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Hesitação

“Dá pela metade aquele que hesita em dar”. Esta afirmação de William Broome, poeta inglês que morreu no século 18, contém uma profunda constatação do mais íntimo dos sentimentos humanos que é a hesitação. Por vezes as pessoas não exteriorizam o quão indecisas são diante das coisas que naturalmente acontecem no dia-a-dia das suas vidas.

Esse “defeito” é uma característica natural da personalidade humana e atinge a todos, uns em maior e outros em menor escala, e ninguém pode afirmar com sinceridade que em determinadas circunstâncias da sua vida não tenha vacilado.

Entretanto, a hesitação não é um “defeito de fabricação”. Deus não nos fez assim! Ela tornou-se uma realidade na medida em que o homem pecou. Imediatamente após ter pecado, o primeiro sentimento de Adão foi o do medo e com o medo veio a insegurança, a partir daí o homem tornou-se um ser indeciso.

Por causa desse “defeito” muitas almas têm sido remetidas ao inferno na medida em que “deixam para depois” a maior decisão das suas vidas que é a de receber Jesus Cristo como o seu único e verdadeiro Salvador. Uma coisa é absolutamente certa, do ponto de vista espiritual, em nenhuma hipótese podemos ser indecisos porque em Deus não há hesitação.

Tanto isto é verdade que em Atos nos é revelado que Pedro, ainda perplexo pela visão que recebera da parte do Senhor, recebeu uma instrução absolutamente clara do Espírito Santo para que seguisse a Sua orientação “sem hesitar” (At.11:12). O Espírito Santo assim Se expressou porque, além de conhecer as limitações da natureza humana, era fundamental demonstrar a Pedro, e concomitantemente a nós, que para as coisas que temos que fazer para o Senhor não podem haver vacilos.

A hesitação pode nos levar à uma terrível situação de pecado perante o Senhor a exemplo do ocorrido com Roboão, que por ser indeciso (2Cr.13:7) tomou uma desastrosa atitude que provocou uma irreversível divisão em Israel. Nisto não há dúvida: hesitar diante daquilo que o Senhor tem estabelecido para o Seu povo revela falta de maturidade espiritual por parte daquele que não cumpre com as Suas determinações.

A grande hesitação que temos visto em nossos dias, em nosso meio, é que muitos dentre nós permanecem indecisos quanto a profunda realidade da afirmação do Senhor Jesus de que “mais bem-aventurado é dar que receber” (At.20:35), e, por isso, estão se dando ao Senhor pela metade, parcialmente, na medida em que fecham seus corações e os bolsos, para a grande necessidade de recursos para o sustento material da Sua Obra. O Senhor nos quer por inteiro e isto significa dar a Ele não somente as nossas vidas, mas tudo aquilo que possuímos.

Essa hesitação surge por permitirmos que “ventos de incredulidade” soprem em nossos ouvidos e faz com que coloquemos em dúvida que a nossa sustentação, em todas as áreas das nossas vidas, depende exclusivamente do Senhor e da nossa disposição e esforço que fazemos para seguir a Sua soberana orientação para cada um de nós.

Quando assim procedemos, verdadeiramente demonstramos a pequenez da nossa fé, pois a exortação do Senhor Jesus é para que não nos entreguemos às inquietações, ao contrário, devemos ter a confiança de que todas as coisas nos serão acrescentadas porque o Pai sabe de todas as nossas necessidades (Lc.12:29-31). Por certo, quando ocorre esse tipo de inquietação, a nossa oração deverá ser: Senhor aumenta a minha fé!

Não podemos nos equivocar, Deus quer de nós uma entrega total tanto espiritual como material. Não adianta procurarmos ser zelosos com as coisas espirituais e falharmos tremendamente na entrega das coisas materiais, pois isto revelará que de fato a nossa consagração espiritual é apenas aparente.

Creio que o maior exemplo disso é o do jovem rico que se enganava ao pensar que a tudo observava com respeito às coisas espirituais e quando o Senhor disse que ainda lhe faltava a “outra metade” ele “retirou-se muito triste”, pois a sua confiança estava depositada na posse dos bens materiais e deles não abria mão (Mt.19:16-22).

Sem dúvida, a avareza é uma abominação ao Senhor porque ela é idolatria (Cl.3:5). Conforme lemos no Antigo Testamento, toda abominação é um gravíssimo pecado contra Deus que naquele tempo condenava à morte quem tal coisa praticasse. Afastemos, pois, qualquer espírito de avareza, para não deixarmos de experimentar a boa e agradável vontade de Deus para as nossas vidas.

Nunca é demais lembrarmos os três grandes exemplos de liberalidade com as coisas materiais que são descritos na Palavra de Deus:

O primeiro exemplo nos vem do deserto, quando Deus disse a Moisés que queria habitar no meio do Seu povo, falar ao Seu povo, e para isso o Seu povo teria que ser obediente e Lhe trazer “ofertas voluntárias” para que fosse edificado um santuário para a Sua “habitação”. Assim como tem estabelecido para a Sua igreja, nesta ocasião Deus também deixou suficientemente claro que não queria dízimos para essa obra, nada que lhes fossem imposto, mas corações movidos para “dar” com liberalidade (Ex.25:1-22).

Qual teria sido a nossa reação se estivéssemos entre eles naquele deserto? Nós poderíamos pensar assim: Saí fugido do Egito onde eu era escravo, vim para uma terra estranha, estou cheio de incertezas e insegurança no meio deste deserto, não sei o que me espera nessa longa e perigosa jornada, então é prudente eu guardar os meus bens porque não sei como será o meu amanhã. Mas não foi assim que eles pensaram e agiram! O povo trouxe muito mais que era necessário para o serviço da obra a ponto de Moisés ter que proibi-los de trazerem mais (Ex.36:2-7). Que bom seria se agíssemos dessa forma. Que bênção haveria de ser para a obra missionária, que luta com a escassez de recursos.

A mesma coisa Deus quer que façamos agora, que o nosso “dar” seja com alegria não por constrangimento ou por uma determinação legal, “porque o serviço dessa assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus, visto como, na prova desta ministração, glorificam a Deus pela obediência da nossa confissão quanto ao Evangelho de Cristo, e pela liberalidade com que contribuímos para eles e para todos” (2Co.9:12-13).

O segundo exemplo nos vem de Jerusalém. Davi queria ardentemente edificar uma casa para Deus, mas esta não era a vontade do Senhor. O grande privilégio seria de seu filho Salomão. Davi poderia ter pensado assim: Eu me ofereci para construir uma moradia para Deus, Ele não quis que fosse eu, portanto esse assunto de agora em diante não mais me diz respeito. Mas não foi assim que ele agiu. Além de ter preparado com todas as suas forças todo o material necessário, em abundância para a obra, ele “deu” toda a riqueza particular que possuía porque ele amava a casa do seu Deus (1Cr.29:3), mesmo não sendo o responsável direto por essa obra.

Este exemplo de Davi foi irresistível para aquele povo que contribuiu voluntariamente para o serviço da casa de Deus. “O povo se alegrou com tudo o que se fez voluntariamente; porque de coração íntegro deram eles liberalmente ao Senhor” (1Cr.29:9). Eles poderiam estar orgulhosos por esse grande feito, a soberba nessas horas pode se tornar uma atração irresistível, mas não foi assim que eles agiram.

Após tão grande voluntariedade, Davi ora em gratidão a Deus, e durante a sua oração ele demonstra claramente qual foi o sentimento que promoveu toda aquela abundância: “Porque quem sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos dar voluntariamente estas coisas? Porque tudo vem de ti e das tuas mãos to damos... toda esta abundância que preparamos para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão e é toda tua... acabo de ver com alegria que o teu povo que se acha aqui, te faz ofertas voluntariamente” (1Cr.29:10-17).

Deus ama a quem com alegria, e a Sua promessa é que quem assim procede Ele “pode fazer abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabunde em toda boa obra... enriquecendo-o em tudo para toda a generosidade” (2Co.9:6-11).

O terceiro exemplo nos vem da Macedônia. A história nos relata que a poderosa força militar de Roma passou de forma arrasadora sobre os macedônios deixando-os em profunda pobreza. Eles ficaram em estado de miséria.

Paulo, além de relatar esse momento histórico, confirmando a precária situação material daquelas igrejas locais, ele exalta a grandeza espiritual que os crentes em Macedônia possuíam: “no meio de muita tribulação manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade... na medida das suas posses e mesmo acima delas se mostraram voluntários” (2Co.8:2-3).

O que teria movido os corações daqueles irmãos macedônios a tomarem uma atitude tão altruísta em meio a tão terrível tribulação? Sem dúvida eles foram possuídos por um intenso sentimento de gratidão. Não lhes importava a grande miséria material que estavam passando, o que era importante para eles era suprir de recursos a obra de Deus, para que houvesse assistência aos santos (2Co.8:4), pois eles tinham experimentado da maravilhosa graça que só lhes foi possível graças aos irmãos de Jerusalém que, como eles, estavam sofrendo a terrível destruição e perseguição dos exércitos romanos.

Devemos muito a irmãos como esses, pois, mesmo passando por enormes dificuldades, não mediram sacrifícios que proporcionaram que o Evangelho chegasse até nós. Eles não foram ingratos àqueles que consagraram suas vidas ao Evangelho em prol da salvação das suas almas.

Como podemos alcançar um sentimento como esse? A resposta me parece bastante simples: não somente fizeram como nós esperávamos, mas deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus (2Co.8:5). Eles se deram a si mesmos, integralmente ao Senhor. Com eles não havia “coisas pela metade”, mas o “todo”. A Obra do Senhor tinha exclusividade em suas vidas.

Vimos até aqui três preciosos exemplos contidos na Palavra de Deus. O quarto exemplo poderá ser o seu, estimado irmão. Pense nisso! Para que isto ocorra é necessário que você se disponha a se entregar totalmente ao Senhor, inclusive os seus bens materiais, com muita fé, sem duvidar, sem hesitar, pois “dá pela metade aquele que hesita em dar”. Permita Deus que assim seja!

autor: José Carlos Jacintho de Campos.