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A organização das igrejas locais

AS IGREJAS DE DEUS

Atos dos Apóstolos registra apenas uma pequena parte do trabalho de dois apóstolos — Pedro e Paulo. Não relata tudo que estes servos de Deus fizeram, mas apenas alguns incidentes escolhidos pelo Espírito Santo. Quanto aos outros apóstolos e aos demais servos de Deus, que sem dúvida trabalharam muito, o livro relata quase nada.

“Atos” não apresenta um quadro completo das atividades de nenhuma igreja, mas relata algumas atividades de algumas igrejas — como por exemplo a que estava em Jerusalém e, mais tarde, a que estava em Antioquia.

Fica evidente, portanto, que o propósito deste livro não é fornecer uma história dos primeiros anos da igreja, mas sim, fornecer um modelo que deve ser seguido por pregadores e por igrejas até o Arrebatamento. Este modelo não é difícil de se perceber.

O MODELO

Por ser tão diferente daquilo que vemos ao nosso redor, a simplicidade deste modelo nos impressiona muito; nos surpreende. Apresenta um contraste nítido com a organização e o institucionalismo que agora caracterizam o cristianismo.

A DEPENDÊNCIA

A pregação apostólica começou em Jerusalém, não porque eles decidiram que seria o melhor lugar para começar, mas porque o Senhor mandou começar ali (Lucas 24:47). Esta dependência da direção divina, tanto no trabalho dos apóstolos como nas atividades das igrejas, caracteriza Atos dos Apóstolos, e fica cada vez mais clara à medida que avançamos na leitura do livro.

Os apóstolos não escolheram um outro para tomar o lugar de Judas, mas pediram que o Senhor mostrasse aquele que Ele havia escolhido (Atos 1:24). No dia de Pentecostes eles não falaram quando e como quiseram, mas "conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (Atos 2:4).

Naqueles dias houve uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém, e todos foram dispersos, exceto os apóstolos (Atos 8:1). Os que foram dispersos iam por toda a parte anunciando a Palavra (Atos 8:4). Um deles, Filipe, estava pregando em Samaria quando o anjo do Senhor lhe disse: "Levanta-te e vai para a banda do sul…" (Atos 8:26). Ele levantou-se e foi. Ao chegar naquele lugar deserto, ele viu um carro se aproximar e o Espírito Santo lhe disse: "Chega-te e ajunta-te a esse carro" (Atos 8:29). Filipe obedeceu e o eunuco foi salvo e batizado e logo o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe (Atos 8:39).

Através destes exemplos Deus está dizendo que os Seus servos devem estar livres para obedecer as Suas ordens. Não devem estar presos a um trabalho planejado por uma entidade missionária, ou outra qualquer. Aqueles pregadores não foram enviados por uma igreja, nem por uma organização criada para promover o evangelismo. Foram enviados e guiados pelo Senhor e pelo Espírito Santo (Atos 13:4).

Mais tarde vemos um caso muito importante que confirma o que já notamos. Paulo, Barnabé e Timóteo tiveram a intenção de anunciar a Palavra na Ásia, mas foram impedidos pelo Espírito Santo. Em seguida, tentavam ir para Bitínia mas o Espírito de Jesus não lho permitiu. Concluindo então que o Senhor os chamava para pregar em Macedônia, foram para lá (Atos 16:6-10).

A INDEPENDÊNCIA

Voltando a pensar naqueles que foram expulsos de Jerusalém por causa da perseguição, vemos que alguns deles chegaram em Antioquia. Começaram a anunciar o Senhor Jesus aos gregos, e a mão do Senhor era com eles, e grande número creu e se converteu ao Senhor.

As notícias logo chegaram em Jerusalém, e a igreja enviou Barnabé, o qual, quando viu a graça de Deus, alegrou-se e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, e partiu para Tarso a buscar Saulo, e ficaram com a igreja em Antioquia um ano inteiro, e ensinaram muita gente.

Mais uma vez ouvimos Deus falar através destes exemplos. Ele está dizendo que as igrejas devem ser autônomas, porém unidas por laços espirituais. Barnabé não organizou a igreja em Antioquia; não uniu aquela igreja a uma união de igrejas já existente; na verdade, não lhe acrescentou coisa alguma. Simplesmente exortou a todos que PERMANECESSEM no Senhor — isto é, que continuassem na posição na qual ele os encontrou. Esta igreja nova não se uniu a um movimento, com ou sem nome, mas uniu-se ao Senhor (Atos 11:19-26).

Este modelo — servos do Senhor independentes de organizações humanas, e igrejas autônomas e independentes, sem nenhum vínculo denominacional ou institucional, é destacado no Novo Testamento. Não existe nenhum corpo parcial que seja maior do que a igreja local e menor do que a igreja gloriosa que Ele há de apresentar a Si mesmo (Efésios 5:27). Havia muitas igrejas na Galácia, mas não se formou “A igreja da Galácia”. Qualquer união de igrejas, seja qual for o seu nome, ou quais forem os seus propósitos, é um corpo sectário que inclui alguns cristãos e exclui outros. É exclusivista, não reconhecendo a "unidade do Espírito" que temos a responsabilidade de guardar. Deus não quer que as igrejas se unam formalmente, mas sim que os laços que as unem sejam unicamente espirituais — o laço duma vida comum em Cristo, uma atração à Sua pessoa, e uma submissão à Sua palavra. O modelo deixado nas Escrituras é claro, embora seja desprezado pela sabedoria carnal e terrena.

Examine bem o livro de Atos dos Apóstolos e verifique se há lugar naquele modelo para uma entidade que visa harmonizar os esforços de igrejas locais, no sentido de desenvolvimento do ministério do Evangelho. Verifique se há lugar para uma entidade que fomente a cooperação entre as igrejas para equipar "obreiros" através de instituições objetivamente criadas para esse fim.

Não existiram tais entidades nos dias apostólicos. E não foi porque faltou tempo para organizá-las; foi porque a sua existência é incompatível com o modelo deixado em Atos dos Apóstolos.

Este fato coloca cada igreja local diante de uma escolha das mais importantes: seguir o modelo deixado nas Escrituras, ou filiar-se a uma união de igrejas. A sua sobrevivência depende da resposta.

 


A HISTÓRIA SE REPETE

Temos observado um modelo claro, e muito simples, em Atos dos Apóstolos. Cada igreja local era autônoma e os laços que as uniam eram unicamente espirituais. A direção do trabalho, tanto das igrejas locais quanto dos servos de Deus individualmente, era do Espírito Santo. Não havia comitês para planejar e coordenar as atividades, nem para preparar grandes projetos e campanhas.

Muitas pessoas em nossos dias esquecem, ou ignoram, este modelo que Deus deixou para as Suas igrejas e Seus servos; acham que igrejas locais são fracas e incapazes de realizar o grande propósito de Deus. Com as melhores das intenções, essas pessoas tentam organizar as atividades da igreja local e orientar os movimentos dos servos de Deus. Daí, é um passo pequeno para a organização regional, nacional e até mundial.

A HISTÓRIA NOS ENSINA

Quando consideramos a história das igrejas locais, descobrimos que a situação que vivemos hoje não é nova. Gerações passadas tiveram que enfrentar o mesmo dilema e em muitos casos acharam que a solução seria unir as igrejas, coordenando suas atividades para realizar grandes projetos, mas o resultado sempre foi o mesmo. As igrejas locais não foram fortalecidas; foram destruídas, e tornaram-se numa grande organização eclesiástica, sem a presença de Deus no seu meio.

O exemplo mais conhecido deste erro vemos ao nosso redor ainda hoje. A organização que todos conhecem como Igreja Católica Romana é o resultado, hoje, de uma simples união de igrejas verdadeiras e autônomas que aconteceu há muitos séculos. Convém notar como aconteceu. Convém ouvir a voz da história contar como os cristãos foram levados a trocar o modelo que Deus havia deixado, para seguir uma orientação humana.

Isto não aconteceu de repente. Foi o resultado de um processo, às vezes lento, que parecia lícito e também benéfico, mas finalmente transformou aquelas igrejas autônomas numa união forte, sob o controle de um só homem.

Como aconteceu isto? O primeiro passo foi uma mudança no governo de cada igreja local. Em Atos dos Apóstolos, vemos como havia em cada igreja local uma pluralidade de presbíteros, constituídos pelo Espírito Santo, para apascentar o rebanho. Este fato é confirmado pelo ensino das epístolas.

Escritores do século II, porém, nos surpreendem com as freqüentes referências a "o bispo" da igreja local. Homens como Inácio e Policarpo que conheciam pessoalmente alguns dos apóstolos escreveram cartas nas quais falam dos presbíteros e do bispo duma igreja local. Ainda reconheciam uma pluralidade de presbíteros em cada igreja, mas entre eles, um seria visto como o líder, e aos poucos recebia o título de o bispo da igreja em tal e tal lugar.

O segundo passo foi uma seqüência lógica do primeiro. Estes "bispos" começaram a se reunir, informalmente, para discutir ou trocar idéias sobre assuntos de interesse comum. Estes Encontros dos bispos, eram informais, e as suas conclusões não eram vistas como decisões que as igrejas tinham de acatar.

Com o passar do tempo, estes Encontros tornaram-se cada vez maiores, e cada vez mais freqüentes, e logo surgiu o "bispo metropolitano". Este era o bispo de uma igreja grande e influente que poderia ajudar, e conseqüentemente influenciar as igrejas na sua região. A autonomia tornou-se uma mera teoria ou doutrina que na prática era pouco respeitada

Como era de se esperar, começou a surgir uma grande rivalidade entre estes bispos metropolitanos; cada um queria ser o maior. A medida que o seu domínio se firmava, a disputa pela liderança mundial ficou mais definida; foi uma disputa entre os bispos de Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma.

Finalmente, o Imperador Constantino, sem renunciar sua condição de Pontífice Máximo dos pagãos, assumiu a mesma posição entre os cristãos e logo passou a convocar e presidir concílios que agora impunham suas decisões e as sustentavam pelo poder do Império. O lindo quadro da simplicidade da autonomia, visto na Bíblia, não só foi desfigurado mas apagado. A União das igrejas já existia. Rui Barbosa, o célebre brasileiro, escreveu na introdução do livro que traduziu, intitulado "O Papa e o Concílio": "Foi o que entrou a suceder sob Constantino … O Imperador, não batizado, recebe o título de bispo exterior: julga e depõe bispos; convoca e preside concílios; resolve sobre dogmas. Já não era mais esta … a igreja dos primeiros cristãos".

Mas esta união nunca foi completa. C.H.Lang escreve no seu livro "The Churches of God"("As Igrejas de Deus"): "… a união nunca foi completa no sentido de incluir todas as comunidades cristãs … Algumas igrejas continuaram independentes" (págs. 27,28). Estas igrejas independentes permaneciam na simplicidade do modelo bíblico, e foram cruelmente perseguidas pela Igreja Institucional.

E a história se repetiu diversas vezes. As igrejas que recusaram entrar na "União" no século IV, mais tarde vieram a cair no mesmo erro, mas sempre havia um remanescente que perseverava na doutrina dos apóstolos. Este espaço não permite muitos detalhes, mas não podemos deixar de citar a tão falada Reforma do século XVI.

Martinho Lutero compreendeu nitidamente o plano de salvação, e viu claramente o modelo da igreja local, como podemos ver num tratado que escreveu em 1526 a.D., Johannes Warns, no seu livro "Baptism" ("Batismo") relata como Lutero, após uma intensa luta consigo mesmo, abandonou estes princípios, achando que teria maior progresso no Evangelho se tivesse o apoio do Estado. Seguiu o mesmo caminho de muitos antes dele, desprezando o modelo bíblico e seguindo o caminho da sabedoria terrena.

Estes fatos históricos me preocupam muito. É impossível ver os passos pelos quais as igrejas plantadas em dias apostólicos foram levadas a trocar a sua posição original para formar a organização religiosa hoje liderada pelo Papa, sem sentir uma preocupação profunda, pois parece que estamos seguindo o mesmo caminho! Quando lembramos da mudança no governo interno das igrejas do século II, com o surgimento de "o bispo" da igreja local, olhamos com grande receio à idéia cada vez mais comum que quer um "Obreiro" em cada igreja local para trabalhar com o presbitério. E já temos até eventos que pela sua simples realização estimulam essa proposta além de outras de gênero semelhante. E tudo parece tão lícito, tão benéfico, tão necessário. E agora vem uma união de igrejas! Irmãos, despertem!


Conseqüências De Uma “União De Igrejas”

No artigo anterior vimos que as igrejas de Deus afastaram-se gradativamente do modelo que Deus estabelecera. Afastamento do modelo pode produzir um crescimento numérico, mas sem dúvida, traz um enfraquecimento espiritual.

Alguns irmãos, que zelam pelo rebanho, estão sentindo esta fraqueza, e também a necessidade de fazer algo para melhorar a situação. Já temos visto como, no passado, este reconhecimento de fraqueza levou muitos irmãos à conclusão de que era necessário formar um corpo que pudesse coordenar as atividades destas igrejas. Desta forma, afastaram-se ainda mais do modelo. O resultado sempre foi desastroso!

Hoje sentimos a fraqueza das igrejas; é inegável. Que sejamos guardados para não cairmos no mesmo erro dos irmãos dos séculos passados. Precisamos entender que esta fraqueza que vemos por toda parte é resultado do afastamento do modelo, e uma união feita por nós vai piorar ainda mais a situação; a solução é reconhecer o nosso desvio, e voltar à simplicidade do modelo que está nas Escrituras. É um paradoxo, a união divide:

1 - Uma união de igrejas, seja qual for o seu nome, é divisória. Independente dos seus propósitos, ela divide, pois inclui algumas igrejas e exclui outras. Mesmo se ela quer incluir todas as igrejas, ela levanta barreiras pelos estatutos que regem as suas atividades. As igrejas que não as aprovam, não se filiam a ela, e a união torna-se em algo sectário e exclusivista.

2 - Uma união de igrejas não guarda a unidade do Espírito. As Escrituras são claras neste ponto. "Pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres …" (I Cor. 12:13). Efésios confirma e enfatiza: "Há um só corpo e um só Espírito …" (Ef. 4:4). Neste contexto, somos exortados a "guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz" (Ef. 4:3).

Note bem que temos que guardar uma unidade que já existe — não fazer uma unidade. Observe também que esta unidade é do Espírito — jamais foi feita pelos homens ou registrada em Cartório. Seus laços são espirituais.

Fazem parte desta unidade todos os salvos desde aquele dia de Pentecostes, do qual lemos em Atos 2, até o arrebatamento dos que são de Cristo. Portanto, esta unidade é composta de pessoas, não de igrejas. Não é um grupo de congregações unidas pelos homens, mas é uma multidão de pessoas, unidas pelo Espírito. Não é a soma de todos os membros das igrejas, pois muitos salvos já estão na glória. Outros salvos ainda vivos, não estão em comunhão numa igreja local, por várias razões; e alguns membros das igrejas locais não estão incluídos na unidade do Espírito, pois são joio — meros professos.

Formar uma união de igrejas, portanto, é desprezar ou ignorar a unidade do Espírito, pois, ao invés de guardar aquela unidade que o Espírito criou, forma-se outra que não é co-extensiva com a que é do Espírito. Formar uma união de igrejas, dividindo o povo de Deus, é desobedecer o mandamento: "Procurai guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz".

3 - Um dos objetivos de qualquer união de igrejas é coordenar o trabalho destas igrejas para que seja mais eficiente. Pensa-se que tal união resultará num trabalho mais organizado e melhor planejado, produzindo maior crescimento.

Há muito perigo nisto! Não é assim que Deus faz o Seu trabalho. Ele usou Gideão com apenas trezentos homens para derrotar um inimigo fortíssimo. Ele entregou Sua mensagem ao Sumo Sacerdote através de um menino, Samuel. Ele confiou a tarefa de pregar o Evangelho ao mundo inteiro a um pequeno grupo de homens "sem letras e indoutos", e sem qualquer expressão social; Ele escolhe as coisas fracas, sim, as desprezíveis para confundir as fortes. Na verdade, os Seus pensamentos não são os nossos (Is. 55:8). A fraqueza (aos olhos dos homens) das igrejas locais não é um empecilho para a realização dos propósitos de Deus; pelo contrário, é o meio pelo qual Deus aperfeiçoa a Sua força, para que nenhuma carne se glorie perante Ele.

CONCLUSÃO: Mais uma vez, estamos vendo as igrejas em vários países, buscando uma nova forma de ser. Estão vendo a inegável fraqueza do testemunho, e a grande inércia e desânimo que tomou posse de muitas igrejas. Querem fazer algo para melhorar. A intenção é louvável; a única solução é humilhar-nos perante Deus, reconhecer que a fraqueza atual é conseqüência do nosso desvio do modelo bíblico, e retornar à simplicidade daquele modelo. "Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo" I Cor. 10:15.

 

autor: Ronaldo E. Watterson.