Boletim dos Obreiros

O governo da igreja local

 

A – Conceito bíblico das expressões: “bispos”, “anciãos”, “presbíteros”

  1. Essas expressões, referindo-se a quem se incumbe o governo na igreja local, não significam conceituação de ofício eclesiástico para designá-los “prelados” ou “superiores eclesiásticos” (conceito religioso moderno), com características de nobreza religiosa e distinções especiais de caráter hierárquico, com prerrogativas de práticas exclusivas de certos atos, no exercício de sua função religiosa (clerical). Não se destinam, também, a qualquer designação eclesiástica para o exercício de jurisdição sobre várias igrejas;
  2. Não denominam, outrossim, uma classe de homens com prerrogativas especiais para mediarem entre Deus e a criatura humana. Notar que Paulo, em Filipenses 1:1, menciona os “bispos” em segundo lugar, após referir-se a “todos os santos”, sabendo-se referir-se esta expressão a todos os crentes verdadeiros;
  3. Não se refere, também, a um corpo de oficiais (designados “clérigos”) distintos dos demais membros da igreja local (chamados, equivocadamente, de “leigos”). É interessante observar, ainda, em Filipenses 1:1, na frase: “com os bispos e diáconos”, que Paulo coloca bispos e diáconos no mesmo nível dos demais aí mencionados. O “episcopado” é obra, trabalho, e não titulo designatário, como ensina Paulo em 1 Timóteo 3:1... “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja”;
  4. Os que eram designados pelas referidas expressões sempre eram crentes experimentados, os quais, na igreja local, cuidavam dos interesses espirituais e o bem-estar da igreja, dedicando-se ao ensino fiel da doutrina cristã, para solidificar a fé dos membros da igreja local e norteá-los corretamente no testemunho da mesma;
  5. Há no Novo Testamento três expressões diferentes referindo-se à mesma pessoa no exercício dessa obra. Em Atos 20:17 Paulo refere-se a “presbíteros”, os quais, mais adiante, no versículo 28, denominam “bispos”. Na versão brasileira a palavra aí é traduzida pela expressão “ancião”. Em Tito 1:5-7, Paulo afirma que deixou Tito em Creta para que pusesse em ordem as coisas restantes, bem como em cada cidade constituísse presbíteros; no versículo 7, referindo-se às qualificações dos mesmos, diz que o “bispo” seja irrepreensível;

Assim, concluímos que as palavras “bispos” ou “presbíteros”, às vezes referidos como “superintendente”, sempre aludem à mesma pessoa, a quem cabe o governo da igreja local, EM TIPO COLEGIADO (a expressão vem sempre no plural), sendo certo que a condição assumida como tal, não o distingue clericalmente, mas traz-lhe a responsabilidade do exercício de uma excelente obra.

B – O reconhecimento dos presbíteros

Tem havido muita confusão na prática da escolha ou designação dos presbíteros de muitas comunidades evangélicas. Essa confusão decorre da negligência no sentido do ensino das Escrituras a respeito. Vejamos alguns pontos essenciais sobre a matéria:

  1. É o Espírito Santo Quem constitui os presbíteros em uma igreja local. Como já vimos anteriormente, a igreja é de Deus e o seu governo há de se constituir por intervenção divina. O grande erro que se comete hoje em dia na formação do governo da igreja local decorre da falta de percepção dessa verdade essencial. Paulo deixou a coisa bem clara quando se referiu aos presbíteros de Mileto, dizendo-lhes terem sido constituídos presbíteros pelo Espírito Santo (Atos 20:28). Ainda que a igreja local se reúna para, em ajuntamento solene, “eleger” anciãos, o seu voto não pode criar no eleito a alma de ancião.
  2. As Escrituras deixam clara a maneira como se pode ter a convicção da vontade do Espírito Santo nesse sentido. O ato de reconhecimento não é o momento inicial no processo, mas final. A constituição é feita pelo Espírito Santo à vista das qualificações inerentes à pessoa a ser reconhecida. Depois, à medida que as mesmas vão fazendo o trabalho que lhes compete, a igreja, à vista do que vai constatando, os reconhece como presbíteros, já eleitos divinamente como tais (1 Tessalonicenses 5:12). Quem elege é o Senhor. Quem reconhece é a igreja sensibilizada pelo Espírito Santo. Não se faz o presbítero através de “ato formal” de sua eleição humana, mas o reconhecemos dirigidos pelo Espírito Santo que já o constituiu.
  3. Há duas passagens nas Escrituras (Atos 14:23 e Tito 1:5) que têm dado ensejo a confusões interpretativas. No primeiro texto lê-se de Paulo promovendo em cada igreja a eleição de presbíteros. Na carta a Tito lê-se que Paulo determina a Tito, para em cada cidade “constituir” presbíteros. Deve-se lembrar de que até então o Novo Testamento ainda não estava escrito. Por isso, na falta de instruções escritas sobre as qualificações dos anciãos as igrejas dependiam das instruções emanadas pelas autoridades apostólicas, diretamente ou por meio de seus delegados. Assim, as expressões “eleger” e “constituir” nesses textos não têm o sentido de “ato formal” de escolha e de designação pura e simples, mas da aplicação do processo de reconhecimento consoante acima expusemos. A respeito, é bom lembrar que Paulo nunca designou anciãos ou presbíteros na primeira visita que fez a alguma igreja. Esperava que estes, eleitos por Deus, manifestassem o seu dom pelo seu próprio trabalho, indicando-os, então, para que fossem reconhecidos. Por isso mesmo Paulo escreveu a Timóteo que se alguém aspirasse ao episcopado, excelente obra almejava (1 Timóteo 3:1).

O sentido, pois, das questionadas expressões, não é o de designação ao talante de Paulo ou de seu delegado como um ato formal, mas o reconhecimento dos “presbíteros” já designados pelo Senhor.