• Português

Conte-me mais sobre a igreja (5)

 

Uma versão editada dos

Princípios da Igreja no Novo Testamento de Arthur G. Clarke

Autorização concedida pela John Ritchie Christian Publications

Traduzido por R. David Jones

CAPÍTULO 5

A ADORAÇÃO E O SACERDÓCIO

O QUE É ADORAÇÃO?  

Adoração sempre significa demonstrar um grande respeito e homenagem para alguém dela merecedor. No sentido mais elevado, é dar a Deus humildemente a homenagem e a honra que Ele merece.

Podemos aprender mais sobre a adoração através do estudo dos muitos exemplos citados na Bíblia, e as palavras originais usadas para descrever a adoração.

  • Uma dessas palavras significa prostrar-se em frente de uma pessoa para prestar-lhe uma homenagem. Isto é o que um leproso fez quando veio para Jesus (Mateus 8:2). Ela descreve a ação exterior, que deve ter uma atitude interior correspondente. A palavra grega é proskuneo”.
  • Outra palavra significa reverenciar por sentir admiração. Isto descreve Lídia em Atos 16:14. É uma atitude interior do coração e da mente. Palavras semelhantes são encontradas em Romanos 1:25 e 17:23. A palavra grega é sebomai”.
  • Uma terceira palavra significa servir. Este é um termo amplo que descreve o serviço oficial dado com reverência a um superior, ou culto religioso prestado a Deus. Veja Filipenses 3:3; Hebreus 10:2, 13:10. A palavra grega é latreuo”.

Encontramos outros bons exemplos de adoração em Mateus 2:1-12 (os sábios) e João 12:1-3 (Maria). Veja também 1 Crônicas 29:10-22 e Deuteronômio 26:1-11. Nos Salmos, há muitas expressões de adoração que os cristãos podem usar hoje, por exemplo: Salmos 95, 96 e 107.

No culto cristão, o povo de Deus entra em Sua presença para expressar-Lhe sua adoração. É diferente do ministério cristão, que é Deus saindo com bênçãos para atender as necessidades do Seu povo. A adoração é dirigida a Deus e o ministério é prestado ao homem, enquanto o testemunho é dado ao mundo. A adoração é o que trazemos a Deus, não o que recebemos Dele.

1 Timóteo 2:1 nos diz o que podemos fazer quando chegamos à presença de Deus:

  • Oração e súplica, pedir a Deus a respeito das nossas próprias necessidades e solicitações;
  • Intercessão, pedir a Deus para fazer algo pelos outros.
  • Ação de Graças, expressar gratidão pelas bênçãos recebidas.
  • Louvor, manifestar apreciação a Deus pelo que Ele fez (cf. Salmo 103), muitas vezes através de canções.
  • Adoração; adorar a Deus devido a quem Ele é, e por ser Ele digno dela (cf. Salmo 104).

A EXPRESSÃO DA NOSSA ADORAÇÃO

A adoração é o maior dever e privilégio do povo redimido de Deus. Deve ser algo que fazemos continuamente e não em ocasiões isoladas (Hebreus 13:15; Salmo 34:1-3). Se formos adoradores durante a semana quando estamos sozinhos, vamos adorar melhor na companhia de crentes em um domingo.

A adoração só pode fluir a partir dos corações dos que estão verdadeiramente salvos mediante a fé em Cristo. Ela flui do nosso relacionamento feliz com Deus, baseado na Sua graça que nos alcançou. Devemos ter recebido de Deus o dom do Espírito Santo antes de podermos adorar em espírito e em verdade.

A adoração deve estar de acordo com a natureza de Deus (João 4:20-24). Ele é Espírito, portanto a adoração deve ser espiritual (Atos 17:24-25), nossos espíritos conduzidos e guiados pelo Espírito Santo (Filipenses 3:3). Nosso espírito humano é a parte mais elevada do nosso ser, e através dele somos capazes de desfrutar as coisas divinas (1 Tessalonicenses 5:23; 1 Coríntios 2:11-12). Oferecemos sacrifícios espirituais (1 Pedro 2:4-10). Quem não está salvo não pode realmente adorar a Deus.

Os santos do Velho Testamento adoravam Jeová (Senhor), o Deus que guarda o concerto. Os cristãos adoram a Deus como Pai (João 4:24). A adoração do Pai tem lugar dentro do círculo familiar divino. Seus filhos se aproximam d’Ele com amor reverente. Todos, do mais jovem ao mais velho, têm igualdade de acesso a Ele. Os santos do Velho Testamento nunca tiveram esse privilégio, embora muitos deles conhecessem a Deus intimamente. Na família de Deus, Cristo é o primogênito entre muitos irmãos, Ele dirige nossos louvores (Hebreus 2:10-13).

Hebreus 10:19-25 e 1 Coríntios 14:15-17 referem-se a se reunir com outros crentes para adorar. Reunir-se para o Partir do Pão (1 Coríntios 11:20-34) é uma oportunidade especial para a adoração unida. Toda a igreja local pode se unir para oferecer louvor e gratidão a Deus por meio do Senhor Jesus Cristo na liberdade do Espírito Santo. Arranjos humanos irão dificultar a livre operação do Espírito de Deus.

Na igreja local, a expressão audível da adoração (fora o cantar unido) é para ser feita pelos homens entre os irmãos (1 Coríntios 14:34). Eles tomam a direção, lembrando-se que estão expressando a adoração de toda a igreja e não apenas os seus próprios sentimentos individuais. A adoração é um exercício solene, por isso deve haver sempre uma atitude reverente. A adoração é dificultada por uma consciência culpada, por isso devemos examinar a nós mesmos antes de participar. Enquanto o pecado de Davi permaneceu inconfessado, o seu louvor silenciou. Ele só podia clamar em angústia e tristeza (Salmo 51:3-5 com 32:3-5).

É triste quando os métodos carnais são trazidos para dentro da adoração a Deus. O assim chamado "culto público" ou "serviço divino" é muitas vezes realizado por um grupo misto de crentes e descrentes. Às vezes, liturgias religiosas tradicionais se repetem semana após semana. Há coisas que apelam ao sentido estético do homem, tais como prédios muito ornamentados, cerimônias imponentes, música emocionante e sermões eloquentes sobre questões tópicas. Isto não é a verdadeira adoração. Muitas dessas congregações são como os samaritanos, de quem o Senhor disse: "Vós adorais o que não conheceis" (João 4:22).

SACERDOTES E SACERDÓCIO

O tema da adoração pode ser melhor compreendido, traçando a história do sacerdócio nas Escrituras. A primeira pessoa na Bíblia mencionada como um sacerdote é Melquisedeque (Gênesis 14).

No Velho Testamento podemos encontrar quatro tipos diferentes de sacerdotes:

  1. Os Patriarcas, sacerdotes em suas famílias. São exemplos: Noé (Gênesis 8:20-21); Abraão (Gênesis 12:7-8); Isaque (Gênesis 26:25; 31:54); Jacó (Gênesis 35:1-3,7); Jó (Jó 1:5 e 42:8).
  1. Melquisedeque, um sacerdote real (Gênesis 14:18-20). Este rei agiu como um sacerdote para Abrão depois de uma batalha difícil. Ele é uma figura especial ou tipo de Cristo agora sentado no céu (Hebreus 7), e como o Rei-Sacerdote sobre o trono de Davi na era milenar vindoura (Zacarias 6:12-13).
  1. Israel, um sacerdócio nacional (Êxodo 19:5-6). Israel foi escolhida para ser uma nação de sacerdotes para outras nações. Mas, por causa do seu fracasso, ela perdeu este lugar especial (Oséias 4:6). No entanto, o propósito de Deus não foi terminado, mas apenas adiado (Isaías 61:6, Ezequiel 44:15-16). Enquanto isso, o sacerdócio cristão preenche a posição privilegiada (1 Pedro 2:5-9).
  1. A família de Arão, o sacerdócio levítico (Levítico 8). Em Israel só Arão e sua família eram sacerdotes para se aproximarem de Deus, em nome de toda a nação. Até mesmo seus parentes, os levitas, foram excluídos (Números 16:8-10; compare com 2 Crônicas 26:16-21).

 No Novo Testamento, somos ensinados sobre o sacerdócio cristão (1 Pedro 2:5-9; Apocalipse 1:6). Os cristãos são sacerdotes que vão adorar para sempre por causa da criação e da redenção (Apocalipse 4:10-11; 5:8-10).

O sacerdócio cristão consiste de todos os verdadeiros crentes, durante a atual dispensação da graça (1 Pedro 2:5-9). Eles são "nascidos de novo" (1 Pedro 1:23, 2:2) e são "pedras vivas" em uma casa espiritual (1 Pedro 2:5). Ao contrário da velha ordem levítica, agora não há distinção entre homens e mulheres ou entre a juventude e a maturidade – todos podem adorar o Pai. Uma classe sacerdotal ou "clero", distinta da chamada classe dos "leigos", não é conhecida no Novo Testamento. O reconhecimento de tal grupo, vestido especialmente e que reivindica especial categoria e privilégio não faz parte do sacerdócio cristão.

A base da adoração é uma experiência de redenção. Israel não podia adorar no Egito (Êxodo 3:18; 5:1-3). Foi depois que Deus os levou para fora do país que se estabeleceu o sistema de adoração divina. Notamos que esses sacerdotes foram:

  • Chamados (Êxodo 28,1; Hebreus 5:1,4; 1 Pedro 2:9);
  • Purificados (Levítico 8:6);
  • Vestidos (Levítico 8:13; Êxodo 28:40), sendo, as vestes distintas, a evidência da sua vocação especial, mesmo como a conduta do cristão também deve ser;
  • Consagrados, separados para o serviço sagrado, primeiro pela aplicação de sangue (Levítico 8:24), depois pela aspersão de óleo com sangue (v. 30). Na língua hebraica, "consagrar" significa literalmente "encher as mãos”. Como pecadores, nada tínhamos para levar a Deus, mas como adoradores nossos corações devem estar cheios de louvor a Ele (Deuteronômio 16:16; 26:1-10; Hebreus 13:15) [1].

SACERDOTES E SUA ADORAÇÃO HOJE

Quando adoramos podemos estar em nossa igreja local, reunidos em um edifício, ou podemos estar sozinhos. Onde quer que estejamos, devemos lembrar que o "lugar de culto" cristão é o santuário celestial (Hebreus 10:19-25 com 8:1-2; 9:11-12). Chama-se "dentro do véu", onde Cristo, nosso Sumo Sacerdote, agora está pessoalmente (Hebreus 4:14; 9:24). Entramos na presença de Deus em espírito e não no corpo, e pela fé e não por uma cerimônia exterior. Hebreus 10:19-22 nos ensina que para isso:

  • O sangue de Jesus nos dá acesso;
  • O véu rasgado (falando de Sua morte violenta) mostra que o caminho está aberto;
  • Nosso Grande Sumo Sacerdote dirige e apresenta a Deus a adoração do Seu povo.

Reverência e santidade são essenciais para todos os que se aproximam de Deus (Levítico 10:9; 21,1; Hebreus: 12:28-29). Deus ordenou que os sacerdotes de Israel lavassem as mãos e os pés porque eles serviam em terra santa (Êxodo 30:17-21). Além disso, eles deveriam abster-se de bebida forte, de luto, e de contato com os mortos. Isso nos ensina que os defeitos morais e pecado não confessado na vida de um crente hoje em dia são obstáculos para a adoração aceitável [2].

Deus também fez provisões de graça para os sacerdotes de há muito tempo. Eles recebiam certas porções dos sacrifícios que os outros traziam para Deus (Levítico 8:31-32; Números 18:8-20). Não deviam comer ou beber certas coisas (Levítico 10:8-11), mas Deus assegurou que nunca lhes faltasse nada. Igualmente hoje, enquanto os sacerdotes servem a Deus eles se beneficiam espiritualmente daquilo que fazem.

O Novo Testamento descreve o sacerdócio cristão de duas maneiras. Leia novamente 1 Pedro 2:5,9.

1. Sacerdotes santos que apresentam suas ofertas a Deus

O privilégio de acesso a Deus, para entrar em Sua presença, está disponível para todos os crentes a qualquer tempo, para a oração (Hebreus 4:16) e para a adoração (Hebreus 10:22; Efésios 2:13,18; 3:12). Em contraste, os sacerdotes de Israel só podiam entrar na parte exterior do tabernáculo e do templo. Somente o sumo sacerdote podia entrar no lugar santíssimo, e isto apenas uma vez por ano, quando devia seguir estritamente certas regras (Levítico 16:1-2; Hebreus 9:6-8).

As ofertas que estes sacerdotes levitas traziam a Deus eram coisas materiais e físicas. Os sacerdotes cristãos oferecem ofertas que são ao mesmo tempo espirituais e materiais:

2. Sacerdotes reais que trazem dons de Deus para os homens

Podemos trazer:

  • Um Ministério de Compadecimento – Nisto também o nosso Grande Sumo Sacerdote é um exemplo. Ele Se compadece de todo o Seu povo sofredor (Hebreus 2:18; 4:15-16; Romanos 12:15). As pessoas que sofrem precisam de nossa ajuda e conforto espiritual, talvez mais frequentemente do que de ajuda material (2 Coríntios 1:4).
  • Um Ministério de Instrução (1 Pedro 2:9; Malaquias 2:7) – Podemos dar a conhecer as perfeições de Cristo e da verdade da Sua Palavra. Também podemos ajudar com os problemas e responder às perguntas como os sacerdotes arônicos faziam (Levítico 10:10-11 e capítulos 13 e 14; Deuteronômio 17:8-9).
  • Um Ministério do Evangelho (Romanos 15:16). A palavra traduzida como "ministrando" neste versículo (ocorre somente aqui no Novo Testamento) significa servir como sacerdote. A pregação do Evangelho por Paulo aos gentios era um serviço sacerdotal a Deus. Deus é sempre glorificado quando a mensagem do evangelho é dada a conhecer. Isso também é adoração.

Nota de rodapé [1]

Estudar o registro da família de Arão em Levítico e Números pode ser útil. Todos os detalhes têm sua contrapartida espiritual no sacerdócio cristão de hoje. A epístola aos Hebreus nos ensina muito sobre o sumo sacerdócio de Cristo. Sua nomeação foi segundo a ordem de Melquisedeque e Seu serviço segue em muitos aspectos o padrão arônico. Hebreus traz semelhanças e contrastes para estudarmos.

Nota de rodapé [2]

Os sacerdotes de Israel serviram a Deus com os pés descalços como outro sinal de reverência. Tanto Moisés e Josué foram ordenados a tirar os sapatos na presença de Deus (Êxodo 3:5; Josué 5:15; compare com Eclesiastes 5:1). Era costume um visitante tirar as sandálias ao entrar em uma casa e lavar os seus pés, mesmo após uma curta viagem. Em casas de classe melhor um escravo realizava ambas as tarefas para o benefício das pessoas (Lucas 7:44; João 13:3-5).

PARA ESTUDO ADICIONAL

  • Anote quantas palavras puder que descrevem algumas formas de expressar a adoração.
  • O que podemos dar a Deus como adoração? Quando podemos dar e onde?
  • Quais são as principais diferenças entre os sacerdotes do Velho Testamento e do Novo?
  • De que forma devemos imitar o ministério de nosso Sumo Sacerdote?
  • Lemos em Jó 1:20 que ele adorava. Como acha que fez isso e por quê? Como Jacó adorava, segundo Hebreus 11:21? (Veja Gênesis 48).
  • Grande parte da nossa adoração é em uma reunião da igreja local. Leia Salmos 95 e 96, e anote as coisas que podemos fazer para adorar a Deus juntos.

PONTOS PARA LEMBRAR

  • Adoração é honrar e adorar a Deus quando reconhecemos o quão grande e glorioso Ele é.
  • Adoração pode ser feita individualmente na solidão ou na companhia de outras pessoas em uma igreja local. Ela pode ser em silêncio ou dita em voz alta.
  • Adoramos na presença de Deus, entrando no santuário celestial. Nosso Grande Sumo Sacerdote leva a nossa adoração e a apresenta a Deus, Seu Pai.
  • Adoramos em espírito e em verdade. Nossos espíritos são guiados pelo Espírito Santo, e somos ensinados pela verdade da Palavra de Deus como expressar nossa adoração.
  • Todos os crentes são sacerdotes. Somos sacerdotes santos ao trazer nossos louvores a Deus e sacerdotes reais ao levar as Suas bênçãos aos homens.

 

autor: Bert Cargill.