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O ser humano e seu destino

 

Que a meditação nestas coisas encha o nosso ser com a grandeza dos propósitos de Deus em relação a cada um de nós, levando-nos a viver, aqui neste mundo, no temor do Senhor

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”
(1 Tessalonicenses 5:22)

Ronaldo E. Watterson
Nasceu em 21/11/1935, espiritualmente em 1952,
veio para o Brasil em 1960, e faleceu em 30/05/2016

 

 

Conteúdo 

Capítulo 1

            O SER HUMANO - Gênesis 1:26-31 e 3:18-24

CAPÍTULO 2

            O CORPO - Romanos 6:6-14

CAPÍTULO 3

            A ALMA - Gênesis 2:7-19; Ezequiel 18:20

CAPÍTULO 4

            O ESPÍRITO - 1 Tessalonicenses 5:23; Hebreus 4:12; 1 Coríntios 2:9-16

CAPÍTULO 5

            SEOL E HADES - Lucas 16:19-31

CAPÍTULO 6

            GEENA, O LAGO DO FOGO - Marcos 9:41-48, Apocalipse 20:11-15

© 2014 Editora Sã Doutrina
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CAPÍTULO 1

O SER HUMANO
Gênesis 1:26-31 e 3:18-24

O que é o homem? Eis uma pergunta que provoca respostas das mais variadas e contraditórias. As opiniões do homem a respeito de si mesmo variam desde as teorias científicas até à superstição religiosa.

Alguns acreditam que o ser humano é um animal — o mais evoluído dos animais. Outros afirmam que ele é um espírito, vindo de uma esfera espiritual para encarnar-se aqui, a fim de cumprir determinada missão. Porém, é na Bíblia que descobrimos o que realmente somos; descobrimos de onde viemos, e para onde vamos. E é uma descoberta das mais impressionantes!

A Bíblia deixa bem claro que não somos meros animais, nem espíritos encarnados; ela revela que não evoluímos de outra forma de vida, nem viemos do “mundo dos espíritos”. A Bíblia também revela que o nosso destino não é uma cova em algum cemitério.

Quem somos, então?

O que é o homem?

A ORIGEM DO SER HUMANO                                                                                   

Poucos acreditam que a idade desta Terra e da raça humana é de poucos milênios, mas a Bíblia fornece uma cronologia que nos permite calcular a idade da nossa raça, e por meio desta cronologia descobrimos que Adão, o primeiro homem, foi criado por Deus há aproximadamente 4.000 anos antes do nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo.


COMO FOI?                                                                                                         

“Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança … e criou Deus o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou” (Gênesis 1:26-27). Nesta citação vemos, primeiramente, a decisão de Deus de criar o homem e, em seguida, o fato consumado.

No segundo capítulo de Gênesis encontramos mais detalhes; Deus formou o corpo de Adão do pó da terra (Gênesis 2:7) e o corpo de Eva de uma costela tirada de Adão (Gênesis 2:22).

Portanto, o aparecimento do ser humano neste mundo não foi o clímax dum processo evolutivo, nem a chegada de espíritos provenientes de outra esfera; foi o clímax da obra criativa de Deus.

ADÃO E EVA                                                                                                       

O espiritismo ensina que Adão não foi o primeiro homem, nem o único que Deus fez. Porém, a Bíblia mostra claramente que Adão foi o primeiro e o único homem que Deus fez por obra criatorial. Lemos em Gênesis 2:5 que, antes da criação de Adão, não havia homem para lavrar a terra. O Novo Testamento confirma isto, pois fala do “primeiro homem, Adão” (1 Coríntios 15:45, 47).

Vemos, com igual clareza, que ele foi o único criado por Deus e que toda a raça humana descende dele. Quando o apóstolo Paulo esteve em Atenas, ele disse que Deus fez toda a raça humana de um só (Atos 17:26), e encontramos a mesma verdade, novamente, na carta aos Romanos, onde lemos que o pecado entrou neste mundo por um só homem (5:12). O resto daquele capítulo (Romanos 5) apresenta um contraste entre a obediência de um (que é o Senhor Jesus) e a desobediência de um (que é Adão). Não pode haver dúvida; quando Deus tomou do pó da terra para formar o corpo de Adão, Ele fez um homem só.

DOIS ASPECTOS DO SER HUMANO                                                                           

  • Feito do pó da terra

É humilhante saber que somos pó.

Abraão reconheceu este fato (Gênesis 18:27); o rei Davi também o admitiu (Salmo 103:14). Era verdade o que Deus tinha dito a Adão: “és pó, e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).

O pó é tão insignificante que nem faz diferença numa balança; é tão indesejável que as donas de casa gastam tempo precioso tirando-o dos móveis. E nós somos pó! Somos, em nós mesmos, criaturas tão insignificantes e imprestáveis que o salmista foi forçado a exclamar: “Quando vejo os Teus Céus, obra dos Teus dedos, a Lua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal para que Te lembres dele?” (Salmo 8:3-4).

Gostamos de pensar que somos importantes, mas a verdade é que não somos nada; somos pó.

  • Feito à imagem e semelhança de Deus

É maravilhoso saber que o homem foi feito à imagem de Deus. Esta pobre criatura do pó tem algo realmente glorioso; foi feito pelo próprio Deus, e feito à Sua própria imagem.

Não devemos pensar, porém, que esta imagem e semelhança são físicas. Deus não tem corpo material como nós temos; Deus é espírito (João 4:24) e a Bíblia nos diz que espírito não tem carne nem ossos (Lucas 24: 39). Deus é invisível (Colossenses 1:15 e 1 Timóteo 1:17). Ele não é semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício ou imaginação dos homens (Atos 17:29). Muitos têm mudado a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível (Romanos 1:23), mas Deus não é assim. A semelhança de que Deus fala em Gênesis capítulo 1, não é física e sim, espiritual e moral.

Vejamos alguns aspectos:

a) Responsabilidade. Deus é soberano; Ele faz o que quer. Ele nos fez à Sua imagem, dando-nos domínio sobre toda a criação terrestre, e outorgando-nos o direito de livre arbítrio. Ao colocar o homem no jardim do Éden, Deus lhe disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:16-17). Adão possuía livre arbítrio; poderia comer ou deixar de comer o fruto daquela árvore. Deus respeitaria a sua escolha, mas Adão teria de arcar com as consequências. Ele era um ser responsável.

b) Existência eterna. Deus é eterno, e Ele fez o homem para viver eternamente. Quando Deus soprou o fôlego de vida nas narinas de Adão, este tornou-se uma alma vivente. Note bem a palavra “vivente”. Adão foi feito para viver, e nunca teria morrido se não tivesse comido aquela fruta proibida. Viveria para sempre.

c) Trindade. Deus é triuno. Existem três pessoas divinas — o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estas três pessoas são um só Deus. Não podemos confundir as Pessoas, nem dividir a Divindade, pois não são três deuses; são três Pessoas distintas em um só Deus. E Deus nos fez à Sua imagem. Somos criaturas triunas, compostas de corpo, alma e espírito. Não podemos confundir estas três partes, pois são distintas, mas juntas, formam um ser.

O CORPO NÃO É A ALMA                                                                                      

Descrevendo a morte de Raquel (Gênesis 35:18), a Bíblia diz: “E aconteceu que, saindo-lhe a alma …”. No momento da morte, a alma de Raquel saiu do seu corpo. Portanto, corpo e alma são duas partes distintas. Vemos isto confirmado em 1 Reis 17:21-22, no relato da morte e ressurreição do filho da viúva de Sarepta.

O Novo Testamento traz o mesmo ensino em Mateus 10:28. O Senhor Jesus disse aos discípulos que não deveriam temer “os que matam o corpo, e não podem matar a alma”. Se o homem tem capacidade de matar o corpo e não tem capacidade de matar a alma, então é claro que corpo e alma são duas partes distintas. O corpo não é a alma.

O CORPO NÃO É O ESPÍRITO                                                                                

Este fato parece tão claro e lógico que não precisa de provas, mas a Bíblia ainda fala claramente, dizendo-nos que o corpo sem o espírito está morto (Tiago 2:26). Enquanto o espírito permanece no corpo, este vive, mas quando o espírito sai do corpo, este morre. O espírito pode sair do corpo, e sai mesmo, na hora da morte. Portanto, são duas partes distintas. O corpo não é o espírito.

A ALMA NÃO É O ESPÍRITO                                                                                  

Aqui a distinção parece mais difícil, pois o corpo é material e visível, ao passo que a alma, bem como o espírito, são imateriais e invisíveis. Mesmo assim, existe uma resposta adequada mostrando-nos que há diferença entre alma e espírito. Nesta altura do estudo queremos apenas constatar que há diferença e, para isto, não precisamos ir além de Hebreus 4:12, onde lemos que a Palavra de Deus penetra até a divisão da alma e do espírito. Se a Palavra de Deus é capaz de dividir entre alma e espírito é porque são duas partes distintas. Portanto, alma não é espírito.

Veremos no capítulo seguinte o que a Bíblia diz destas três partes do nosso ser, para que possamos compreender o que realmente somos, de onde viemos e para onde vamos.


CAPÍTULO 2

O CORPO
Romanos 6:6-14

O corpo é a parte material do nosso ser. Para formar este corpo, Deus usou o pó da terra — material insignificante e sem valor. O corpo, porém, é de grande importância. É difícil, senão impossível, calcular o seu valor, mas podemos formar uma ideia disto vendo o prazer que aquele corpo de Adão proporcionou a Deus. Ao completar cada etapa dos trabalhos relatados em Gênesis, capítulo 1, Deus viu que era bom (veja versículos 4, 10, 12, 18, 21, 25). Porém, quando Deus criou o homem, Ele tornou a contemplar a obra das Suas mãos, e eis que era muito bom (Gênesis 1:31).

Deus viu a perfeição daquele corpo e alegrou-Se. Era um corpo dotado de grande capacidade; um instrumento ideal para Lhe servir e realizar os Seus propósitos. Além disto, era um corpo capaz de viver eternamente, sem enfraquecer nem envelhecer. Poderia servir a Deus de forma perfeita e perpetuamente.

Mas Adão pecou! E o pecado afetou o seu corpo, estragando a bela criação de Deus.

OS EFEITOS DO PECADO SOBRE O CORPO 

Para entendermos os efeitos do pecado no corpo humano, vamos examinar algumas expressões que o Novo Testamento usa em relação a este corpo.

  • Corpo do Pecado (Romanos 6:6) – Neste versículo Deus chama o corpo de “corpo do pecado” porque é um corpo que serve ao pecado. Deus fez o corpo humano para o Seu serviço, mas o homem tomou (e ainda toma) este instrumento e o emprega no serviço do pecado (Romanos 6:16). O corpo agora é controlado e condicionado pelo pecado.
  • Corpo da Carne (Colossenses 2:11) – O Novo Testamento usa a palavra “carne” para indicar aquela natureza pecaminosa que está em cada ser humano. Adão e Eva tornaram-se pecadores e, consequentemente, toda a sua descendência nasce com uma natureza que deseja o pecado. Agora o corpo, que deveria fazer a vontade de Deus, satisfaz os desejos da carne, obedecendo aos impulsos depravados desta natureza perversa. Descrevendo o estado natural do homem, a Bíblia diz que ele anda nos desejos da sua carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos.

Estas duas expressões, “corpo do pecado” e “corpo da carne” mostram o exterior e o interior do problema. O corpo é um corpo do pecado, porque é um corpo da carne. Ele se entrega ao pecado, porque é dominado pelos desejos da carne.

  • Corpo Abatido (Filipenses 3:21) – A palavra traduzida “abatido” significa baixeza ou humilhação. O moço não pode orgulhar-se da sua força física, nem a moça da sua beleza, pois, em breve, a força diminuirá e a beleza murchará como a flor apanhada e lançada fora. Como é frustrante querer fazer e não poder. A fraqueza do corpo, a enfermidade, o cansaço ou a falta de destreza nos impõem tantas limitações que sentimos realmente que este corpo é de humilhação. Bem que a Bíblia diz: “Toda a carne é como erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” (1 Pedro 1:24).
  • Corpo Mortal (Romanos 6:12). Eis a humilhação máxima! O corpo que Deus fez para viver e servir eternamente agora está sujeito à morte. De todas as suas limitações, a mais triste é esta: “o homem, nascido de mulher, é de bem poucos dias, e… não permanece” (Jó 14:1-2).

Recapitulando, temos visto que o corpo maravilhoso e útil que Deus fez foi, pelo homem, entregue ao pecado para servir aos desejos da carne. Em consequência disto, ele sofre atualmente a ira de Deus (Romanos 1:18-32) e está sujeito a muitas limitações devido ao seu enfraquecimento, envelhecimento e morte. De fato, o corpo humano, que uma vez causou tanto prazer a Deus, agora é o corpo da nossa humilhação.

Mas Deus ainda tem planos grandiosos para este corpo!

Muitos ignoram isto. Alguns até chegam a dizer que a carne para nada se aproveita (citando João 6:63, sem porém, entender o versículo). Pensam que o corpo não tem importância. Mesmo praticando o adultério, o homicídio ou o roubo, pensam que podem viver em espírito de santidade, pois “foi apenas o corpo que pecou”! Nada pode ser mais errado. É muito importante o que fazemos através do nosso corpo. Deus se interessa por ele a tal ponto que enviou o Senhor Jesus Cristo para ser o Salvador do corpo.

O SALVADOR DO CORPO
1 Coríntios 6:12-20; Efésios 5:23

Pela Sua morte no Calvário, o Senhor comprou-nos (1 Coríntios 6:20), e o contexto deste versículo destaca o corpo. Ele comprou o nosso corpo.

Ao examinarmos 1 Coríntios, capítulo 6, encontramos algumas referências ao corpo do cristão, e através delas podemos ter uma ideia do propósito de Deus em salvar o nosso corpo.

  • O corpo é para o Senhor
  • O corpo é membro de Cristo
  • O corpo é o templo do Espírito Santo

Portanto, “glorificai… a Deus no vosso corpo” (1 Coríntios 6:20).

COMO? 

O apóstolo Paulo escreveu a respeito das perseguições e perigos que ele constantemente enfrentava e revelou o segredo da sua vitória sobre tais circunstâncias. Ele se expressou assim: “Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Coríntios 4:10).


Paulo conhecia, no seu corpo, uma identificação real com os sofrimentos e morte do Senhor Jesus Cristo. Não no sentido expiatório, mas nos Seus sofrimentos pela justiça. Paulo estava sendo perseguido e maltratado por causa da sua fidelidade a Cristo, e estas perseguições que ele sofreu atingiram o Cabeça, Cristo.

O que devemos notar nisto é que Paulo sofria tudo isto “para que a vida de Jesus se manifestasse também em nossos corpos” (2 Coríntios 4:10), e “para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal” (2 Coríntios 4:11). Assim vivendo, ele podia dizer: “… e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). É desta maneira que podemos glorificar a Deus no nosso corpo.

Observe bem o que Paulo escreveu aos filipenses: “Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte” (Filipenses 1:20).

Deus quer usar o nosso corpo para manifestar Cristo aos outros, e assim engrandecê-Lo. Ele comprou o nosso corpo pela morte no Calvário e, consequentemente, tem todo o direito sobre ele. Que Deus ajude a cada um de nós a apresentar os nossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Romanos 12:1). Isto é o nosso culto racional.

Apresentar o nosso corpo a Deus implica em uma renúncia dos nossos supostos direitos; é negar-nos a nós mesmos; é dizer com Paulo: “…não mais eu, mas Cristo…”; é não permitir mais que o corpo seja um instrumento do pecado; é permitir que o nosso corpo seja controlado pelo Senhor.

Fazer assim, porém, não é fácil; é o início de uma luta ferrenha.

Falando a respeito disto, Paulo disse: “Subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27). O verbo aqui traduzido “subjugo” significa “trato severamente”, e o substantivo “servidão” é literalmente “escravidão”. Para que ele pudesse apresentar o seu corpo a Deus, Paulo achou necessário tratá-lo severamente, reduzindo-o à escravidão, pois a natureza velha e pecaminosa procurava tornar aquele corpo em corpo do pecado, fazendo a vontade da carne.

É necessário que o cristão discipline o seu corpo, pois este ainda é influenciado pela carne e pelo pecado. Precisamos dominá-lo e tratá-lo como escravo submisso à vontade do Senhor, para que Cristo seja manifesto através dele.

O FUTURO DO CORPO

Podemos ter uma ideia ampla do futuro deste corpo ao considerar três palavras que o Novo Testamento emprega a este respeito: redenção, ressurreição, e recompensa.

Redenção (Romanos 8:23) – “Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. O preço da redenção foi pago. O Senhor Jesus Cristo deu-Se a Si mesmo em preço de redenção (2 Timóteo 2:6). Pela Sua morte no Calvário, Ele nos remiu. Observe bem o que diz Romanos 8:23... “a redenção do nosso corpo”. A redenção feita no Calvário alcança o nosso corpo!

Embora o preço já fosse pago, ainda não desfrutamos da redenção do corpo. Ele ainda está sujeito às limitações impostas pelo pecado. Ele ainda sofre, enfraquece, envelhece e morre, mas o cristão aguarda ansiosamente a chegada do dia da redenção do corpo, quando este vaso de barro será liberto, definitivamente, das consequências do pecado.

Isto acontecerá por ocasião do arrebatamento, quando os que morreram em Cristo ressuscitarão e os vivos, que estão em Cristo, serão arrebatados e transformados (1 Coríntios 15:25).

O corpo humano foi feito para existir eternamente, mas o pecado o tornou mortal. Deus, porém, remiu o corpo daquele que crê, e este redimido viverá eternamente na presença do Senhor, no seu corpo redimido.

Ressurreição (1 Coríntios 15:22) – O capítulo 15 de 1 Coríntios trata pormenorizadamente deste assunto. Nos primeiros 34 versículos, o Espírito Santo prova conclusivamente que haverá ressurreição dos mortos, e o versículo 35 lança uma pergunta cuja resposta ocupa o resto do capítulo.

A pergunta tem duas partes: “Como ressuscitam os mortos? E em que corpo virão?” Para o nosso estudo atual, vamos limitar-nos a quatro contrastes que encontramos nos versículos 42 a 44, pois nestes contrastes aprendemos muito sobre o corpo na ressurreição.

  • Corrupção e incorrupção
  • Ignomínia e glória
  • Fraqueza e vigorO corpo será, mais uma vez, útil ao Senhor.
  • Animal e espiritual

Veremos ainda mais para frente, como a alma exerce uma influência negativa sobre o corpo, devido ao fato que o espírito não está cumprindo a sua verdadeira função. Na ressurreição, porém, o espírito voltará a funcionar como no princípio, e o ser completo trará prazer e glória ao Senhor.

Recompensa (2 Coríntios 5:10) – Somos responsáveis pelos atos feitos através do corpo. Cada cristão terá de comparecer perante o Tribunal de Cristo a fim de que sejam julgadas as suas obras. Perceba bem; o cristão não será julgado (João 5:24), mas o seu trabalho será julgado (I Coríntios 3:13), e cada um receberá segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo (2 Coríntios 5:10).

O CORPO DO PERDIDO

Resta apenas acrescentar algo sobre o futuro do corpo daquele que não tem a salvação. Ele também ressuscitará, transformado, e existirá eternamente nas agonias do lago do fogo (Apocalipse 20:15). O Senhor Jesus avisou que Deus tem poder para lançar o corpo, juntamente com a alma, no Geena, isto é, no lago de fogo (Mateus 10:28).

Todo descrente que já morreu está, mesmo agora, sofrendo nos tormentos no Hades (Lucas 16:19 a 31). O seu corpo, porém, está no pó da terra; é a sua alma e o seu espírito que estão no Hades. No entanto, na ressurreição, estas duas partes deixarão o Hades, juntando-se novamente ao seu corpo, e o ser completo será lançado no lago de fogo.

Ao falar sobre aquele lugar onde o fogo não se apaga, o Senhor disse que cada um seria “salgado com fogo” (Marcos 9:49). O sal conserva e preserva. O Senhor usou esta figura para representar aquilo que Ele dará ao corpo ressurreto, dando-lhe a capacidade de existir eternamente nos tormentos do Geena. Nunca será consumido pelas chamas; existirá para sempre.


CAPÍTULO 3

A ALMA
Gênesis 2:7-19; Ezequiel 18:20

A palavra “alma” aparece com muita frequência na Bíblia — mais de 750 vezes no Velho Testamento e 105 vezes no Novo.

Este número elevado de ocorrências deve ser mais do que o suficiente para eliminar toda dúvida quanto ao sentido da palavra, mas infelizmente, constatamos exatamente o contrário. Existe muita confusão a respeito da alma, e muita ignorância.

Examinando os versículos onde aparece a palavra “alma”, descobrimos que a Bíblia a emprega de diversas maneiras, dando-lhe diversos significados. Mas isto não deve nos confundir, pois muitas palavras comuns são usadas com vários sentidos, sem que haja confusão. Aliás, este fato é tão comum que passa quase despercebido.

Veja por exemplo a palavra “corpo”. Quando se usa esta palavra, geralmente se refere à nossa carne e aos nossos ossos. Geralmente, mas nem sempre, pois na expressão “corpo legislativo” todos entendem que o significado é outro. Quando se fala de “corpo de doutrina” todos entendem que se refere a uma coleção de dogmas. O contexto em que a palavra é usada determina o seu significado.

Assim é também com a palavra “alma”.

Alma, às vezes, significa pessoa, ou ser; às vezes refere-se à vida que aquele ser possui, e às vezes significa uma parte imaterial daquele ser. A Bíblia também emprega esta palavra figurativamente.

Vamos observar três usos diferentes desta palavra, encontrados no primeiro livro da Bíblia — Gênesis:

a)    Capítulo 1:20... “E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente” (ARC). Esta é a primeira ocorrência da palavra “alma” na Bíblia, e vemos que alma significa “ser”. Se compararmos este versículo com os versículos 21 e 24 do mesmo capítulo, e com os versículos 7 e 19 do capítulo 2, aprendemos que “alma” pode significar um ser animal, ou um ser humano.

b)    Capítulo 1:30... “E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente”. Neste versículo encontramos um uso diferente da palavra, pois aqui “alma” é algo que o ser possui.

c)     Capítulo 12:13… “para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma por amor de ti”. Aqui “alma” significa a vida, pois o contexto deixa claro que Abraão estava pensando em salvar a sua vida.

Consideremos mais detalhadamente estes três usos da palavra “alma”.

ALMA: UM SER                                                                                                                      

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou nos seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gênesis 2:7).

O ser humano é uma alma.

Confirmando esta afirmação, notamos que Moisés escreveu: “Todas as almas, pois, que procederam da coxa de Jacó, foram setenta almas” (Êxodo 1:5). No Novo Testamento, encontramos o mesmo uso de “alma”, em Atos 2:41 onde lemos: “e naquele dia agregaram-se quase três mil almas”. Ezequiel também usa “alma” neste mesmo sentido, dizendo: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18:20). Ele explicou, no mesmo versículo, o que isto quer dizer. O filho não morrerá pelo pecado do pai, nem o pai pelo pecado do filho, mas a alma (isto é, a pessoa) que pecar, essa morrerá.

Convém ressaltar, porém, que não somos as únicas almas na criação de Deus. Já vimos em Gênesis capítulo 1 que os animais, os peixes, os répteis e os pássaros também são almas. A primeira ocorrência de “alma”, na Bíblia, refere-se a estas criaturas e, até ao fim, as Escrituras continuam chamando estas criaturas de “almas”, pois lemos em Apocalipse 16:3 que “o segundo anjo derramou a sua salva no mar, que se tornou em sangue como de um morto, e morreu no mar toda a alma vivente”.

Assim entendemos que somos almas, tanto nós como os animais, os peixes, os répteis e os pássaros.

ALMA: A VIDA                                                                                                                     

Consideremos agora alguns versículos onde “alma” não significa um ser e sim, a vida que aquele ser possui.

Já citamos Gênesis 12:13, onde Abraão pediu que Sara dissesse que era sua irmã, pois ele temia os egípcios e pensava que poderia salvar a sua vida com esse estratagema: “Dize, peço-te,queés minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma por amor de ti”. Há muitos exemplos bíblicos onde “alma” é empregada assim, como por exemplo, quando o anjo do Senhor disse a José: “já estão mortos os que procuravam a morte [a palavra grega no texto original significa ‘alma’] do menino” (Mateus 2:20). O Senhor Jesus usou a palavra neste sentido quando disse: “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida [literalmente, ‘alma’]” (Mateus 6:25). Veja também Mateus 10:39; Romanos 11:3; Filipenses 2:30; Apocalipse 12:11 etc. Em todos os versículos mencionados neste parágrafo, Deus usou a palavra grega psuche (“alma”) para significar a vida que cada ser possui.

ALMA: UMA PARTE IMATERIAL DO SER                                                                  

Há muitos versículos na Bíblia onde a palavra “alma” não significa um ser, nem tão pouco a vida que o ser possui. Refere-se, nestes casos, a uma parte imaterial do ser, a algo que ele tem, sem poder enxergá-lo, nem apalpá-lo. Contudo, é algo muito real.

O apóstolo João, escrevendo a Gaio, disse: “Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como vai bem a tua alma” (3 João v. 2). João queria que Gaio prosperasse quanto à sua vida (“que te vá bem em todas as coisas”), e quanto ao seu corpo (“que tenhas saúde”), porém ele estava absolutamente certo de que a alma de Gaio estava prosperando. A alma, como João aqui emprega a palavra, não é o ser, nem a vida, mas algo que aquele homem possuía.

O Senhor Jesus usou a palavra “alma” no mesmo sentido. Certa vez Ele disse aos discípulos: “Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma” (Mateus 10:28). Os homens podem matar o corpo; eles podem tirar-nos a vida, mas não podem matar a alma. Este fato já deixa bem claro que, neste sentido da palavra, alma não é o corpo, nem a vida, mas algo que nós temos. A alma é uma parte imaterial e invisível do nosso ser.

A melhor maneira de entender o que é a alma que está em nós é considerar as suas funções.

AS FUNÇÕES DA ALMA                                                                                                        

A maneira mais segura e simples de descobrir o que a alma faz, é notar os verbos que a Bíblia usa com a palavra “alma”. Citaremos apenas alguns, porque são muitos.

Aprendemos que a alma chora (Jeremias 13:17); ela também lamenta (Jó 14:22). Ela pode alegrar-se (Salmo 35:9) e comprazer-se (Isaías 42:1). Isto mostra que a alma é influenciada por circunstâncias e acontecimentos que lhe dão alegria ou tristeza.

Esta conclusão é reforçada quando notamos que a alma ama (Cantares 1:7) e se aborrece (Salmo 107:18). Ela é capaz de gozar (Eclesiastes 2:24) e de enfadar-se (Levítico 26:15). Ela pode abominar (Jó 33:20) ou deleitar-se (Isaías 55:2). Por meio destes verbos, vemos que a alma é o centro das nossas emoções, e que ela nos emociona através de coisas terrestres e materiais — isto é, as circunstâncias ou o ambiente em que nos achamos.

Além disto, aprendemos ainda que a alma é dotada de inteligência, pois ela sabe (Josué 23:14 e Salmo 139:14). Ela se lembra (Lamentações 3:20). Ela é capaz, tanto de raciocinar e de recordar e, por este meio, ela nos emociona, proporcionando-nos alegria ou tristeza.

Das coisas acima escritas, podemos deduzir que a alma nos dá consciência das coisas terrenas e materiais e dá-nos, assim, certas emoções. Devido a este fato, a alma pode abençoar outras pessoas (Gênesis 27:4) e bendizer a Deus (Salmo 103:1). Ela pode louvar a Deus (Salmo 146:1) e engrandecê-Lo (Lucas 1:46).

Tendo considerado os verbos, vamos agora pensar em alguns substantivos que a Bíblia usa em relação à alma.

Vemos que a alma sente prazer (Isaías 66:3), e também pode sentir tristeza (2 Reis 4:27) ou amargura (1 Samuel 1:10). Ela tem desejos (Isaías 26:8) e sede (Salmo 42:2). Às vezes ela tem tédio (Jó 10:1) ou fastio (Números 21:5). Em Provérbios 2:10, aprendemos que a alma tem conhecimento.

Como podemos ver, isto confirma o que notamos acima. A alma é o centro das emoções que resultam de coisas terrenas e materiais. Ela é dotada de inteligência.

Podemos também considerar os adjetivos que a Bíblia usa para descrever a alma, e isto nos leva à mesma conclusão.

A Bíblia fala de uma alma abatida (Salmo 42:5) e de uma alma anelante (Salmo 84:2). Lemos de uma alma sedenta e faminta (Salmo 107:9). Ela pode estar cheia de angústias (Salmo 88:3) ou farta de zombarias (Salmo 123:4).

A ORIGEM DA ALMA                                                                                                                João 5:24-29; Apocalipse 6:9-11

Foi Deus quem fez esta alma. O rei Zedequias disse ao profeta do Senhor: “Vive o Senhor que nos fez esta alma…” (Jeremias 38:16). Neste versículo, no texto original, encontramos a mesma palavra que Deus havia usado quando disse: “Façamos o homem à nossa imagem” (Gênesis 1:26), e mais tarde quando disse: “Far-lhe-ei uma adjutora” (Gênesis 2:18). Deus fez o corpo, tanto de Adão como de Eva, e fez também a alma de cada pessoa, por um ato criatorial.

As palavras do Senhor, por intermédio de Isaías, confirmam isto: “Para sempre não contenderei, nem continuamente Me indignarei; porque o espírito perante a Minha face enfraqueceria, e as almas que Eu fiz” (Isaías 57:16).

Já mostramos que esta alma que Deus fez, dá ao homem consciência do mundo em que ele vive e, através deste conhecimento, lhe causa certas emoções. No seu estado original, a alma funcionava em perfeita harmonia com o corpo e o espírito, levando o homem a deliciar-se com as coisas que Deus havia feito, e através delas, engrandecer a Deus, o Criador. Ele sentia prazer, ele adorava, vendo e conhecendo as obras maravilhosas de Deus.

Mas o pecado estragou tudo isto.

OS EFEITOS DO PECADO SOBRE A ALMA                                         

Agora a alma dá-nos consciência das coisas materiais, como no dia em que Deus fez Adão, porém ela nos prende a estas coisas, afastando-nos assim de Deus. Ela nos faz materialistas e, portanto, prejudica-nos espiritualmente.

O Novo Testamento fornece amplas provas disto, mas para o presente estudo será suficiente considerar as seis ocorrências do adjetivo grego psuchikos.

Não há na língua portuguesa uma palavra que traduza satisfatoriamente este vocábulo, mas podemos entender o seu significado, notando alguns casos paralelos. Da mesma forma que o adjetivo “espiritual” é derivado do substantivo “espírito”, o adjetivo psuchikos é derivado do substantivo psuche (“alma”).

A primeira vez que encontramos psuchikos no Novo Testamento é em I Coríntios 2:14, onde lemos que “o homem natural (psuchikos) não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Apesar da alma ser dotada de inteligência, ela impede o homem de compreender as coisas espirituais. O homem natural é um ser caracterizado pelo domínio da alma (o uso de psuchikos em 1 Coríntios 2:14 indica isto). Ela lhe dá conhecimento de coisas materiais, mas não das coisas espirituais; até impede que ele as entenda. Enquanto o ser humano permanece neste estado, sob o controle da sua alma, é impossível que ele entenda as coisas de Deus.

Encontramos este adjetivo mais três vezes em 1 Coríntios capítulo 15, mostrando algumas diferenças entre o corpo no seu estado atual, e o mesmo corpo no seu estado futuro, depois da ressurreição. Agora, o nosso corpo é um corpo animal (veja 1 Coríntios 15:44). A palavra “animal” é a tradução de psuchikos, e indica um corpo controlado pela alma. Na ressurreição, porém, teremos um corpo espiritual — isto é, um corpo sob a influência do espírito.

Devido ao pecado, as influências que a alma exerce são maléficas e prejudiciais, fazendo do homem uma criatura materialista e sensual. Ele não sente o valor das coisas espirituais, antes, dá valor excessivo às coisas que se veem.

Encontramos a quinta ocorrência desta palavra em Tiago. Ele escreveu sobre uma sabedoria que não vem do alto, e a descreveu como sendo “terrena, animal [psuchikos] e diabólica” (Tiago 3:15). Isto é assustador! A sabedoria humana — o que os homens naturalmente chamariam de sabedoria — é primeiramente terrena, porque origina-se na Terra; é animal, porque é o produto da inteligência da alma, adquirida através da contemplação das coisas terrenas e materiais; é diabólica, porque o diabo usa a alma humana para encher e prender a mente humana com coisas terrenas, a fim de que o homem ignore as realidades espirituais e eternas. Isto mostra, em termos dramáticos, a condição da alma humana, e a sua influência diabólica sobre o homem.

A última ocorrência deste adjetivo na Bíblia se encontra em Judas v. 19, onde lemos: “Estes são os que causam divisões, sensuais [psuchikos], que não têm o Espírito”. O contexto revela que são pessoas escarnecedoras, andando segundo as suas concupiscências ímpias. Não são guiadas pelo Espírito Santo, porque não O têm. Vivem sob a influência da alma.

A ALMA DO CRISTÃO                                                                                                             

Devido ao pecado, a alma exerce uma influência maléfica no ser humano, mas a salvação que Deus dá modifica tudo isto.

Quando Deus salva um pecador, Ele salva o ser completo. Já notamos que o Senhor Jesus Cristo é o Salvador do corpo, e que Ele comprou o corpo por bom preço, mas é bom saber também que esta salvação alcança a alma. Pedro menciona a salvação da alma (1 Pedro 1:9). Em Hebreus lemos daqueles que creem para a salvação da alma (Hebreus 10:39), e Tiago nos diz que a Palavra de Deus pode salvar nossas almas (Tiago 1:21).

O fato de Cristo ter salvado o corpo não o livra das consequências presentes do pecado. Ele ainda está sujeito à doença; ele sente fraqueza; ele morre. Da mesma forma, a alma salva ainda sofre os efeitos do pecado, e ela pode prender o cristão às coisas materiais e sensuais, desviando-o do seu verdadeiro caminho.

O apóstolo Pedro falou da alma, várias vezes, na sua primeira carta, e um estudo destas referências nos ensina muito sobre a alma de um cristão. Já notamos como ele falou da salvação da alma (1 Pedro 1:9). Aqueles cristãos estavam sofrendo uma forte perseguição, e teriam de sofrer mais ainda. Talvez alguns perderiam bens, e até a própria vida, mas quão bom saber que a alma estava salva.

Em seguida, Pedro exortou os cristãos a purificarem a sua alma (1 Pedro 1:22). Eles poderiam purificá-la obedecendo a palavra do Senhor. Em vez de obedecer aos impulsos materialistas da alma, eles deveriam obedecer a verdade. A palavra acima citada reforça isto, pois a Palavra de Deus pode salvar as nossas almas do erro (Tiago 1:21). Na medida em que o cristão obedece a verdade, naquela mesma medida ele será salvo das influências do pecado, e esta alma purificada poderá agir novamente em harmonia com os propósitos de Deus, dando ao homem sede de Deus e assim levando-o a adorar o seu Criador.

No segundo capítulo da sua carta, Pedro nos avisa que as concupiscências carnais combatem contra a alma (a Pedro 2:11). Estas “concupiscências” (isto é, desejos fortes), são carnais, e o cristão precisa se abster de tais desejos, negando-se a si mesmo, para que a alma não opere sob o controle da natureza pecaminosa que a Bíblia chama de “carne”.

Devido a este fato, o cristão enfrenta uma luta sem tréguas. As forças inimigas são fortes e persistentes, mas o cristão não está sozinho. Ele tem um Pastor e Bispo da sua alma (1 Pedro 2:25). Como Pastor da alma, o Senhor a guarda dos ataques do inimigo, e lhe dará o alimento necessário da Sua Palavra. Como Bispo da alma, Ele a orientará e amparará. Até mesmo nas horas difíceis de perseguição e perigo, o cristão ainda pode encomendar a sua alma a Deus, como ao fiel Criador (1 Pedro 4:19), sabendo que os homens podem matar-lhe o corpo, mas não podem tocar na sua alma (Mateus 10:28).

O FUTURO DA ALMA                                                                                                              

Na hora da morte, a alma deixa o corpo. Bem no começo da Bíblia o Espírito Santo revela isto, descrevendo a morte de Raquel da seguinte forma: “… saindo-lhe a alma …” (Gênesis 35:18). Na história do filho da viúva de Sarepta, novamente vemos este fato, pois Elias, estendendo-se sobre o cadáver do menino, clamou ao Senhor e disse: “Rogo-te que torne a alma deste menino a entrar nele” (1 Reis 17:21). O Senhor ouviu a voz de Elias e a alma do menino tornou a entrar nele, e ele reviveu (v. 22).

Quando Raquel morreu, a sua alma não morreu; saiu do seu corpo. Quando o filho da viúva morreu, a sua alma não morreu; saiu do seu corpo, e quando tornou a entrar no corpo, o menino reviveu.

Passando para o Novo Testamento, achamos a confirmação deste fato. O apóstolo João viu, em visão, servos de Deus que serão mortos durante a Grande Tribulação (Apocalipse 6:9-11). Considerando bem estes versículos, o leitor verá que as almas daqueles mortos estavam no Céu, enquanto seus corpos apodreciam na Terra. E veja mais uma coisa impressionante! Estas almas estavam conscientes! Elas não estavam dormindo! Elas conversavam com Deus. Elas se lembravam das coisas que lhes aconteceram na Terra. Impressionante! Enquanto seus corpos apodreciam na Terra, as suas almas estavam em plena consciência, na presença de Deus; estavam na posse de todas as suas faculdades.

Certa vez, o Senhor Jesus falou de dois homens que morreram (Lucas 16:19-31) e revelou muita coisa sobre a condição das suas almas depois de saírem do corpo. Aqueles dois homens estavam conscientes na eternidade, pois Lázaro estava sendo confortado, enquanto o rico estava em tormentos. Conforto e tormento são termos que só têm sentido se a pessoa está consciente. Além disto, vemos que o rico possuía memória, pois ele se lembrava dos seus cinco irmãos na Terra (v. 23), e o próprio Abraão lhe disse que deveria lembrar-se da sua vida e das oportunidades que tivera.

Tudo isto deixa bem claro que a alma que sai do corpo não deixa de existir; também é claro que ela não dorme na inconsciência. Ela continua vivendo fora do corpo, depois da morte deste. Ela continua vivendo em plena consciência, possuindo todos os seus sentidos, retendo ainda a memória, a visão e a capacidade de conversar.

Se a alma foi salva em vida, ela deixa o corpo para habitar com o Senhor, em gozo indizível. Se ela não foi salva em vida, ela deixa o corpo para entrar em tormentos eternos. Os textos acima mencionados são suficientes para provar isto.

Porém, ainda não é o fim. Haverá a ressurreição. Todos os que morrem, ressuscitarão (João 5:28-29). A morte entregará os mortos que nela há (isto é, entregará os corpos), e o Hades entregará os mortos que nele há (isto é, entregará as almas e os espíritos) e as três partes se juntarão novamente. Com a alma e o espírito novamente no corpo, o homem reviverá. Este será o seu estado eterno. O incrédulo será julgado perante o Grande Trono Branco, e de lá será lançado no lago do fogo, onde sofrerá eternamente (Apocalipse 20:15). O salvo (corpo, alma e espírito) estará eternamente com o Senhor, desfrutando das delícias da Sua presença (João 17:24 e 1 Tessalonicenses 4:17).
                                                                                                                                         


CAPÍTULO 4

O ESPÍRITO

1 Tessalonicenses 5:23; Hebreus 4:12; 1 Coríntios 2:9-16


Não somos apenas corpo e alma; temos também um espírito. Somos criaturas triunas feitas à imagem do Deus triuno.

O apóstolo Paulo falou das três partes do ser humano quando expressou o seu desejo de que os tessalonicenses fossem conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tessalonicenses 5:23). Sua maneira de se expressar não deixa lugar para dúvida: o ser humano é composto de espírito, alma e corpo.

Mesmo no Velho Testamento, este fato era conhecido. Ao falar com Jó, Eliú afirmou que “há um espírito no homem” (Jó: 32:8); lemos também do espírito de Ciro (Esdras 1:1), e de Seom, rei de Hesbom (Deuteronômio 2:30), e de muitos outros.

SIGNIFICADO DE “ESPÍRITO”                                                                                 

Já observamos que a palavra “corpo” pode ter vários significados, e também observamos que a Bíblia usa a palavra “alma” muitas vezes, mas nem sempre com o mesmo significado. A mesma coisa acontece com a palavra “espírito”. Às vezes, esta palavra refere-se a uma parte imaterial do nosso ser, como vemos em Jó 32:8 e 1 Tessalonicenses 5:23, mas muitas vezes refere-se a anjos ou outros seres imateriais (Lucas 24:39; Atos 5:19; Atos 23:8; Hebreus 1:7,14). Estes espíritos podem ser anjos santos que servem a Deus, ou podem ser espíritos perversos que servem a Satanás. Muitas vezes a mesma palavra é aplicada a Deus, pois lemos que Ele é espírito (João 4:24), e uma das Pessoas divinas é chamada de “o Espírito Santo”.

Aprendemos em João 6:63 que é o espírito que vivifica. Devido a este fato, a palavra “espírito” passou a transmitir a ideia de “ânimo” ou “coragem”. Lemos da rainha de Sabá que foi provar Salomão com enigmas. Quando ela viu a sua sabedoria, bem como a ordem e grandeza da sua casa, ficou tão impressionada que “não houve mais espírito nela” (1 Reis 10:5). O seu espírito não saiu do seu corpo (pois então teria morrido), mas ela não teve ânimo ou coragem para investigar ou interrogá-lo mais. O próprio Salomão usou a palavra no mesmo sentido quando disse: “Como a cidade derribada que não tem muros, assim é o homem que não pode conter o seu espírito” (Provérbios 25:28). Obviamente, Salomão está falando do homem que não pode conter o seu ânimo, que não tem domínio próprio.

O que mais nos interessa neste estudo é aquela parte imaterial do nosso ser — o nosso espírito.

ORIGEM DO ESPÍRITO                                                                                      

Assim como o corpo e a alma foram criados por Deus, o espírito também foi criado por Ele. O profeta Zacarias escreveu: “Fala o Senhor, o que estende o Céu e que funda a Terra, e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1). Considere bem este versículo. O espírito humano não existia antes do corpo em que ele vive; cada espírito humano foi formado especialmente para o seu próprio corpo.

Vamos agora considerar o que a Bíblia revela sobre o nosso espírito.

AS FUNÇÕES DO ESPÍRITO                                                                                 

Em primeiro lugar, vamos examinar os verbos que a Palavra de Deus emprega com o substantivo “espírito”; estes nos mostrarão o que o espírito faz e assim poderemos entender o que é o nosso espírito.

O espírito pode perturbar-se (Gênesis 41:8 e Daniel 2:1). Também pode angustiar-se (Jó 21:4; Salmo 143:4 e João 13:21). Por outro lado, ele pode alegrar-se (Lucas 1:47). Destas afirmações, podemos deduzir que o espírito sente emoções. O Senhor Jesus Cristo, entristecido pela incredulidade dos judeus, suspirou “profundamente em Seu espírito” (Marcos 8:12), e quando Paulo esperava por Silas e Timóteo em Atenas, “o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria” (Atos 17:16).

O espírito pode desfalecer (Salmo 77:3 e 142:7) e pode se abater (Provérbios 15:13). Em contraste com isto, vemos que o espírito de João Batista se robustecia (Lucas 1:80). Isto mostra que as circunstâncias pelas quais a pessoa passa, bem como a sua maneira de enfrentá-las, afetam o seu espírito, enfraquecendo-o ou fortalecendo-o.

Quando consideramos os substantivos usados na Bíblia em conjunção com “espírito”, somos levados à mesma conclusão. Vemos que o espírito pode sentir ânsia (Êxodo 6:9) e pode ter amargura (Jó 7:11). Também pode sentir ardor ou excitação (Ezequiel 3:14). Isto confirma que o espírito sente emoções, causadas pelas circunstâncias pelas quais passa.

Voltando a nossa atenção agora para os adjetivos que a Bíblia usa para descrever o espírito, vemos que ela fala de um espírito atribulado (1 Samuel 1:15). Fala também de um espírito desgostoso (1 Reis 21:5). Davi falou de um espírito angustiado (Salmo 142:3) e Isaías escreveu de um espírito triste (Isaías 54:6). Deus aprecia, e não desprezará, o espírito quebrantado (Salmo 51:17).

Além de sentir emoções, descobrimos ainda que o espírito é dotado de inteligência, pois ele investiga (Salmo 77:6). O espírito conhece tudo que pertence ao homem, isto é, sua natureza, seus pensamentos e seus propósitos (1 Coríntios 2:11).

ALMA E ESPÍRITO                                                                                        

Nesta altura do nosso estudo, já fica patente que a alma e o espírito têm muito em comum. Este fato tem levado muitos a confundir estas duas partes do nosso ser, e chegam a dizer que alma é espírito.

De fato, ambos são imateriais e invisíveis; ambos sentem emoções e têm inteligência; ambos deixam o corpo no momento da morte, e continuam a sua existência em plena consciência, fora do corpo, retornando a ele no dia da ressurreição.

Há, porém, uma diferença entre alma e espírito.

A Bíblia diz: “A Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão de alma e do espírito” (Hebreus 4:12). Em outras palavras, a Bíblia distingue entre alma e espírito; são duas coisas distintas.

Embora ambos tenham inteligência, não devemos confundi-los, pois é a alma que dá-nos consciência das coisas terrenas e materiais, ao passo que o espírito dá-nos consciência de nós mesmos (1 Coríntios 2:11), além de dar-nos conhecimento de Deus e das coisas espirituais (1 Coríntios 2:14-15). O nosso espírito nos permite ter comunhão com Deus (Romanos 8:16), mas é a alma que aprecia as coisas terrenas.

No início, como já notamos, a alma de Adão lhe dava consciência da bela criação de Deus, e através disto o levava a adorar o seu Criador. O seu espírito, agindo em perfeita harmonia com a alma, capacitava-o a manter comunhão com Deus, e deliciar-se na presença do Senhor.

Mas o pecado estragou tudo isso!

OS EFEITOS DO PECADO SOBRE O ESPÍRITO                                                       

Veja três aspectos da tragédia que o pecado causou na vida de Adão.

Ao ler o relato de como o pecado entrou neste mundo, a primeira coisa que nos desperta a atenção é que Adão e Eva perderam o desejo de estar na presença do Senhor. Quando “ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia”, eles se esconderam entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8). Deus veio buscar o homem, mas este não queria mais estar na presença do Senhor. Ele se escondeu.

Esta atitude de Adão mostra a grande mudança que se efetuara no seu espírito. Ele havia perdido o desejo de comunhão com Deus, não tinha mais a capacidade de deleitar-se com as coisas espirituais. O seu espírito fora atingido pelo pecado.

A segunda consequência do pecado, que vemos neste relato, é que Adão perdeu o conhecimento de si mesmo. Vemos isto quando Deus o chamou e o interrogou a respeito do seu pecado. Ao invés de reconhecer a sua culpa, ele quis se justificar culpando Eva. Ele disse: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gênesis 3:12). Ele não mostrou nenhuma tristeza por ter pecado. Ele não sentiu a sua desgraça; não se considerou pecador. Ao contrário, mostrou-se arrogante e rebelde. Lançou a culpa sobre Eva e sobre o próprio Deus por ter-lhe dado Eva por companheira! A seu ver, ele não era culpado; Deus deveria assumir a responsabilidade por tudo que havia acontecido. Mais uma vez, vemos que o espírito de Adão foi atingido pelo pecado, pois ele não tinha mais o conhecimento de si mesmo.

A terceira consequência da sua desobediência foi que Adão perdeu o verdadeiro conhecimento de Deus. Eva acreditou na mentira de Satanás, pensando que Deus não iria cumprir a Sua palavra. Por outro lado, quando Adão comeu o fruto proibido, ele teve medo de Deus (Gênesis 3:6-8 e 1 Timóteo 2:14). Primeiramente, Eva pensou que Deus seria incapaz de castigar, depois Adão pensou que Deus seria incapaz de perdoar. Eles não O conheciam.

Estas consequências do pecado continuam afetando o ser humano até hoje!

O pecador não se sente bem na presença de Deus; foge d’Ele. Deixados à vontade, todos se desviam de Deus como ovelhas desgarradas (Isaías 53:6). Escondem-se nos seus deveres ou nos seus divertimentos; escondem-se atrás dos seus supostos méritos ou dos méritos de um rito religioso; não buscam a Deus (Salmo 14:2-3). O Senhor Jesus disse que os homens não vêm à luz para que as suas obras não sejam reprovadas (João 3:20).

Enquanto o homem permanece nas trevas, ele não vê o seu verdadeiro estado. Ele não sente o seu pecado. Ele procura justificar os seus atos, exonerando-se de toda a responsabilidade pelas suas faltas e culpando a Deus por elas, pois foi Deus quem o fez assim!

O homem sem Cristo ainda não conhece a Deus. Quantos há que pensam que Deus não pode castigar o pecador no lago do fogo e enxofre. Quantos pensam que Deus pode ser comprado com promessas que jamais podem ser cumpridas. Quantos há que pensam que Deus pode ser enganado, e que o pecador pode escapar das consequências dos seus atos.

Tudo isso indica quão grande foi o estrago feito no espírito humano. Este não está mais cumprindo a sua verdadeira função e, consequentemente, o homem vive nas trevas, ignorante do seu estado deplorável; ignorante do seu perigo iminente e totalmente indiferente ao Deus com Quem ele terá que tratar.

O ESPÍRITO DO CRISTÃO                                                                                 

Gálatas 5:16-26

A salvação de um pecador é um verdadeiro milagre! Já observamos que o pecador não busca a Deus; é Deus quem o busca e salva. É uma obra divina; obra esta que a Bíblia chama de novo nascimento (João 3:3 etc.).

Este novo nascimento é efetuado pelo Espírito Santo. Naquele momento, o espírito daquele que é regenerado passa a ter a capacidade de assumir o seu verdadeiro papel. Veja como este fato é apresentado em 1 Coríntios, capítulo 2.

Ninguém “sabe as coisas do homem senão o espírito do homem que nele está”. Da mesma forma, argumenta o apóstolo, “ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11). Mas nós, que somos salvos, não recebemos o espírito do mundo, e sim o Espírito que provém de Deus e, consequentemente, podemos conhecer o que nos é dado, gratuitamente, por Deus (1 Coríntios 2:12).

Em outras palavras, o nosso espírito recebe comunicações de Deus e dá-nos conhecimento das coisas espirituais e divinas, coisas estas que um incrédulo não conhece, nem pode conhecer (veja vs. 8-14).

Passando à carta aos Romanos, aprendemos que o Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), de sorte que o espírito do cristão capacita-o a ter não só conhecimento das coisas de Deus mas comunhão com Ele.

Este fato é confirmado em várias partes da Bíblia. Isaías disse: “…com o meu espírito, que está dentro de mim, madrugarei a buscar-Te” (Isaías 26:9). O espírito daquele que é salvo pode ser despertado por Deus, isto é, pode tornar-se cônscio da vontade de Deus e sentir o desejo de fazer o que Deus quer (Esdras 1:5). Vemos esta mesma prontidão de espírito nos discípulos no jardim de Getsêmani, apesar da evidente fraqueza da sua carne (Mateus 26:41). O espírito daquele que é salvo pode alegrar-se em Deus, apreciando as bênçãos que Ele tem derramado sobre nós (Lucas 1:47) e pode manifestar esta apreciação, servindo a Deus (Romanos 1:9).

Aprendemos ainda que o homem espiritual, isto é, o homem cujo espírito exerce a sua verdadeira função, compreende a mente do Senhor e reconhece a autoridade da Sua Palavra (1 Coríntios 14:37). Ele se submete alegremente a toda Palavra do Senhor. Além disto, ele manifesta interesse no bem estar espiritual dos outros, e procura encaminhar aquele que for surpreendido nalguma falta (Gálatas 6:1).

A CARNE CONTRA O ESPÍRITO                                                                         

Há, porém, perigos para o espírito do cristão. Já notamos como o corpo e a alma do salvo ainda sofrem as consequências do pecado, e agora veremos que o espírito não é diferente. Ele também pode ser impedido de exercer a sua verdadeira função.

O nosso espírito (falando agora de pessoas salvas) pode manter comunhão com Deus e dar-nos conhecimento das coisas divinas, mas a carne cobiça contra o Espírito (Gálatas 5:16-26). A carne, neste contexto, não se refere ao nosso corpo, mas sim, àquela natureza perversa e pecaminosa que está em cada ser humano (veja Romanos 8:8-9). Ela controla o homem natural e também quer controlar o cristão. Isto dá origem a uma luta sem tréguas. Por um lado, a carne querendo levar-nos ao pecado, e por outro lado, o Espírito Santo operando em nosso espírito, querendo levar-nos à comunhão com Deus.

Graças a Deus, que não precisamos viver escravizados pela carne, pois aquele que anda no Espírito não cumprirá a concupiscência da carne (Gálatas 5:16).

O FUTURO DO ESPÍRITO                                                                                    

Já mostramos que o espírito sai do corpo na hora da morte (Tiago 2:26). A Bíblia confirma isto em muitas passagens. Quando Estêvão estava para morrer, ele disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7:29). Ele estava seguindo o exemplo do seu Senhor, que também entregou o Seu espírito, dizendo: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lucas 23:46).

Quando o espírito sai do corpo, este morre, mas o espírito continua vivendo. Salomão nos diz que ele volta a Deus (Eclesiastes 12:7), porém, isto não quer dizer que todos os espíritos estarão no mesmo lugar. A Bíblia mostra claramente a sorte diferente dos espíritos dos salvos e dos espíritos dos perdidos. Vemos os espíritos dos justos aperfeiçoados, participando nas felicidades da Jerusalém celeste (Hebreus 12:23), na companhia de incontáveis hostes de anjos e na presença do próprio Deus. Por outro lado, vemos os espíritos dos que foram desobedientes nos dias de Noé, reservados na prisão (1 Pedro 3:19), em castigo, aguardando o dia de juízo (2 Pedro 2:9).

No capítulo anterior, notamos que a alma torna a entrar no seu corpo na ressurreição, e agora podemos verificar que o espírito também volta ao seu corpo. Quando o Senhor Jesus foi à casa de Jairo, Ele entrou no quarto onde a menina jazia morta. Pegando-lhe na mão, disse: “Levanta-te, menina, e o seu espírito voltou, e ela logo se levantou” (Lucas 8:55). O corpo sem o espírito está morto (Tiago 2:26), mas logo que o espírito voltou ao corpo daquela menina, ela ressuscitou. Assim será na ressurreição dos mortos. O espírito deixará o Hades, e retornará ao seu próprio corpo. Mas veremos mais detalhes sobre isto no próximo capítulo.

Refletindo naquilo que temos observado até agora neste estudo, só podemos exclamar, admirados: “Graças Te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formastes; as Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14).

“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).

 


 

CAPÍTULO 5

SEOL E HADES

Lucas 16:19-31

As duas palavras do cabeçalho talvez pareçam estranhas a muitos leitores; é porque não são palavras portuguesas. Seol é uma palavra hebraica, e Hades é uma palavra grega. São palavras que aparecem frequentemente no texto original da Bíblia (Seol, 65 vezes no Velho Testamento, e Hades, 10 vezes no Novo Testamento) e é importante que saibamos o que significam.

As duas palavras expressam a mesma ideia. Vemos isto em Atos 2:27, onde encontramos uma citação de Salmo 16:10. No referido texto no livro dos Salmos, o escritor usou a palavra Seol e na citação, em língua grega, Lucas usou a palavra Hades. Portanto, não há dúvida; a palavra hebraica Seol equivale a Hades na língua grega.

Mas como expressar esta ideia em português?

É aqui que a dificuldade começa. Não existe em nosso idioma nenhuma palavra que traduza satisfatoriamente a ideia contida no vocábulo Seol. Os tradutores da Bíblia têm usado uma diversidade de palavras na sua tentativa de transmitir fielmente a mensagem divina.

Na Versão Corrigida, João Ferreira de Almeida usa principalmente as palavras “inferno” e “sepultura”, mas em alguns casos encontramos outras expressões como “mundo invisível” (Salmo 89:48). Várias vezes ele até desistiu de tentar traduzir, e simplesmente transcreveu a palavra original (veja Jó 17:16, Salmo 139:8, Atos 2:27,31 etc.).

A Versão Atualizada de João Ferreira de Almeida mostra-se mais confusa ainda. Esta tradução emprega palavras como “sepultura”, “além”, “inferno”, “sepulcro”, “morte”, “abismo” e “cova”, e expressões como “reino dos mortos” (Isaías 14:15).

A tradução de Matos Soares usa principalmente a palavra “inferno”, e também palavras como “sepulcro”, “sepultura”, “morte” e “abismo”, bem como a expressão “habitação dos mortos”.

Esta confusão aparente dos tradutores deve-se ao fato de não haver na língua portuguesa uma palavra que traduza plenamente a ideia contida nas palavras Seol e Hades. As diversas palavras que usaram representam a sua tentativa honesta e sincera de se aproximarem à ideia do texto original, levando em conta o contexto de cada ocorrência da palavra. Vamos considerar as palavras mais usadas por eles, e veremos que realmente não são adequadas.

INFERNO                                                                                                                                        

A palavra “inferno” transmite para nós a ideia de um lugar de sofrimento, onde o fogo nunca se apaga. Não há dúvida que tal lugar existe, mas a palavra Seol (ou Hades) não significa isto.

Em Gênesis 37:35 vemos que Jacó, um servo de Deus, esperava ir a Seol. Jó também, que era homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:8) falou do seu desejo de ir ao Seol (Jó 14:13). Isto já é suficiente para provar que Seol (ou Hades) não é um lugar reservado exclusivamente para os perdidos, pois até os servos de Deus esperavam ir para lá. Salomão confirma isto em Eclesiastes 9:10 quando mostra que Seol é o destino de toda a humanidade.

SEPULTURA                                                                                                                                   

Uma sepultura é uma cova funerária, um jazigo; é um lugar onde se enterra o cadáver. Seol, porém, não é uma sepultura. Considere os seguintes fatos:

a)    A língua hebraica usa qeber ou qeburah para indicar uma sepultura; nunca usa a palavra Seol para isto. A língua grega não usa Hades, e sim mnemeion, mnema ou taphos quando quer falar de sepultura.

b)    Existem muitas sepulturas, espalhadas por toda a face da terra; só existe um Seol (ou Hades). A Bíblia não usa o plural destas palavras.

c)     Todas as sepulturas que existem são de propriedade particular; lemos na Bíblia da sepultura (qeber) de Jacó (Gênesis 50:5) e da sepultura (qeburah) de Raquel (Gênesis 35:20), e de muitas outras. Nunca lemos do Seol (ou Hades) de alguém, pois Seol (Hades) não é de propriedade particular.

d)    As sepulturas têm localização geográfica. Nos dois casos citados acima, vemos que a sepultura de Raquel estava no caminho de Efrata (Gênesis 35:19) e a de Jacó estava em Canaã (Gênesis 50:5). A Bíblia, porém, não indica nenhuma localização geográfica de Seol; não se acha neste país, nem em qualquer outro.

e)    Todos têm visto muitas sepulturas; ninguém jamais viu Seol (Hades).

f)      Os homens cavam sepulturas (Gênesis 50:5), e compram sepulturas (Gênesis 23:9); edificam sepulturas (Lucas 11:47) e as adornam (Mateus 23:29). Ninguém cava, compra, edifica ou adorna Seol (Hades).

O contraste entre o uso de Seol ou Hades na Bíblia e as palavras hebraicas e gregas, que significam sepultura, deixam bem claro que sepultura não é uma tradução correta de Seol (Hades). Várias vezes a Bíblia usa Seol em contraste com o Céu (Salmo 139:8, Jó 11:8, Isaías 14:14-15 e Amós 9:2). São termos grandes demais para a mente humana; representam o desconhecido. Uma cova rasa na superfície da Terra não serviria como contraste com o Céu. Fica claro, então, mesmo neste uso poético da palavra, que Seol não é a sepultura.

Na primeira ocorrência de Seol na Bíblia, Jacó falou que desceria ao seu filho, José, no Seol (Gênesis 37:35). Ele pensava que José fora devorado por uma fera e, portanto, que não estava em sepultura alguma. Contudo disse que desceria ao seu filho, ao Seol. Portanto, Seol não é a sepultura.

MORTE                                                                                                                                          

A palavra “morte” é usada várias vezes para traduzir Seol (Hades), mas a própria Bíblia distingue entre Seol (Hades) e a morte.

Em Apocalipse 1:18 lemos que o Senhor Jesus Cristo tem as chaves da morte e do Hades. Ainda no mesmo livro, vemos um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, cujo nome é a morte (6:8), e o texto acrescenta que o Hades o seguia. Se o Hades seguia a morte, então o Hades não é a morte.

Mesmo usando as palavras figurativamente, o Espírito Santo mantém a distinção. No fim de Apocalipse, encontramos as duas palavras mais uma vez. Tanto a morte como o Hades serão lançados no lago do fogo (veja 20:13-14). Hades, portanto, não é a morte.

ALÉM                                                                                                                                            

A Versão Atualizada usa “além”, várias vezes, nas suas tentativas de traduzir Seol (Hades). De todas as palavras usadas, esta é a que mais se aproxima da ideia original, embora não expresse o seu significado total; indica apenas que não está mais na terra dos viventes; está no além.

Esta é, aproximadamente, a ideia contida na palavra Seol ou Hades. Porém, Seol ou Hades é um estado provisório, e a palavra “além” não transmite esta ideia.

SEOL – HADES                                                                                                                               

O vocábulo Seol (Hades) indica mais um estado do que uma posição. Como dissemos acima, é quase o que entendemos pela expressão “além-túmulo”. Consideremos alguns textos bíblicos para perceber com mais clareza o seu significado.

Em Gênesis 37:35, encontramos a palavra pela primeira vez na Bíblia. Jacó pensava que o seu filho José estava morto, e disse que iria a ele ao Seol. Ele pensava que José não estava mais na terra dos viventes, mas sim, em Seol, isto é, na região dos mortos. Seol é o antônimo da expressão “terra dos viventes”; é a habitação dos mortos, sem especificar exatamente onde estes mortos estão.

Muita confusão tem surgido por não percebermos que Seol não indica a localização dos mortos; é mais um estado ou condição. Sem dúvida alguma, os mortos estão em algum lugar, mas a palavra Seol (ou Hades) não especifica onde é este lugar. Já notamos que os servos de Deus (Jacó e Jó) esperavam ir para Seol; os ímpios também são lançados no Seol (Salmo 9:17), porém, os ímpios não estão no mesmo lugar onde Jacó e Jó estão. Seol é a esfera dos mortos, em contraste com a esfera dos viventes; é o além.

Precisamos limitar esta definição, pois a permanência da alma e do espírito no Seol é limitada. Em 1 Samuel 2:6 lemos que o Senhor faz descer a Seol, e faz tornar a subir dele. Jó também falou dum limite à sua permanência no Seol, dizendo: “Oxalá me escondesse no Seol, e me ocultaste até que a Tua ira se desviasse” (Jó 14:13).

Davi também falou neste sentido em palavras que se referem profeticamente ao Senhor Jesus Cristo: “Não deixarás a Minha alma no Seol” (Salmo 16:10). Confirmando isto, o Novo Testamento fala daquele dia quando o Hades entregará os mortos que nele há, e será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:13,14).

Seol (Hades), portanto, é a habitação da alma e do espírito entre a morte e a ressurreição. Na morte, o corpo vai para o pó, porém a alma e o espírito vão para Seol (Hades). O que veio do pó da terra, volta ao pó da terra; o que veio de Deus, volta a Deus (Eclesiastes 12:7 e Lucas 16:22-23). Enquanto o corpo se desfaz no sepulcro, a alma e o espírito estão no Seol.

CONDIÇÕES NO SEOL                                                                                                                  

Embora a palavra Seol (Hades) não especifique o lugar para onde vão os mortos, um estudo das suas ocorrências na Bíblia revela algo sobre as condições neste estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Consideremos, primeiramente, a condição dos salvos.

OS SALVOS                                                                                                                                 

Para os salvos, Seol representa livramento ou refúgio. Na sua aflição, Jó expressou o desejo de estar no Seol, escondido, até que a ira passasse (Jó 14:13). Aqui na vida, ele estava sofrendo horrivelmente, e ele considerou Seol como um refúgio destas dores. Para os salvos, Seol representa o que é muito melhor do que qualquer coisa que temos aqui nesta vida. Lázaro (Lucas 16:22-25) é mais um exemplo disto.

O apóstolo Paulo também escreveu: “desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). Em Filipenses 1:21-23, ele falou novamente deste mesmo desejo de partir e estar com Cristo, e acrescentou que isto lhe seria muito melhor; o morrer, para ele, seria lucro.

OS PERDIDOS                                                                                                                             

Porém, para quem não é salvo, Seol (Hades) não trará nenhum alívio dos seus sofrimentos; ao contrário, os aumentará muito mais, pois a Bíblia revela que há muito sofrimento no Seol para quem morrer sem a salvação.

Em Deuteronômio lemos: “Um fogo se ascendeu no Meu furor, e arderá até ao mais profundo do Seol” (32:22). O Salmista falou das “angústias do Seol” que se apoderaram dele (Salmo 116:3) e Salomão confirma isto, dizendo: “O amor é forte como a morte, e duro como o Seol o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas” (Eclesiastes 8:6).

No Novo Testamento encontramos a mesma realidade, pois se Lázaro foi consolado, o rico foi atormentado. Observe o rico (Lucas 16:19-31); ele foi sepultado, e no Hades ergueu os seus olhos, estando em tormentos (v. 23), e disse a Abraão: “Estou atormentado nesta chama” (v. 24); Abraão lhe respondeu: “Lázaro … é consolado, e tu atormentado” (v. 25). Quando o rico viu que não haveria misericórdia para ele, nem sequer uma gota de água para aliviar aqueles terríveis sofrimentos, ele se lembrou dos seus irmãos que ainda viviam e pediu que fossem avisados, para que não fossem para “este lugar de tormento” (v. 28).

CONCLUSÃO                                                                                                                                 

Concluímos, pois, que Seol (Hades) significa o além-túmulo; mais precisamente, o além-túmulo desde o momento da morte até a ressurreição. A palavra em si não indica a localização daquele que morreu (se está no Céu ou no inferno); apenas indica que não está na terra dos viventes, e sim, na habitação dos mortos. No Seol (Hades), os mortos estão em plena consciência; alguns no consolo e segurança; outros nos tormentos do fogo.


 

CAPÍTULO 6

GEENA, O LAGO DO FOGO

Marcos 9:41-48, Apocalipse 20:11-15

A palavra Geena é usada 12 vezes no Novo Testamento, e os tradutores têm mostrado uma consistência elogiável em sempre traduzir esta palavra por “inferno”, tanto na versão Corrigida, como na Atualizada. A primeira ocorrência é em Mateus 5:22, onde o Senhor avisa do perigo do “inferno de fogo”. Nos versículos 29 e 30 do mesmo capítulo, o Senhor falou especialmente do corpo, mostrando que este pode ir à Geena, o inferno de fogo. Quando chegamos ao capítulo 10 aprendemos algo mais: a alma também pode ir à Geena (veja v. 28).

  Observe bem esta distinção entre Geena e Hades. O Hades recebe a alma, mas não recebe o corpo; Geena recebe tanto o corpo como a alma.

 Geena é mencionada três vezes no Evangelho segundo Marcos, e estas referências mostram algo sobre as condições naquele lugar. Já notamos que é um lugar de fogo (Mateus 5:22); agora, aprendemos que este fogo nunca se apaga, é inextinguível (Marcos 9:43). Além disto, aprendemos que o “verme” daqueles que vão para a Geena não morre; dura eternamente, assim como o fogo queima eternamente (Marcos 9:48).

  Este trecho de Marcos (9:42-50) mostra que há duas condições para o ser humano na eternidade — a vida e a Geena (veja vs. 43 e 45). Quando chegamos no v. 47, porém, a palavra “vida” é substituída pela expressão “o reino de Deus”, indicando que a vida e o reino de Deus, neste contexto, são sinônimos. Portanto, na eternidade, cada ser humano estará ou no reino de Deus, ou no inferno de fogo.

Lucas também usa esta palavra, dizendo que devemos temer a Deus, pois Ele, e somente Ele, tem o poder para lançar na Geena. Os homens podem matar o corpo, mas não podem lançá-lo na Geena. Isto prova que o inferno não é a sepultura, pois os homens podem lançar um cadáver numa sepultura, mas somente Deus pode lançar no inferno (veja Lucas 12:4-5).

O livro de Apocalipse fala, várias vezes, de um lago de fogo e enxofre. A besta e o falso profeta serão lançados neste lago de fogo (Apocalipse 19:20); Satanás também será lançado no mesmo lugar (Apocalipse 20:12). Mas observe bem o tempo quando estas coisas hão de acontecer. Satanás será lançado no lago de fogo, aproximadamente mil anos depois da besta e do falso profeta, e o texto sagrado diz que “serão atormentados para todo sempre” (Apocalipse 20:10). Isto é impressionante! Mil anos depois de serem lançados no lago de fogo, a besta e o falso profeta ainda se encontrarão naqueles tormentos. Veja o tempo presente do verbo: “onde está a besta e o falso profeta”, e depois, o plural; “eles serão atormentados”.

Mas não podemos parar neste ponto; precisamos ler mais um pouco, até chegar ao capítulo 21 e o versículo 8. Aqui descobrimos que seres humanos, muitos seres humanos, irão para o mesmo lago de fogo.

Não há dúvida, porém, que o lugar chamado Geena é o mesmo lago de fogo. Basta comparar as referências à Geena com os versículos que falam do lago de fogo, e ficará claro que são dois nomes para o mesmo lugar.

Consideremos agora, algumas expressões que o Novo Testamento usa para descrever este lugar. É chamado de inferno de fogo (Mateus 5:22), e também de “fornalha de fogo” (Mateus 13:42-50). Ali haverá choro e ranger de dentes. Em Mateus 18:8 é chamado de “fogo eterno”, e a mesma descrição é repetida em 25:41, quando o Senhor diz que este fogo eterno foi preparado para o diabo e seus anjos.

Marcos acrescenta que é fogo que nunca se apaga (Marcos 9:43, 44, 46, 48), e Judas nos diz que os habitantes de Sodoma e Gomorra estão sofrendo, mesmo agora, a pena de fogo eterno (Judas v. 7). Aprendemos no livro de Apocalipse que aqueles que adoram a besta beberão do vinho da ira de Deus, e serão atormentados com fogo e enxofre (Apocalipse 14:10).

Estas Escrituras são tão claras que não precisam de explicação. Apesar das tentativas do inimigo das almas de torcer, ou negar, estas palavras, a sua mensagem permanece para que todos a leiam. Existe, na eternidade, um inferno de tormentos, onde o fogo nunca se apaga e o tormento nunca cessa.

HADES E GEENA

Já notamos que Hades (Seol) é a esfera dos mortos, em contraste com a esfera dos viventes. Notamos também que não é o destino final do homem. Geena, porém, é eterno, como as Escrituras acima citadas provam. A relação entre Hades e Geena torna-se mais clara quando lemos Apocalipse 20:13-14. Quem morre agora vai para o Hades, a esfera dos mortos. O seu corpo volta ao pó, enquanto a sua alma e o seu espírito estão no Hades. Na ressurreição, ele deixará o Hades para ocupar novamente o seu corpo. No caso dos incrédulos, isto acontecerá depois do Milênio, e eles comparecerão perante o Grande Trono Branco, conforme lemos em Apocalipse capítulo 20. Após aquele julgamento, eles serão lançados no lago de fogo, isto é, na Geena.

  Mas veja como Deus descreve isto no capítulo já mencionado: “A morte e o Hades deram os mortos que neles havia” (Apocalipse 20:13). Isto é, os corpos seriam entregues pela morte, e as almas e os espíritos seriam entregues pelo Hades. Então “a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo” (v. 14). O estado temporário será lançado no lugar final de tormentos eternos, o que significa que o Hades será tragado pela Geena, e a morte pela segunda morte.

TÁRTARO

Há mais uma palavra grega que aparece no Novo Testamento, e que é traduzida “inferno”. Refiro-me à palavra tártaro, que Pedro usou na seguinte declaração: “Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas havendo-os lançados no inferno [tártaro], os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4). É a única vez que esta palavra aparece no Novo Testamento, e o contexto revela que é o lugar onde anjos que pecaram estão reservados para o juízo.

Satanás e os seus anjos serão atormentados eternamente no lago de fogo, como já notamos, mas tártaro parece ser um lugar temporário onde certos anjos caídos estão reservados para o juízo. Chegando este dia de juízo, estes anjos serão lançados no lago de fogo, isto é, na Geena, onde sofrerão eternamente.

FIM

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autor: Ronaldo E. Watterson.