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O ser humano e seu destino (4)

Que a meditação nestas coisas encha o nosso ser com a grandeza dos propósitos de Deus em relação a cada um de nós, levando-nos a viver, aqui neste mundo, no temor do Senhor

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”

(1 Tessalonicenses 5:22)

Ronaldo E. Watterson

Nasceu em 21/11/1935, espiritualmente em 1952,
veio para o Brasil em 1960, e faleceu em 30/05/2016

CAPÍTULO 4

O ESPÍRITO

1 Tessalonicenses 5:23; Hebreus 4:12; 1 Coríntios 2:9-16


Não somos apenas corpo e alma; temos também um espírito. Somos criaturas triunas feitas à imagem do Deus triuno.

O apóstolo Paulo falou das três partes do ser humano quando expressou o seu desejo de que os tessalonicenses fossem conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tessalonicenses 5:23). Sua maneira de se expressar não deixa lugar para dúvida: o ser humano é composto de espírito, alma e corpo.

Mesmo no Velho Testamento, este fato era conhecido. Ao falar com Jó, Eliú afirmou que “há um espírito no homem” (Jó: 32:8); lemos também do espírito de Ciro (Esdras 1:1), e de Seom, rei de Hesbom (Deuteronômio 2:30), e de muitos outros.

SIGNIFICADO DE “ESPÍRITO”                                                                                 

Já observamos que a palavra “corpo” pode ter vários significados, e também observamos que a Bíblia usa a palavra “alma” muitas vezes, mas nem sempre com o mesmo significado. A mesma coisa acontece com a palavra “espírito”. Às vezes, esta palavra refere-se a uma parte imaterial do nosso ser, como vemos em Jó 32:8 e 1 Tessalonicenses 5:23, mas muitas vezes refere-se a anjos ou outros seres imateriais (Lucas 24:39; Atos 5:19; Atos 23:8; Hebreus 1:7,14). Estes espíritos podem ser anjos santos que servem a Deus, ou podem ser espíritos perversos que servem a Satanás. Muitas vezes a mesma palavra é aplicada a Deus, pois lemos que Ele é espírito (João 4:24), e uma das Pessoas divinas é chamada de “o Espírito Santo”.

Aprendemos em João 6:63 que é o espírito que vivifica. Devido a este fato, a palavra “espírito” passou a transmitir a ideia de “ânimo” ou “coragem”. Lemos da rainha de Sabá que foi provar Salomão com enigmas. Quando ela viu a sua sabedoria, bem como a ordem e grandeza da sua casa, ficou tão impressionada que “não houve mais espírito nela” (1 Reis 10:5). O seu espírito não saiu do seu corpo (pois então teria morrido), mas ela não teve ânimo ou coragem para investigar ou interrogá-lo mais. O próprio Salomão usou a palavra no mesmo sentido quando disse: “Como a cidade derribada que não tem muros, assim é o homem que não pode conter o seu espírito” (Provérbios 25:28). Obviamente, Salomão está falando do homem que não pode conter o seu ânimo, que não tem domínio próprio.

O que mais nos interessa neste estudo é aquela parte imaterial do nosso ser — o nosso espírito.

ORIGEM DO ESPÍRITO                                                                                      

Assim como o corpo e a alma foram criados por Deus, o espírito também foi criado por Ele. O profeta Zacarias escreveu: “Fala o Senhor, o que estende o Céu e que funda a Terra, e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1). Considere bem este versículo. O espírito humano não existia antes do corpo em que ele vive; cada espírito humano foi formado especialmente para o seu próprio corpo.

Vamos agora considerar o que a Bíblia revela sobre o nosso espírito.

AS FUNÇÕES DO ESPÍRITO                                                                                 

Em primeiro lugar, vamos examinar os verbos que a Palavra de Deus emprega com o substantivo “espírito”; estes nos mostrarão o que o espírito faz e assim poderemos entender o que é o nosso espírito.

O espírito pode perturbar-se (Gênesis 41:8 e Daniel 2:1). Também pode angustiar-se (Jó 21:4; Salmo 143:4 e João 13:21). Por outro lado, ele pode alegrar-se (Lucas 1:47). Destas afirmações, podemos deduzir que o espírito sente emoções. O Senhor Jesus Cristo, entristecido pela incredulidade dos judeus, suspirou “profundamente em Seu espírito” (Marcos 8:12), e quando Paulo esperava por Silas e Timóteo em Atenas, “o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria” (Atos 17:16).

O espírito pode desfalecer (Salmo 77:3 e 142:7) e pode se abater (Provérbios 15:13). Em contraste com isto, vemos que o espírito de João Batista se robustecia (Lucas 1:80). Isto mostra que as circunstâncias pelas quais a pessoa passa, bem como a sua maneira de enfrentá-las, afetam o seu espírito, enfraquecendo-o ou fortalecendo-o.

Quando consideramos os substantivos usados na Bíblia em conjunção com “espírito”, somos levados à mesma conclusão. Vemos que o espírito pode sentir ânsia (Êxodo 6:9) e pode ter amargura (Jó 7:11). Também pode sentir ardor ou excitação (Ezequiel 3:14). Isto confirma que o espírito sente emoções, causadas pelas circunstâncias pelas quais passa.

Voltando a nossa atenção agora para os adjetivos que a Bíblia usa para descrever o espírito, vemos que ela fala de um espírito atribulado (1 Samuel 1:15). Fala também de um espírito desgostoso (1 Reis 21:5). Davi falou de um espírito angustiado (Salmo 142:3) e Isaías escreveu de um espírito triste (Isaías 54:6). Deus aprecia, e não desprezará, o espírito quebrantado (Salmo 51:17).

Além de sentir emoções, descobrimos ainda que o espírito é dotado de inteligência, pois ele investiga (Salmo 77:6). O espírito conhece tudo que pertence ao homem, isto é, sua natureza, seus pensamentos e seus propósitos (1 Coríntios 2:11).

ALMA E ESPÍRITO                                                                                        

Nesta altura do nosso estudo, já fica patente que a alma e o espírito têm muito em comum. Este fato tem levado muitos a confundir estas duas partes do nosso ser, e chegam a dizer que alma é espírito.

De fato, ambos são imateriais e invisíveis; ambos sentem emoções e têm inteligência; ambos deixam o corpo no momento da morte, e continuam a sua existência em plena consciência, fora do corpo, retornando a ele no dia da ressurreição.

Há, porém, uma diferença entre alma e espírito.

A Bíblia diz: “A Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão de alma e do espírito” (Hebreus 4:12). Em outras palavras, a Bíblia distingue entre alma e espírito; são duas coisas distintas.

Embora ambos tenham inteligência, não devemos confundi-los, pois é a alma que dá-nos consciência das coisas terrenas e materiais, ao passo que o espírito dá-nos consciência de nós mesmos (1 Coríntios 2:11), além de dar-nos conhecimento de Deus e das coisas espirituais (1 Coríntios 2:14-15). O nosso espírito nos permite ter comunhão com Deus (Romanos 8:16), mas é a alma que aprecia as coisas terrenas.

No início, como já notamos, a alma de Adão lhe dava consciência da bela criação de Deus, e através disto o levava a adorar o seu Criador. O seu espírito, agindo em perfeita harmonia com a alma, capacitava-o a manter comunhão com Deus, e deliciar-se na presença do Senhor.

Mas o pecado estragou tudo isso!

OS EFEITOS DO PECADO SOBRE O ESPÍRITO                                                       

Veja três aspectos da tragédia que o pecado causou na vida de Adão.

Ao ler o relato de como o pecado entrou neste mundo, a primeira coisa que nos desperta a atenção é que Adão e Eva perderam o desejo de estar na presença do Senhor. Quando “ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia”, eles se esconderam entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8). Deus veio buscar o homem, mas este não queria mais estar na presença do Senhor. Ele se escondeu.

Esta atitude de Adão mostra a grande mudança que se efetuara no seu espírito. Ele havia perdido o desejo de comunhão com Deus, não tinha mais a capacidade de deleitar-se com as coisas espirituais. O seu espírito fora atingido pelo pecado.

A segunda consequência do pecado, que vemos neste relato, é que Adão perdeu o conhecimento de si mesmo. Vemos isto quando Deus o chamou e o interrogou a respeito do seu pecado. Ao invés de reconhecer a sua culpa, ele quis se justificar culpando Eva. Ele disse: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gênesis 3:12). Ele não mostrou nenhuma tristeza por ter pecado. Ele não sentiu a sua desgraça; não se considerou pecador. Ao contrário, mostrou-se arrogante e rebelde. Lançou a culpa sobre Eva e sobre o próprio Deus por ter-lhe dado Eva por companheira! A seu ver, ele não era culpado; Deus deveria assumir a responsabilidade por tudo que havia acontecido. Mais uma vez, vemos que o espírito de Adão foi atingido pelo pecado, pois ele não tinha mais o conhecimento de si mesmo.

A terceira consequência da sua desobediência foi que Adão perdeu o verdadeiro conhecimento de Deus. Eva acreditou na mentira de Satanás, pensando que Deus não iria cumprir a Sua palavra. Por outro lado, quando Adão comeu o fruto proibido, ele teve medo de Deus (Gênesis 3:6-8 e 1 Timóteo 2:14). Primeiramente, Eva pensou que Deus seria incapaz de castigar, depois Adão pensou que Deus seria incapaz de perdoar. Eles não O conheciam.

Estas consequências do pecado continuam afetando o ser humano até hoje!

O pecador não se sente bem na presença de Deus; foge d’Ele. Deixados à vontade, todos se desviam de Deus como ovelhas desgarradas (Isaías 53:6). Escondem-se nos seus deveres ou nos seus divertimentos; escondem-se atrás dos seus supostos méritos ou dos méritos de um rito religioso; não buscam a Deus (Salmo 14:2-3). O Senhor Jesus disse que os homens não vêm à luz para que as suas obras não sejam reprovadas (João 3:20).

Enquanto o homem permanece nas trevas, ele não vê o seu verdadeiro estado. Ele não sente o seu pecado. Ele procura justificar os seus atos, exonerando-se de toda a responsabilidade pelas suas faltas e culpando a Deus por elas, pois foi Deus quem o fez assim!

O homem sem Cristo ainda não conhece a Deus. Quantos há que pensam que Deus não pode castigar o pecador no lago do fogo e enxofre. Quantos pensam que Deus pode ser comprado com promessas que jamais podem ser cumpridas. Quantos há que pensam que Deus pode ser enganado, e que o pecador pode escapar das consequências dos seus atos.

Tudo isso indica quão grande foi o estrago feito no espírito humano. Este não está mais cumprindo a sua verdadeira função e, consequentemente, o homem vive nas trevas, ignorante do seu estado deplorável; ignorante do seu perigo iminente e totalmente indiferente ao Deus com Quem ele terá que tratar.

O ESPÍRITO DO CRISTÃO                                                                                 

Gálatas 5:16-26

A salvação de um pecador é um verdadeiro milagre! Já observamos que o pecador não busca a Deus; é Deus quem o busca e salva. É uma obra divina; obra esta que a Bíblia chama de novo nascimento (João 3:3 etc.).

Este novo nascimento é efetuado pelo Espírito Santo. Naquele momento, o espírito daquele que é regenerado passa a ter a capacidade de assumir o seu verdadeiro papel. Veja como este fato é apresentado em 1 Coríntios, capítulo 2.

Ninguém “sabe as coisas do homem senão o espírito do homem que nele está”. Da mesma forma, argumenta o apóstolo, “ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11). Mas nós, que somos salvos, não recebemos o espírito do mundo, e sim o Espírito que provém de Deus e, consequentemente, podemos conhecer o que nos é dado, gratuitamente, por Deus (1 Coríntios 2:12).

Em outras palavras, o nosso espírito recebe comunicações de Deus e dá-nos conhecimento das coisas espirituais e divinas, coisas estas que um incrédulo não conhece, nem pode conhecer (veja vs. 8-14).

Passando à carta aos Romanos, aprendemos que o Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), de sorte que o espírito do cristão capacita-o a ter não só conhecimento das coisas de Deus mas comunhão com Ele.

Este fato é confirmado em várias partes da Bíblia. Isaías disse: “…com o meu espírito, que está dentro de mim, madrugarei a buscar-Te” (Isaías 26:9). O espírito daquele que é salvo pode ser despertado por Deus, isto é, pode tornar-se cônscio da vontade de Deus e sentir o desejo de fazer o que Deus quer (Esdras 1:5). Vemos esta mesma prontidão de espírito nos discípulos no jardim de Getsêmani, apesar da evidente fraqueza da sua carne (Mateus 26:41). O espírito daquele que é salvo pode alegrar-se em Deus, apreciando as bênçãos que Ele tem derramado sobre nós (Lucas 1:47) e pode manifestar esta apreciação, servindo a Deus (Romanos 1:9).

Aprendemos ainda que o homem espiritual, isto é, o homem cujo espírito exerce a sua verdadeira função, compreende a mente do Senhor e reconhece a autoridade da Sua Palavra (1 Coríntios 14:37). Ele se submete alegremente a toda Palavra do Senhor. Além disto, ele manifesta interesse no bem estar espiritual dos outros, e procura encaminhar aquele que for surpreendido nalguma falta (Gálatas 6:1).

A CARNE CONTRA O ESPÍRITO                                                                         

Há, porém, perigos para o espírito do cristão. Já notamos como o corpo e a alma do salvo ainda sofrem as consequências do pecado, e agora veremos que o espírito não é diferente. Ele também pode ser impedido de exercer a sua verdadeira função.

O nosso espírito (falando agora de pessoas salvas) pode manter comunhão com Deus e dar-nos conhecimento das coisas divinas, mas a carne cobiça contra o Espírito (Gálatas 5:16-26). A carne, neste contexto, não se refere ao nosso corpo, mas sim, àquela natureza perversa e pecaminosa que está em cada ser humano (veja Romanos 8:8-9). Ela controla o homem natural e também quer controlar o cristão. Isto dá origem a uma luta sem tréguas. Por um lado, a carne querendo levar-nos ao pecado, e por outro lado, o Espírito Santo operando em nosso espírito, querendo levar-nos à comunhão com Deus.

Graças a Deus, que não precisamos viver escravizados pela carne, pois aquele que anda no Espírito não cumprirá a concupiscência da carne (Gálatas 5:16).

O FUTURO DO ESPÍRITO                                                                                    

Já mostramos que o espírito sai do corpo na hora da morte (Tiago 2:26). A Bíblia confirma isto em muitas passagens. Quando Estêvão estava para morrer, ele disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7:29). Ele estava seguindo o exemplo do seu Senhor, que também entregou o Seu espírito, dizendo: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lucas 23:46).

Quando o espírito sai do corpo, este morre, mas o espírito continua vivendo. Salomão nos diz que ele volta a Deus (Eclesiastes 12:7), porém, isto não quer dizer que todos os espíritos estarão no mesmo lugar. A Bíblia mostra claramente a sorte diferente dos espíritos dos salvos e dos espíritos dos perdidos. Vemos os espíritos dos justos aperfeiçoados, participando nas felicidades da Jerusalém celeste (Hebreus 12:23), na companhia de incontáveis hostes de anjos e na presença do próprio Deus. Por outro lado, vemos os espíritos dos que foram desobedientes nos dias de Noé, reservados na prisão (1 Pedro 3:19), em castigo, aguardando o dia de juízo (2 Pedro 2:9).

No capítulo anterior, notamos que a alma torna a entrar no seu corpo na ressurreição, e agora podemos verificar que o espírito também volta ao seu corpo. Quando o Senhor Jesus foi à casa de Jairo, Ele entrou no quarto onde a menina jazia morta. Pegando-lhe na mão, disse: “Levanta-te, menina, e o seu espírito voltou, e ela logo se levantou” (Lucas 8:55). O corpo sem o espírito está morto (Tiago 2:26), mas logo que o espírito voltou ao corpo daquela menina, ela ressuscitou. Assim será na ressurreição dos mortos. O espírito deixará o Hades, e retornará ao seu próprio corpo. Mas veremos mais detalhes sobre isto no próximo capítulo.

Refletindo naquilo que temos observado até agora neste estudo, só podemos exclamar, admirados: “Graças Te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formastes; as Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14).

“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).

 

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autor: Ronaldo E. Watterson.