Boletim dos Obreiros

O progresso na corrida espiritual, com a santificação

Hebreus 12: 12 a 17

Voltando à metáfora do atleta anteriormente empregada, temos agora duas exortações concernentes aos que, na sua carreira cristã, se sentem fatigados, esgotados e apáticos, às vezes não só perdendo a sua posição competitiva mas até precisando de muletas.

  1. A primeira é “levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes”. Encontramos uma exortação semelhante em Isaías 35:3 concernente ao povo de Israel. O crente não deve se abater com as circunstâncias adversas da vida; seu lapso de fé pode até ter uma influência desfavorável sobre os outros. As mãos cansadas devem ser levantadas para servir o Cristo vivo e os joelhos fracos devem ser reforçados para caminhar vigorosamente. Assim será combatido qualquer sentimento de depressão ou desalento que poderia impedir o cumprimento da vontade do Senhor, e a realização do propósito da disciplina. O verbo traduzido como “levantar” aqui significa “erguer de novo” no original grego, usado também para restaurar ruinas (Atos 15:16) e no milagre em que o Senhor Jesus endireitou a mulher que andava encurvada (Lucas 13:11-13).

  2. A segunda exortação é para fazer “veredas direitas para seus (vossos) pés”. A palavra traduzida "direitas" é orthos (da qual derivamos a raiz da nossa palavra ortopédica). Ela aparece também no relato da cura de um coxo de nascença por Paulo (Atos 14:10). Note-se que está no plural: devemos assegurar que nossos pés andam pelo caminho de Cristo, não só para nosso sucesso espiritual, mas também para o dos que porventura estiverem fraquejando: com nosso exemplo, estes serão sarados ao seguirem os caminhos retos que usamos para nossos próprios pés. 

Os crentes devem se esforçar para ter um relacionamento pacífico com todos a todo momento. Lembremos a bem-aventurança: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9), e também o mandado “Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18). Devemos nos abster de qualquer coisa que possa perturbar a paz, e fazer o máximo possível para mantê-la, mas nunca com prejuízo da santidade. Esta exortação é especialmente necessária em meio à perseguição constante, quando alguns chegam a abandonar a fé, ou quando ficamos impacientes. Em tais momentos é muito fácil extravasar nossa frustração e medo sobre as pessoas mais próximas e queridas.

Também devemos nos esforçar pela nossa santificação, “sem a qual ninguém verá o Senhor”. A paz que vem com o Espírito de Deus é sempre acompanhada pela santificação, ou seja, a separação de toda a forma de mal e a dedicação pessoal a Deus, inclusive em ações e pensamentos. A santificação não é uma opção na vida cristã, mas é parte essencial dela. Só os limpos de coração verão a Deus (Mateus 5:8).

A Bíblia nos ensina que existem três fases na santificação de todo aquele que é salvo pela graça de Deus, mediante a fé na pessoa e obra redentora de Jesus Cristo:

  1. A santificação “posicional” feita no momento em que o pecador nasce de novo, por obra do Espírito Santo, ao receber o Senhor Jesus como seu único e verdadeiro Salvador (Efésios 1:7). Todos os seus pecados são então efetivamente remidos pelo sangue inocente do Cordeiro de Deus vertido na cruz, e ele está limpo.

  2. A santificação “progressiva” durante a vida aqui no mundo (Tiago 4:8). A separação do mal que nos cerca exige vigilância e esforço, gradativamente nos tornando mais semelhantes ao Senhor Jesus em pensamentos, palavras e obras (Levítico 11:45, 1 Pedro 1:15, 16, etc.). A graça de Deus permite que prossigamos nessa caminhada, e está sempre disponível (Hebreus 4:16).

  3. A santificação “perfeita” (Apocalipse 1:5). A santificação é completada quando um crente vai para o céu. Ele então está livre do pecado porque o pecado não existe no céu. Sua velha natureza é removida ao morrer, e ele permanece em seu estado posicional de santo.

Depois de salvos pela graça de Deus, enquanto vivemos aqui no mundo passamos pela santificação progressiva, e isto envolve nossa obediência e cooperação; devemos cultivar a santidade continuamente. O fato que devemos seguir a santidade é evidência de que não a alcançaremos totalmente nesta vida. No entanto, se alguém fracassar não será por falta de graça da parte de Deus, mas porque não se valeu da graça gratuita que Ele oferece mediante a fé em seu Filho. Somente pela Sua graça é que poderemos atingir o alvo de vê-lo.

A prática da santidade é evidência do novo nascimento do crente. Quem não demonstra progresso em santidade não foi salvo. Quando o Espírito Santo habita em uma pessoa, Ele manifesta Sua presença por uma vida nova, desejando a santificação.

Os dois versículos seguintes mencionam quatro pecados para evitar, ou seja, a apostasia, a raiz de amargura, a devassidão e a imoralidade, sendo que os três últimos têm um forte relacionamento com o primeiro:

  1. A apostasia surge do fracasso em obter a graça de Deus, concedida somente com o novo nascimento. A pessoa parece ser crente, fala e se comporta como se fosse, e até mesmo professa crer em Cristo, mas nunca realmente crê nEle ao ponto de recebê-lo como seu Salvador e Senhor. Chega tão perto, mas falta o essencial.

  2. A raiz de amargura é o pecado que entra numa congregação sutilmente e vai se agravando e espalhando pelos seus membros. O apóstata se priva da graça de Deus e nessa condição reclama contra Ele, repudia a fé e contamina outros na congregação com suas queixas, dúvidas e posição negativa. “Vede, irmãos, que nunca se ache em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade, para se apartar do Deus vivo” (Hebreus 13:12).

  3. A devassidão compreende licenciosidade e perversão, das quais procedem tripúdio, libertinagem, desregramento, deboche, crápula, prevaricação, depravação, enfim, a corrupção. Provém do desrespeito às leis divinas, que caracteriza a apostasia.

  4. A apostasia está intimamente ligada com a imoralidade, como vemos em 2 Pedro 2:10,14,18 e Judas 1:8,16,18. “Estes são os que causam divisões; são sensuais, e não têm o Espírito” (Judas 1:19). 

Enfim, a apostasia é uma espécie de ateísmo, ilustrada por Esaú. Ele não dava valor ao direito da primogenitura, que assegurava bênçãos especiais de Deus para o seu titular, geralmente o primeiro filho na linha de descendentes de Abraão. Esaú o desprezou e trocou-o com seu irmão Jacó por uma sopa de lentilhas. Mais tarde arrependeu-se quando percebeu o valor das bênçãos de Deus que viriam aos herdeiros do seu avô, Abraão. Mas aquela sua decisão era irreversível.

Assim acontece com o apóstata. Ele não tem verdadeiro respeito por valores espirituais e voluntariamente renuncia Cristo para gozar dos prazeres sensuais do mundo, e para evitar o desprezo, sofrimento ou martírio de que os crentes são vítimas. Seguindo este caminho, o apóstata não pode ser renovado para arrependimento. Mesmo havendo remorso, a decisão que tomou foi definitiva.