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Os Prejuízos Das Más Decisões - 2

1 Reis 12.6-11, 16-20, 25-33

Após apresentar preciosas lições dos resultados que acarretam as más decisões, o querido e saudoso irmão Luiz Soares encerra seus inspirados argumentos trazendo-nos uma edificante exortação para que “evitemos aquele espírito de animosidade que perturba a paz e a harmonia da igreja”. Vivemos dias onde se desenvolve a cultura da crítica que poderá nos levar à ideologia do ódio. Evitemos as dissidências afastando de nós o juízo crítico. Permita Deus que assim seja!

III – AS LIÇÕES DESTES INCIDENTES

1. PARA OS JOVENS

Notemos, primeiramente, o perigo da autoconfiança. Esta é uma tendência humana que não está ausente nos mais velhos, mas é muito mais acentuada nos jovens. Estes, por excesso de confiança em si mesmos, tendem a desprezar os mais velhos por julgá-los desatualizados e incapazes. Foi esse sentimento que levou Roboão a procurar o conselho dos seus amigos mais jovens, e estes a dar-lhe o conselho oposto ao que havia recebido dos mais velhos.

Se Roboão tivesse acatado a decisão dos anciãos, teria evitado a tragédia da divisão do povo. Para todos nós, jovens ou não, é importante basearmos as nossas decisões em Provérbios 3.5-7 … “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal”; e Romanos 12.16 … “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos”.

Notemos, a seguir, o perigo das más companhias. Maus companheiros são maus conselheiros. Roboão não escolheu, por certo, companheiros sensatos, espirituais, que pudessem, em momentos críticos como aquele, dar-lhe conselhos sábios. Eles “haviam crescido com ele”; eram portanto, seus companheiros desde a infância, tendo exercido grande influência na formação do seu caráter. Cuidado, jovens, com as más companhias, pois elas, conscientes ou inconscientemente, exercem grande influência em suas decisões.

Para jovens ou maduros, a melhor companhia é a daqueles “que, de coração puro, invocam o Senhor” (2Tm.2.22).

Notemos, finalmente, o perigo da irreverência. A sociedade moderna é muito irreverente para com os mais velhos, e o jovem crente deve lembrar-se de que lhe cumpre evitar essa atitude desrespeitosa para com os seus pais, os anciãos da igreja e as pessoas mais velhas de modo geral. Nosso exemplo neste sentido não deve ser o de Absalão, Adonias, Roboão e outros de quem a Bíblia nos fala, mas o próprio Senhor Jesus, que foi sempre submisso e obediente (Lc.2.48-52 com 1Pe.5.5). Uma decisão nobre que todo jovem deve tomar, é a de seguir fielmente estes conselhos.

2. PARA OS MAIS VELHOS

É dever destes aproximar-se dos jovens, dialogar com eles, mostrar interesse na solução dos seus problemas, estimular as suas iniciativas quando são dignas. Antes de criticá-los com azedume devem lembrar-se de que também já passaram por aquela idade e tiveram as mesmas tendências.

Devem demonstrar sempre um espírito pacífico e amorável no trato com os mesmos e também reconhecer a necessidade e utilidade do elemento jovem no trabalho de Deus, procurando aliar a sua maturidade, experiência e prudência ao entusiasmo e dinamismo dos jovens. Devem cultivar uma comunhão cada vez mais íntima com Deus a fim de que possam influir para que eles tomem as suas decisões no temor do Senhor.

Sou um servo idoso e, no pleno temor de Deus, sem receio de ferir suscetibilidades, posso dizer que os servos idosos têm o dever de examinar-se a si mesmos e verificar se não há por detrás de tudo algum sentimento negativo quando surgem problemas no trato com os jovens. É possível que, até imperceptivelmente, uma raiz de ciúme ou inveja nos mova a agir em defesa própria.

Lembremo-nos de que somos humanos e, portanto, falíveis, e não nos deixemos dominar pelo espírito de Faraó e Herodes, quando quiseram, cada um no seu tempo, eliminar os meninos que viessem a nascer, para com isto sentirem-se mais seguros em seus tronos. Que Deus nos guarde a todos nós disso!

3. PARA A IGREJA

A arrogância e o espírito frívolo de Roboão, e o egoísmo, a ambição incontrolável e o oportunismo incrédulo de Jeroboão tornaram-nos responsáveis pela vergonhosa divisão do povo de Deus. Foram decisões tremendamente desastrosas. Não vamos abordar as divisões denominacionais, sem dúvida lamentáveis, mas as vergonhosas divisões que, visíveis ou veladas, acontecem entre certos obreiros e certas igrejas locais que se ufanam em “seguir os princípios bíblicos”.

A divisão é sempre um fator de enfraquecimento e derrota e devemos fazer todo o esforço possível para evitá-la. Quantas igrejas perdem o seu testemunho e se arrastam em longos anos de inatividade, ou de atividade absolutamente estéril por causa do espírito individualista, prepotente e separatista de um, alguns, ou muitos dos seus membros! Mas a igreja não pertence a um indivíduo nem a um grupo, nem a uma família. E não devemos permitir que haja política de indivíduos, de grupos ou de famílias perturbando a paz e a harmonia da igreja de Deus. Por detrás de cada divisão está Satanás, o maior interessado nelas.


Fato muito triste, mas muito real em alguns lugares é a existência de uma igreja de jovens outra de velhos reunindo-se no mesmo lugar. Que direito temos nós, de assim dividir a Igreja de Deus? O tão decantado “choque de gerações” existe no mundo, mas não deve de forma alguma existir na Igreja! Nesta, devem estas diferenças desaparecer, predominando o fato de que jovens ou velhos crentes constituem-se na “Igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (1Tm.3.15), e devem todos, como membros do corpo de Cristo, unir os seus esforços cada um na capacidade conferida por Deus para o bem desse corpo (1Co.12.12-13 como Rm.12.3-8).

Cuidado com as “conveniências”! O ímpio Jeroboão, sob pretexto de proporcionar conforto e conveniência para o povo praticar a sua religião, afastou-o de Deus. Muitas igrejas estão indo a Betel e a Dã. Estão, por exclusiva conveniência, elaborando os seus próprios sistemas à revelia da Palavra de Deus. A sã doutrina é a única coisa que convém à Igreja. A verdade de Deus não tem sucedâneos, e nós não devemos, a título de comodidade ou conveniência, deixar-nos comprometer com as imitações baratas que nos rodeiam em número cada vez maior.

Aos anciãos das igrejas cabe vigiar para evitar a entrada desses males e ensinar a praticar as verdades da Palavra com piedosa dedicação e genuíno amor. Se assim não tomarem as suas decisões na liderança do rebanho do Senhor, ficarão responsáveis pelos fracassos do Rebanho perante o Sumo Pastor (1Pe.5.1-4).

E aos membros das Igrejas cabe receber docilmente essa orientação, lembrando-se de que os seus guias são responsáveis diante do Senhor pela execução da árdua tarefa que lhes foi confiada (Hb.13.7,17).

4. PARA OS CRENTES

As decisões de Roboão e Jeroboão devem alertar-nos contra o perigo da insinceridade de motivos. O primeiro podia justificar a sua ação alegando zelo pelo princípio de autoridade, coisa tão necessária para a manutenção da ordem nacional, enquanto o outro podia justificar-se com a alegação de estar defendendo os direitos de um povo humilhado e oprimido.

A verdade, porém, é que ambos eram egoístas, arrogantes, prepotentes e ambiciosos. Como se vê, pretextos muito bons podem esconder motivos muito maus. Contra esta tendência muito humana devemos exercer severa vigilância. Não devemos tomar as nossas decisões motivadas por ambição, egoísmo ou vaidade, e muito menos tentar esconder esses motivos com pretextos exteriormente justificáveis. Sinceridade e pureza de motivos devem caracterizar as nossas decisões.

Por outro lado, devemos nos precaver contra o perigo da conformidade com o mundo. Roboão ouviu o conselho da gente moderna e levou a nação à ruína. Tomemos cuidado para que as nossas decisões não sejam influenciadas pelas concepções sociais vigentes que, embora largamente aceitas, são condenáveis à luz da Palavra de Deus.

Os “quebradores de tabus” continuam muito ativos. Cuidado com eles! Nem tudo o que é considerado normal no mundo deve ser assim considerado pelo crente. Nem tudo o que é antigo é necessariamente mau, e nem tudo o que é moderno é necessariamente bom. Os eternos padrões divinos de santidade, pureza e justiça são insubstituíveis e não há sistema social ou religioso que possa superá-los.

Finalmente, pensemos na necessidade de uma consciência esclarecida. Nunca nos esqueçamos de que somos responsáveis pelos resultados das nossas decisões, e que elas têm, muitas vezes, repercussão muito maior do que possamos imaginar. Anos atrás Deus avisara o povo do que lhe aconteceria se O abandonassem, trocando-O por um rei humano, mas eles insistiram na sua decisão (1Sm.8.8-20) e a previsão do Senhor foi inapelavelmente cumprida, ficando sobre eles toda a culpa.

O fato de ter o texto sagrado afirmado que “este acontecimento vinha do Senhor” (vv. 15, 24) não exime nem a Roboão, nem a Jeroboão de suas culpas. A soberania de Deus não destrói de forma alguma a responsabilidade humana. Deus havia decidido, como medida disciplinar contra Salomão, a tirar dez reinos de Roboão e entregá-los a Jeroboão, e a este havia dado ciência disto. Porém, Ele não mandou que Jeroboão agisse por conta própria para conseguir o reino, nem ainda que fizesse o povo pecar adorando o bezerro e participando de uma religião elaborada à revelia do Senhor. Tampouco ordenou Ele a Roboão que rejeitasse o conselho dos anciãos e desse ao povo uma resposta tão insolente. A eles coube a responsabilidade pelos acontecimentos trágicos ocasionados pelas suas insensatas decisões. A responsabilidade pelas nossas decisões é nossa, e de mais ninguém.

Procuremos, portanto, tomar decisões sábias, que possam trazer bênção e edificação espiritual. Evitemos aquele espírito de animosidade que perturba a paz e a harmonia da igreja. Fortaleçamo-nos “no Senhor e na força do Seu poder” (Ef.6.10) a fim de que o inimigo não se prevaleça de certas situações para impedir o progresso do trabalho de Deus. O Egito sempre acolhia os dissidentes porque aguardava oportunidade para tirar proveito das lutas internas que enfraqueciam a nação. Satanás usa a mesma técnica. Vigiemos, pois, para que ele não alcance sobre nós essa vantagem.

Sejamos todos suficientemente humildes para reconhecer as nossas falhas e buscar, na graça do Senhor os recursos para colocarmos as coisas em ordem.

autor: Luiz Soares.