Boletim dos Obreiros

O sustento de Paulo

Muitos séculos atrás, um fariseu salvo pela graça de Deus foi chamado pelo Espírito Santo para pregar o Evangelho (Atos 13:2). Diz a Bíblia que a igreja onde ele se reunia, em Antioquia, o “despediu”, isto é, livrando-o de todas as responsabilidades que ele tinha naquela igreja local, deu-lhe toda liberdade para partir em obediência ao chamado do Senhor.

“E assim”, diz a Bíblia, Paulo e Barnabé, “enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (Atos 13:4). Foram seguindo as estradas principais do Império Romano, pregando o Evangelho em cada cidade pela qual passavam. Avançaram até chegar em Derbe (Atos 14:20), na fronteira oriental do vasto Império, e então voltaram pelo mesmo caminho até Atália, de onde embarcaram num navio rumo a Antioquia, de onde haviam partido (Atos 14:26).

Esta ficou conhecida como a primeira viagem missionária de Paulo, e deve ter durado cerca de dois anos. Nos anos seguintes, ele continuaria viajando extensivamente por todas as partes do Império Romano, pregando o Evangelho e instruindo os salvos, até finalmente ser martirizado no reinado de Nero.

A história destas viagens é emocionante, mas um detalhe quase não é mencionado no livro de Atos: Quem pagou por tudo isto? Viagens deste porte seriam muito dispendiosas. Quem pagou as passagens de navio? Quem pagou pela alimentação e hospedagens dos viajantes durante os longos meses em que permaneceram longe do lar?

Estas são perguntas importantes — e, ao contrário do que muitos podem pensar, a Bíblia nos dá informações suficientes para respondê-las satisfatoriamente. O Novo Testamento mostra que havia três fontes diferentes que Deus usou para sustentar os Seus servos:

1. Os próprios pregadores

Comecemos com aquilo que provavelmente seria mais contestado hoje em dia: os próprios pregadores trabalharam para garantir o seu sustento! Paulo disse aos anciãos da igreja em Éfeso: “Vós mesmo sabeis que para o que me era necessário a mim, e aos que estão comigo, estas mãos me serviram” (Atos 20:34-35). Lucas já havia registrado esta atitude de Paulo também em Corinto: “E como eram do mesmo ofício, ficou com eles [Áquila e Priscila], e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas” (Atos 18:3). Escrevendo aos Coríntios ele afirma a mesma coisa: “… nos afadigamos, trabalhando com as próprias mãos” (1 Coríntios 4:12).

2. Pessoas hospitaleiras

Em alguns lugares, pessoas tementes a Deus recebiam os pregadores em suas casas (não só para uma refeição, mas para um período maior). Foi o que aconteceu em Filipos, por exemplo, onde Lídia hospedou Paulo e Silas por um tempo (Atos 16:15, 40), e o carcereiro os recebeu para cuidados médicos e para uma refeição (Atos 16:33-34).

3. Igrejas que contribuíram

Lídia e o carcereiro eram de Filipos; e foi esta mesma igreja que ajudou Paulo com ofertas em outras ocasiões. Escrevendo aos filipenses ele fala de como aquela igreja lhe enviou ofertas quando ele estava em Tessalônica, pelo menos duas vezes (Filipenses 4:16); a Epístola aos Filipenses é uma carta de agradecimento por uma oferta enviada pela igreja local, por mãos de Epafrodito (Filipenses 4:10-19).

Obviamente há muitos detalhes que gostaríamos de saber, mas o quadro geral é muito claro: Aqueles primeiros pregadores saíram confiando em Deus para sustentá-los. Às vezes Deus tocava no coração de uma pessoa hospitaleira, que os recebia em casa. Em outras situações, alguma igreja enviava-lhes uma oferta; e se ambas estas opções falhassem, os pregadores não tinham medo ou vergonha de fazer algum “bico” para pagar suas despesas.

Alguém dirá: “Isto pode ter funcionado naqueles dias, mas o mundo mudou. Uma visão romântica e idealista destas simplesmente não funcionaria nos dias de hoje”.

Em resposta a isto, devemos lembrar que, justamente quando agradeceu aos filipenses pela oferta recebida, Paulo apresentou dois princípios que o orientavam nesta área, e que permanecem válidos até hoje:

1. Contentamento

Assim que agradece pela oferta recebida, ele é levado pelo Espírito Santo a acrescentar: “Já aprendi a contentar-me com o que tenho… estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade” (Filipenses 4:11-12). Paulo passou fome — mas, em qualquer situação, estava satisfeito!

2. Discrição

Ao mencionar novamente a oferta deles (v. 14), ele acrescenta que nenhuma outra igreja o ajudou no início, a não ser os filipenses (vs. 15-16). E ele escreve não porque procura dádivas, mas porque deseja o crescimento deles (v. 17).

1 Coríntios 9 e 2 Coríntios 8 e 9, são capítulos que também ensinam muita coisa sobre “dar e receber” (a expressão usada em Filipenses 4:15). Mas os trechos citados acima devem ser suficientes para ensinar-nos que aqueles de nós que deixam para trás seu emprego, empresa, ou outro vínculo humano de sustento para servirem a Deus não vão confiar nos seus irmãos para sustentá-los, mas confiarão no Senhor.

Se os recursos em determinada época forem escassos (e tenha certeza, muitas vezes serão), não iremos escrever aos irmãos pedindo ajuda — iremos clamar a Deus, de Quem dependemos. Como Paulo, aprenderemos a trabalhar com o que temos, contentando-nos em qualquer situação, e jamais reclamando do que o Senhor nos deu. Em último caso, preferiremos pegar numa enxada para conseguir o pão diário, do que trazer vergonha ao Evangelho por sugerir que o Senhor que nos chamou não tem poder para nos sustentar.

Há outro detalhe a ser considerado: Quem sabe se aquela escassez não é uma prova de Deus na minha vida? Se eu procuro a saída fácil, escrevendo cartas pedindo que outros assumam a responsabilidade pelas minhas despesas, posso estar perdendo a oportunidade de ver o livramento do Senhor na minha vida!

As considerações acima não são devaneios românticos e idealistas. São experiências práticas de incontáveis servos do passado e do presente. Homens como o bem-conhecido George Muller (se o leitor nunca leu uma das suas muitas biografias, procure fazê-lo; vai ser muito proveitoso), que durante anos manteve um orfanato sem nunca pedir um centavo. Passados quase setenta anos, ele disse: “Nenhum homem na Terra pode dizer que lhe pedi nem mesmo um centavo. Tudo veio em resposta à oração da fé”.

Mas como o servo vai ser sustentado se ninguém sabe da sua necessidade? O mesmo Muller disse: “Não há limites para o que Ele pode fazer. Tenho confiado n’Ele para um centavo; tenho confiado n’Ele para milhões; e nunca tenho confiado em vão”.

Irmãos, que jamais valorizemos o humano acima do divino! Que jamais troquemos as orações pelas cartas circulares, e a fé em Deus pela confiança nos irmãos! O servo sai para o campo missionário confiando na palavra escrita de Deus: “O meu Deus… suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus” (Filipenses 4:19). Deus tem honrado a Sua Palavra no passado, e provado que aqueles que n’Ele confiam terão tudo o que necessitam (não tudo o que desejam, nem tudo o que acham que precisam, mas tudo o que o Senhor sabe que precisam).

Há, é claro, o outro lado da moeda. As igrejas, e os irmãos individualmente, precisam ser ensinados e exortados a cumprir a sua parte neste plano. Deus sustenta — mas Ele o faz, normalmente, usando o Seu povo, e não os anjos. Temos deficiências, e precisamos despertar para a nossa responsabilidade como despenseiros. Mas Deus não está limitado pelas nossas faltas, e as falhas de alguns em contribuir não permitem que eu me afaste do modelo bíblico, confiando em homens, igrejas ou organizações.

Que possamos aprender a esperar somente em Deus, e a estarmos contentes em qualquer situação.