• Imprimir

Contando os dias

 

Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira
que alcancemos corações sábios

(Salmo 90:12)

 

Moisés escreveu o Salmo 90 muitos anos depois que os espias que ele mandou à terra de Canaã, prometida ao povo de Israel, voltaram com o seu relatório desanimador. Ao considerarmos que este salmo fora escrito para esse povo que errava pelo deserto, sofrendo as consequências da sua falta de fé nas promessas de Deus, podemos entender melhor o significado primário de cada versículo. Vejamos:

  • "Senhor, tu tens sido nosso refúgio de geração em geração" (v. 1). Desde Abraão, que deixou sua terra e parentela em Ur dos caldeus, ele e a sua linhagem através do seu neto Jacó (denominado Israel), até esses dias de Moisés, não tiveram território próprio. Mesmo durante os quatro séculos no Egito, viveram em território emprestado. Moisés declara efetivamente que a residência (refúgio) do povo estava no Senhor (“Adonai”) durante todo esse tempo. O autor de Hebreus, após dar um relato sobre os heróis da fé no Velho Testamento, declara: “Todos estes morreram na fé, sem terem alcançado as promessas; mas tendo-as visto e saudado, de longe, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (Hebreus 11:13) e, sobre Abraão, diz que “esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus” (Hebreus 11:10).

    Assim, também, os santos da Igreja de Cristo são peregrinos e forasteiros no mundo (1 Pedro 2:11), fazem parte de um edifício espiritual cujo fundamento é o Senhor Jesus Cristo (o mesmo “Adonai” do velho testamento). Não habitam em tabernáculo ou templo, mas em Deus, e isso fizeram desde quando a igreja foi fundada pelo Senhor Jesus com os Seus primeiros discípulos.É dos santos do novo testamento que o Espírito Santo diz: "Quem guarda os seus mandamentos, em Deus permanece e Deus nele" (João 3:24) e estes esperam “a pátria e a cidade celestial” (Hebreus 11:16, 12:22, 13:14), “bem como novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça” (2 Pedro 3:13).
  • “Antes que nascessem os montes, ou que tivesses formado a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade tu és Deus”A eternidade do Senhor, que sabemos ser Deus o Filho, aliviou Moisés do seu desapontamento pelos anos perdidos ao vagar aparentemente sem rumo pelo deserto. Foram muitos e muitos dias, mas isto nada significou para Aquele que mil anos são como a passagem de um dia para outro (v. 4).

    Ele está sempre presente para abrigar, confortar, proteger, preservar e valorizar aquilo que é Seu, seja Israel, seja a Igreja. Israel aguarda a terra prometida, a Igreja aguarda as suas núpcias e herança no céu. Ambas as promessas serão cumpridas a seu tempo.
  • A existência eterna de Deus é mencionada aqui para expor, por contraste, a brevidade da vida humana. “Diante de ti puseste as nossas iniquidades, à luz do teu rosto os nossos pecados ocultos” (v. 8). Embora toda a morte seja resultado da entrada do pecado, Moisés percebeu que o que estava acontecendo no deserto era um castigo especial de Deus. Todos os que tinham vinte anos ou mais, isto é, todos os que podiam sair à guerra, diante do monte Sinai quando saíram do Egito, iriam morrer antes da entrada trinta e oito anos mais tarde em Canaã por apoiarem os dez espias que julgaram impossível conquistar Canaã, mesmo com o apoio de Deus. A justiça encurtou os dias de Israel rebelde; cada parada local tornou-se um cemitério; os túmulos demarcavam suas caminhadas. Exceção foi feita aos dois espias que confiaram em Deus, Calebe e Josué, estes sobreviveram, efetivamente participaram da conquista e receberam suas porções da terra para ali morar com as suas famílias.

    As iniquidades dos incrédulos pesam sobre eles, declara aqui Moisés, suas consciências os acusam, e não somente os seus dias, mas seus anos voam e acabam-se como um suspiro, velozes como uma meditação, e temem sua morte, pois para eles não há esperança no porvir. Não é assim para os crentes, porque nossos dias se passam gozando da benignidade do Senhor, como Davi diz no Salmo 23:6... “Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Vivemos enxertados na oliveira da bondade de Deus (Romanos 11:16-36), tendo a consciência limpa pelo sangue do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Nossas vidas são ilustrações de bondade celestial, parábolas da sabedoria divina, poemas de pensamento sagrado e registros de amor infinito; realmente somos felizes.
  • "A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos"Moisés viveu mais do que isso, mas era a exceção, não a regra; em seu tempo vemos que as vidas tinham duração semelhante às de hoje. Muito breves em comparação com as de maior antiguidade, antes do dilúvio. Mesmo estas eram curtas comparadas com a eternidade. Por causa da sua incredulidade, os israelitas passaram ao todo quarenta anos no deserto, e tiveram dias de canseira e enfado, mortes por castigos, ataques de inimigos e picadas de serpentes.

    Para os ímpios a vida logo se esvai, e se ultrapassarem os setenta anos verão seu corpo perder sua beleza, seus músculos enfraquecerem, seus sentidos perderem sua utilidade, sua memória desvanecer e sua liberdade ser tolhida por causa da crescente dependência em outros. Chegam os dias maus e os anos em que dirá “não tenho prazer neles” (Eclesiastes 12:1).

    Não é assim para os crentes. O servo de Deus, Spurgeon, nos diz o seguinte a esse respeito: “Para o crente já amadurecido pela experiência da vida santificada e confortado pelas suas esperanças imortais, os últimos dias de idade não são para ser lamentados; ao contrário, poderão até ser invejados. Surge então o lindo pôr do sol, o calor do dia está passando, e está chegando a calma e a aragem fresca do entardecer; o dia claro esvai-se, não em uma noite escura e sombria, mas em um dia glorioso, sem nuvens, eterno. O mortal se desvanece para dar lugar ao imortal; o velho cai no sono para acordar na região da perene juventude”.

Como diz Moisés, “nós voamos”... “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios” (v. 12). Poderíamos lembrar com tristeza aqueles dias que desperdiçamos tempo precioso em coisas fúteis e nocivas, cegamente procurando satisfazer nossa curiosidade, egoísmo e paixões e que nos terão dado alguma medida de sabedoria. Mas podemos aprender imensamente mais desta fonte de sabedoria que o Pai da Eternidade nos fornece. Só Ele nos pode ensinar a posição real em que nos encontramos e a direção a seguir no caminho que nos levará para a eternidade.

O Senhor eterno nos ensina pela Sua Palavra o que podemos aprender sobre os tempos em nossa vida curta nesta terra, e nos preparar para viver corretamente para sempre no Seu Reino. Paulo expressou seu desejo e orações a Deus para que os colossenses fossem cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e entendimento espiritual, porque em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 1:9, 2:3).