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Conte-me mais sobre a igreja (8)

 

Uma versão editada dos
Princípios da Igreja no Novo Testamento de Arthur G. Clarke
Autorização concedida pela John Ritchie Christian Publications
Traduzido por R. David Jones

CAPÍTULO 8

O MINISTÉRIO

É importante notar o que as Escrituras dizem sobre o "ministério", e quem é um "ministro". Examinando as palavras usadas e o seu contexto vemos que:

  • "Ministério" é qualquer tipo de serviço prestado ao Senhor, ou para os outros;
  • Um "ministro" é qualquer pessoa que verdadeiramente serve a Deus e aos homens.

DIÁCONOS E O SEU SERVIÇO

Esta palavra "diácono" vem diretamente da palavra grega “diakonos” que significa simplesmente "servo". Focaliza na obra que o servo faz. O serviço pode ser temporário ou permanente. Outra palavra usada frequentemente para um servo é “doulos”. Isso significa um escravo, ou alguém preso à servidão. Focaliza na relação entre servo e o seu mestre.

No Novo Testamento, “diakonos” pode se referir a um servo doméstico (João 2:5-9), ou a um governante como um servo do Estado (Romanos 13:4). A palavra é aplicada a Cristo como Servo de Deus (Romanos 15:8) e a Paulo, Apolo e Timóteo também como servos de Deus (2 Coríntios 3:6; 6:4; 1 Coríntios 3:5; 1 Tessalonicenses 3:2). Havia também homens mais jovens que serviram o apóstolo Paulo e outros líderes (Atos 19:22; Colossenses 4:7; Filemom v. 13), e alguns que realizaram este tipo de serviço em nome de uma igreja local (Atos 6:1; 11:29-30 com 12:25; 1 Timóteo 3:8-12), incluindo uma senhora cristã chamada Febe (Romanos 16:1). Mesmo Satanás tem ministros como estes (2 Coríntios 11:14-15). Um verbo relacionado com essa palavra é aplicada a anjos (Marcos 1:13), mulheres (Marcos 1:31; 15:41; Lucas 8:3), e ao próprio Cristo (Marcos 10:45; Lucas 22:27). Todos estes podem ser chamados de diáconos.

Todas estas referências mostram que “diakonos”, frequentemente traduzida como “ministro”, não indica um clérigo com um título especial. É comum considerar o "ministro" cristão como sendo a pessoa que ocupa um cargo de liderança em uma igreja, após uma formação teológica especial e ordenação das mãos de superiores, e talvez recebendo um salário. Mas essa noção de um "ministro" ou "pastor" em uma igreja não é encontrada nas Escrituras. Filipenses 1:1 mostra que havia "diáconos" (ou servidores) na igreja em Filipos. Como servos da igreja eles trabalhavam ao lado dos anciãos (ou "bispos").

O Novo Testamento não dá exemplos da nomeação humana de ministros. Todos os servos são nomeados diretamente pelo seu próprio mestre (1 Pedro 4:11). Os homens não podem transmitir dons naturais ou dons espirituais aos outros. A habilidade ou educação natural não é uma qualificação para o ministério cristão, embora Deus possa usá-la em Seu serviço. Os líderes judeus perceberam que Pedro e João não tinham sido treinados nas escolas teológicas reconhecidas naquela época, mas não eram iletrados (Atos 4:13). Por outro lado, Saulo de Tarso tinha capacidade excepcional, formação teológica e altas realizações (Atos 22:3; Filipenses 3:4-6). No entanto, antes da sua conversão, ele tinha a ideia equivocada que estava servindo a Deus, quando, na verdade, estava agindo em violenta oposição contra Ele (Atos 23:1; 26:9; 1 Timóteo 1:13). [1]

DUAS FORMAS DE MINISTÉRIO

Na Igreja, há duas formas principais de ministério ou serviço. Primeiro, há o serviço em que se usam os dons espirituais concedidos pelo Chefe da Igreja. Depois, há serviço concernente às questões temporais e os interesses materiais do cotidiano dos crentes. Distinguem-se em Atos 6:2-4 como o "ministério da Palavra" e o "ministério das mesas".

1. Serviço na esfera espiritual.

Quatro Escrituras principais devem ser estudadas aqui:

Efésios 4:7-16 – Aqui nosso Senhor é visto como um grande conquistador regressando de uma guerra vitoriosa contra os Seus inimigos, proclamando a grande vitória mediante a distribuição de brindes. Os brindes, ou dons de Cristo, são aqueles que irão se prestar para o bem-estar e enriquecimento da Sua Igreja. Existem quatro principais dons da graça. Dois seriam provisórios porque pertenciam, de modo especial, ao início da Igreja. Dois permanecem ainda como dons permanentes para toda a era da Igreja.

Os dois dons provisórios foram os apóstolos e os profetas. Ambos tinham autoridade única e poderes milagrosos. Eram homens por meio de quem o Senhor revelou a verdade do Novo Testamento. Os apóstolos revelaram a verdade mediante o seu ensino pessoal (João 14:26; 16:13-14; Gálatas 11-12). Eles tinham as qualificações especiais de terem visto o Senhor (1 Coríntios 9:1; Atos 1:21-22), e de terem sido especialmente escolhidos para serem testemunhas da Sua ressurreição (Atos 3:15; 5:32; 10:41). Os profetas comunicaram a mente do Senhor mediante uma revelação específica por meio do Espírito Santo (1 Coríntios 14:30). Depois que o Novo Testamento foi concluído, a necessidade desses dois grandes dons passou, porque essas Escrituras agora revelam plenamente toda a vontade do Senhor para o Seu povo.

Os dons permanentes são os evangelistas, que trabalham no mundo exterior em comunhão com a igreja, e os pastores e mestres (um dom duplo em uma pessoa) que trabalham dentro da igreja.

  • O evangelista concentra-se em pregar o Evangelho para ganhar almas para Cristo, plantando novas igrejas ou trazendo convertidos para se associarem com as já existentes. Ele está envolvido na expansão da igreja.
  • O pastor e mestre está concentrado no cuidado dos santos. Como um pastor ele cuida de almas. Como mestre ele traz a Palavra de Deus para os outros. O trabalho de pastor é principalmente desempenhado em particular, o de mestre é mais público, para o benefício da igreja. Os profetas obtinham revelação direta de Deus ao passo que os mestres obtêm as suas mensagens das Escrituras. Ambos dão a conhecer a mente de Deus. Todos os profetas e mestres devem ter o alvo de edificar os ouvintes (1 Coríntios 14:26). A edificação constrói, a exortação estimula e a consolação ata (14:3). Todo o verdadeiro ministério edifica os crentes e não quebra ou destrói.

1 Coríntios 12:28 – Este versículo nos dá uma lista de dons em uma igreja local. O “evangelista" é omitido aqui porque, como já vimos, esse trabalho se faz fora do círculo imediato de crentes embora em plena comunhão com eles. Aqui, também, os dons temporários e os permanentes são distinguidos. Profecias, línguas e ciência eram temporários no início da igreja (1 Coríntios 13:8-10). Note-se que em Efésios 4 esses dons de sinais são omitidos.

Uma verdade muito importante enfatizada em 1 Coríntios 12 é que cada crente individual participa do ministério cristão como um membro do Corpo de Cristo. Cada crente recebe um ou mais dons para serem utilizados na edificação da igreja (vs. 12-27; 1 Tessalonicenses 5:11; Romanos 15:14), assim como cada membro do nosso corpo físico tem uma função importante. As irmãs cristãs têm um serviço para fazer em sua própria esfera (ver o próximo capítulo).

Todo ministério divinamente estabelecido é em primeiro lugar para a glória de Deus através de Jesus Cristo (1 Pedro 4:10-11). Um verdadeiro servo não busca popularidade, mas trabalha para agradar a Deus (Gálatas 1:10; 1 Coríntios 7:23; Mateus 6:1-8). A aprovação do Senhor é muito melhor do que o louvor dos homens. O principal objetivo dos grandes dons é preparar todos os membros do Corpo de Cristo para exercer seus vários ministérios, de modo que toda a igreja desenvolva para seu pleno crescimento e maturidade (Efésios 4:11-16). O ministério também é uma mordomia (1 Pedro 4:10; 1 Coríntios 4:1-2; 9:7). A conta terá que se prestada no Tribunal de Cristo (2 Coríntios 5:10).

Todos os servos de Cristo devem mostrar diligência, amor, paciência e vigilância em oração (Romanos 12:3; 1 Pedro 4:7-11). O dom não deve ser negligenciado (1 Timóteo 4:14), mas estimulado ou reanimado se a sua chama não estiver queimando brilhantemente (2 Timóteo 1:6). [2]

2. Serviço na esfera material

Para este tipo de serviço aos outros, uma igreja pode escolher qualquer um que esteja disposto e for competente para realizá-lo. Por exemplo, em Atos 6:1-6 sete homens foram escolhidos para distribuir alimentos às viúvas carentes na igreja de Jerusalém. Esses irmãos já eram servos aprovados do Senhor. Eles não são chamados "diáconos" diretamente, mas o seu serviço é descrito por palavras que o indicam. Pelo menos alguns dos sete escolhidos eram capazes de ministrar de outras formas. Sabe-se que Felipe era um evangelista (Atos 21:8 - comparar suas atividades descritas em Atos 8:5-8, 26-40). Observe também o que é dito de Estevão em Atos 6:6,8,10.

Outros exemplos de "serviço de diácono" são encontrados em Romanos 16:1 e 2 Coríntios 8:18-24. Se uma igreja contribui com fundos para alguma finalidade, seus membros devem ser capazes de selecionar aqueles que irão administrar ou distribuir o dinheiro ou dádivas.

QUALIFICAÇÕES PARA O SERVIÇO

Os requisitos para os diáconos/servos são dados em 1 Timóteo 3:8-13 - quatro são positivos e três negativos. Como no caso dos supervisores (vs. 1-7), nota-se que é definido um padrão alto (compare com Atos 6:3). As irmãs cristãs que servem também devem ter as qualidades indicadas no v. 11, sejam elas esposas de servos ou não. Serviço e espiritualidade devem sempre andar juntos (2 Coríntios 6:3-10; 1 Tessalonicenses 2:1-12).

Aqueles que afirmam que Deus os chamou para servi-Lo devem ser sadios em doutrina, consistentes na vida que levam e capazes para o serviço. Se forem provados "irrepreensíveis" (isto é, não dando razão para queixa), eles estarão livres para servir entre os santos, usando o dom que Deus lhes deu (1 Timóteo 3:10; Mateus 7:15-20). A igreja é responsável por reconhecê-los e capacitá-los para trabalhar (1 Coríntios 16:15-18). Mas uma igreja não pode conceder nem controlar qualquer dom da graça. Não pode contratar ou reter nenhum servo de Cristo apenas para o seu próprio benefício. Nem mesmo um apóstolo tinha autoridade para dirigir um companheiro servo do Senhor (1 Coríntios 16:12). Além disso, um servo de Cristo não deve ser julgado por outras pessoas a respeito de onde e por que eles servem. Todos servem em vista do Tribunal de Cristo (Romanos 14:4,10; 1 Coríntios 3:5-15; 4:1-5).

Os anciãos, como líderes responsáveis ​​em uma igreja, devem sempre estar atentos aos sinais de dons em pessoas mais jovens e incentivá-los. Devem fornecer oportunidade para que os seus dons sejam utilizados, e incentivar o desenvolvimento para a maturidade (2 Timóteo 2:2). Por outro lado, os anciãos devem assegurar que aqueles que pregam e ensinam estão a fazê-lo de forma proveitosa e não são cansativos ​​de ouvir. Se forem, então seu dom deve estar em outro lugar.

O Mestre supre as necessidades de Seus servos (Lucas 22.35). Suas promessas dão segurança a qualquer um que Ele chamou para algum ministério. No entanto, sempre que necessário, os crentes lhe darão apoio financeiro - veja 1 Coríntios 9:7, 13-14; 3 João vs. 5-8 (evangelistas); Gálatas 6:6 (mestres); 1 Timóteo 5:17-18 (anciãos que labutam na Palavra). Embora Paulo merecesse o apoio financeiro de outros, em circunstâncias especiais e por boas razões ele trabalhou para se sustentar (Atos 20:33-35; 1 Coríntios 9:18; 2 Coríntios 11:7-12).

O Senhor prometeu grande recompensa para todo o serviço fiel (Mateus 25:21-23). Tal serviço também dá ao servo uma boa posição na igreja (1 Timóteo 3:13). O teste de um bom serviço não é o seu aparente sucesso, mas o seu grau de fidelidade (1 Coríntios 3:8; Apocalipse 22:12).

Às vezes se faz a pergunta: "Como posso reconhecer o meu dom?" Aqui estão algumas orientações:

  • Tenho entusiasmo por este tipo de serviço?
  • Tenho uma determinada capacidade para ele?
  • Existe aprovação divina para esse tipo de serviço?
  • O Senhor tem abençoado o meu serviço até agora?
  • Posso contar com o apoio dos meus irmãos nisto?

Em 1 Coríntios 12:31; 14:1,39, somos encorajados a buscar maiores ou melhores dons. “Maior” significa uma maior utilidade, não maior destaque ou reputação. Ninguém deve buscar uma posição que não tem habilidade para ocupar. Se usarmos fielmente o dom que já temos, o Senhor poderá agradar-se em acrescentar outro.

Nota de rodapé [1]

A fonte dos dons espirituais é Cristo ressuscitado (Efésios 4:11-12). O poder de exercer esses dons é o Espírito Santo (1 Coríntios 12:4-11; Lucas 24:49; Atos 1:8). A atividade carnal nas coisas de Deus é inaceitável para Ele. A prática de "ordenação" oficial para o ministério usurpa a autoridade de Cristo, o Chefe ressuscitado da Igreja. Também substitui o trabalho do Espírito Santo (1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11; 1 Coríntios 12:7-11). Paulo dá instruções a Tito quanto à escolha de anciãos, mas em nenhum lugar lemos de nomeações humanas para cargos na igreja.

Nota de rodapé [2]

Note-se que os principais dons da graça não são dados apenas aos que estão no que é chamado "serviço de tempo integral". Muitos ensinos e pregações são feitos com proveito por irmãos que estão em atividades remunerativas seculares. A chamada para o serviço em tempo integral requer orientação distinta de Deus e não deve ser assumida levianamente (Atos 13:2; 1 Coríntios 7:20).

PARA ESTUDO ADICIONAL

  • Anote quantos exemplos puder de serviço de "diácono". Quais você seria capaz e estaria disposto a fazer?
  • Quais são as duas principais formas de serviço cristão? Dê exemplos de cada um de alguns capítulos de Atos.
  • Quais são as qualificações mais importantes para o serviço cristão na igreja?
  • O que vai acontecer no Tribunal de Cristo? O que não vai ser julgado lá?
  • Deus se refere a Jó como "meu servo" (Jó 1:8). Como Jó servia a Deus melhor?

PONTOS PARA LEMBRAR

  • Um ministro não é um oficial da igreja, mas qualquer um que verdadeiramente serve a Deus.
  • Deus dá dons a todos os crentes para serem usados em Seu serviço.
  • Diferentes dons são dados a pessoas diferentes na igreja para que toda a igreja possa se beneficiar.
  • O ministério ou o serviço como "diáconos" pode ser em questões espirituais ou assuntos materiais/físicos.
  • Os servos do Senhor devem ter vidas honestas e boas para apoiar o seu ministério.
  • O serviço de todos vai ser revisto e recompensado no Tribunal de Cristo.

 

autor: Bert Cargill.