Boletim dos Obreiros

Ministério dos anjos

Como ministram os anjos aos seres humanos?
"Não são, porventura, todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

(Hebreus 1:14)

As palavras traduzidas por "anjo" em hebraico e grego significam simplesmente "mensageiro", e são empregadas na Bíblia para indicar qualquer agente que Deus envia para executar os Seus propósitos, seja ele um homem, uma coisa, ou um ser espiritual criado por Ele.

A palavra "anjo" também é usada na Bíblia para seres espirituais inteligentes sem a conotação de serem mensageiros de Deus; nesse sentido lemos, por exemplo, que satanás tem seus próprios anjos, espíritos rebeldes como ele próprio (Mateus 25:41, Apocalipse 12:7-9).

Anjos neste segundo sentido são espíritos, limitados no tempo e no espaço como o homem, mas sem a limitação da matéria porque seus corpos são imateriais; como o espírito humano, são imortais; não se reproduzem sexualmente, como o homem. São invisíveis aos olhos humanos por causa da sua imaterialidade, mas em certas ocasiões raras Deus tem dado a homens, mesmo a um animal, a capacidade de vê-los.

São muito numerosos e segundo o relato bíblico têm graus diferentes de dignidade e de poder (Zacarias 1:9, 11; Daniel 10:13; 12:1; Efésios 1:21; Colossenses 1:16; 1 Tessalonicenses 4:16; Judas 1:9). Quando os anjos foram realmente vistos sempre o foram em forma humana (Gênesis 18:2; 19:1, 10; Daniel 3:25; Lucas 24:4; Atos 1:10), e expressões como “iguais aos anjos” (Lucas 20:36), os títulos que lhes são dados e o fato de serem chamados filhos de Deus (Jó 1:6; 38:7) como Adão (Lucas 3:38), parecem todos indicar uma grande semelhança entre eles e o homem (Juízes 13:6; Daniel 10:16).

A pergunta feita e o versículo bíblico citado no cabeçalho deste artigo obviamente concernem anjos apenas como seres espirituais identificados como mensageiros (de Deus) para ministrar aos homens. Vamos nos limitar portanto a estes, a partir daqui.

Como acontece com outros versículos das Escrituras que estão um tanto isolados, no sentido de não terem explicação em qualquer outra parte da Bíblia, existe mais de um parecer sobre o escopo do versículo, dependendo de quem seriam “aqueles que hão de herdar a salvação”:

  • Pode-se argumentar que a salvação aqui mencionada não é, necessariamente, a salvação da alma: esta não é herdada mas é dada mediante a graça de Deus àqueles que crêem no Senhor Jesus, e estes têm a salvação agora, enquanto que o versículo se refere àqueles que no futuro herdarão a salvação. Com base neste argumento alguns sustentam que este versículo está olhando para a frente ao tempo em que Deus se voltará novamente à nação de Israel e ao povo gentio (depois da remoção da igreja da terra). Como nação, Israel será salva, herdeira das promessas feitas aos seus patriarcas, e os anjos ministram a ela.
  • Outros sustentam que salvação permanece no futuro também para aqueles que são salvos pela fé; ainda está para ser herdada, mesmo que as suas bênçãos já possam ser apreciadas antecipadamente. É aquela salvação de que Paulo fala e que “está, agora, mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Romanos 13:11) ou, nas palavras de Pedro, está “já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pedro 1:5).

Na falta de mais explicações sobre o alcance do ministério dos anjos aqui mencionado, para compreender melhor qual seja, somos forçados a nos informar com os exemplos dados nas Escrituras da atuação dos anjos nas vidas dos homens.

No Velho Testamento há muitas menções de anjos, mensageiros espirituais de Deus para os homens e vistos por eles. Existem casos onde o Anjo do SENHOR é sem dúvida a manifestação da presença Divina, “sombra da encarnação”, uma revelação antes da “plenitude dos tempos” do Filho de Deus (p. ex. Gênesis 16:7-11, 18:2,22; 32:24-30, Josué 5:13-15).

No sentido mais amplo, anjos demonstram ser agentes da providência de Deus, e estão especialmente envolvidos na Sua grande obra de redenção. Não há referência a aparições de anjos até depois do chamado de Abraão. A partir dessa ocasião existem menções freqüentes ao seu ministério na terra (Gênesis 19; 24:40; 28:12; 32:1). Eles aparentam repreender a idolatria (Juízes 2:1-4), convocar Gideão (Juízes 6:11, 12), e consagrar Sansão (Juízes 13:3). A partir de Samuel, os anjos geralmente aparecem aos profetas (1 Reis 19:5; 2 Reis 6:17; Zacarias 1:12; Daniel 4:13, 23; 10:10,13, 20, 21), no entanto ao rei gentílico Nabucodonosor foi dada a oportunidade de ver um deles (Daniel 3:25).

No Novo Testamento a encarnação de Cristo introduz uma era nova no ministério dos anjos: eles vêm com o seu Senhor para a terra para servi-Lo enquanto está aqui. Eles predizem a Sua vinda (Mateus 1:20; Lucas 1:26-38), ministram a Ele depois da Sua tentação e da Sua agonia (Mateus 4:11; Lucas 22:43), e declaram a Sua ressurreição e ascensão (Mateus 28:2-8; João 20:12, 13; Atos 1:10, 11). O Senhor Jesus declarou que, se quisesse, Ele pediria ao Pai e Ele mandaria mais de doze legiões de anjos para defendê-Lo dos Seus agressores (Mateus 26:53): mas Ele tinha que sofrer nas mãos dos homens, conforme as Escrituras, para cumprir a missão a que veio, por isso não o fez.

Enquanto na terra, tendo chamado uma criança para perto de Si, Jesus a colocou no meio dos Seus discípulos e lhes disse: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus. Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido.” (Mateus 18:10,11). Ele preveniu-lhes contra desprezarem as crianças, porque Deus tem anjos empregados diante da Sua presença para ministrarem pelo seu bem dentro do propósito do Seu plano para salvar o que se havia perdido.

O Senhor Jesus também disse que “há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende”. (Lucas 15:10). Os anjos estão envolvidos no plano de salvação de Deus e há alegria com o arrependimento de cada pecador, e quando ele morre eles levam a sua alma para o paraíso (Lucas 16:22).

Depois da Sua ressurreição, o Senhor Jesus “está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” (1 Pedro 3:22, Apocalipse 22:9,16). Ele usou o ministério dos anjos para livrar os Seus apóstolos da prisão e do perigo (Atos 5:19, 12:7-11, 27:23); Ele também os empregou para levar a mensagem do Evangelho ao eunuco da Etiópia e ao centurião romano Cornélio (Atos 8:26 e 10:3-11:13). Não conheceremos toda a amplitude do trabalho que os anjos fazem agora até que cheguemos ao céu.

Os casos de assistência dada pelos anjos aos homens, relatados no livro de Atos, são uma indicação que eles realmente ministram aos santos da igreja de Cristo, bem como a exortação: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.” (Hebreus 13:2). Provavelmente é uma referência aos casos já conhecidos ocorridos com Abraão, Ló e Gideão, mas não deixam de conter a sugestão que isso pode ocorrer novamente com qualquer um de nós, incentivando-nos à prática da hospitalidade.

Quando vistos, os anjos nem sempre eram reconhecidos como tais. Ainda mais importante, como espíritos, eles podem desenvolver o seu trabalho para Deus de maneira eficaz sem serem vistos por pessoas. Têm havido casos raros em que pessoas sentiram a presença de anjos dando-lhes a sua proteção. Também algumas vezes têm acontecido, por exemplo, de inimigos do Evangelho serem afastados repentinamente dos seus maus propósitos contra o povo de Deus, sem um motivo plausível; de uma “coincidência” providencial evitar o que normalmente seria um acidente fatal, etc. Nunca saberemos com certeza se anjos estiveram envolvidos, mas, sem dúvida, parece possível.

Um dia o Senhor Jesus voltará em glória com os Seus anjos, para dar início ao Seu reino na terra. Os Seus anjos então darão andamento a outro aspecto do seu ministério: o afastamento e punição dos ímpios que estiverem vivos em todo o mundo naquela época: “Mandará o Filho do Homem os seus anjos, e eles colherão do seu Reino tudo o que causa escândalo e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali, haverá pranto e ranger de dentes.” (Mateus 13:41-42). Assim os anjos abrirão o caminho para dar um bom início ao reino milenar.

Muitas suposições são feitas sobre o ministério dos anjos, confundindo a realidade com a imaginação. Se formos sábios, nós nos limitaremos ao que Deus nos revela em Sua Palavra, que é destinada especificamente a nós.