da grande tribulação que está por vir. Sem dúvida, imensa foi a tristeza de João diante daquela visão.

Mas, de pronto, chega a ele o socorro esclarecedor: “O anjo, porém, me disse: Por que te admiraste? Dir-te-ei o mistério da mulher e da besta que tem as sete cabeças e os dez chifres e que leva a mulher: a besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá (vs. 7-8). Não há dúvida, apesar da interpretação dada pelo anjo, o contexto destes dois versículos não é de fácil entendimento, principalmente o versículo 8. Portanto, diante da dificuldade deixemos que prevaleça exclusivamente o que está revelado nos textos bíblicos, deixando de lado as interpolações pessoais ainda que não tenhamos uma compreensão exata neste momento.
 
O que estaria a dizer o anjo com a expressão: “a besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição”? Note bem, caro leitor, o que ele está a afirmar em outras palavras: A “besta”, que viste surgir para ser o grande líder do império diabólico a ser instalado neste mundo, saiu de cena e agora está de volta! A esta altura convém que seja lembrado que estamos nos inícios do último grande parêntese profético, dos quatro existentes neste Livro, portanto o texto nele contido não faz parte da sequência cronológica dos acontecimentos, se assim não entendermos jamais chegaremos a uma compreensão exata dos fatos descritos por João. Vamos a eles:

1.    “a besta que viste” – A quem o anjo está a se referir? Sem nenhuma dúvida ao abominável ente visto por João no capítulo 13:1-10 (que faz parte do terceiro grande parêntese). Nele João teve a revelação acerca do grande líder que surgirá e submeterá este mundo ao seu domínio, inspirado pelo seu gestor, o diabo, que proporcionará a esse bestial líder “autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação” (13:7). Como diz J. Allen, “a ‘besta’ terá uma ascensão meteórica em autoridade e poder, e certamente estará sendo capacitada antes de se revelar no início da grande tribulação. O que é aqui enfatizado é que ela já teria uma história antes deste ponto central da tribulação”.

2.    “era e não é” – Conforme narrado no mesmo capítulo 13, João teve a seguinte visão: “Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte” (13:3a). A chaga mortal levará as pessoas a entender que o grande líder foi morto, ou seja, “não é” mais. Mas repentinamente ele voltará em grande estilo, de crueldade é claro. Isto fará parte do jogo de cena do diabo para que o mundo, em um breve espaço de tempo, se sinta desorientado pela aparente morte da “besta”, mas posteriormente as pessoas ficarão admiradas pelo seu surpreendente “ressurgimento”, pois a sua ferida mortal será curada e toda a terra se maravilhará seguindo a “besta” (13:3b).

3.    “está para emergir do abismo” – Como resultado da aparente morte, haverá a pseudorressurreição da “besta”. Isto já foi visto no segundo grande parêntese, que descreve o ministério das duas testemunhas de Deus que serão mortas pela “besta” ressurgida do “abismo” (11:7). Afinal, que “abismo” é esse? R. Watterson escreve a respeito: “Não significa o inferno onde estão aqueles que morrem sem a salvação, nem significa o lago de fogo, onde os perdidos sofrerão eternamente, mas é o lugar onde os demônios podem ficar presos (Lucas 8:31) e onde Satanás ficará preso durante o Milênio (Apocalipse 20:1-3)”. Portanto, o “abismo” é uma figura apocalíptica para o “reino satânico”, e desse contexto a “besta” reaparecerá “corporificada” pelo mal, pelas forças diabólicas do “abismo”, para reassumir o seu império, não se tratando, portanto, de uma ressurreição, mas de um engodo.

Mas como acontecerá essa “corporificação”, se a “besta” é um ser humano como nós? Esse assunto é um campo vasto, que procurarei resumir. Há quatro níveis de ação demoníaca: opressão, obsessão, sujeição e possessão. Todas as pessoas, inclusive os cristãos, não estão isentos da “opressão” demoníaca por meio das tentações, que envolvem a cobiça dos olhos, da carne e a soberba da vida; a “obsessão” é a intensa preocupação que a pessoa passa a ter com forças ou fenômenos ocultos, curandeirismo, adivinhações, astrologia (há pessoas que não saem de casa sem lerem o horóscopo do dia etc.); a “sujeição” é a antessala da “possessão”, as pessoas se tornam tão habituadas às mistificações que passam a acreditar em qualquer vento de crendice, menos em Deus; finalmente chega-se à corporificação (“possessão”), ou seja, a habitação demoníaca nas pessoas, algo bastante atuante no Novo Testamento, onde vemos os possessos serem identificados como endemoninhados (Marcos 1:23-27, 32-34; 3:11-12; 3:14-15; 7:25-30; 9:17-29; 16:9; Lucas 10:17; Atos 5:16; 8:7; 16:16-18; 19:12). No retorno da “besta” ela estará completamente “possuída” pelo “abismo”, por certo seu jugo será algo tenebroso, jamais dantes visto pela humanidade. É sobremodo importante deixar aqui ressaltado, que os cristãos autênticos em nenhuma hipótese podem sofrer “possessão” demoníaca, pois é impossível que naquele em que habita o Espírito Santo seja também morada de demônios.

4.    “e caminha para a destruição” – Isto veremos ao final deste quarto grande parêntese, quando da vinda do Senhor Jesus como Rei dos reis e Senhor dos senhores para estabelecer o Seu Reino milenar (19:11-16). Haverá um imenso confronto com a “besta” e os exércitos existentes à época, a sua destruição será arrasadora e tanto ela, a “besta”, como o “falso profeta”, serão aprisionados e “lançados vivos dentro do lago do fogo que arde com enxofre” (19:19-20). Tenhamos em lembrança, caro leitor, esses dois terríveis personagens são seres humanos como nós, todavia a serviço do seu senhor, o diabo. Portanto, a expressão “lançados vivos” ao inferno é sobremodo horrenda, pois ali “serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos” (20:10).

Como vemos, em nenhuma hipótese se pode subestimar as artimanhas do diabo, realmente ele é sagaz e fica a serpear a todos que estão ao seu redor a fim de arrastar consigo os desavisados, aqueles que se deixam levar pelos seus enganos, inclusive através das muitas religiões existentes neste mundo que até dizem que creem no Senhor Jesus, mas de fato não servem ao Deus Todo-Poderoso, ao contrário, estão a serviço dos seus próprios deleites.

Na próxima crônica serão analisados os versículos restantes deste capítulo. Enquanto isso, não percamos de vista o que vimos até agora, pois isso poderá significar que muitos estarão a caminho de tormentos eternos pelo silêncio daqueles que têm conhecimento desses fatos e por motivos inexplicáveis permanecem indiferentes. Não pode ser esquecido que todo aquele que deposita uma fé autêntica no Senhor Jesus, não pode ser omisso, pois terá que prestar conta: “Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão” (1 Coríntios 3:14). Permita Deus que assim seja!

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autor: José Carlos Jacintho de Campos.