Boletim dos Obreiros

Os inimigos

“Ó Deus, não guardes silêncio;
não te cales nem fiques impassível, ó Deus.
Pois eis que teus inimigos se alvoroçam,
e os que te odeiam levantam a cabeça.”


Salmo 83:1-2


Os inimigos de Deus sempre atuam contra o Seu povo.

O que é nascido de novo em Cristo logo de início enfrenta a sua antiga natureza pecaminosa, que o tenta de forma imaterial, intelectual ou afetiva, através de desejos pecaminosos, das atrações ímpias do mundo e dos ensinos nocivos inspirados pelo diabo. Esses inimigos agem para levá-lo ao pecado, prejudicar o seu testemunho e enfraquecê-lo na fé.

Outros inimigos aparecem constantemente, e estes vêm de fora: são os inimigos do Evangelho, portanto de Cristo e de Deus, pois a luz do Evangelho os incomoda: “todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” (João 3:20).

Quando o cantor-poeta-pregador-profeta Asafe escreveu o Salmo 83, inspirado e dirigido pelo Espírito Santo, os inimigos do povo de Deus tramavam juntos contra Israel. Os inimigos eram numerosos povos que os cercavam, idólatras e praticantes de toda a espécie de abominação. Esses inimigos desejavam destruir o povo de Israel como nação, “para que o nome de Israel não fosse mais lembrado” (v. 4). O salmo foi escrito três mil anos atrás e a nação de Israel era relativamente pequena entre as demais. Era humanamente impossível para ela sobreviver entre tantos inimigos poderosos e unidos.

Nessa nação de Israel encontramos inúmeras figuras e conceitos aplicáveis à igreja de Cristo, pois ambas surgiram por obra e graça do verdadeiro Deus criador de todas as coisas, e por esse motivo têm sofrido a rejeição e a perseguição do mundo incrédulo e inimigo de Deus.

O Senhor Jesus disse que o mundo odiaria os Seus porque não são do mundo, mas dEle. Assim como o mundo O perseguiu, também perseguiria aos Seus por causa do Seu nome, porque o mundo não conhece a Deus que O enviou (João 15:18-23). Através da sua existência, a igreja de Cristo tem enfrentado a inimizade e perseguição, muitas vezes cruel, violenta e sanguinária, do mundo inimigo de Cristo e de Deus, da mesma forma como este odiava (e ainda odeia) Israel.

Os inimigos de Cristo foram, desde o início da Sua igreja, poderosos e implacáveis, da mesma forma como eram os inimigos de Israel. Veremos a seguir alguns paralelos entre os inimigos de Israel e os da igreja que encontramos no Salmo 83.

O Salmo inicia com um clamor a Deus por causa do Seu aparente silêncio e inação frente às ameaças dos inimigos contra o Seu povo. Sem dúvida Deus toma essa atitude por bons motivos, entre os quais podemos sugerir:

  • Provar a fé do Seu povo. Por exemplo, o Senhor Jesus provou a fé dos Seus discípulos quando dormia num barco durante uma tempestade e eles temiam naufragar (Mateus 8:24-26). Quando eles O acordaram, Ele os repreendeu, dizendo: “Por que temeis, homens de pouca fé?”
  • Selecionar o Seu povo. Por exemplo, a experiência nos mostra que, quando chamar-se “cristão” é aceitável e respeitável, e não há oposição, as igrejas crescem com oportunistas descrentes que se aproveitam das vantagens sociais para seu próprio benefício. Uma multidão seguia o Senhor Jesus até que, um dia, Ele provou a fé deles com “palavras de espírito e vida”: muitos dos Seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-Lo (João 6:63-66).

Os inimigos de Israel, citados nos versículos 6 a 8, podem ser classificados em quatro categorias:

  1. Os mais ligados a Israel por parentesco: Os descendentes de Esaú e Ismael. Os edomitas eram os descendentes de Esaú, irmão de Israel (Jacó), e eram os inimigos mais implacáveis; seu ódio transparecia em todos os seus encontros. Podem tipificar aqueles que, tendo conhecido o Evangelho, o rejeitam e se tornam ferrenhos inimigos dos crentes. Os ismaelitas eram descendentes da escrava Agar, símbolo da escravidão da lei, e podem representar os judeus que, rejeitando a Cristo, viram-se contra os cristãos: em Israel, atualmente, os cristãos sofrem muito ódio e perseguição da parte dos religiosos judeus, assim como aconteceu no início.
  2. Os dois ramos dos descendentes de Ló assistidos por árabes: Moabe com os hagarenos, e Amom com os gebalitas e amalequitas. Lembrando o ambiente do qual Ló fora tirado mediante a intercessão de Abraão, podemos ver esses descendentes de suas duas filhas, resultado de incesto, como figura dos depravados e imorais que são inimigos da pureza e da santidade pregada pelo Evangelho, e submetem os crentes a chacotas e perseguição porque não participam das suas atividades.
  3. A Filístia e os habitantes de Tiro haviam se unido na esperança de conseguir cativos israelitas para vendê-los como escravos. Eles se dispuseram algumas vezes a colaborar com Israel quando viam oportunidade de lucro para si, mas não hesitaram em juntar-se com seus inimigos por causa da sua ganância. Não eram movidos pelo ódio, mas eram oportunistas procurando enriquecer-se às custas de Israel. Tipificam aqueles que se fazem amigos do Evangelho apenas para tirar o proveito material que podem obter dele, mas vão se unir com seus inimigos se houver maior vantagem nisso.
  4. Os assírios, ricos e poderosos, que visavam sujeitar o mundo ao seu controle. Facilmente identificamos neles os que lutam para estender e consolidar o seu domínio sobre os corpos e as almas dos povos, os césares, os ditadores, os papas, inescrupulosos no uso de qualquer meio para atingir os seus objetivos. Eles representam a pior manifestação do egoísmo, a materialização da inimizade do mundo contra Deus.

Vemos retratadas nestas categorias a iniqüidade, o orgulho intelectual, a impiedade e a ambição mundana, que são as características daqueles que ameaçam a igreja de Cristo.

É notável e confortante para nós hoje saber que, apesar de ter sofrido muitas invasões e o desterro por séculos, a nação de Israel sobreviveu e desde meados do século passado está parcialmente de volta, soberana, na terra que era sua naquele tempo. Todos os seus inimigos mencionados no Salmo, por outro lado, perderam a sua identidade como nações: Edom e os ismaelitas, Moabe e os hagarenos, Gebal, Amon e Amaleque, a Filístia, Tiro e Assíria.

Recentemente, em junho de 1967, o Egito, Jordânia, Síria, Iraque, Argélia, Sudão, Kwait, Arábia Saudita e Marrocos, numa confederação poderosa atacaram o novo país de Israel com o objetivo de “destruir Israel”. Em seis dias a guerra terminou: Israel venceu-os todos e conquistou um imenso território. A história havia se repetido e, contra todas as expectativas humanas, Israel havia triunfado.

A história do mundo nos conta também que, primeiramente a igreja foi perseguida pelos judeus, que rejeitaram a Cristo, depois pelos romanos, às vezes incitados pelos judeus. O paganismo penetrou na igreja e levou a maioria à apostasia, que por sua vez martirizou os santos fiéis e submissos ao verdadeiro Deus durante séculos. Mas, com a graça de Deus, os fiéis conseguiram se afastar dos apóstatas e levar o Evangelho ao mundo.

O Evangelho agora tem como seus maiores inimigos o evolucionismo e o islamismo.

As teorias falsas do evolucionismo se dedicam a destruir o relato do Gênesis, pondo em dúvida a própria autenticidade da Bíblia como sendo um livro inspirado por Deus. Os evolucionistas afastam os cientistas que protestam contra as suas muitas falsidades da sua área crescente de influência, expulsando-os dos seus laboratórios e universidades, desta forma assegurando a ignorância do público em geral e a propagação do ateísmo.

O islamismo é inimigo dos judeus e dos cristãos, pois recusa aceitar a Bíblia como sendo a inspirada Palavra de Deus, e nega a divindade de Cristo. Os islâmicos usam o poder militar para eliminar os cristãos em países da África, e emudecê-los no Oriente Médio e em outros países onde têm influência. São inimigos muito poderosos, além dos muitos outros que militam contra o Evangelho.

Mas vejamos a conclusão desse Salmo: “Cobre-lhes o rosto de confusão, de modo que busquem o teu nome, Senhor. Sejam envergonhados e conturbados perpetuamente; sejam confundidos, e pereçam, para que saibam que só tu, cujo nome é o Senhor, és o Altíssimo sobre toda a terra” (vv.16 a 18).

Deus age a Seu tempo. Assim como os inimigos de Israel de três milênios atrás foram eliminados, tanto Israel como a igreja de Cristo serão preservados para sempre e os seus inimigos perecerão, sendo envergonhados e conturbados perpetuamente.