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Organização das igrejas locais

Nasceu em 21/11/1935, espiritualmente em 1952,
veio para o Brasil em 1960, e faleceu em 30/05/2016

A HISTÓRIA SE REPETE

Temos observado um modelo claro, e muito simples, em Atos dos Apóstolos. Cada igreja local era autônoma e os laços que as uniam eram unicamente espirituais. A direção do trabalho, tanto das igrejas locais quanto dos servos de Deus individualmente, era do Espírito Santo. Não havia comitês para planejar e coordenar as atividades, nem para preparar grandes projetos e campanhas.

Muitas pessoas em nossos dias se esquecem, ou ignoram, deste modelo que Deus deixou para as Suas igrejas e Seus servos; acham que igrejas locais são fracas e incapazes de realizar o grande propósito de Deus. Com as melhores das intenções, essas pessoas tentam organizar as atividades da igreja local e orientar os movimentos dos servos de Deus. Daí é um passo pequeno para a organização regional, nacional e até mundial.

A HISTÓRIA NOS ENSINA

Quando consideramos a história das igrejas locais, descobrimos que a situação que vivemos hoje não é nova. Gerações passadas tiveram que enfrentar o mesmo dilema e em muitos casos acharam que a solução seria unir as igrejas, coordenando suas atividades para realizar grandes projetos, mas o resultado sempre foi o mesmo. As igrejas locais não foram fortalecidas; foram destruídas, e tornaram-se numa grande organização eclesiástica, sem a presença de Deus no seu meio.

O exemplo mais conhecido deste erro vemos ao nosso redor ainda hoje. A organização que todos conhecem como Igreja Católica Romana é o resultado, hoje, de uma simples união de igrejas verdadeiras e autônomas que aconteceu há muitos séculos. Convém notar como aconteceu. Convém ouvir a voz da história contar como os cristãos foram levados a trocar o modelo que Deus havia deixado, para seguir uma orientação humana.

Isto não aconteceu de repente. Foi o resultado de um processo, às vezes lento, que parecia lícito e também benéfico, mas finalmente transformou aquelas igrejas autônomas numa união forte, sob o controle de um só homem.

Como aconteceu isto? O primeiro passo foi uma mudança no governo de cada igreja local. Em Atos dos Apóstolos, vemos como havia em cada igreja local uma pluralidade de presbíteros, constituídos pelo Espírito Santo, para apascentar o rebanho. Este fato é confirmado pelo ensino das epístolas.

Escritores do século II, porém, nos surpreendem com as frequentes referências a "o bispo" da igreja local. Homens como Inácio e Policarpo que conheciam pessoalmente alguns dos apóstolos escreveram cartas nas quais falam dos presbíteros e do bispo duma igreja local. Ainda reconheciam uma pluralidade de presbíteros em cada igreja, mas entre eles, um seria visto como o líder, e aos poucos recebia o título de o bispo da igreja em tal e tal lugar.

O segundo passo foi uma sequência lógica do primeiro. Estes "bispos" começaram a se reunir, informalmente, para discutir ou trocar ideias sobre assuntos de interesse comum. Estes Encontros dos bispos eram informais, e as suas conclusões não eram vistas como decisões que as igrejas tinham de acatar.

Com o passar do tempo, estes Encontros tornaram-se cada vez maiores, e cada vez mais frequentes, e logo surgiu o "bispo metropolitano". Este era o bispo de uma igreja grande e influente que poderia ajudar, e consequentemente influenciar as igrejas na sua região. A autonomia tornou-se uma mera teoria ou doutrina que na prática era pouco respeitada.

Como era de se esperar, começou a surgir uma grande rivalidade entre estes bispos metropolitanos; cada um queria ser o maior. À medida que o seu domínio se firmava, a disputa pela liderança mundial ficou mais definida; foi uma disputa entre os bispos de Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma.

Finalmente, o Imperador Constantino, sem renunciar sua condição de Pontífice Máximo dos pagãos, assumiu a mesma posição entre os cristãos e logo passou a convocar e presidir concílios que agora impunham suas decisões e as sustentavam pelo poder do Império. O lindo quadro da simplicidade da autonomia, visto na Bíblia, não só foi desfigurado mas apagado. A “União das Igrejas” já existia. Rui Barbosa, o célebre brasileiro, escreveu na introdução do livro que traduziu, intitulado "O Papa e o Concílio": "Foi o que entrou a suceder sob Constantino… O Imperador, não batizado, recebe o título de bispo exterior: julga e depõe bispos; convoca e preside concílios; resolve sobre dogmas. Já não era mais esta… a igreja dos primeiros cristãos".

Mas esta união nunca foi completa. C. H. Lang escreve no seu livro "The Churches of God" ("As Igrejas de Deus"): "…a união nunca foi completa no sentido de incluir todas as comunidades cristãs… Algumas igrejas continuaram independentes" (páginas 27 e 28). Estas igrejas independentes permaneciam na simplicidade do modelo bíblico, e foram cruelmente perseguidas pela “Igreja Institucional”.

E a história se repetiu diversas vezes. As igrejas que recusaram entrar na "União" no século IV, mais tarde vieram a cair no mesmo erro, mas sempre havia um remanescente que perseverava na doutrina dos apóstolos. Este espaço não permite muitos detalhes, mas não podemos deixar de citar a tão falada Reforma do século XVI.

Martinho Lutero compreendeu nitidamente o plano de salvação, e viu claramente o modelo da igreja local, como podemos ver num tratado que escreveu em 1526 a.D., Johannes Warns, no seu livro "Baptism" ("Batismo") relata como Lutero, após uma intensa luta consigo mesmo, abandonou estes princípios, achando que teria maior progresso no Evangelho se tivesse o apoio do Estado. Seguiu o mesmo caminho de muitos antes dele, desprezando o modelo bíblico e seguindo o caminho da sabedoria terrena.

Estes fatos históricos me preocupam muito. É impossível ver os passos pelos quais as igrejas plantadas em dias apostólicos foram levadas a trocar a sua posição original para formar a organização religiosa hoje liderada pelo Papa, sem sentir uma preocupação profunda, pois parece que estamos seguindo o mesmo caminho!

Quando nos lembramos da mudança no governo interno das igrejas do século II, com o surgimento de "o bispo" da igreja local, olhamos com grande receio a ideia cada vez mais comum que quer um "Obreiro" em cada igreja local para trabalhar com o presbitério. E já temos até eventos que pela sua simples realização estimulam essa proposta além de outras de gênero semelhante. E tudo parece tão lícito, tão benéfico, tão necessário.

E agora vem uma “União de Igrejas”! Irmãos, despertem!

autor: Ronaldo E. Watterson.