Boletim dos Obreiros

Três dias e três noites

“....como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra”.

Mateus 12:40.

A expressão “três dias e três noites” é mencionada três vezes na Bíblia:

  1. Um egípcio foi alimentado com pão e água, um pedaço de pasta de figos secos e dois cachos de passas, e com isso foi reanimado depois de passar “três dias e três noites” sem comer pão nem beber água. Em seguida guiou Davi e os seus homens até onde se encontrava um exército de amalequitas, permitindo uma grande vitória e recobrar tudo que lhe haviam roubado, inclusive suas duas mulheres que haviam levado cativas (1 Samuel 30:1-19).
  2. O profeta Jonas esteve nas entranhas de um grande peixe, preparado pelo Senhor, por “três dias e três noites”, dando-lhe oportunidade de se arrepender da sua desobediência, para depois, submisso, levar a palavra de advertência do Senhor aos habitantes de Nínive. Como resultado, houve arrependimento, o Senhor teve compaixão daquele povo ignorante dos caminhos de Deus, e foi salva a vida de cento e vinte mil pessoas além de muito gado (Jonas 4:11).
  3. O Senhor Jesus passou “três dias e três noites” no seio da terra, tendo Ele antes mencionado o que se passou com Jonas como exemplo. Deus O ressuscitou ao terceiro dia e Lhe concedeu que Se manifestasse aos Seus discípulos, para que pudessem testificar que Ele é Quem por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos (Atos 10:40-42).

Não vamos nos deter em considerações sobre estes notáveis paralelos, mas descobrir o que pudermos sobre o que mais tem despertado curiosidade e, mesmo, controvérsia, qual seja, os “três dias e três noites” em que o Filho de Deus esteve no seio da terra.

Além da profecia de “três dias e três noites” proferida pelo próprio Senhor Jesus, temos também a declaração dos dois discípulos que iam para Emaús no primeiro dia da semana, domingo, quando houve a ressurreição “...E hoje é o terceiro dia desde que tudo isso aconteceu” (Lucas 24:21). Vejamos a seguir como isso se deu.

Todos os quatro evangelistas contribuem com uns poucos detalhes diferentes sobre o que aconteceu no intervalo entre a morte do Senhor Jesus e a Sua ressurreição. Nenhum deles esteve presente pessoalmente. Ajuntando o que relataram (Mateus 28:1 a 15, Marcos 16:2 a 11, Lucas 24:1 a 12 e João 20:1 a 10), chegamos à conclusão que, tendo entregue Seu espírito logo após as 15h00 de uma quarta-feira, Cristo foi sepultado por volta das 18h00, ao anoitecer. Setenta e duas horas depois, às 18:00 do sábado, seria o início do primeiro dia da semana, quando Ele ressuscitou; não nos é dito a hora exata.

Que a crucificação se deu na quarta-feira pode ser comprovado pelos acontecimentos desde a sexta-feira anterior até o domingo da ressurreição, conforme são relatados nos Evangelhos, e foi afirmado em escritos através dos tempos desde a antiguidade. Esse era o “Dia da Preparação da Páscoa” (João 19:14). No crepúsculo desse dia comia-se a refeição da Páscoa israelita (Levítico 23:5).

Depois do Seu brado vitorioso “está consumado” e a entrega do Seu espírito ao Pai, a alma de Jesus Cristo foi para o “Sheol”, como já fora profetizado pelo rei Davi (Salmo 16:10). Essa região, chamada “Hades” no Novo Testamento, que é o seu equivalente no grego, é a região aonde iam os espíritos dos mortos, referida quatro vezes nos Evangelhos, todas pelo Senhor Jesus (Mateus 11:23, 16:18, Lucas 10:15, 16:23). A única descrição do estado dos que lá se encontravam se acha em Lucas 16:23-31. A Palavra de Deus não nos revela o que Cristo fez enquanto esteve no Sheol.

O Seu corpo foi depositado num sepulcro novo onde ninguém ainda havia sido colocado (Lucas 23:53), pertencente a José de Arimateia. O “dia” judaico se contava a cada pôr-do-sol, assim esse “Dia da Preparação” estava terminando, dando lugar ao primeiro dia da Páscoa, “sábado” (“shabbath”, descanso do trabalho) especial, chamado “grande dia” (João 19:31), em que não era permitido trabalhar (Êxodo 12:16, Levítico 23:7). Como já era tarde, aproximando-se das 18h00 quando se iniciava o "sábado", o corpo foi depositado às pressas, ao terminar o dia. Uma grande pedra circular foi colocada na abertura.

As mulheres, que tinham vindo da Galiléia, acompanharam José de Arimateia e Nicodemos, e viram o sepulcro, e como foi posto o Seu corpo. Entre as mulheres ainda estavam Maria Madalena e Maria, mãe de José, e elas se assentaram defronte do sepulcro, sendo assim testemunhas do fato.

No dia seguinte, quinta-feira para nós, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos, e pediram que mandasse guardar com segurança o sepulcro. Estes inimigos de Cristo, responsáveis pela Sua prisão, condenação e crucificação, lembravam-se que o Senhor dissera "depois de três dias ressuscitarei" (Mateus 12:40), e temiam que os discípulos de Cristo fossem até lá às escondidas, de noite, e furtassem o corpo, para depois anunciarem a todo o mundo que Ele havia ressuscitado.

Pilatos deu-lhes permissão para ficar com a guarda, e mandou que fossem e fizessem como entendessem. Eles se apressaram em selar o sepulcro e colocar a guarda, julgando que, com isso, o corpo ali ficaria intacto por mais de três dias. Entretanto, ao que tudo indica, os discípulos se escondiam com medo de ser presos como cúmplices do Senhor. Eles não estavam sequer lembrando, menos ainda dando crédito ao que o Senhor Jesus havia profetizado a respeito da Sua ressurreição.

No segundo dia depois do sepultamento, nossa sexta-feira, já terminado aquele “sábado”, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-Lo (Marcos 16:1). E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos, mas repousaram no dia seguinte conforme o mandamento (Lucas 23:56), pois era o sábado semanal.

Ao terminar o sábado semanal, completaram-se os “três dias e três noites” do sepultamento do corpo do Senhor Jesus. Este não sofreu decomposição, conforme a profecia de Davi (Salmo 16:10). Após o crepúsculo, ao se iniciar a madrugada do primeiro dia da semana, o espírito do Senhor Jesus voltou ao Seu corpo e este foi transformado, obtendo novas características gloriosas (comp. 1 Coríntios 15:35-52). Este corpo não podia ser contido por barreiras materiais, e com ele o Senhor saiu do túmulo. Quando o anjo do Senhor desceu do céu com um grande terremoto e afastou a pedra na entrada do túmulo onde havia sido depositado o corpo do Senhor Jesus, assustando tremendamente os soldados, o túmulo já estava vazio (Mateus 28:2).

Os guardas, que haviam desmaiado de susto, se levantaram e saíram correndo (as mulheres ainda estavam a caminho, Mateus 28:11). Alguns deles foram até a cidade e contaram o que havia ocorrido aos chefes dos sacerdotes. Estes convocaram uma reunião e decidiram dar um grande suborno aos soldados para que dissessem que haviam dormido, e enquanto dormiam os discípulos haviam entrado na sepultura e furtado o corpo. Prometeram que não seriam castigados. Esta versão inacreditável inventada pelos sacerdotes foi divulgada no primeiro século. Outras versões igualmente inverossímeis foram propostas através dos séculos, mas nenhuma pode desfazer a realidade bíblica dos fatos.

Maria Madalena, Salomé e a outra Maria (mãe de Tiago) haviam saído de casa (Betânia) antes do pôr-do-sol do sábado para ver o sepulcro, levando aromas para ungir o corpo do Senhor. Ao chegarem lá, encontraram a pedra removida e um jovem vestido de roupas brancas (o anjo) lhes disse que ”Jesus que foi crucificado” não estava mais ali, pois havia ressuscitado como Ele tinha dito. Entrou com elas para mostrar o lugar, agora vazio, onde o corpo havia sido colocado, e pediu que elas fossem contar o fato aos discípulos e informar que Ele ia adiante deles para a Galiléia, onde os encontraria.

As três mulheres saíram depressa do sepulcro, tremendo e assustadas, e duas delas não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas (Marcos 16:8). Mas Maria Madalena foi até Pedro e João e disse que haviam levado o Senhor do sepulcro (João 20:2); eles correram até lá, entraram e viram os lençóis e o lenço que estivera na cabeça, mas não o corpo. Voltaram para casa, e mediante essa evidência João creu na ressurreição (João 20:1-10).

Maria Madalena também foi novamente ao sepulcro, olhou dentro e viu dois anjos vestidos de branco que lhe perguntaram porque chorava. Voltando-se ela, teve um comovente e surpreendente encontro com o Senhor, ressuscitado. Ele ainda não havia subido para o Pai. Em seguida, Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos o que lhe havia acontecido. Mas eles não creram (João 20:11-17).

Já ao amanhecer, outras mulheres que haviam vindo da Galiléia também subiram de Jerusalém levando as especiarias que haviam preparado, e a elas se juntaram Salomé e a mãe de Tiago. Acharam a pedra revolvida e não acharam o corpo do Senhor Jesus, mas dois homens com as roupas resplandecentes pararam junto delas e perguntaram: "Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite” (Lucas 24:1-7).

As mulheres saíram depressa do sepulcro, amedrontadas e cheias de alegria. Quando corriam para anunciar aos discípulos o que tinha acontecido, de repente o Senhor Jesus lhes saiu ao encontro e saudou-as. Elas, chegando, abraçaram os Seus pés e adoraram. Note-se que, desta vez, Ele permitiu que elas O tocassem, logo, no intervalo, Ele já tinha ido ao Pai e voltado.

Novamente receberam a ordem para dizer aos discípulos para irem para a Galiléia, onde eles O veriam - note-se que Ele agora os chama de "Meus irmãos". Também quando falava com Maria Madalena Ele disse "vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus".

Quanto ao "Hades", entendemos que o "cativeiro" no "Hades" contendo as almas dos justos, chamado de "seio de Abraão" ou "paraíso", foi levado pelo Senhor Jesus com Ele ao céu por ocasião da Sua ascensão (Efésios 4:8-10, Hebreus 2:14,15). Estão presas no "Hades", desde então, somente as almas dos mortos perdidos, e Jesus Cristo tem a chave (Apocalipse 1:18). No dia do juízo final, após o milênio, o "Hades" entregará os mortos que nele houver, e ele será lançado no lago de fogo que arde com enxofre (Apocalipse 20:13,14).

Infelizmente, a maioria dos comentaristas segue a tradição católico-romana, que vem desde os tempos do imperador Constantino que assumiu liderança dessa instituição. Ele detestava os judeus, e fez com que se introduzisse uma “páscoa cristã” tendo por base as fases da lua, tendo sexta-feira como o dia da semana comemorativo da morte do Senhor Jesus. Era conveniente para combinar e substituir uma importante festa pagã celebrada nesse dia.

A explicação do intervalo mais curto foi que se deve contar o dia da morte e o dia da ressurreição (uma fração de cada um), e um sábado no meio. São assim três dias, mas ficam somente duas noites. Explicam então que “três dias e três noites” é só maneira de dizer, comum (?) na época. Não convence, e convém nos ater ao que entendemos no relato bíblico, pois ele é infalível, ao contrário das tradições.