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A Caminho do Apocalipse 20 (4)

“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia,
e guardam as coisas que nela estão escritas;
porque o tempo está próximo”

Apocalipse 1:3

CAPÍTULO 20 (4)

Na parte final deste capítulo (vs. 11 a 15) a visão de João é sobremodo espantosa. Não no sentido de causar medo, mas por trazer profunda admiração por ser algo digno de apreciação. Diz-nos João: "Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles" (v. 11). O Céu e a Terra sumiram! É como se tudo estivesse suspenso no espaço.

Atente, prezado leitor, para a expressão de João, ele não mais conseguia ver a Terra e o Céu. Por certo poderá surgir uma indagação em sua mente: “Mas como desapareceram? Em não havendo mais Céu e Terra para onde foi aquela imensa multidão de salvos durante o reino milenar do Senhor Jesus, pois, por definição, estes não comparecerão perante esse trono?” Sem dúvida uma boa pergunta tendo em vista que neste capítulo nada consta a esse respeito, apenas que as coisas visíveis “fugiram”.
 
Não podemos deixar de lembrar, sob nenhuma hipótese, que o “contexto” das Sagradas Escrituras é perfeito, pois foi por Deus estabelecido e muitos em nossos dias estão a se esquecer disso. Observe, prezado leitor, o que Pedro diz a respeito desse dia: “o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas” (2 Pedro 3:10). Note que ele fala em “céus”? E tinha que ser, pois vemos nas Escrituras a descrição de três céus, a saber:

  1. Atmosférico – É o ar que nos rodeia e, segundo Paulo, é a região dimensional de Satanás – “o príncipe da potestade do ar” (Efésios 2:2);
  2. Astronômico – Lugar dos astros, o espaço sideral (Jó 38:31-33);
  3. Domicílio de Deus – Diz Paulo: “Conheço um homem (ele próprio) que, há catorze anos, foi arrebatado até ao terceiro céu (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) e sei que o tal homem... foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir..." (2 Coríntios 12:2-4). Como vemos, Paulo afirma que foi arrebatado ao “terceiro céu” que ele identificou como o “paraíso”. Segundo João, em Apocalipse 2:7, trata-se do “paraíso de Deus”, ou seja, a morada de Deus, de seus anjos e de seus santos que já estão na Sua presença, como disse o Senhor Jesus ao malfeitor redimido na cruz: “Em verdade te digo que hoje estará comigo no paraíso” (Lucas 23:43).

Pois então, respondendo a sua pergunta, o contexto bíblico deixa de forma bastante clara a existência desses “três céus”. O que João não está mais a ver é o “firmamento”. Os céus, atmosférico e astronômico, que foram criados por Deus, conforme lemos em Gênesis, mas o “terceiro céu” permanecerá inalterado, e todos os remidos do Senhor, desde a fundação do mundo, até o início do Grande Dia do Senhor, com Ele estarão quando “a terra e o céu” sumirem, pois esta é a promessa transmitida por Paulo: “estaremos para sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).

Para sempre não é de vez em quando, mas a todo instante. “Sim”, você dirá! Mas também interrogará: “Não vemos nesse texto que estaremos junto a Ele no Grande Trono Branco?” Se assim pensar será engano seu, veja o que nos diz Paulo: "Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?” (1 Coríntios 6:2-3). Portanto, lá com Ele estarão os Seus.

“Ah! Mas neste texto não cita os anjos?” É verdade, porém o contexto bíblico diz: "... e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia" (Judas 6). Portanto, conforme diz Judas, o meio-irmão do Senhor Jesus, os anjos caídos estarão entre aqueles que serão julgados no Grande Dia do Juízo Final. Leia também 2 Pedro 2:4. Pessoalmente, tenho absoluta convicção de fé que lá estarei como partícipe desse julgamento, mas não como réu.

Voltemos ao texto do versículo 1. Naquele dia não existirá lugar onde se esconder, pois é chegado o Grande Dia que foi contemplado de longe pelo antigo profeta: "Ah! Que dia! Porque o Dia do Senhor está perto e vem como assolação do Todo-Poderoso" (Joel 1:15). Escreve W. MacDonald acerca desse grande trono branco: “É grande por causa das questões envolvidas e branco devido à perfeição e pureza dos vereditos que ali serão dados”. Nele estará assentado o Senhor Jesus como justo Juiz. O Pai Lhe confiou todo o julgamento e Lhe deu autoridade para julgar (João 5:22-27). Não haverá escapatória. Aqueles, em todos os tempos, desde a fundação do mundo, que não fizerem parte da bem-aventurada “primeira ressurreição”, comparecerão diante do trono do Juízo de Deus.

Fico a pensar, prezado leitor, na reação que esses réus terão. Ao longo de suas vidas muitíssimos estiveram a escarnecer de Deus e naquele Dia ali estarão face a face com Aquele que tanto ridicularizaram. Outros viveram professando uma fé enganosa, conforme nos diz o Senhor Jesus: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade" (Mateus 7:21-23). Quantos desses vemos em nossos dias, não é mesmo? Poderá vir à mente a expressão: “Bem feito! Fizeram por merecer”. Entretanto isso me pesou ao coração, pois talvez eu tenha falhado em meu testemunho, me omitido diante das oportunidades que surgiram, ou então não tenha me esforçado como deveria em manifestar a minha fé e, por conta disso, alguns (ou muitos) lá estarão.
 
Prossegue o consagrado apóstolo: "Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras" (vs.12 e 13). Atentemos para as expressões: mortos, grandes e pequenos, o mar, a morte e o além deram os “mortos” que lá se encontravam. Não haverá nenhuma exceção, nenhum esconderijo possível. Todos estarão nivelados, não mais importando a condição social que tiveram, a cor da pele, o poder econômico e a inteligência que possuíram quando em vida. As sepulturas, os tragados pelo mar e o “além”, local onde se encontram as almas daqueles que estão em tormentos no aguardo do Juízo de Deus, estarão ressurretos diante do reto Juiz.

Os livros serão abertos, inclusive o Livro da Vida. Nenhum dos que serão julgados nesse Dia estarão inscritos nesse Livro. Nele constarão somente aqueles que fizeram parte da “primeira ressurreição” conforme já vimos. Mas será importante a apresentação do Livro da Vida para que saibam que todos tiveram a mesma chance que foi negligenciada quando vivos, portanto não haverá justificativas. Como diz Paulo: "porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis" (Romanos 1:19-20).

Atentemos, também, para a expressão de João: “E foram julgados, um por um, segundo as suas obras". O Juízo será individual – “um por um” –, logo a punição eterna que terão será segundo os seus feitos enquanto em vida. A esta altura você poderá arguir, prezado leitor: “Pera lá, quanto tempo levará para que este julgamento se complete dada a quantidade imensurável daqueles que serão julgados?” Neste momento a contagem de tempo não será a mesma que conhecemos. Consensualmente entende-se que há três medidas de tempo: O “khronos” que se refere ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido, ou seja, o nosso tempo; “kairós” refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece; e o “aión” que no grego tem por significado “idade ininterrupta”, “sempre-existente”, “perpetuidade” ou simplesmente “eternidade”, diz respeito ao tempo divino e eterno, sem uma medida determinada, onde as horas não passam cronologicamente, portanto este é considerado o tempo de Deus e nele ocorrerá o Seu Juízo. Nesse triste acontecimento a queda das horas não será sentida como em nossos dias. Digo triste, pois enquanto "preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos" (Salmo 116:15), Deus não se regozija com a morte do pecador: "Acaso, tenho eu prazer na morte do ímpio? – diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?" (Ezequiel 18:23).

Surge outra questão: Que escala de punições haverá se cada um destes será julgado “segundo as suas obras”? Não sabemos, Deus não quis deixar revelado e isso nos basta. Diz a esse respeito W. MacDonald: “O fato dos seus nomes não estarem no Livro da Vida os condena, mas o registro de suas obras más determina o grau do castigo ... Assim como haverá graus de recompensa no Céu, também haverá graus de castigo no inferno, determinados com base nas obras dos incrédulos”. O que nos importa, hoje, prezado leitor, é termos a maior das certezas que não estaremos entre estes que irão para a perdição eterna.

João finaliza esta sua visão: "Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo" (vs. 14 e 15). O final revelado é inexorável, porém inquestionável. Este será o estado eterno dos maus, dos indiferentes, dos omissos, daqueles que acham que a Bíblia é um livro de contos, mitos ou lendas. Isto lhes custará extremamente caro, porque a vida não terá fim mesmo depois da segunda morte, ao contrário, para estes a vida continuará em um lugar de terrível sofrimento: “o lago de fogo”. O Juízo de Deus será eterno! A “primeira morte” é provisória, faz a separação do corpo físico da alma e espírito, a “segunda morte” é eterna, será a completa separação de Deus.

H. V. Alford faz um oportuno destaque acerca dos “livros” que serão abertos no Dia do Juízo Final com o Livro da Vida, de que eles serão testemunhas independentes de um mesmo fato: o registro da Terra (os livros que serão abertos) revelará através das “obras” que não há evidência de “vida divina”, ao passo que, o registro do Céu (o Livro da Vida), mostrará pela ausência do nome que nunca houve “vida” naqueles que estarão perante o Grande Trono.

Portanto, caro leitor, é de fundamental importância que você esteja convicto que o seu nome já consta no Livro da Vida. Tenha em mente aquilo que o Senhor Jesus asseverou por ocasião do regresso dos setenta discípulos que Ele encaminhou para uma missão, que se regozijavam pelos demônios que se submetiam à autoridade que lhes fora outorgada pelo Senhor Jesus: “...alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e, sim, porque os vossos nomes estão arrolados nos céus” (Lucas 10:20). Isso é o que importa, conforme nos diz Paulo: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2:8-9). Permita Deus que assim seja!

autor: José Carlos Jacintho de Campos.