Boletim dos Obreiros

A autobiografia de John G. Paton

Um Lar Piedoso

— John Gibson Paton (1824-1907) era um missionário pioneiro nas ilhas Novas Hébrides (hoje Vanuatu) ao sul do oceano Pacífico. Converteu-se ainda criança e logo se dedicou ao Serviço do Senhor Jesus Cristo. Iniciamos uma série de artigos baseados em sua biografia que foi publicada em dois volumes em 1889. Um terceiro volume, escrito pelo seu filho Frank, e publicado em 1910, trata dos seus anos finais:

Nasci em 24/05/1824 numa pequena casa na fazenda de Braehead, na paróquia de Kirkmahoe, perto de Dumfries, no sul da Escócia. Meu pai, James Paton, era fabricante de meias em pequena escala; ele e a sua jovem esposa, Janet Jardine Rogerson, viviam uma afetuosa amizade pessoal com o fazendeiro, por isso deram-me o nome dele, John Gibson.

Enquanto criança, mais ou menos cinco anos de idade, meus pais levaram-me para um novo lar na aldeia de Torthorwald, distante 7 km ao norte de Dumfries. Nessa época, cerca de 1830, Torthorwald era apenas uma aldeia, movimentada e próspera, e comparativamente populosa com seus rendeiros, chacareiros, fazendeiros, em grande e pequena escala, ferreiros e alfaiates. Lá, nessa vida em uma aldeia sadia e ventosa, os nossos queridos pais encontraram seu lar por um período de quarenta anos. Ali nasceram mais oito filhos, constituindo uma família de cinco filhos e seis filhas.

Nosso lugar de culto era a Igreja Presbiteriana Reformada, em Dumfries. Diz a tradição, que em quarenta anos meu pai só faltou ao culto do Senhor por três vezes. Todos nós, desde bem novos, não considerávamos ser um castigo, antes uma grande alegria, acompanhar o nosso pai às reuniões da igreja. Realizávamos também leituras especiais da Bíblia nos domingos à noite – mãe, filhos e visitantes lendo por vez, com perguntas, respostas e exposições novas e interessantes, tendo o propósito de nos impressionar com a graça infinita de um Deus de amor e misericórdia no grande dom do Seu Filho amado, Jesus Cristo nosso Salvador.

Embora com menos de doze anos de idade, comecei a aprender o ofício de meu pai, no qual fiz progresso surpreendente. Trabalhávamos das seis da manha até às dez da noite, com meia hora para o café da manhã, uma hora para o almoço e outra para o jantar. Nestes momentos me dedicava diariamente aos estudos, principalmente com as primeiras noções de latim e grego, pois eu tinha entregue minha alma a Deus e tinha resolvido ser missionário da Cruz ou um ministro do Evangelho. Todavia, testifico com alegria que o que aprendi no tear, ao fabricar meias, não foi sem valor. A habilidade em usar ferramentas, vigiar e manter as máquinas, viria ser de grande valor no campo missionário.

As orações de meu pai me impressionaram nessa época, nunca poderei explicar, pois nenhum estranho compreenderia. Quando de joelhos, e todos nós ajoelhados ao seu redor no culto familiar, ele derramava toda a sua alma em lágrimas a favor da conversão do mundo pagão ao serviço de Jesus e a favor de toda necessidade doméstica. Todos nós sentíamos como se estivéssemos na presença do Salvador vivo, e aprendemos conhecê-Lo e amá-Lo como o nosso Amigo Divino. Ao levantarmo-nos (dos nossos joelhos), eu costumava olhar a luz do rosto do meu pai e desejava ser como ele em espírito, esperando que, em resposta às suas orações, poderia ser privilegiado e preparado para levar o Evangelho a alguma parte do mundo pagão.

Alguns anos depois me conseguiram um trabalho junto ao Regimento de Sapadores e Mineiros que estava traçando mapas do condado de Dumfries para o Departamento de Cartografia do governo. As horas no escritório eram das 9 da manhã às 4 da tarde; embora a minha caminhada de casa fosse de mais de 6 km, todas às manhãs e de volta à tarde, descobri muito tempo de sobra para estudo particular tanto no caminho para o serviço, quanto nas horas extras.

Em vez de gastar a hora do meio-dia junto aos demais jogando futebol e outros jogos, me retirava para um lugar tranqüilo às margens do rio Nith e lá estudava intensamente o meu livro a sós. Sem que eu soubesse, o nosso tenente vinha observando isso de sua casa no outro lado do rio e, depois de algum tempo, me chamou ao seu escritório e perguntou o que eu estava estudando. Contei-lhe toda a verdade acerca da minha posição e os meus desejos.

Após consultar alguns dos outros oficiais ele me prometeu uma promoção no serviço e treinamento especial à custa do governo, com a condição que eu assinasse um contrato por sete anos. Agradecendo-o muito pela bondosa oferta, concordei em me comprometer por três ou quatro anos, mas não sete. Com excitação, ele me disse: "Por que você recusa uma oferta que muitos filhos de gente fina considerariam uma honra?" Eu respondi: "A minha vida é dada a outro Mestre, portanto não posso me comprometer por sete anos". Ele perguntou rispidamente: "A quem?" Eu disse: "Ao Senhor Jesus, e quero me preparar o mais depressa possível para o Seu Serviço na proclamação do Evangelho".

Enfurecido ele pulou para o outro lado da sala, chamou o comissário e exclamou: "Aceite a minha oferta, ou será demitido imediatamente!" Respondi: "Sentiria muito se o senhor fizesse isso, mas se eu fosse me prender por sete anos provavelmente frustraria o propósito da minha vida e, embora estar muito grato ao senhor, não posso assumir tal compromisso". A raiva dele o fez indisposto ou incapaz de compreender a minha dificuldade. Os instrumentos foram devolvidos, recebi meu salário e sem mais conversa fui-me embora.

— Depois de um emprego numa fazenda, John foi chamado a ir para Glasgow, cidade principal da Escócia a uma grande distância de Dumfries. Lá ele tinha uma entrevista para um serviço como professor:

Deixei meu lar tranqüilo na região rural a caminho de Glasgow. Alias, literalmente no caminho, pois de Torthorwald a Kilmarnock, uns 65 km, deveria ser atravessado a pé, e depois até Glasgow por ferrovia. Uma pequena trouxa continha minha Bíblia e todo os meus pertences pessoais. Assim fui introduzido no grande mar da vida. "Conheço a tua pobreza, mas tu és rico".

Meu querido pai andou comigo nos primeiros 9 km do caminho. Seus conselhos, lágrimas e conversa celestial daquela viagem de partida foram tão nítidas no meu coração como se fosse ontem; as lágrimas estão no meu rosto tão copiosamente agora quanto naquela vez, quando a memória me leva de volta àquele lugar. No último meio quilômetro, andamos juntos num silêncio quase total, meu pai, como de costume carregando seu chapéu na mão, seus lábios moviam em orações silenciosas a meu favor, suas lágrimas caíram rapidamente quando os nossos olhos se encontraram.

Paramos ao chegarmos no ponto de partida. Ele pegou na minha mão com firmeza e por um minuto ficou em silêncio, então ele me disse com amor e solenidade: "Deus te abençoe, meu filho! O Deus de seu pai te prospere e te guarde do mal!" Sem poder dizer mais nada, seus lábios moviam em oração silenciosa. Com lágrimas nos abraçamos e partimos.

— De um lugar mais adiante, John avistou seu pai indo embora na outra direção:

Olhei através dos olhos turvos de lágrimas até que a sua forma desapareceu da minha vista, e então me apressando no meu caminho jurei solenemente, muitas vezes com a ajuda de Deus, de viver e agir de tal maneira que os pais que Ele me deu nunca viriam a ser entristecidos ou desonrados.