Boletim dos Obreiros

A profecia e os profetas de Deus

Recentemente um leitor nos indagou “quais foram as formas usadas por Davi, quando consultava ao Senhor”. Encontramos na Bíblia que Davi consultou ao Senhor (ou a Deus) em várias ocasiões. Sabemos os recursos de que dispunha o rei Saul, seu antecessor, até que lhe foram negados por causa da sua desobediência: "Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas" (1 Samuel 28:6). O Urim estava no éfode do sumo sacerdote.

Davi decerto também dispunha deles, e mesmo no início, quando Saul o perseguia tinha um sacerdote com ele, Abiatar, e o éfode, através dos quais consultou a Deus (1 Samuel 23:9-13). Mas o próprio Davi tinha sobre si o Espírito Santo de Deus (1 Samuel 16:13; 2 Samuel 23:2) e também era profeta (Atos 1:16), portanto recebia revelações diretas de Deus.

Em vista dos inúmeros pseudoprofetas que têm surgido no meio evangélico, consideramos oportuno considerar o que vem a ser a verdadeira profecia e como foram os profetas de Deus.

A verdadeira profecia consiste em uma mensagem proveniente de Deus que foi dada através de um mensageiro para o conhecimento dos homens. Ela não se limita à revelação de acontecimentos futuros, mas também inclui advertências concernentes às situações contemporâneas.

A profecia é uma evidência da onisciência de Deus, em vista do seu cumprimento perfeito na ocasião adequada, às vezes em ocasião claramente predeterminada. Nenhum outro ser, seja ele angélico ou humano, tem esse atributo.

Destacamos as seguintes características da verdadeira profecia:

  • A verdadeira profecia não procede da interpretação particular de alguém (2 Pedro 1:20), e nunca foi produzida por vontade dos homens (2 Pedro 1:21).
  • Foi anunciada desde a antiguidade (Lucas 1:70).
  • Deus deu a profecia através de Cristo, e nos foi transmitida por Ele na forma de dom do Espírito Santo (Apocalipse 1:1; Efésios 4:11; Apocalipse 11:3; 1 Coríntios 12:10).
  • Pode-se confiar nela, pois revela a realidade, como uma candeia que alumia em lugar escuro (Isaías 44:26; Atos 3:18).
  • Cristo é o assunto principal (Atos 3:22-24, 10:43; 1 Pedro 1:10,11).
  • Deus a cumpre, assim como a profecia concernente a Cristo tem sido cumprida fielmente (2 Pedro 1:19; Lucas 24:44).
  • A profecia é para o benefício das gerações futuras (1 Pedro 1:12).
  • A verdadeira profecia não deve ser desprezada, ao contrário, convém estarmos atentos e crermos nela, pois ao ler, ouvir e guardar a profecia seremos abençoados (1 Tessalonicenses 5:20; 2 Pedro 1:19; 2 Crônicas 20:20; Apocalipse 1:3, 22:7). Ela deve ser conservada intacta, pois haverá punição aos que acrescentarem ou tirarem algo dela (Apocalipse 22:18-19).

A curiosidade humana estimula a falsa profecia, e ela pode ser detectada porque não tem as características da verdadeira, listadas acima. A Palavra de Deus está completa e nela somos prevenidos:

“Se se levantar no meio de vós profeta, ou sonhador de sonhos, e vos anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou prodígio de que vos houver falado, e ele disser: Vamos após outros deuses - deuses que nunca conhecestes - e sirvamo-los! Não ouvireis as palavras daquele profeta, ou daquele sonhador; porquanto o Senhor vosso Deus vos está provando, para saber se amais o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás” (Deuteronômio 13:1-3, 18:22).

Deus comunicou a profecia muitas vezes e de muitas maneiras ao povo de Israel através de homens escolhidos por Ele, que por isso são conhecidos como “profetas” (Oséias 12:10), mas na Bíblia também são chamados de:

  • “atalaia de Israel” (Ezequiel 3:17, 33:7).
  • “homem de Deus” (1 Samuel 9:6), ou “santos homens de Deus” (2 Pedro 1:21).
  • “mensageiros” (do original hebraico “mal'ak” traduzido também como “anjo” em outros lugares, conforme indicado pelo contexto ou preferência do tradutor). (2 Crônicas 36:15).
  • “profetas de Deus” (Esdras 5:2).
  • “santos profetas” (Lucas 1:70, Apocalipse 18:20, 22:6).
  • “servos de Deus” (Jeremias 35:15).
  • “vidente” (1 Samuel 9:9, etc.)

Os profetas eram mensageiros, portanto simplesmente transmitiam o que recebiam de Deus. Tinham que ser corajosos e destemidos (Ezequiel 2:6, 3:9), vigilantes e fiéis (Ezequiel 3:17-21), receber a mensagem com atenção (Ezequiel 3:10), nada dizer além do que receberam de Deus (Deuteronômio 18:20), mas declarar tudo o que Deus lhes havia comandado dizer (Jeremias 26:2).

Portanto, nunca modificavam ou tiravam alguma parte da profecia ou davam largas à sua própria imaginação para acrescentar detalhes. O que diziam era o que Deus dizia. Por isso podiam dizer com toda a verdade “Assim diz o Senhor” (essa frase aparece 407 vezes no Velho Testamento).

No Velho Testamento, nos tempos dos reis de Israel, os profetas tinham escolas (1 Reis 20:35; 2 Reis 2:3-15, 4:1,38, 9:1), aconselhavam os reis (Isaías 37:1-7), escreviam suas crônicas (1 Crônicas 29:29), eram perseguidos, aprisionados e martirizados (Hebreus 11:32-40), pois como declarou o Senhor Jesus: “Em verdade vos digo que nenhum profeta é aceito na sua terra” (Lucas 4:24). Os profetas de Deus manifestavam notável integridade moral e coragem física porque tinham uma fé dinâmica no Senhor.

Deus falava aos profetas de várias maneiras, frequentemente em visões e usava parábolas (Oseias 12:10), para revelar o Seu segredo a eles (Amós 3:4). Falou em voz audível (Números 12:8; 1 Samuel 3:4-14), usou anjos como porta-vozes (Daniel 8:15-26; Apocalipse 22:8-9), e falava em sonhos e visões (Números 12:6, Joel 2:28).

Por sua vez, os profetas também transmitiam a mensagem recebida de Deus de várias maneiras para aqueles a quem era destinada, sempre movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1:21) em nome do Senhor (Tiago 5:10). Às vezes transmitiam a mensagem em forma de poesia cantada (Deuteronômio 32:44; Isaías 5:1), usavam instrumentos musicais (1 Samuel 10:5; 2 Reis 3:15-19), faziam uso de parábolas e enigmas (2 Samuel 12:1-6; Ezequiel 17:2-10), faziam uma ilustração em que às vezes atuavam (Isaias 20:2-4; Jeremias 19:1,10-11; Ezequiel 4:1-13; Oseias 1:2-9; Atos 21:11).

Além de dar a notícia de acontecimentos futuros, a profecia de Deus pode conter admoestações e prevenções, por exemplo: sobre a apostasia (1 João 2:19; Judas 1:17-18), os falsos mestres (2 Pedro 2:3), as tribulações das igrejas (Apocalipse 2:10). Havia profecias que abalavam os profetas emocionalmente (Jeremias 23:9; Ezequiel 3:14-15).

Deus falou aos homens mediante profecias até que a última profecia foi ditada a João na ilha de Patmos, que conhecemos como o livro do Apocalipse. Esta é “a revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e, enviando-as pelo seu anjo, as notificou a seu servo João” (capítulo 1:1).

Ela nos previne solenemente: “Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão descritas neste livro”.

Portanto, a profecia de Deus está completa. Qualquer outra que aparecer não provém de Deus, mas é falsa e mentirosa.