Boletim dos Obreiros

Evangelizai os povos

"O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos"

Lucas 4:18

Que quer dizer “evangelizar”? É fácil responder, “pregar o Evangelho”! Porém, a palavra Evangelho quase perdeu a sua significação bíblica nestes dias de inúmeras religiões e filosofias. Na sinagoga de Nazaré, o Senhor Jesus, citando Isaías 61:1, mostrou o verdadeiro significado de "evangelizar": pregar as boas novas de Deus para o mundo.

Realmente, a palavra “evangelizar” é de origem puramente bíblica. Deus tinha uma coisa a declarar que os homens nunca poderiam descobrir sem uma revelação especial. Evangelizar é proclamar a boa nova e alegre mensagem da salvação eterna pelo poder de Deus, a qual Ele oferece gratuitamente a todo pecador que crê (Romanos 1:16; 3:21-24; 6:23). Evangelizar é mostrar aos homens a entrada para um novo estado espiritual e moral que Deus possibilitou por meio da Sua obra sacrificial no Calvário (Romanos 5:18; 6:11; 8:16).

Notemos a distinção, no Evangelho, entre a cruz da expiação e a tragédia da crucificação. Esta, a tragédia, mostrou o homem em seu pior aspecto. Foi o crime dos séculos que revelou a origem diabólica de todo pecado humano (Atos 2:23). Ao mesmo tempo, a cruz da expiação foi o ato mais sublime do Deus eterno e perfeito (João 3:16; Romanos 5:8); foi o sacrifício divino que custou tanto ao Pai como ao Filho (2 Coríntios 5:19 ... Deus estava em Cristo); foi inteiramente voluntário; resolveu plenamente o problema do pecado humano (Isaías 56:6; 1 Pedro 2:24); serviu para desfazer as obras do diabo (1João 3:8), livrando o crente do seu poder. Crer no Senhor Jesus Cristo é aceitar para si, por um ato de vontade e de coração, a nova vida que Deus propõe; a cruz formará o motivo desta vida (Gálatas 2:20).

É importante que a nossa pregação apresente ao ouvinte não somente o seu estado em Cristo, ao crer n’Ele, como também as suas relações com Cristo na conduta prática da vida, relações estas que deviam determinar o seu procedimento em todos os aspectos da sua vida diária, em tudo, afinal, que ele planeja e faz. Tudo isso deve ser pregado como envolvido na redenção de Cristo (Romanos 12:1-2; Efésios 2:10).

Cada passo dessa vida divina no crente deve seguir o princípio de lealdade à luz recebida (João 8:12). Por falta de entenderem isto, muitos que entraram na igreja, realmente crentes em Cristo, fazem pouco progresso no seu conhecimento da vontade de Deus. Uma prontidão para agir, passo a passo, em obediência a essa luz, é só isto que o Senhor requer, e não a compreensão da Bíblia inteira num só dia! Não cabe, então, ao evangelista, exigir dos ouvintes a aceitação dum sistema completo de teologia e de ordem eclesiástica, pois haverá mais tarde um tempo próprio para a instrução de tais coisas. O trabalho essencial do evangelista é conduzir a alma do pecador a um contato vivo com Cristo, para que consiga um conhecimento pessoal e íntimo de Deus (João 14:7-10). Somente desta maneira é que se pode começar e continuar a experiência cristã (Marcos 4:26–28; Filipenses 3:13–14).

Uma ilusão comum entre obreiros evangélicos é que deveriam converter o povo em massa, conforme o exemplo de pregadores famosos que promovem grandes campanhas evangelísticas. Lamentam o fato de que só uma, duas ou três pessoas se tenham convertido depois de muitas pregações, orações, visitas e outros esforços evangelísticos; em seguida caem no desânimo e querem desistir da obra só por serem “poucos” os convertidos.

Mas uma das características notáveis do Evangelho, é que um só novo convertido pode ganhar muitos outros pela maravilha duma nova vida. Por exemplo, um moço de 17 anos entrou “por acaso” numa pequena igreja em Londres para abrigar-se duma tempestade de neve; havia poucas pessoas na reunião e o pregador estava ”substituindo” o pastor ausente. O moço foi convertido pela simples mensagem que ouviu, mas o pregador e a pequena congregação nada souberam, e decerto não poderiam saber que aquele moço desconhecido iria se tornar o maior pregador do século XIX – o grande Charles H. Spurgeon. Assim, a conversão de um poderá ser a conversão de mil; “vede como um pequeno fogo põe em brasas a grande floresta!” (Tiago 3:5).

Lembremo-nos, afinal, de que todos os homens não crerão no Evangelho para serem salvos. Mesmo debaixo do ministério do próprio Cristo, todos não se converteram. Muitos, vendo os milagres e atraídos pelos Seus ensinos, creram n’Ele, porém, ao tornar duro o Seu discurso, aqueles discípulos O abandonaram (João 6.66). O mesmo Evangelho que para alguns é cheiro de vida para a vida, para outros será cheiro de morte para a morte (2 Coríntios 2:16). A pregação fiel do Evangelho resultará na salvação de alguns e no endurecimento de outros; mesmo a ressurreição de Lázaro teve este resultado duplo (João 11:45-46). O evangelista, reconhecendo isto, fará o seu trabalho e deixará o resultado com Deus. O que ganha almas é sábio (Provérbio 11:30).