Boletim dos Obreiros

O mundo – espaço terrestre para testemunho do evangelho

 

“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”

Marcos 16:16

Diante do solene mandamento do Senhor acima mencionado é tremenda a responsabilidade do cristão como nova criatura. Que irrecusável responsabilidade tem a Igreja perante o mundo!

O Senhor Jesus orou intensamente para que possamos cumprir, com eficiência e êxito, essa nossa responsabilidade perante o mundo (João 17). Rogou ao Pai não só pelos Seus discípulos presentes, mas, também, por aqueles que viessem a crer nEle, por intermédio da Sua Palavra (v. 20). Afirmou o Senhor:

  • Eu lhes tenho dado a tua palavra, o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como eu também não sou” (v. 14);
  • Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (v. 16);
  • Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo” (v. 18).

Fica claro aí que estamos no mundo, pelo querer de Deus, mas não podemos nos comprometer com o mundo e nem com o seu modo de ser e agir. Nisso situa-se a responsabilidade da Igreja, dos cristãos individualmente, de testemunhar do Evangelho perante o mundo.

1.     Conceito bíblico

O mundo é todo o espaço terrestre que está disponível para o ser humano ocupar. Todos nós ocupamos esse espaço na medida em que nos movemos e nos locomovemos de um para outro lado. Somos habitantes neste mundo e isso significa que, necessariamente, sempre estamos ocupando algum espaço da terra. 

Na verdade, é da natureza humana aumentar, cada vez mais, o espaço que ocupa. Sabemos que há no mundo grandes latifúndios que ocupam um espaço terrestre imenso, enquanto outros têm tremenda dificuldade para poder ocupar um pequeno espaço. Mas o anseio de todos é sempre ampliar o espaço terrestre que ocupam. É da índole do homem, no exercício maléfico de sua cobiça desmedida, avançar no espaço do seu semelhante para tomar o que legitimamente lhe pertence. Surge aí a terrível e constante luta pelo espaço, luta na qual o homem se empenha recorrendo, inescrupulosamente, aos meios mais escusos e deploráveis que se possa imaginar.

Grande número de pendências judiciais ocorre na disputa por espaço terrestre. Muito sangue se tem derramado na inglória disputa por esse espaço. Esse tem sido um aspecto negro da história humana. Na verdade o homem busca ocupar o espaço terrestre e dele ser o dono exclusivo, em detrimento do direito do seu semelhante de ocupá-lo sem levar em conta a ilicitude dos meios ignóbeis de que se vale para alcançar o seu propósito. Em resumo: O homem quer ocupar o espaço terrestre para ser o dono exclusivo do mesmo e dele, egoisticamente, usufruir o que este lhe possa oferecer.

Em Mateus 13:38, o Senhor Jesus referiu-se ao mundo como espaço terrestre, quando afirmou: “O campo é o mundo”. Está declaração inserida no texto em que o Senhor Jesus, a pedido dos Seus discípulos, explica a parábola do joio do campo, adota, claramente, o conceito de mundo como espaço terrestre ocupado pelo homem. Esse conceito se infere dos seguintes textos sagrados que mencionam o alcance da expansão do Evangelho: “todo o povo” (Lucas 2:16); “todas as nações” (Mateus 28:19); “todo o mundo... toda criatura” (Marcos 16:15); “até aos confins da terra” (Atos 1:8). Disse, mais o Senhor Jesus: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (João 17:18).

2.     O conteúdo do Evangelho a ser testemunhado

É o Evangelho a mensagem de Deus aos homens em pecado, para restaurá-los espiritualmente. Não é mensagem humana, mas divina. É a solução que Deus oferece para a Redenção do pecador. Quando Jesus Cristo nasceu, o mensageiro angelical proclamou aos pastores em Belém: “Não temais; eis aqui vos trago boa nova (esse é o sentido da palavra Evangelho) de grande alegria, que o será para todo o povo (temos aí o alcance universal do Evangelho): é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.

Nessa notável declaração do anjo, como porta voz de Deus, vemos a abrangência do conteúdo do Evangelho, como boa-nova (a mais sublime que se proclamou em todo o mundo), por Deus revelada ao ser humano, dEle afastado e sem esperança alguma (Efésios 2:12). O Evangelho (Boa-Nova) consiste:

  • Na presença de Jesus Cristo, o Filho de Deus, na terra, para a redenção do pecador perdido e afastado de Deus;
  • No Seu ministério poderoso, atraindo e comovendo as multidões e confirmando a Sua divindade e a Sua disposição total de fazer a vontade de Seu Pai;
  • Na Sua Obra eficiente e suficiente para ser o único Salvador do pecador em todo o mundo, conforme o plano do pai;
  • Na Sua proclamação como o Ungido de Deus, o Messias, amplamente prometido nas Escrituras; temos aí o lastro incontestável das Escrituras, assegurando-nos a verdade e a eficácia do Evangelho;
  • Na Sua condição inescusável de Senhor do redimido, usando-o no Seu glorioso serviço;
  • No que Paulo diz que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.

Esse é o Evangelho que sustenta a nossa fé, cujo poder, através do Espírito Santo, opera a nossa regeneração (o novo nascimento), quando nele cremos. Não há outro Evangelho! Paulo nos exorta: “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue o evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebemos, seja anátema” (Gálatas 1:8-9).

  • O Evangelho é a única solução para o maior problema do homem: o pecado;
  • O Evangelho salva o homem da perdição eterna;
  • O Evangelho restaura no homem os valores morais e espirituais perdidos;
  • O Evangelho capacita o redimido para que possa cumprir o propósito divino;
  • O Evangelho vitaliza espiritualmente o pecador salvo, dando-lhe vida abundante e a expectativa certa da eternidade com Deus.

Se já alcançamos esses benefícios espirituais que o Evangelho irrevogavelmente nos outorga, quando nele cremos, é nossa inequívoca responsabilidade, como cristãos perante o mundo, testemunhar desse Evangelho, fiéis ao seu conteúdo, em todos os espaços que venhamos a ocupar na terra (o mundo), no lar, na escola, no trabalho, no lazer, e qualquer outro onde estejamos.

O conteúdo do Evangelho é imutável e não se presta a contextualizações em razão de lugares distintos, culturas diferentes, raças diversas ou outras situações distintas, como muitos hoje, indevidamente, estão a fazer. Podemos contextualizar os métodos adotados para se testemunhar do Evangelho, mas nunca a mensagem testemunhada. O Evangelho é a única mensagem que serve como solução para o problema do pecado do ser humano, porque não vem do homem, mas vem de Deus. Não cabe ao homem mudá-la. A condição de pecador é universal, não comportando, por isso, modificações do conteúdo da mensagem, em razão de pretendidas contextualizações.

Note o que Paulo diz sobre o Evangelho que pregava e ensinava: Atos 20:20 (jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensiná-la); v. 21 (testificando o arrependimento para com Deus e a fé no Senhor Jesus Cristo); v.24 (testemunhando da graça de Deus); v. 25 (pregando o reino); v. 27 (anunciando todo o desígnio de Deus).

3.     A experiência histórica da Igreja 

O crescimento vertiginoso do Evangelho, no primeiro século do cristianismo, foi impressionantemente alcançado, pela fidelidade na exposição do conteúdo da mensagem evangelística dos cristãos daquela época em todos os espaços terrestres que ocuparam. E assim tem sido na história da Igreja, na medida em que o testemunho fiel dos cristãos se faz notório.  Alguns registros neotestamentários atestam, com propriedade, esse procedimento de fidelidade no exercício da responsabilidade do testemunho do Evangelho perante o mundo, praticado por muitos servos do Senhor.

Em Atos 1:14-15 constatamos a eficiência do ministério de Paulo através do testemunho do Evangelho em todos os espaços terrestres que ocupou. Ele afirma: “Não me envergonho do evangelho de Cristo”, e acrescenta: “Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes”. Notável! Sabia ele que o seu débito para com Deus havia sido totalmente quitado, pela eficaz Obra de Cristo no Calvário. No céu a sua conta-corrente que o colocara devedor para com Deus fora definitivamente encerrada. Mas tinha ele a convicção de que uma nova conta-corrente se abrira, na qual ele figurava como devedor daqueles que ainda estavam perdidos no pecado. Só havia uma maneira de quitar essa conta: testemunhar-lhes com fidelidade a mensagem do Evangelho em todos os espaços terrestres em que se encontrassem.

Diz, mais, Paulo, nesse seu belo testemunho: “por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros que estais em Roma”. Até lá Paulo chegou: Roma. Talvez fosse esse o espaço mais difícil que ocupou para testemunhar do Evangelho! Que digno exemplo nos deixa aí o grande apóstolo do cristianismo! Deve ter sido o cristão que mais espaço terrestre ocupou, como fiel testemunha do Evangelho. 

Conclusão: Os muitos e melancólicos registros de fragilidade do cristianismo, no curso da sua história, devem-se ao fraco ou nulo desempenho dos cristãos no cumprimento da sua responsabilidade de corretamente evangelizar o mundo. Quantos espaços terrestres que ocupamos têm ficado sem a mensagem do Evangelho autêntico, deixando muitos pecadores perdidos, sem o privilégio de formarem no abençoado grupo dos salvos pela Graça de Deus, como novas criaturas em Cristo! Disso se dará contas perante o Tribunal de Cristo!