Boletim dos Obreiros

Ana, a profetisa

Lucas 2:21-38

 

O nome Ana vem do hebraico hannah, que significa “graça”. Ana, filha de Fanuel, foi uma profetisa do Novo Testamento, como eram Miriã, Débora e Hulda no Velho Testamento. Só é mencionada uma vez na Bíblia, nos versículos acima do Evangelho de Lucas.

Era da tribo de Aser, uma das dez do extinto reino de Israel que foram dispersas pelos assírios muitos anos antes dos babilônios invadirem o reino de Judá e levarem cativos os judeus. Houve uma tradição segundo a qual as mulheres da tribo de Aser eram notáveis pela sua beleza e talento. Certamente Ana seria virtuosa espiritualmente, pois morando em Jerusalém “não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações”.

Quando já muito idosa (pelo menos cento e dez anos, tendo ficado viúva oitenta anos antes, ao fim de um casamento que durou dezesseis), estava como sempre servindo a Deus no templo, e ali teve o privilégio de presenciar um fato inédito em toda a história: nesse dia o menino Jesus foi trazido pelos seus pais para os rituais de purificação de Maria e dedicação do seu primeiro filho, em obediência à lei de Moisés.

Estes foram os últimos de uma série de três rituais cumpridos pelos pais de Jesus Cristo logo após o Seu nascimento, mencionados por Lucas neste capítulo 2 do seu Evangelho:

  1. A circuncisão de Jesus: feita oito dias depois de nascer. Fazia parte do pacto que Deus fez com Abraão (Gênesis 17:11,12) do qual o menino participou como seu Descendente. Neste mesmo dia, o menino recebeu o Seu nome, de acordo com o ritual judaico. Um anjo do Senhor tinha previamente instruído Maria e José a dar-lhe o nome de JESUS “porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1:21).
  2. A purificação de Maria: em obediência à lei de Moisés, depois de trinta e três dias após dar à luz, durante os quais não podia tocar nenhuma coisa sagrada nem entrar no santuário, Maria devia trazer ao sacerdote no templo “um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado”. Mas como suas posses não bastavam para um cordeiro, foi-lhe permitido trazer apenas “duas rolas, ou dois pombinhos: um para o holocausto e outro para a oferta pelo pecado” (Levítico 12).
  3. A consagração de Jesus: obedecendo ao mandado do Senhor, o menino Jesus foi apresentado nesta mesma oportunidade ao Senhor no templo em Jerusalém, por ser o primeiro filho de Maria (Êxodo 13:2).

Movido pelo Espírito Santo, também compareceu ao templo nessa ocasião Simeão, um “homem justo e temente a Deus, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E lhe fora revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Assim pelo Espírito foi ao templo; e quando os pais trouxeram o menino Jesus, para fazerem por ele segundo o costume da lei, Simeão o tomou em seus braços...”.

Desde sua volta do cativeiro na Babilônia os judeus nunca tiveram soberania nacional, estando sempre subjugados aos seus inimigos, primeiro os persas, depois os gregos e por fim os romanos. Toda a nação ansiava por sua libertação, e esperavam que esta viesse de Deus através de Cristo (Ungido), ou Messias em hebraico. Essa era a esperança de Ana e Simeão e por longos anos se animaram com a perspectiva de que o Messias viesse em seus dias, especialmente depois que o Espírito Santo revelara a Simeão que ele veria Cristo do Senhor antes de morrer.

Na apresentação do menino Jesus no templo, Simeão reconheceu que a criança era o Messias prometido por Deus e se regozijou grandemente, pois assim se cumpria a profecia anunciada pelos profetas da antiguidade de lhes enviar um Salvador e Redentor, a “consolação de Israel”.

Tomando o Menino em seus braços, Simeão louvou a Deus por ter permitido que visse a Sua salvação, e abençoou os seus pais e disse a Maria que seu Filho “era posto para queda e levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição...”.

Entendemos que a “queda e levantamento de muitos em Israel” significava que os arrogantes e descrentes entre o povo seriam punidos, mas os que se humilhassem e confiassem no Senhor Jesus seriam levantados e abençoados. Seria “alvo de contradição” por causa da Sua morte vergonhosa na cruz ao invés da vitória política sobre os romanos, esperada do Messias. A Sua morte seria como uma espada traspassando a própria alma de Maria, e também os pensamentos e propósitos dos corações de muitos seriam testados e manifestados mediante a decisão que teriam que tomar a favor ou contra Cristo.

A salvação de Deus, incorporada na pessoa de Jesus (“Jesus” significa “o SENHOR é salvação” ou “SENHOR o Salvador”) teria grande impacto sobre todo o mundo, trazendo luz para os gentios e a glória do Seu povo Israel, ou seja:

  • Mediante a luz do Evangelho, a graça de Deus se estende ao mundo inteiro oferecendo a propiciação pelos seus pecados em Cristo pela fé (1 João 2:2).
  • A salvação de Deus é a glória de Israel, pois Deus escolheu esse povo para através dele se fazer conhecido e enviar o Seu Filho para trazer a salvação para a humanidade (Romanos 9:4).

Ana então entrou e “deu graças a Deus...” expressando seu profundo agradecimento a Deus por enviar o Salvador prometido, e em seguida “falou a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém”.

Jerusalém é uma cidade de grande antiguidade, e aparece como Urusalim em monumentos assírios de pedra do oitavo século antes de Cristo. Há divergência de opiniões sobre o significado exato original do nome: traduzido do idioma sírio poderia ser “cidade de paz” ou “cidade de (o deus) Salem”, mas traduzido do hebraico é “fundação (alicerce) de paz”. Parece uma ironia da história que em todo o tempo da sua existência uma cidade com este nome tenha tido tão pouca paz, e que tanto sangue tenha sido vertido para a sua conquista. Ela é chamada “cidade santa” tanto no Velho como no Novo Testamento (Isaías 48:2, 52:1, Neemias 11:1, Mateus 4:5 e 27:53).

Quando da conquista de Canaã pelos israelitas, a cidade de Jerusalém continuou sendo ocupada pelos jebuseus até ser capturada pelo rei Davi em 1048 a.C. (2 Samuel 5:5-7,9), que dela fez a capital do seu reino de Israel (como Belém, Jerusalém é chamada “cidade de Davi” na Bíblia) e, na divisão deste reino após a morte de seu filho Salomão, ficou sendo a capital do reino de Judá (de onde vem o nome “judeus”). Deus escolheu a cidade de Jerusalém “para ali pôr o Seu Nome” (1 Reis 11:13,32, 14:21, 2 Reis 21:4,7) e depois a rejeitou por causa da sua idolatria (2 Reis 23:27).

O reino de Judá foi aniquilado pelos caldeus, os quais foram vencidos pelos persas, depois vieram os macedônios e finalmente estes foram derrotados pelos romanos. A esta altura Jerusalém se tornou a capital da província romana da Judeia. Assim, nos tempos de Ana, os habitantes de Jerusalém sofriam o jugo do império romano e muitos “esperavam a redenção de Jerusalém” prenunciada pelos profetas do Velho Testamento, particularmente Zacarias (capítulo 14) e Malaquias 3:4. Suas profecias se cumprirão depois do milênio, mas primeiro era necessário que viesse o Messias como Salvador e foi a apresentação dEle que Ana presenciou e, como profetiza, “falou a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém”.

O Senhor Jesus previu a destruição de Jerusalém pelos romanos que se deu em 70 a.D. (Mateus 24:2, Marcos 13:2, Lucas 19:44 e 21:6). Foi lentamente reedificada pelos gentios e hoje é uma cidade moderna pertencente, em parte, ao país de Israel, e um novo templo está previsto. Mas Jerusalém sofrerá grandes danos durante o período da tribulação, e todo o território em que ela se encontra atualmente será elevado para formar uma grande montanha, que virá a ser a mais alta no mundo. A cidade será reconstruída sobre um vasto planalto de uns 2.500 km² no cume da montanha (Isaías 2:2-4, Miquéias 4:1-2, Ezequiel 17:22-24, 20:40-41, 40:1-4, 45:1-8, 48:8-20), e todos os sobreviventes do povo de Israel serão reunidos para viver em sua própria terra (Isaias 43:5-7, Jeremias 31:7-10, Ezequiel 11:14-18, 47:13-21, 48). Nela Jesus Cristo construirá um novo templo que será a sede do governo mundial (Isaías 2:2-4, Ezequiel 43:7, Daniel 2:44-45, 7:13-27, Zacarias 6:12-13,14:8-9, Apocalipse 11:15).

Logo após o milênio haverá um novo céu e uma nova terra, para onde descerá do céu da parte de Deus a Nova Jerusalém, uma cidade santa de magnífico esplendor (Apocalipse 3:12, 21:2, 21:10). Esta é finalmente a esperada Jerusalém redimida, habitada por todos os santos de Deus comprados pelo sangue do Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Foi Ele que, pouco depois de nascer da humilde virgem Maria, foi apresentado a Deus naquele templo em Jerusalém para o grande regozijo da anciã Ana, a profetisa.

É outra evidência do que Davi exclamou ao Senhor no Salmo 90:4... “mil anos aos Teus olhos são como o dia de ontem que passou, e como uma vigília da noite”, e foi lembrado por Pedro “mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8). Todas as profecias que temos de Deus foram, são e serão cumpridas a seu tempo no calendário divino.