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O manejo errado de uma espada

"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade"
2 Timóteo 2:15

Podemos observar neste versículo que existe uma ordem para o servo Deus manejar bem a Palavra da Verdade. Claro que não devemos pensar que obreiros são somente aqueles que se dedicam ao serviço exclusivo da obra do Senhor, os que saíram pela fé de seus serviços seculares para se dedicarem exclusivamente à pregação do Evangelho, pois todo verdadeiro cristão é um obreiro e deve ter em mente que se não está sendo usado pelo Senhor para trazer almas perdidas para a Salvação, ele pode estar sendo um empecilho para os perdidos conhecerem a Cristo como Senhor e Salvador de suas almas (Mateus 10:30).

Uma coisa que me chama bastante a atenção é a importância que é enfatizada neste texto sobre o manejar bem a Palavra da Verdade. Segundo os estudiosos do grego, a expressão “manejar bem” vem de uma raiz que significa "cortar em linha reta". A ideia é de um carpinteiro que usa o serrote para cortar uma tábua na medida certa e com precisão. Ele mede as tábuas com exatidão e depois risca uma linha com seu lápis para não desperdiçar nem tempo, nem material, e assim não tomar prejuízo e nem dar prejuízo àquele que o contratou. Assim também nós, se não manejarmos a Palavra de Deus corretamente teremos prejuízo e causaremos o mesmo à Obra de Deus.

Devemos estar atentos acerca da ilustração que o escritor aos Hebreus faz da Palavra de Deus, comparando-a a uma espada (Hebreus 4:12). Neste versículo aprendemos que a Palavra da Verdade é mais cortante que qualquer espada de dois gumes. Se fizermos uma pesquisa sobre artes marciais, iremos saber que a espada é a arma branca mais mortal que existe, principalmente a de dois gumes, pois ela pode ferir o oponente, mas também ao que a manuseia se não souber manejá-la corretamente.

Quando se entra em uma escola de artes marciais e o aluno se interessa em aprender a esgrima, inicialmente ele usa uma espada de madeira, ou uma que não tenha corte e nem ponta, para que não se fira e nem fira a outros durante o aprendizado. Enquanto o iniciante não aprender a manuseá-la corretamente, ele não participará das competições de exibição.

Impressiona como os mestres de artes marciais têm esse cuidado especial com seus alunos e com a reputação da sua escola. Enquanto que nós, membros da Igreja de Deus, que é o corpo de Cristo, a entidade instituída por Deus através da obra perfeita e eterna do Senhor Jesus Cristo na cruz do calvário, somos muitas das vezes relaxados com o serviço do Senhor em nossa localidade, pois temos que cuidar das ovelhas do Senhor. Não temos que preservar a reputação de uma escola, ou de uma empresa qualquer, mas temos que ter zelo pelo precioso Nome do nosso amado Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós numa terrível cruz.

Quantas vezes o púlpito está sendo usado por aqueles que não sabem manejar a Palavra de Deus corretamente? Quantas vezes pessoas sem um preparo espiritual correto têm saído para evangelizar os perdidos sem uma pessoa experiente para orientá-las e sem nenhum treinamento de como fazer esse importante serviço de maneira coerente e sem causar prejuízos à Obra de Deus? Quanto estrago tem sido feito por aqueles que não manejam e nem procuram manusear a Palavra de Deus corretamente? Quantos irmãos têm sido "feridos" por aqueles que usam a Palavra sem amor, e muitas vezes a usam como instrumento de vingança e não como instrumento de edificação.

Um exemplo que podemos observar é quando um irmão peca, ou se afasta das reuniões, ou entende um texto bíblico de maneira errada, vamos lá e ferimos sem remorso a sua integridade moral usando a Palavra de Deus para mostrar o seu erro sem nenhum pingo de misericórdia, em nossa atitude rude, julgando-nos superior ao irmão, esquecendo assim do ensino da Palavra de Deus: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gálatas 6:1).

Outro exemplo é quando nos dirigimos para a reunião da igreja na expectativa que o irmão que irá subir ao púlpito traga uma mensagem de edificação para a igreja, ou pregue o Evangelho com autoridade, e o que acontece? O irmão não tem o dom para essa função, ou não se preparou adequadamente, com diligência, oração e estudo, e muitas das vezes não entendemos o que o irmão estava tentando dizer por não estar manuseando corretamente a Palavra de Deus. Chegamos cheios de esperança querendo ouvir a Palavra do Senhor e saímos vazios sem saber o que o pregador estava querendo dizer.

E quando então há muitas visitas para ouvir o Evangelho e ficamos totalmente frustrados porque o pregador não se preparou para entregar a mensagem? A visita nunca mais volta para as reuniões porque ela achou que iria ouvir algo impactante que poderia mudar a sua vida, mas ficou tentando compreender o que o pregador “escalado” para o dia estava tentando dizer.

O que é ainda pior é a falta de preparo com que muitas vezes saímos para evangelizar os perdidos e por vezes fazemos mais estragos do que bem. Quantos que no lugar de anunciar o Senhor Jesus Cristo saem pregando religião, atacando de uma maneira cruel e impiedosa a religião dos outros? Quantos que em uma oportunidade de falar da Salvação em Cristo a usam para agredir os costumes religiosos dos outros, afastando-os ainda mais do caminho da Salvação? Eu me lembro de um homem que, ao me oferecer sua casa para fazer um estudo bíblico, me disse de maneira estúpida que não aceitaria estudar a Bíblia, pois os crentes dizem que todos os católicos vão para o inferno. Já ouvi de um rapaz que brigou com um “evangélico” porque este teria dito que sua mãe estava no inferno porque era católica. Ninguém vai para o céu porque é “crente” (no sentido religioso), ou vai por inferno porque é católico.

As pessoas vão para o céu por reconhecerem seus pecados e confiaram de todo o coração que Jesus de Nazaré é o seu Senhor e Salvador pessoal, porque Ele pagou um alto preço pela sua redenção na cruz do Calvário. Da mesma forma as pessoas que vão para o inferno, não vão porque são católicas, espíritas, budistas, confucionistas, evangélicos etc, vão porque são pecadoras e estão mortas em seus delitos e pecados, e ainda que a religião delas esteja de certa forma de acordo com a Palavra de Deus, a religião em si não é suficiente para salvá-las. Alguém pode frequentar uma religião que diz seguir a Bíblia, ser batizado, cantar em coral, participar da Ceia e ser pregador, mas se não depositou total confiança na Pessoa e na Obra Redentora do Senhor Jesus Cristo, recebendo-O como Senhor e Salvador de sua vida, ela vai para o inferno igual ao católico, espírita, budista ou islamita.

Caso alguém se acha melhor que as pessoas que frequentam essas religiões, permita-me ser franco! Ninguém é melhor ou pior que elas, porque elas estão sendo enganadas por suas religiões ou por aqueles que não conhecem o caminho certo, pois muitos se deixam enganar achando que pelo fato de frequentarem as reuniões dos "crentes" (no sentido bíblico) e estar no meio deles, isso faz dela uma pessoa melhor do que as pessoas de outras religiões. Ser "crente" não é ser meramente um religioso, mas ter uma experiência de salvação pessoal com o Senhor Jesus Cristo, recebendo-O pela fé como Senhor e Salvador da sua vida. Essas pessoas que tentei evangelizar me disseram isso, dificilmente ouvem a Verdade porque alguns as prejudicaram de forma grotesca. Isso acontecerá se não manejarmos corretamente a Palavra de Deus.

Algo que eu gosto de pensar para ilustrar esse fato é o caso de Malco, na ocasião que o apóstolo Pedro puxou sua espada e cortou a orelha dele. Parte da sua audição foi arrancada pela espada que Pedro manejou erradamente naquele dia. Interessante notar que Pedro fez aquilo para defender o Senhor Jesus Cristo! O Senhor o repreendeu e curou a Malco (Mateus 26:47-56; Marcos 14:43-49: Lucas 22:47-53; João 18:1-11). Se não fosse o Senhor Jesus intervir, e curá-lo, doravante Malco teria que se esforçar para ouvir o que os outros falariam, pois sua audição fora terrivelmente prejudicada. E o interessante é que sua audição foi prejudicada por quem? Por um servo do Senhor que manejou sua espada fora da vontade do Senhor Jesus Cristo, e por isso foi repreendido.

Será que isto não está acontecendo em nossos dias? Será que na tentativa desesperada de defender ao Senhor Jesus Cristo estamos a cortar as orelhas de nossos irmãos? Será que não está acontecendo o mesmo com os descrentes? Por que será que tem havido poucas conversões em nossos dias? Não será por isso?

Quando pregamos sem convicção da mensagem, quando pregamos sem amor, quando pregamos sem o propósito de vivê-la na prática em nossas vidas, ou pregamos por conveniência ou por interesses pessoais, podemos ter a certeza que estamos manejando erradamente a Palavra da Verdade e estaremos correndo o risco de acontecer conosco o que aconteceu com Pedro, ou seja, no lugar de beneficiarmos os ouvintes da Palavra de Deus, estaremos impedindo a eles de ouvi-la em face de uma atitude nefasta. Foi o que Pedro fez com Malco, ele arrancou pela espada metade da capacidade dele de ouvir.

Pode ser, também, que pelo fato de não sabermos manejar bem a Palavra de Deus, não estaremos arrancando somente metade, mas toda a audição espiritual daqueles que precisam ouvir a boa nova de Salvação, ou dos nossos irmãos que precisam crescer juntos conosco na graça e no conhecimento de nosso Salvador.

Quantas vezes o Senhor Jesus terá tido que intervir consertando os horríveis erros que cometemos com a desculpa da boa intenção, ou em defesa da sã doutrina, que na realidade não passa da defesa de usos, costumes, tradições e doutrinas meramente humanas sem nenhuma base sólida na Palavra de Deus?

Quantos estarão com os ouvidos cortados para a verdade e a simplicidade da Palavra de Deus por causa do chamado evangelho fácil, ou evangelho da prosperidade, porque os “pregadores” dessas heresias não passam na sua maioria de deturpadores das Sagradas Escrituras? Que Deus nos guarde desse terrível erro e nos ajude a manejar bem a Sua Palavra na pureza e simplicidade que ela é. Amém!

autor: Jesué da Silva Andrade.