Boletim dos Obreiros

O governo da igreja local

 

 

 

A obra dos presbíteros (anciãos) I

 

1. O primeiro aspecto da obra dos presbíteros ou anciãos é “apascentar” ou “pastorear”

Em 1 Pedro 5:1-4 lemos: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: PASTOREAI o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangidos, mas espontaneamente como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelo do rebanho. Logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória”.

As expressões “apascentar” ou “pastorear” têm sentidos diferentes no grego, embora, à vezes, confundidas na tradução. “Koskein” (termo no grego) e “pascere” (termo no latim) significam “alimentar” conforme o texto em João 21:15,17. A ação aí indicada é mais no sentido de dar o sustento que é necessário para a alimentação do que “cuidar”, conforme Lucas 15:15. “Poimoinen” (termo no grego) significa todo o ofício do pastor, guiando, vigiando, mantendo unido o rebanho, além de prover a sua nutrição (R.C.Trench in Sinônimo NT). É a expressão usada pelo Senhor Jesus falando a Pedro em João 21:16.

É, também, o sentido da expressão usada em outros textos sobre o assunto, como em Atos 20:28... “atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito vos constituiu bispos para PASTOREARDES a igreja de Deus...”; 1 Pedro 5:2... “PASTOREAI o rebanho de Deus que há entre vós...”; Judas 12... “pastores que a si mesmos se APASCENTAM...”; Apocalipse 7:17... “pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os APASCENTARÁ e os guiará para as fontes de água da vida”.

Há muitos que falham nesse aspecto precioso da obra dos presbíteros, porque somente atuam em momentos de crise. Esse tipo de atuação envolve necessariamente o acompanhamento constante do rebanho, para que as crises não aconteçam, ou sejam evitadas.

Evidentemente que a nutrição (o fornecimento do alimento constante) é importante nesse aspecto da obra dos presbíteros. O alimento deve ser adequado, isto é consoante à necessidade do rebanho na medida do seu crescimento variado, isto é, abrangente de toda gama de “vitaminas” que a Palavra de Deus oferece, seguindo um sentido criterioso, lógico e programado para ser assimilado naturalmente.

Esse aspecto da obra dos presbíteros envolve, também, a indispensável assistência espiritual própria para cada momento da vida dos santos, especialmente nas enfermidades ou nas circunstâncias difíceis, admoestação sábia em seus passos extraviados ou de debilidade (Gálatas 6:1) fazendo-o com a paciência de pastor (1 Tessalonicenses 5:14), mantendo o calor do amor em constante exercício.

É necessário que se distinga a atuação dos presbíteros como “pastor” do “dom de pastor” (Efésios 4:11). A atuação dos presbíteros é local, para exercerem essa atuação como tal. Já o “dom de pastor” permanece com o irmão que o tem, por onde andar, independentemente de sua condição de presbítero de uma igreja local.

Finalmente, esse aspecto da obra de presbítero, consoante o texto em 1 Pedro 5:1-4, tem as seguintes características:

  • Não significa trabalho imposto, mas espontâneo;
  • Não visa fins lucrativos, mas é feito com boa vontade;
  • Não é exercido com espírito dominador sobre a herança de Deus. O presbítero não é um ditador nem um capataz;
  • No que faz, deve ser exemplo para o rebanho. O exemplo conduz melhor do que as palavras fortes.

2. Um dos aspectos importantes da obra dos presbíteros é ”vigiar” ou “velar” o rebanho

Lemos em Hebreus 13:17... “Obedecei aos vossos GUIAS, e sede submissos para com eles; pois VELAM por vossas almas, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”.

A palavra grega que aí se traduz por “velar” ou “vigiar” é “agrupeneoo” e o seu sentido é de “vigilância no interesse das almas”, “manter guarda” ou “estar desperto e vigiando”.

A vigilância é uma atitude muito recomendada na Bíblia. Está relacionada, intimamente, com a oração. Aprendemos exortações abundantes na Bíblia, em inúmeras ilustrações, que não basta a oração na atitude descuidada com o comportamento. Na “oração” nos voltamos para Deus a fim de nos suprirmos dos seus abundantes e seguros recursos.

Na “vigilância” utilizamos todos os recursos de que somos supridos pelo Senhor, voltados para os que estão ao nosso redor e para as circunstâncias que nos cercam. Através dela asseguramos a vitória nas horas difíceis e perante os constantes atentados do inimigo (Marcos 13:13; Lucas 21:36; Efésios 6:18). O inimigo é poderoso, sagaz, prático e tenaz (1 Pedro 5:8; Efésios 6:11-12; Atos 20:29-31; 2 Coríntios 11:13-15; João 10:12; Mateus 7:15).

Uma ilustração muito oportuna da necessidade da “vigilância” ao lado da oração encontramos em Neemias 4:7-9. As forças de oposição ao trabalho de Neemias e seu grupo não estavam contentes com o sucesso que era alcançado: a reparação dos muros de Jerusalém e as brechas fechadas. Ficaram iradas! O inimigo fica irado quando o trabalho na igreja local alcança resultado eficaz. Diz o texto que os inimigos se juntaram para “suscitar confusão”.

O que Satanás quer ver na igreja local é confusão! Cabe aos presbíteros vigiar para que ela não suceda. O que fez Neemias? “Oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guardas contra ele de dia e de noite”.  Não só “oraram”, mas “vigiaram”.

A “vigilância” implica em sacrifício. Na parábola que trata desse ensino, contada por Jesus Cristo, em Marcos 13:35, a recomendação é feita tendo em vista a possibilidade da volta do dono da casa durante as horas em que normalmente estaríamos dormindo (as quatro etapas da vigília: ao anoitecer, à meia noite, ao cantar do galo e pela manhã).

A tarefa não é fácil! Em primeiro lugar os presbíteros devem VIGIAR por si mesmos (“atendei por vós”, disse Paulo aos presbíteros de Éfeso, em Mileto – Atos 20:28). Os presbíteros devem alcançar a vitória em relação a si próprios, através desse importante exercício espiritual. Mas também, devem ficar continuamente atentos para descobrir as maquinações da estratégia do mal e impedir que nada dê ocasião ao inimigo de disseminar a maledicência (1 Timóteo 5:14-15) e os erros e as falsidades tão desastrosos na vida igreja local.

Detalhes privados podem ser portas abertas à tentação satânica (1Coríntio 7:59). Diferenças entre irmãos, tristezas, amarguras, podem dar lugar à atuação satânica (2 Coríntios 2:11). Ensinadores de doutrinas erradas podem arrastar o rebanho (2 Coríntios 11:13-14).

A “vigilância” é obra muito difícil dos presbíteros, mas necessária, embora nem sempre bem compreendida por muitos que formam no rebanho, pois, equivocadamente, veem nessa bíblica atitude, pretensões não existentes de intromissão indevida nas vidas dos membros da igreja. Por isso a recomendação em Hebreus 13:17... “obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles: pois velam por vossas almas”. Os presbíteros não podem se escusar desse aspecto da sua responsabilidade, pois devem prestar contas do rebanho sobre o qual o Espírito os constitui como tais.