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O ser humano e seu destino (5)

Que a meditação nestas coisas encha o nosso ser com a grandeza dos propósitos de Deus em relação a cada um de nós, levando-nos a viver, aqui neste mundo, no temor do Senhor

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”

(1 Tessalonicenses 5:22)

Ronaldo E. Watterson

Nasceu em 21/11/1935, espiritualmente em 1952,
veio para o Brasil em 1960, e faleceu em 30/05/2016

CAPÍTULO 5

SEOL E HADES

Lucas 16:19-31

As duas palavras do cabeçalho talvez pareçam estranhas a muitos leitores; é porque não são palavras portuguesas. Seol é uma palavra hebraica, e Hades é uma palavra grega. São palavras que aparecem frequentemente no texto original da Bíblia (Seol, 65 vezes no Velho Testamento, e Hades, 10 vezes no Novo Testamento) e é importante que saibamos o que significam.

As duas palavras expressam a mesma ideia. Vemos isto em Atos 2:27, onde encontramos uma citação de Salmo 16:10. No referido texto no livro dos Salmos, o escritor usou a palavra Seol e na citação, em língua grega, Lucas usou a palavra Hades. Portanto, não há dúvida; a palavra hebraica Seol equivale a Hades na língua grega.

Mas como expressar esta ideia em português?

É aqui que a dificuldade começa. Não existe em nosso idioma nenhuma palavra que traduza satisfatoriamente a ideia contida no vocábulo Seol. Os tradutores da Bíblia têm usado uma diversidade de palavras na sua tentativa de transmitir fielmente a mensagem divina.

Na Versão Corrigida, João Ferreira de Almeida usa principalmente as palavras “inferno” e “sepultura”, mas em alguns casos encontramos outras expressões como “mundo invisível” (Salmo 89:48). Várias vezes ele até desistiu de tentar traduzir, e simplesmente transcreveu a palavra original (veja Jó 17:16, Salmo 139:8, Atos 2:27,31 etc.).

A Versão Atualizada de João Ferreira de Almeida mostra-se mais confusa ainda. Esta tradução emprega palavras como “sepultura”, “além”, “inferno”, “sepulcro”, “morte”, “abismo” e “cova”, e expressões como “reino dos mortos” (Isaías 14:15).

A tradução de Matos Soares usa principalmente a palavra “inferno”, e também palavras como “sepulcro”, “sepultura”, “morte” e “abismo”, bem como a expressão “habitação dos mortos”.

Esta confusão aparente dos tradutores deve-se ao fato de não haver na língua portuguesa uma palavra que traduza plenamente a ideia contida nas palavras Seol e Hades. As diversas palavras que usaram representam a sua tentativa honesta e sincera de se aproximarem à ideia do texto original, levando em conta o contexto de cada ocorrência da palavra. Vamos considerar as palavras mais usadas por eles, e veremos que realmente não são adequadas.

INFERNO                                                                                                                                        

A palavra “inferno” transmite para nós a ideia de um lugar de sofrimento, onde o fogo nunca se apaga. Não há dúvida que tal lugar existe, mas a palavra Seol (ou Hades) não significa isto.

Em Gênesis 37:35 vemos que Jacó, um servo de Deus, esperava ir a Seol. Jó também, que era homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:8) falou do seu desejo de ir ao Seol (Jó 14:13). Isto já é suficiente para provar que Seol (ou Hades) não é um lugar reservado exclusivamente para os perdidos, pois até os servos de Deus esperavam ir para lá. Salomão confirma isto em Eclesiastes 9:10 quando mostra que Seol é o destino de toda a humanidade.

SEPULTURA                                                                                                                                   

Uma sepultura é uma cova funerária, um jazigo; é um lugar onde se enterra o cadáver. Seol, porém, não é uma sepultura. Considere os seguintes fatos:

a)    A língua hebraica usa qeber ou qeburah para indicar uma sepultura; nunca usa a palavra Seol para isto. A língua grega não usa Hades, e sim mnemeion, mnema ou taphos quando quer falar de sepultura.

b)    Existem muitas sepulturas, espalhadas por toda a face da terra; só existe um Seol (ou Hades). A Bíblia não usa o plural destas palavras.

c)     Todas as sepulturas que existem são de propriedade particular; lemos na Bíblia da sepultura (qeber) de Jacó (Gênesis 50:5) e da sepultura (qeburah) de Raquel (Gênesis 35:20), e de muitas outras. Nunca lemos do Seol (ou Hades) de alguém, pois Seol (Hades) não é de propriedade particular.

d)    As sepulturas têm localização geográfica. Nos dois casos citados acima, vemos que a sepultura de Raquel estava no caminho de Efrata (Gênesis 35:19) e a de Jacó estava em Canaã (Gênesis 50:5). A Bíblia, porém, não indica nenhuma localização geográfica de Seol; não se acha neste país, nem em qualquer outro.

e)    Todos têm visto muitas sepulturas; ninguém jamais viu Seol (Hades).

f)      Os homens cavam sepulturas (Gênesis 50:5), e compram sepulturas (Gênesis 23:9); edificam sepulturas (Lucas 11:47) e as adornam (Mateus 23:29). Ninguém cava, compra, edifica ou adorna Seol (Hades).

O contraste entre o uso de Seol ou Hades na Bíblia e as palavras hebraicas e gregas, que significam sepultura, deixam bem claro que sepultura não é uma tradução correta de Seol (Hades). Várias vezes a Bíblia usa Seol em contraste com o Céu (Salmo 139:8, Jó 11:8, Isaías 14:14-15 e Amós 9:2). São termos grandes demais para a mente humana; representam o desconhecido. Uma cova rasa na superfície da Terra não serviria como contraste com o Céu. Fica claro, então, mesmo neste uso poético da palavra, que Seol não é a sepultura.

Na primeira ocorrência de Seol na Bíblia, Jacó falou que desceria ao seu filho, José, no Seol (Gênesis 37:35). Ele pensava que José fora devorado por uma fera e, portanto, que não estava em sepultura alguma. Contudo disse que desceria ao seu filho, ao Seol. Portanto, Seol não é a sepultura.

MORTE                                                                                                                                         

A palavra “morte” é usada várias vezes para traduzir Seol (Hades), mas a própria Bíblia distingue entre Seol (Hades) e a morte.

Em Apocalipse 1:18 lemos que o Senhor Jesus Cristo tem as chaves da morte e do Hades. Ainda no mesmo livro, vemos um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, cujo nome é a morte (6:8), e o texto acrescenta que o Hades o seguia. Se o Hades seguia a morte, então o Hades não é a morte.

Mesmo usando as palavras figurativamente, o Espírito Santo mantém a distinção. No fim de Apocalipse, encontramos as duas palavras mais uma vez. Tanto a morte como o Hades serão lançados no lago do fogo (veja 20:13-14). Hades, portanto, não é a morte.

ALÉM                                                                                                                                            

A Versão Atualizada usa “além”, várias vezes, nas suas tentativas de traduzir Seol (Hades). De todas as palavras usadas, esta é a que mais se aproxima da ideia original, embora não expresse o seu significado total; indica apenas que não está mais na terra dos viventes; está no além.

Esta é, aproximadamente, a ideia contida na palavra Seol ou Hades. Porém, Seol ou Hades é um estado provisório, e a palavra “além” não transmite esta ideia.

SEOL – HADES                                                                                                                               

O vocábulo Seol (Hades) indica mais um estado do que uma posição. Como dissemos acima, é quase o que entendemos pela expressão “além-túmulo”. Consideremos alguns textos bíblicos para perceber com mais clareza o seu significado.

Em Gênesis 37:35, encontramos a palavra pela primeira vez na Bíblia. Jacó pensava que o seu filho José estava morto, e disse que iria a ele ao Seol. Ele pensava que José não estava mais na terra dos viventes, mas sim, em Seol, isto é, na região dos mortos. Seol é o antônimo da expressão “terra dos viventes”; é a habitação dos mortos, sem especificar exatamente onde estes mortos estão.

Muita confusão tem surgido por não percebermos que Seol não indica a localização dos mortos; é mais um estado ou condição. Sem dúvida alguma, os mortos estão em algum lugar, mas a palavra Seol (ou Hades) não especifica onde é este lugar. Já notamos que os servos de Deus (Jacó e Jó) esperavam ir para Seol; os ímpios também são lançados no Seol (Salmo 9:17), porém, os ímpios não estão no mesmo lugar onde Jacó e Jó estão. Seol é a esfera dos mortos, em contraste com a esfera dos viventes; é o além.

Precisamos limitar esta definição, pois a permanência da alma e do espírito no Seol é limitada. Em 1 Samuel 2:6 lemos que o Senhor faz descer a Seol, e faz tornar a subir dele. Jó também falou dum limite à sua permanência no Seol, dizendo: “Oxalá me escondesse no Seol, e me ocultaste até que a Tua ira se desviasse” (Jó 14:13).

Davi também falou neste sentido em palavras que se referem profeticamente ao Senhor Jesus Cristo: “Não deixarás a Minha alma no Seol (Salmo 16:10). Confirmando isto, o Novo Testamento fala daquele dia quando o Hades entregará os mortos que nele há, e será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:13,14).

Seol (Hades), portanto, é a habitação da alma e do espírito entre a morte e a ressurreição. Na morte, o corpo vai para o pó, porém a alma e o espírito vão para Seol (Hades). O que veio do pó da terra, volta ao pó da terra; o que veio de Deus, volta a Deus (Eclesiastes 12:7 e Lucas 16:22-23). Enquanto o corpo se desfaz no sepulcro, a alma e o espírito estão no Seol.

CONDIÇÕES NO SEOL                                                                                                                  

Embora a palavra Seol (Hades) não especifique o lugar para onde vão os mortos, um estudo das suas ocorrências na Bíblia revela algo sobre as condições neste estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Consideremos, primeiramente, a condição dos salvos.

OS SALVOS                                                                                                                                 

Para os salvos, Seol representa livramento ou refúgio. Na sua aflição, Jó expressou o desejo de estar no Seol, escondido, até que a ira passasse (Jó 14:13). Aqui na vida, ele estava sofrendo horrivelmente, e ele considerou Seol como um refúgio destas dores. Para os salvos, Seol representa o que é muito melhor do que qualquer coisa que temos aqui nesta vida. Lázaro (Lucas 16:22-25) é mais um exemplo disto.

O apóstolo Paulo também escreveu: “desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). Em Filipenses 1:21-23, ele falou novamente deste mesmo desejo de partir e estar com Cristo, e acrescentou que isto lhe seria muito melhor; o morrer, para ele, seria lucro.

OS PERDIDOS                                                                                                                             

Porém, para quem não é salvo, Seol (Hades) não trará nenhum alívio dos seus sofrimentos; ao contrário, os aumentará muito mais, pois a Bíblia revela que há muito sofrimento no Seol para quem morrer sem a salvação.

Em Deuteronômio lemos: “Um fogo se ascendeu no Meu furor, e arderá até ao mais profundo do Seol (32:22). O Salmista falou das “angústias do Seol que se apoderaram dele (Salmo 116:3) e Salomão confirma isto, dizendo: “O amor é forte como a morte, e duro como o Seol o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas” (Eclesiastes 8:6).

No Novo Testamento encontramos a mesma realidade, pois se Lázaro foi consolado, o rico foi atormentado. Observe o rico (Lucas 16:19-31); ele foi sepultado, e no Hades ergueu os seus olhos, estando em tormentos (v. 23), e disse a Abraão: “Estou atormentado nesta chama” (v. 24); Abraão lhe respondeu: “Lázaro … é consolado, e tu atormentado” (v. 25). Quando o rico viu que não haveria misericórdia para ele, nem sequer uma gota de água para aliviar aqueles terríveis sofrimentos, ele se lembrou dos seus irmãos que ainda viviam e pediu que fossem avisados, para que não fossem para “este lugar de tormento” (v. 28).

CONCLUSÃO                                                                                                                                 

Concluímos, pois, que Seol (Hades) significa o além-túmulo; mais precisamente, o além-túmulo desde o momento da morte até a ressurreição. A palavra em si não indica a localização daquele que morreu (se está no Céu ou no inferno); apenas indica que não está na terra dos viventes, e sim, na habitação dos mortos. No Seol (Hades), os mortos estão em plena consciência; alguns no consolo e segurança; outros nos tormentos do fogo.

 

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autor: Ronaldo E. Watterson.