Boletim dos Obreiros

O governo da igreja local

IV.  QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

Como já dissemos em comentário anterior, o essencial para o reconhecimento dos presbíteros é a sua constituição pelo Espírito Santo, sendo certo que esta só acontece face à existência das qualificações manifestas na pessoa do constituído.

As qualificações necessárias estão claramente estabelecidas na Palavra de Deus, para que não possa haver dúvidas a respeito.

É bom que se diga que o reconhecimento do presbítero não está ligado a dotes de ordem pessoal, tais como:

  • Habilidades naturais
  • Argúcia nos negócios
  • Prosperidade financeira
  • Posição social
  • Rótulos de qualificação profissional ou honoríficos
  • Linhagem familiar etc.

Todas essas prerrogativas não qualificam ou desqualificam o irmão que vai ser reconhecido como presbítero. O reconhecimento dá-se pela existência de qualificações espirituais, estas corroboradas pelo comportamento. Aquele que vai ser reconhecido como presbítero deve ser homem de fé, de oração, de experiência e capacidade espirituais, e de reconhecido bom testemunho.

Há dois trechos básicos nas Escrituras onde as qualificações necessárias são indicadas: 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9. Algumas são mais personalísticas e envolvem aspectos de caráter. Outras são mais ligadas ao comportamento social. Há outras, ainda, que revelam capacidade espiritual.

Mas a primeira característica que o apóstolo Paulo aponta é a “voluntariedade” evidenciada pela “aspiração ao episcopado como excelente obra” (não cargo funcional ou posição), conforme afirmado em 1 Timóteo 3:1.

Esse mesmo aspecto é enfatizado por Pedro: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas ‘espontaneamente’, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade” (1 Pedro 5:2). Deus sempre desejou a “espontaneidade” no serviço que Lhe prestamos.

Seguindo o exame das qualificações dos presbíteros vamos partir agora para o texto em 1 Timóteo 3:2-7:

  1. Diz Paulo que o presbítero (bispo) deve ser “irrepreensível”. Não está Paulo afirmando que o presbítero deve ser “impecável”, pois essa condição inexiste no ser humano. Mas o padrão que a Palavra de Deus apresenta nesse item é bem alto. Essa qualificação está ligada ao caráter do presbítero. A “irrepreensibilidade” significa que a reputação deve estar acima de qualquer crítica. Isto implica no cuidado especial de se ter um comportamento que não possa ser atacado por terceiros. Na verdade, o rigor da exigência não é descabido, por isso que o presbítero é despenseiro de Deus (Tito 1:7). Ora, “despenseiro de Deus” é responsabilidade de alto nível.

  2. A seguinte qualificação que Paulo apresenta é: “esposo de uma só mulher”. Em Tito 1:7 Paulo fala “marido de uma só mulher”. Essa exigência não significa que o presbítero necessariamente tenha que ser casado, mas, em sendo, que tenha somente uma mulher. Há regiões onde a poligamia é permitida legalmente. Esses costumes, entretanto, esbarram com a consignação escriturística, na hipótese de homem casado que aspira ao episcopado. Por outro lado, é bom que se diga que monogamia legal não basta. Impõe-se, também, a pureza na relação matrimonial. A relação extraconjugal é atitude impeditiva à aspiração e ao exercício do episcopado. Acima de tudo o exemplo é a melhor forma de orientar o rebanho.

  3. Acrescenta Paulo, a seguir: “temperante”. Onde há tempero o paladar é bom. O presbítero não deve ser dado a excessos. A calma e o equilíbrio nas atitudes é a evidência do “temperante”. Temperante é o que põe o tempero; para isso deve reprimir o excesso; deve saber usar bem o importante ingrediente da “harmonia”. Não acirrar os ânimos, nem estimular a discórdia.

  4. Fala, ainda, Paulo: “sóbrio”. A evidência notória da “sobriedade” é a “simplicidade”. A moderação nas atitudes e no comportamento em geral também define bem essa importante qualificação.

  5. Assevera ainda Paulo que o presbítero deve ser “modesto”. Não está, evidentemente, excluindo do episcopado os que tenham alto nível cultural, ou destacada situação pessoal em qualquer área. “Modéstia” não é sinônimo de pobreza. A qualificação aí estatuída por Paulo implica em ausência de vaidade; o que não é pretensioso como, infelizmente, os há no episcopado. Deve ser comedido e não exibicionista.

  6. Diz Paulo em 1 Timóteo 3:2 que o bispo (presbítero) deve ser “hospitaleiro”. A hospitalidade é uma notória evidência de maturidade espiritual. Em Tito 1:8, Paulo a menciona novamente como característica indispensável no presbítero. O que hospeda é aquele que dá “hospedagem por bondade”; é o que “acolhe com satisfação”. Não constrangido ou por obrigação. Não é muito comum em nossos dias a constatação desse tipo de comportamento no cristão. A presença estranha no aconchego do lar muitas vezes incomoda.

    Preferimos pagar a hospedagem em hotéis para irmãos que deveríamos receber em nosso lar, para não sermos incomodados com a sua presença, tolhendo a nossa liberdade. Ora, o que aspira ao episcopado não deve ter esse tipo de comportamento. Deve estar sempre pronto ao exercício glorioso da “hospitalidade”, ainda que ela restrinja certas regalias pessoais ou familiares, fazendo-o com amor e espontaneidade, acolhendo com satisfação.

    Essa atitude deve envolver todos os que são de sua casa. Em Romanos 12:13, Paulo recomenda: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade”. A prática da hospitalidade passa a ser o nosso compartilhamento nas necessidades dos santos. O apóstolo Pedro exorta que devemos ser “hospitaleiros sem murmuração” (1 Pedro 4:9). Em Hebreus 13:2 o ensino é para que não negligenciemos a hospitalidade, “pois alguns, praticando-a, sem o saber, acolheram anjos”.

  7. Continua Paulo a relação das características dos presbíteros, afirmando que o mesmo deve ser “apto para ensinar” (1 Timóteo 3:2). Temos aqui uma característica de “capacidade”. Apto é o hábil, capaz, idôneo, que satisfaz as condições impostas ao cumprimento da missão de que é incumbido, rigorosamente dentro do padrão.

    No caso específico, essa “capacidade” está ligada ao manejo das Escrituras, principalmente no auxílio dos outros. Ninguém pode ensinar o que não sabe. Para saber é necessário meditação no estudo das Escrituras.

    Escrevendo a Timóteo, Paulo enfatizou a importância do estudo da Palavra de Deus na “capacitação do ensinador” (2 Timóteo 3:14-17). A habilitação de Timóteo deu-se através do seu longo aprendizado, desde a infância, das Sagradas Letras que podiam torná-lo sábio.

    É o estudo constante e dedicado das Escrituras que leva o cristão à maturidade espiritual, ou seja, o homem de Deus, habilitando-o perfeitamente para toda a boa obra. A “capacitação” para o ensino é a única forma de se poder cumprir a determinação paulina quanto ao dever de se transmitir o ensino a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros (2 Timóteo 2:2).

  8. A seguir, Paulo declara que o presbítero “não deve ser dado a vinho” (1 Timóteo 3:3). A mesma coisa diz Paulo em Tito 1:7. É interessante notar a diferença entre essa expressão, ligada ao comportamento do presbítero e a que se refere ao diácono: “não inclinado a muito vinho” (v. 8). Veem muitos nessa diferença da exigência a necessidade de rigorosa abstinência por parte do presbítero. A condição de governo e de exemplo do presbítero impõe-lhe essa abstinência.

  9. Seguindo a relação de qualificações em 1 Timóteo 3:3, Paulo declara que o presbítero “não deve ser violento”. A “violência” é o argumento dos que não têm razão, dos incapazes e dos incompetentes. Muitos querem impor as suas ideias e opiniões sem lastro, através da violência. Não cabe ao presbítero, pela sua condição de líder, tal atitude. Sabendo o que diz e porque diz, há de ter suficientes argumentos para fazer-se acatado e respeitado sem o recurso da violência, em qualquer esfera da sua vida, seja familiar, profissional, social ou mesmo religiosa.

    A palavra aí pode se referir à “violência física”, lamentavelmente utilizada por pessoas que se dizem cristãs, algumas vezes exercida covardemente, contra aqueles que são mais fracos ou estão em condição de inferioridade situacional, como no caso do marido em relação à sua esposa ou dos pais em relação aos filhos.

    Não se pode justificar a violência pela necessidade de disciplina, embora essa tenha que, às vezes, ser rigorosa. O castigo disciplinador nada tem a ver com a “violência” ao que se refere o apóstolo neste trecho, mas a expressão pode também relacionar-se com a violência moral ou psicológica.

    Falo da coação que muitos exercem sobre os outros pela sua condição de liderança, levando-os a agir, não raras vezes, de forma contrária à sua própria condição ou vontade, por meio de forte sugestão ou irresistível constrangimento que lhes são impostos. Aí se patenteia claramente a “violência” condenada pelo apóstolo, no comportamento de quem aspira ou já exerce o episcopado.

    O presbítero tem uma tremenda responsabilidade nesse aspecto. Talvez, mesmo inconscientemente por estar mal preparado e dando muita importância à sua condição de líder e responsável pelo governo da igreja, age violentamente através de atitudes ou palavras coercitivas, levando o rebanho a suportar o ônus do seu erro.

    Lamentavelmente, vê-se também, às vezes, o presbítero agindo truculentamente através do exercício autoritário e despótico da sua função, por mera vaidade pessoal e o desejo de se afirmar como tal. Não é necessário que se recorra a esse tipo de comportamento para se impor como presbítero, já que o reconhecimento como tal decorre do bom exercício das qualificações bíblicas.

    Creio que na época que estamos vivendo a recomendação paulina é muito oportuna para que não se transforme o governo da igreja em similar aos governos que pretendem se impor pela força para se manterem. Quem usa da “violência” para se manter na liderança, já a perdeu. O Senhor não honrará a autoridade violenta, porque a “violência” é a própria negação da autoridade.

  10. Diz Paulo que os presbíteros devem ser “cordatos”. Ser “cordato” não significa “concordar” com tudo, ter complacência com o erro. A palavra não tem como raiz esse verbo “concordar” como muitos pensam. É interessante notar que o Senhor Jesus Cristo, que é a expressão maior do “amor”, porque Ele é amor (1 João 4:8), foi muito firme e até contundente na sua atitude intransigente, contra os erros dos religiosos da Sua época (Mateus 12:34, 13:13-36).

    Verberou-os com franqueza, visando a afirmação e a aceitação da Verdade, tantas vezes obscurecida no ensino e na prática dos que tinham a responsabilidade das lideranças religiosas (Mateus 15:6... “e assim invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição”). Infelizmente há os que hoje, em nome de um falso amor, pretendem a acomodação com o erro, preocupados em não melindrar as pessoas.

    É preferível “magoar” alguém para corrigi-lo a tolerar o erro para manter a amizade. A política “de panos quentes” ou de se “fazer média” não é compatível com o exercício da correta liderança espiritual e nada tem a ver com a aludida qualificação paulina para o presbítero: ser “cordato” (Hebreus 12:11... “toda a disciplina, com efeito, no momento não parece ter motivo de alegria, mas de tristeza;  entretanto, depois produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados fruto de justiça”).

    Então, o que vem a ser “cordato”?

    Cordato é o “prudente”, o que tem “bom senso”. Jesus Cristo recomendou aos Seus discípulos, quando os enviou para o ministério: “Sede, portanto, prudentes como a serpente e símplices como as pombas” (Mateus 10:16). Na consideração dos inúmeros problemas que lhe são entregues à consideração e deslinde, na aplicação dos critérios de aconselhamento e orientação, deve o presbítero ser prudente, isto é, não precipitado na apreciação de fatos e ter bom discernimento de todas as circunstâncias que envolvem cada situação examinada.

    O “bom senso” deve ter presença constante no difícil mister de orientar, repreender, corrigir ou exortar. É o “bom senso” necessário para não ser levado a tirar conclusões apressadas ou infundadas. Assim agindo estará sendo útil no ministério como presbíteros.

  11. Afirma o apóstolo Paulo que o presbítero deve ser “inimigo de contendas”. Essa qualificação se alinha com duas outras já examinadas e lhe são correlatas: “não violento” e “cordato”. O “contencioso” é o que gosta de brigar ou discutir por qualquer coisa, estar sempre se rivalizando com os outros, buscando a altercação. Claro que essa característica negativa (contencioso) é incompatível com a condição de liderança na igreja local.

    Não há necessidade de se “partir para a briga” quando se quer pôr as coisas em ordem. Nem altercar quando se pretende corrigir o erro. A “contenda” é uma manifestação do homem natural que, infelizmente, tem trazido muito dano à necessária boa comunhão entre o povo de Deus. Deus repulsa esse comportamento.

    Em Provérbios 6:16 lemos: “seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina”; no versículo 19 temos a sétima coisa que a alma do Senhor abomina: “o que semeia contendas entre irmãos”. A contenda é altamente danosa porque envolve os irmãos, quebrando a comunhão entre todos e de todos com Deus. Por isso o Senhor a considera muito grave.

    Ainda, em Provérbios 13:10... “da soberba só resulta a contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria”. A nossa soberba, isto é, o nosso orgulho, pecado grave que levou satanás à rebeldia contra Deus, leva-nos à contenda. O sábio Salomão nos exorta a adotar a atitude humilde do mútuo aconselhamento para que alcancemos a sabedoria. Quando nos julgamos mais do que os outros ou mais sábios entre muitos, manifestamos pretensão pecaminosa que leva à contenda.

    Sobremodo judicioso o pronunciamento de Salomão em Provérbios 17:14... “como o abrir-se da represa, assim é o começo da contenda: desiste, pois, antes que haja rixas”. Mais adiante diz o sábio em Provérbios 18:6... “os lábios do insensato entram na contenda, e por açoite brada a sua boca”.Vê-se aí que Deus considera insensato o que se envolve em contendas. Ainda em Provérbios 28:25... “o cobiçoso levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará”.

    A cobiça é, pois, estímulo ao espírito contencioso, porque desejando mais e mais egoisticamente, não nos admitindo inferiorizados em relação aos outros, acabamos levantando contendas. Antes de querer ser mais é preciso confiar mais no Senhor. A prosperidade resultará da nossa confiança no Senhor e não na nossa busca contenciosa!

    Outro aspecto que Salomão destaca sobre o assunto está em Provérbios 30:33... “porque o bater do leite produz manteiga e o torcer o nariz produz sangue, o açular a ira produz contendas”. Vemos aí, que é necessário não alimentar dentro de nós situações que nos provoquem à ira, pois o resultado há de ser, inevitavelmente, a contenda.

    O apóstolo Paulo foi enfático e abundante na exortação contra as contendas, tão em voga no comportamento de muitos cristãos da igreja primitiva, ao dizer: “fui informado, pelos da casa de Cloé de que há contendas entre vós” (1 Coríntios 3:3); “temo, pois, que indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero... e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intriga, orgulho e tumulto” (2 Coríntios 1:20). “Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei: porque não tem utilidade e são fúteis” (Tito 3:9),

    Muitas vezes o espírito contencioso se revela no próprio exercício do ministério seja o da edificação, seja o de evangelização, motivado pela competividade pessoal ou sectária. É comportamento que o Senhor não aprova porque não O Glorifica!

    Para finalizar, fiquemos com o ensino de Paulo em 2 Timóteo 2:23-25... “E repele as questões insensatas e absurdas, pois sabe que só engendram contendas. Ora, é necessário que o servo de Deus não viva a contender e que deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem”. Dispensamos maiores comentários pelo expressivo ensino do próprio conteúdo espiritual a respeito.

    Que o Senhor ajude a sermos inimigos de contendas!

  12. A qualificação seguinte que Paulo aponta em 1 Timóteo 3:3 é “não avarento”. Em Tito 1:7 Paulo se refere ao mesmo item, usando a expressão: “nem cobiçoso de torpe ganância”. A “avareza” é o apego demasiado e sórdido ao dinheiro: “mesquinhez”. A ganância legítima não é pecado, mas quando se torna “cobiça torpe”, desqualifica o cristão.

    Claro que esse comportamento não é compatível com o exercício da liderança na Igreja de Deus. A preocupação financeira é uma das que mais aflige o homem. Ilustra bem esse fato o melancólico desfecho do encontro do moço rico com Jesus Cristo (Lucas 18:23). Diz o texto sagrado que o moço retirou-se triste porque “era riquíssimo”. O seu interesse pelas riquezas sobrepôs-se ao desafio do Senhor para se desfazer delas em ação filantrópica e desprendida.

    Nas decisões do homem muito pesa o aspecto financeiro, mesmo quando a opção envolve consequência de caráter espiritual. A busca do dinheiro nos fascina e escurece a nossa visão, privando-nos das mais extraordinárias perspectivas de ordem espiritual. Quantos já têm se privado da maior das bênçãos que é a sua salvação pela fé em Cristo Jesus, deixando de se apropriar da maior das riquezas que ela representa, levados que são pela ganância temporal, preferindo os dividendos terrenos, que nada valem para o bem da alma, em lugar dos valores eternos que a Graça de Deus nos propicia.

    Na parábola do rico insensato o Senhor Jesus patenteou essa realidade: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma e o que tens preparado para quem será?” (Lucas 12:20). E arrematou: “assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (v. 21). O Senhor Jesus recusou, na oportunidade, a condição de Juiz partidor de herança. Essa não era a Sua missão, mas a de nos conceder a possibilidade da riqueza imperecível e incomparável da vida eterna.

    É lamentável que poucos percebam que a maior riqueza é Jesus Cristo, reconhecido como Salvador e Senhor de nossas vidas. Jesus Cristo recomendou que não devemos acumular tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões escavam e roubam, mas no céu, onde tal não acontece. E acrescentou: “onde está o teu tesouro aí também estará o teu coração” (Mateus 6:19-21).

    O Senhor foi enfático a respeito quando nos ensinou: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mateus 16:26). A ganância pelo dinheiro é o grande mal do mundo, pois leva os homens às praticas mais tresloucadas, que vão desde os desentendimentos pessoais e familiares até os terríveis conflitos entre os povos. Já afirmou o apóstolo Paulo: “o amor do dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10).

    Quando o cristão compreende que somos do Senhor, considera tudo que tem ou que possa alcançar, como do Senhor. Evidentemente há de procurar administrar bem o que não lhe pertence, mas que está sob o seu cuidado. Não somos donos de nada, mas administradores do que o Senhor coloca em nossas mãos. Por isso devemos considerar melhor como buscar e dispor dos bens temporais.

    O mais importante é buscar o Reino de Deus e a Sua Justiça, em primeiro lugar (Mateus 6:33). No mister glorioso de participar com os nossos bens na obra do Senhor devemos seguir o exemplo dos irmãos da Macedônia, que primeiro se deram a si mesmos ao Senhor (1 Coríntios 8:8).

  13. Entre as características que Paulo indica para o exercício do Presbitério encontra-se inserida em 1 Timóteo 3:4... “que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”. Em Tito 1:6 reitera o apóstolo a essencialidade dessa qualificação na liderança da igreja, nos seguintes termos: “que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados”. É interessante notar que é essa qualificação para a qual o apóstolo usa o maior número de palavras.

    É, sem duvida, uma das mais importantes qualificações de “capacidade” para o governo da igreja, e o mesmo Paulo que nos explica: “se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3:5). Entretanto este é um item em que muitos, que têm a liderança, falham. Deus investiu o homem de autoridade sobre a família quando lhe deu, na condição de marido e pai, a chefia do lar. Essa autoridade deve ser exercida com responsabilidade e discernimento dentro dos princípios estabelecidos na Palavra de Deus, já que a família é uma instituição divina.

    Por isso Paulo dá ênfase a esse aspecto (a criação dos filhos com todo o respeito), como evidência de bom governante do lar e, consequentemente, como credencial indispensável à prova de capacitação para o bom governo da igreja.

    O salmista afirma que “os filhos são herança do Senhor, o fruto do ventre o seu galardão” (Salmo 127:3). A herança é algo muito desejado. A herança alcançada é muito estimada. A herança é objeto do mais acurado desvelo e cuidado. Igualmente os filhos, herança do Senhor, ansiosamente desejados, quando nos chegam devem ser muito estimados e dedicadamente cuidados, para que possam ser bem formados no caminho do Senhor, o que é a prova mais notória da nossa capacitação à legítima aspiração ao episcopado.

    Há muitos líderes que, estoicamente envolvidos com múltiplos problemas na obra do Senhor, descuidam totalmente do cuidado de seus filhos, que crescem carentes de carinho, do amparo, da orientação e da companhia de seus progenitores, tão necessários à sua boa formação intelectual, moral e espiritual.

    O natural seria que os filhos dos crentes, principalmente aqueles que lideram a igreja, se tornassem crentes verdadeiros. Isso não significa a sua formal membração no rol da igreja, muitas vezes forçada pelos pais. Há que demonstrar a sua crença pelo seu fiel testemunho. É o que Paulo enuncia claramente no ensino a respeito quando diz: “que não são acusados de dissolução nem são insubordinados” (Tito 1:6).

    O privilégio de educar os filhos nem sempre é bem compreendido pelos pais. Vezes há, e não poucas, em que os pais se sentem em dificuldades para cumprir essa gloriosa missão com sucesso.Vale, pois, lembrar alguns princípios fundamentais da Palavra de Deus, sobre a matéria. A sua aplicação dar-nos-á o resultado desejado por Deus na formação dos nossos filhos.

    Vamos mencionar e analisar três desses princípios que são essenciais quanto à responsabilidade dos pais cristãos para com os seus filhos, Paulo ensina: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 6:4):

    A) A expressão “não provoqueis vossos filhos à ira” consiste numa regra sobremodo importante na relação dos pais/filhos. É muito comum que os pais menos esclarecidos ou pouco interessados no bem dos seus filhos, troquem a manifestação de amor pela provocação que resulta na manifestação da ira por parte destes. A ira é uma reação natural de qualquer pessoa que se sinta pouco considerada, menosprezada ou diminuída.

    O amor de Deus para com os Seus filhos, personificado em Cristo, deve ser exemplo para os pais cristãos, motivando-os ao exercício constante do amor para com os seus filhos. A ira, como recíproca da provocação, estabelece um rompimento nas relações pais/filhos, que muitas vezes se torna definitivo. Tira qualquer possibilidade de acatamento por parte dos filhos aos ensinos dos pais, necessários à boa formação daqueles. Anula toda a força da admoestação necessária.

    Muitos lares se têm desorganizado desastrosamente por falta de atendimento a esta regra do apóstolo Paulo: “pais não provoqueis a ira dos vossos filhos”. O desprezo, a injustiça, o pouco caso e outras atitudes negativas da parte dos pais provocarão nos filhos o sentimento de ira e de revolta. Isto destruirá, completamente, toda a autoridade do ensino dos pais.

    Os pais devem lembrar que os seus filhos são amados por Deus, e merecem, portanto, o seu amor e cuidado. Claro que a atitude firme e correta dos pais, no sentido da exortação e da orientação admoestatória não se confunde com “provocação”. Mais do que nunca há que se estabelecer, nas relações dos pais para com os filhos, por iniciativa daqueles, o clima do bom entendimento pelo respeito mútuo e interesse recíproco.

    Em Colossenses 3:21, o apóstolo Paulo reitera a sua recomendação aos pais nesses termos: “Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados”. “Provocar” a irritação dos filhos sem motivo justo ou causa plausível, por simples prazer do exercício de uma autoridade natural, é anular no filho todo o ânimo para alcançar, no tempo certo, a necessária maturidade.

    Cada filho que Deus concede é uma possibilidade imensa de realizações benéficas incontáveis. Cada um deles poderá ser muito útil à família como à própria igreja e mesmo à sociedade, através de realizações próprias na satisfação de propósitos elevados. A responsabilidade, nesse sentido, dos pais é sobremodo grande.

    Pais que constantemente reclamam de seus filhos, que não lhes dão a necessária atenção, que impõem um excesso de regras e proibições somente para mostrar a sua autoridade, deixarão os seus filhos irritados e, finalmente, desanimados na sua vida espiritual.

    B) Aos pais, não à igreja, cabe a responsabilidade primordial de criar os seus filhos, isto é, dando-lhes a devida atenção de ensinar-lhes e educá-los. São os pais que têm a responsabilidade e o privilégio de ensinar os filhos tudo aquilo que o Senhor quer que saibam e aprendam.

    A regra não é nova. Não foi Paulo quem a inventou. A regra é divina e remonta ao tempo mais antigo, quando Deus estabeleceu as normas de boa convivência familiar para o povo de Israel. Em Êxodo 20:10 vemos que as ordens divinas não somente alcançavam os pais, como também os filhos, passando daqueles a estes, cabendo aos primeiros a responsabilidade de ciência de tudo aos segundos.

    Em Deuteronômio 11:18-19, assim Deus ordenou aos pais: “Ponde, pois estas minhas palavras em vosso coração e na vossa alma, atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os vossos olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa e andando pelo caminho e deitando-vos e levantando-vos”. Deus quis que o bem-estar na família judaica fosse uma constante pelo cumprimento fiel da Sua ordem de ensino dos pais aos filhos daquilo que Ele queria que cada um aprendesse, mas sempre o “ensino do senhor ”Por isso Deus exigia que primeiro os pais aprendessem bem as Suas palavras, firmando-as no seu coração e na sua alma, evidenciando-as, por outro lado, por sinal na sua mão e colocando-as, ainda, por frontal entre os seus olhos.

    A melhor forma de ensinar é demonstrar convicção própria quanto ao ensino que se transmite, esta corroborada pela demonstração prática da sua aceitação nas atitudes cotidianas; assim o ensino verbal terá força quando falar dele em casa, assentado com os filhos ou com eles andando no caminho, e, ainda, deitando-se e levantando-se.

    O ensino (“admoestação do Senhor”) é essencial para a boa criação dos filhos. É o ensino de Paulo em Efésios 6:4... “Criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”. O ensino pode ser pela Palavra, isto é por meio de conversas com os filhos. Os pais cristãos jamais deverão negligenciar nisso.

    É, também, por meio do exemplo prático, isto é, vivendo aquilo que ensinam. Não devem os pais cristãos criar os filhos segundo os seus conceitos pessoais, mas criá-los de acordo com a admoestação do Senhor. Está aí o segredo da boa formação de um lar cristão.

    O ensino faz-se pelo exemplo e pelas palavras, em Provérbios 22:6 o sábio Salomão esclarece: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda, quando for velho não se desviará dele”. Criar os filhos na admoestação do Senhor é ensinar-lhes tudo aquilo que o Senhor quer que saibam e aprendam. Tal formação há de ajudar os filhos a andar bem até a sua velhice.

    Esse ensino, por outro lado, deve ser claro, consoante a própria Palavra de Deus, como Paulo nos adverte em 2 Timóteo 3:14-17... “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste, pois que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra”. Permanecendo naquilo que aprendemos na Palavra de Deus e procurando transmitir o seu ensino aos nossos filhos, estaremos admoestando-os para alcançarem a estatura dos homens de Deus, perfeitos e perfeitamente habilitados para toda a boa obra; ensinados, repreendidos, corrigidos e educados pela própria Palavra de Deus.

    C) De outra sorte, é necessária, também, na criação dos filhos, a “disciplina do senhor”, isto é, a correção oportuna, adequada e bem orientada.

    Em Provérbios 3:11-12, o sábio Salomão afirma: “Filho meu, não rejeites a disciplina do Senhor, nem te enfades da sua repreensão, porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem”. Disciplinar o filho com amor, mostrando o erro, corrigindo-o e ensinando-lhe a atitude certa, é prova de querer bem a seu próprio filho. Veja outros textos em Provérbios 13:24; 19:28; 22:15; 29:15-17.

    Não são muitas as regras que vimos, mas três são sobremodo importantes:

    A - Não provocar a ira dos filhos;
    B - Criá-los na admoestação (ensino) do Senhor;
    C - Criá-los na disciplina do Senhor.

    Agir de acordo com tais princípios é demonstrar, no ambiente do lar, o reconhecimento do Senhorio de Cristo.

  14. O apóstolo Paulo afirma, em 1 Timóteo 3:6... “Não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo”. O entusiasmo dos que começam em algum empreendimento sempre pode ser uma traiçoeira atitude em detrimento dos objetivos desejados. Neófito é o que se inicia em alguma coisa. A ele falta a necessária experiência e o indispensável conhecimento da Palavra de Deus, somente adquirido depois de algum tempo de carreira cristã.

    Nos embates da vida cristã, que não é fácil, mas submetida a muitas provas, o cristão vai adquirindo a robustez necessária para encarar situações diversas e encontrar as soluções bíblicas adequadas. Entrando pela porta estreita e seguindo pelo caminho apertado que conduz à vida, suportando as aflições que no mundo são inevitáveis, o cristão se habilita, no tempo, a responsabilidades maiores que o Senhor lhe quer entregar.

    O episcopado é sem duvida uma aspiração de alta responsabilidade que não cabe ao neófito. Quem mais deseja que o neófito assuma a responsabilidade de liderança é Satanás, porque sabe ele muito bem que isso trará problemas à vida da igreja, prejudicando o seu próprio desenvolvimento.

    Por isso mesmo Paulo adverte: “para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo”. A soberba é pecado bem realçado na Palavra de Deus. Significa sobrançaria, altivez, orgulho, arrogância, presunção. É anotada como não qualificação para o episcopado por Paulo em Tito 1:7, através da expressão “não arrogante”. Isso será objeto de consideração, como tal, mais adiante.

    Aqui cabe ressaltar que o neófito pode ser levado a esse detestável pecado. Foi o pecado de Satanás (Ezequiel 28:17). Quis ele igualar-se a Deus, elevou o seu coração orgulhosamente, mas o Senhor o lançou para baixo. O que mais Satanás deseja é ver o homem entrando na dele!

    A tentação a que submeteu Eva a estimulou à soberba e, através dela, Eva e Adão desobedeceram ao Senhor. Por isso Paulo fala que o ensoberbecimento faz incorrer na condenação de Satanás, isto é, ser lançado para baixo.

    A tendência do neófito em orgulhar-se é acentuada por ressaltar a necessária experiência para encarar a responsabilidade com humildade. Devemos orar pelos que têm liderança para que não incorram nesse pecado grave.

    Já analisamos, ainda que de ligeiro, todas as qualificações para o exercício do episcopado – honrosa aspiração do servo do Senhor – que o apóstolo Paulo insere em 1 Timóteo 3:1-7. Algumas delas se repetem na epístola de Paulo a Tito e, por isso, já as analisamos à luz do texto em 1 Timóteo. Outras há, ainda, em Tito, não referidas explicitamente na carta a Timóteo, as quais devemos nos reportar.

  15. Afirma Paulo em Tito 1:7 que é indispensável que o bispo seja “não arrogante”. Arrogante é o que revela arrogância, isto é, altivez, orgulho, insolência. Já se vê que é a arrogância uma característica negativa de caráter não consentânea com aquele que pretende o episcopado. Falamos algo em comentário anterior sobre o orgulho, pecado sobremodo danoso à vida espiritual, mas muitas vezes instalado no comportamento de indivíduos grandemente envolvidos na vida religiosa. É o pecado que Satanás mais estimula a prática do cristão.

    O arrogante tudo faz colocando-se no centro, procurando destacar a importância e até a imprescindibilidade da sua pessoa, da sua capacidade e de sua atuação, para fazer crer que sem ele nada se pode fazer. Por isso se diz que o arrogante é altivo, egocêntrico, tudo deve girar em torno dele e em função dele. É a negação da humildade, característica essencial no cristianismo autêntico.

    Devemos nos lembrar do ensino de Jesus Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:15). A prática da arrogância leva à insolência, e esta, já definindo o campo do comportamento inconveniente, ao desaforo. A insolência usa linguagem grosseira e até palavras injuriosas. No grau mais acentuado, se revela ser indivíduo atrevido e malcriado. Aí está o tracejar de um comportamento que nada tem que possa qualificar o excelente desejo de exercício do episcopado.

    Lamentavelmente muitos que têm chegado a essa honrosa investidura espiritual se tem deixado levar pelo caminho pecaminoso da arrogância, acabando por se definirem déspotas, pretensiosos e autossuficientes, que só perturbam o bem-estar do rebanho do Senhor.

    Eis a razão porque Paulo alinha essa indispensável qualidade entre as demais, ao tratar do episcopado. Oremos para que o Senhor nos livre dessa atitude tão desastrosa, fazendo-nos perceber a importância da humildade e da total dependência do Senhor!

  16. Outra expressão que o apóstolo Paulo usa na carta a Tito para indicar uma necessária qualificação de caráter do Presbítero é “não irascível” (Tito 1:7).

    Interessante notar que Paulo usa várias expressões descritivas de caráter que são muito semelhantes, como por exemplo, “não violento”, “cordato”, “inimigo de contendas”. Paulo não as enfileirou como sinônimas, mas distintamente, para estabelecer peculiaridades do caráter que se definem pelas aludidas expressões, consideradas em seus sentidos específicos.

    A expressão que ora analisamos tem um aspecto peculiar, embora se possa confundi-la no conceito genérico de “violento” e de “contencioso”. O “irascível” é o que se irrita com facilidade. Em linguagem comum, diz-se que é o que tem “pavio curto”, “esquenta à toa”, não “sabe contar até dez”! O irascível pode até não se manifestar violento ou contencioso, embora, creio, que pelo seu comportamento, acaba chegando à violência e à contenda.

    Quando não se busca corrigir esse defeito de caráter, anulando-o na atitude inicial, desenvolve-se o comportamento até a prática natural da violência e da contenda. No mundo agitado que nos envolve, com tantas pressões, problemas e incompreensões, não é difícil sermos levados a atitudes irascíveis, como comportamento natural.

    Essa atitude não é cristã, porque omite a compreensão das situações, a tolerância ao erro involuntário, à transigência aos atos desagradáveis a nós, não desejados pelos seus agentes. Eu sei que estamos num terreno difícil. Todos nós temos “pavio curto”, alguns menos outros mais. O presbítero deve se esforçar para controlar as suas reações a fim de não incidir nessa característica negativa, que o incapacita ao exercício do episcopado.

    Vemos várias vezes os discípulos do Senhor mostrando esse aspecto negativo do seu caráter, em que pese a sua convivência constante com o Seu Mestre, repreendendo as mães que traziam os seus filhos para serem abençoados pelo Senhor (Marcos 10:13); pedindo fogo do céu para destruir os samaritanos que se recusavam a receber o Senhor; sugerindo a dispensa da multidão porque lhes parecia sobremodo problemática a sua presença ouvindo o Senhor e não tendo o que comer (Marcos 14:15). E que dizer de Pedro, desembainhando a sua espada para cortar a orelha do servo do sumo sacerdote? (Mateus 26:51).

    De outra sorte vemos o Senhor, resignadamente, aceitando a cruz que não merecia como exemplo digno de caráter absolutamente correto. Se Ele fosse irascível não seríamos salvos! Como disse no Getsemani, quando preso, poderia rogar ao Pai por mais de doze legiões de anjos para destruir os Seus inimigos, mas não O fez.

    O irascível mostra-se antipático, não disposto a ouvir as razões dos outros, impaciente e resmungão. Em tais circunstâncias, não tem condição de cuidar do rebanho do Senhor. Lembremos que essa é uma atitude que muitas vezes adotamos quase sem percebermos e é muito danosa à boa comunhão do povo de Deus. Oremos ao Senhor para que nos livre dela!

    No texto de Paulo a Tito estamos examinando as qualificações dos presbíteros que não foram comentadas por ocasião do exame do mesmo assunto no texto de Paulo a Timóteo, portanto não vamos agora nos reportarmos às expressões “não dado ao vinho”, “violento”, “cobiçoso de torpe ganância” e “hospitaleiro”, que se repetem na carta a Tito por nós já analisadas anteriormente na carta a Timóteo.

  17. Na carta a Tito, Paulo traz mais uma qualificação que não alinha entre as que se referem em Timóteo: “amigo do bem”.

    No original grego essa expressão significa “amante de homens bons” ou “amante da bondade”. Ambos os sentidos devem ser na expressão grega “philagathos”. É palavra encontrada exclusivamente neste texto em todo o Novo Testamento, sendo uma das 165 palavras que ocorrem exclusivamente nas epístolas pastorais.

    Ser amantes de homens bons não significa impossibilidade de relacionamento com homens maus, mas envolve a ideia de “comunhão”. O presbítero deve marcar o seu testemunho público pela manifesta comunhão com aqueles que se caracterizam verdadeiros cristãos (santificados em Cristo). Os mundanos só têm prazer no convívio dos mundanos.

    Ser “amante da bondade” significa manifesto comportamento bondoso, amando sem ser amado, dando sem receber, aceitando a afronta e a injustiça com resignação. É o dar a outra face, ou deixar, também, a capa, é o andar a segunda milha a que se referiu o Senhor em Mateus 5:39-41. “Amigo do bem” é alguém que se devota alegre e sacrificalmente à prática do bem.

    Em Filipenses 4:8-9 encontramos uma exposição desse comportamento quando Paulo declara: “finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum valor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”. “O que também aprendestes e recebestes e ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz será convosco”. Há nesse precioso texto algumas oportunas sugestões do apóstolo que, se adotadas em nosso comportamento, vão, sem dúvida, definir-nos como “amigos do bem”.

    As virtudes aí alinhadas: “verdadeiro”, “respeitável”, “justo”, “puro”, “amável”, ”boa fama” fazem parte do “fruto do Espírito”, devendo ser consideradas como algo que surge mediante o cultivo e o desenvolvimento espirituais. Estas virtudes é que devem ocupar nossas mentes, devendo sempre ser levadas em conta por nós em nossa vida espiritual.

    Deus nos guarda e nos dá paz como um dom; mas também temos obrigações e precisamos cultivar as virtudes espirituais. Sem essas virtudes o ideal cristão não pode concretizar-se na vida de uma pessoa. Robertson, comentando essas virtudes que caracterizam o “amigo do bem”, diz que elas são pertinentes agora, quando tanta imundícia é exposta perante o mundo, em livros, revistas e filmes, sob o nome de realismo, sendo a fossa das piores iniquidades.

    Se Robertson tivesse vivido em nossos dias, teria adicionado a televisão e a internet à lista daquelas coisas que servem de elementos corruptores dos homens, anulando neles a característica de “amigos do bem”. Para sermos dignos dessa honrosa nomenclatura, característica de presbíteros verdadeiros, “amigos do bem”, é necessário fazer com que estas virtudes dignas de louvor sejam a razão de nossa meditação e consideração, incluídas em nossa conduta diária.

    Devem ser substituídos os pensamentos vãos da sensualidade, o lucro e a fama mundanos, buscando cuidadosamente aquelas coisas que contribuem para o bem de nossas almas imortais, que transcendem a qualquer bem terreno que os homens busquem mediante suas mentalidades carnais.

  18. A qualificação seguinte que Paulo aponta na carta a Tito, necessária ao comportamento do presbítero, é “justo” (Tito 1:7).

    Deixamos de lado a expressão “sóbrio”, que em Tito vem depois de “amigo do bem”, porque já foi considerada quando do estudo do texto em Timóteo. Será que Paulo está correto ao exigir esta qualificação para aqueles que exercem o episcopado? É o mesmo Paulo que em Romanos 3:10 afirma que não há “justo” nem sequer um.

    Esse é um dos atributos de Deus. Só Deus é absolutamente justo. Só Ele possui e manifesta perfeita “justiça” (Salmo 119:137). Em virtude da Sua justiça, Deus manifesta o governo moral do mundo e impõe ao homem uma lei justa, galardoando a obediência (Salmo 99:4, Isaías 33:22 e Romanos 1:32). Jesus Cristo, o Filho de Deus, manifestou esse atributo mesmo na Sua condição de homem e por essa razão pôde substituir-nos na recepção da ação judicante de Deus que os nossos pecados exigiram.

    Ele veio para cumprir toda a justiça (Mateus 3:15). É o que Paulo afirma: “aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós, para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Ele, então, nos justificou, isto é, nos tornou justos perante Deus, já que o castigo que nos traz a paz caiu sobre Ele (Isaías 53:5; Romanos 5:1). Por isso Jeremias O chama profeticamente de “o Senhor Justiça Nossa” (Jeremias 23:6).

    Mas Paulo não se refere a esse aspecto quando menciona o termo em Tito, como qualificação de bispo; não está aí Paulo a reportar-se à nossa condição de “justo” por atribuição da graça divina em razão da obra justificadora de Jesus Cristo. Paulo está mostrando a necessidade de uma característica toda especial que há de se evidenciar pelo comportamento justo do presbítero. Não é fácil manifestar tal condição, mas ela deve ser buscada e cultivada.

    No grego, a palavra é “dikaios”, significa mais especificamente “reto” segundo as exigências da lei. “Justo” é o que manifesta retidão no seu comportamento em geral pelo fato de possuir “a santidade” atribuída pelo Senhor. Ser justo é manifestar praticamente um aspecto da santidade de que somos revestidos como novas criaturas. É evidência de maturidade e estatura espirituais, por isso é condição exigida no presbítero.

    Ser justo nesse sentido é manifestar correção de vida em todos os seus aspectos. Envolve todas as nossas ações para com o nosso próximo, as quais devem ser praticadas com retidão, sem parcialidade, com equidade, sempre dentro do padrão de Deus revelado em Sua Palavra.

  19. Mais uma importante característica de presbítero, indica Paulo na carta a Tito: “piedoso” (Tito 1:7). É essa, quando efetivamente presente no comportamento do cristão, uma qualificação de alto grau de espiritualidade. Não significa religiosidade formal, nem sempre a aparência religiosa identifica o “piedoso”, não se confunde com atitudes filantrópicas, muitas vezes adotadas como compensação para manifestações deficientes de caráter, embora a filantropia cristã e sincera possa revelar o caráter piedoso.

    No grego é a palavra “osios” significa “piedoso”. O sentido aí é “aquele que é agradável a Deus”. A nota marcante na atitude dos grandes servos de Deus sempre foi essa: “agradaram a Deus”. Abel teve a aprovação de Deus para o seu sacrifício. Enoque obteve testemunho de haver agradado a Deus (Hebreus 11:4-5). No exercício da piedade o que importa é agradar a Deus e não aos homens.

    Para se agradar a Deus é necessário estar livre de máculas morais, possuidor de autêntica santidade, em que a natureza de Cristo vai sendo formada no homem interior. Por isso incluem-se no conceito da ”piedade” a pureza e inculpabilidade. É o adjetivo que indica a santidade divina, o termo focaliza a perfeição moral, o estar isento de qualquer pecado e envolve, necessariamente, a possessão de virtudes positivas, como a bondade e a santidade.

    Em 1 Timóteo 6:3, Paulo mostra que não adianta nada o muito conhecimento intelectual e o seu ensino sem a piedade, pois isso evidencia carnalidade. Diz mais, no versículo 5, que os que assim agem supõem que a piedade é fonte de lucro. O que Paulo quer deixar claro é que muitos buscam na aparência religiosa, que confundem com a verdadeira piedade, vantagens pessoais.

    A piedade é muito mais o que somos perante Deus do que o que fazemos perante os homens. A essa altura do nosso estudo devemos dar atenção à ordem da apresentação que Paulo faz na carta a Tito das três qualificações que vimos estudando.

    Primeiro, fala Paulo: “sóbrio”, que indica a atitude e as ações de um homem para consigo mesmo. Depois diz: “justo”, referindo-se às ações do homem para com o seu semelhante. Finalmente, menciona Paulo: “piedoso”, que salienta as relações de um homem para com Deus, conforme as Suas exigências.

    Em tudo e para com todos, nesta esfera terrena e naquilo que tange ao Senhor, O qual nos contempla desde os lugares celestiais, todo o crente deve ser moralmente correto, ainda mais se aspira a ocupar lugar de liderança na igreja local.

  20. Uma das qualificações mais importantes para o exercício da liderança na igreja local é a que Paulo menciona em Tito 1:8... “que tenha domínio de si mesmo”. Essa expressão no grego é “ëgkrates” aparece no Novo Testamento somente neste texto e em Gálatas 5:23 como um dos aspectos do fruto do Espírito. Significa “autocontrole”, ou seja, o controle do crente sobre todos os impulsos que podem levá-lo a macular a sua santidade.

    Sendo um dos aspectos do fruto do Espírito, claro está que a ação pessoal do crente acontece em razão da sua permissibilidade à liberdade da atuação do Espírito Santo no seu próprio ser. Com isso entendemos que o homem não tem em si recurso que lhe permita tal autocontrole. Só no poder do Espírito Santo o crente realiza essa ação vitoriosa sobre o pecado.

    Em 1 Coríntios 7:9, o apóstolo Paulo usa o verbo “dominar” para indicar o controle em relação ao impulso pessoal, quando, aconselhando o celibato (seu estado próprio), ele sugere aos que “não se dominam” casar em vez de se abrasar. Em 1 Coríntios 9:5, refere-se o apóstolo à autodisciplina que o atleta precisa exercer para ser bem-sucedido em suas tentativas de obter a coroa da vitória.

    Para que seja vitorioso e obtenha a coroa na luta contra o mal, o crente precisa de uma completa autodisciplina e de total autocontrole. Mas isso só será possível com a ajuda do Espírito Santo. Diz Paulo que “o atleta em tudo se domina”.

    Em Provérbios 16:32, afirma o sábio: “melhor é... o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade”. Deus dá muito valor à nossa vitória sobre nós próprios do que as nossas conquistas sobre outras forças exteriores.

    A nossa grande luta é interior, contra os impulsos do homem natural, estimulados pelos agentes do pecado (Satanás, o mundo e a carne). É por isso que Paulo lembra que “a carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gálatas 5:17). O seu conselho é: “andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne” (v. 16).

    Paulo ainda nos coloca perante o seu exemplo de homem de Deus quando declara: “todas as coisas me são licitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são licitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Coríntios 6:12). O exercício do “domínio de si mesmo” implica, pois, em um esforço consciente de nossa parte no sentido de anular todos os impulsos carnais de que somos possuídos em nossa condição de homem natural.

    O Espírito Santo age poderosamente quando evidenciamos essa disposição de atitude. Os filósofos estoicos percebiam claramente a verdade expressa por essa virtude do domínio próprio. Eles procuravam fazer com que a razão dominasse a vida inteira, controlando as paixões e firmando a alma. Porém, o poder atuante do Espírito Santo, no íntimo dos crentes, é mais forte do que a razão humana, embora a razão seja um útil aliado e instrumento dessa habilidade que nos é propiciada pelo Espírito de Deus.

    Está ai, pois, uma qualificação de grande importância no comportamento dos que têm responsabilidade no governo da igreja local.

  21. Chegamos à última qualificação que Paulo apresenta em sua carta a Tito, necessária ao que aspira ao episcopado: “apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina, e modo que tenha poder para exortar pelo reto ensino, como assim, para convencer os que contradizem” (Tito 1:9).

    Ressalta aí Paulo a importância da Palavra de Deus (o Evangelho e o ensino doutrinário) no ministério verbal do presbítero. A eficácia desse ministério dependerá de seu apego à Palavra fiel. Já destacara o apóstolo na carta a Timóteo, tratando também da qualificação dos presbíteros, que estes devem ser aptos para ensinar.

    Essa aptidão se alcança pelo apego à Palavra, à margem do exercício de dom de ensino. No grego o termo que corresponde à palavra “apegado” significa “agarrar-se-á”, “devotar-se-á”. Tendo sido consagrado ao ministério da Palavra, o presbítero deveria apegar-se firmemente aos ensinamentos da mesma, defendendo-os contra os ataques hereges.

    A expressão “palavra fiel” não se refere aí, como em muitas ocasiões em que aparece o termo “palavra” no Novo Testamento, à Escritura Sagrada em sua forma escrita. Esse termo se refere à mensagem divina entregue aos homens por Cristo expressa no Evangelho. Naturalmente, mais tarde, a mensagem essencial neotestamentaria assumiu forma escrita.

    Cristo é a “Palavra Encarnada” (João 1:1 e Hebreus 1:2), sendo Ele o tema central da mensagem divina. Esta palavra é essencialmente remidora em sua natureza, embora algumas vezes o vocábulo “palavra” inclua a totalidade dos ensinamentos cristãos. Normalmente, quando no Novo Testamento o termo “palavra” é usado de forma absoluta ou em forma combinada como “Palavra de Deus” (Atos 4:31; 6:2), “Palavra do Senhor” (Atos 23:49), “Palavra de fé” (Romanos 1:8), “Palavra da verdade” (2 Coríntios 6:7; Efésios 1:13) e “Palavra da vida” (Filipenses 2:16), sempre está em foco o “Evangelho”.

  22. Nas “epístolas pastorais”, o Evangelho é incorporado dentro da “mensagem paulina ortodoxa” por isso que essa é a “palavra” que precisa ser defendida. Neste ponto ela é descrita como “fiel”.

    Esta é a mensagem “digna de confiança”, a mensagem “certa”, da qual podemos depender no tocante ao nosso bem estar espiritual e salvação. O que Paulo está a enfatizar é que o apego deve ser ao seu ensino firmemente alicerçado na mensagem de Jesus Cristo, a Paulo transmitida por revelação, ou seja, revestida de “autoridade divinal”.

    Paulo alinha esta qualificação tendo em vista a polêmica contra os gnósticos, à época, os quais tinham introduzido uma ”palavra estranha” uma mensagem “indigna de confiança”. Tal coisa pode ser confrontada com as “sãs palavras” mencionadas em 1 Timóteo 6:3, onde a mesma mensagem é a medida, embora com o uso de expressões diferentes.

    Afirma, mais, Paulo, que o apego à Palavra deve ser “segundo a doutrina”. A palavra “doutrina” no original grego é “ditache” que significa “ensinamento”, isto é, tanto o ”ensinamento” em si como “o ato de ensinar”, a “instrução”.

    Naturalmente Paulo está aludindo à doutrina cristã ortodoxa conforme a sua interpretação.  Devemos lembrar que era ele o instrumento do Senhor para nos transmitir o correto ensinamento dogmático.

    A mesma palavra “doutrina” aparece em 2 Timóteo 4:2, traduzida do vocábulo no original grego sinônimo: “didaskalia”, termo este que é muito mais comum nestas epístolas paulinas (1 Timóteo 1:10). Em Tito 1:9 a palavra parece ter o sentido de “ato de ensinar”. Por isso mesmo trata-se de uma palavra firme que concorda com os “ensinamentos” recebidos.

    Esta “palavra fiel”, precisa estar fundamentada sobre a “instrução” que outros receberam do ministro fiel Paulo (2 Timóteo 2:2). O uso reiterado que Paulo fez do termo em suas epístolas indica a essencialidade da defesa da “ortodoxia“ do seu ensino em oposição aos assaltos que a heresia gnóstica fazia contra a igreja cristã. O presbítero deve estar bem fundamentado para este difícil mister nos nossos dias, defendendo a pureza da doutrina contra as investidas dos erros tão em voga.

    Já examinamos, portanto, a primeira parte desse texto “apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina”. Vamos a ligeiras considerações sobre a segunda parte: “de modo que tenha poder assim para exortar pelo reto ensino, como para convencer os que contradizem”.

    A característica dos hereges era possuir a forma exterior da piedade, mas não o poder prático da mesma. É o que Paulo mostra em 2 Timóteo 3:5... “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. O verdadeiro ministro, munido da sã doutrina, prega uma mensagem revestida de poder. Deve ser “capaz” de exortar e convencer; então, sua mensagem será autêntica e eficaz em contraste com a mensagem dos hereges. Será “capacitado” para o trabalho que lhe compete fazer.

    Nesse texto é usada a expressão grega “dunatos eime” com o sentido de “dunamai”, isto é “ser capaz” , “ser capacitado para realizar” alguma tarefa ou algum dever. Calvino disse: “O pastor deveria ter duas vozes: uma para reunir as ovelhas e a outra para espantar e expulsar os lobos e os ladrões”. O exercício desse poder apontado pelo apóstolo visava em primeiro lugar “exortar”.

    O termo no original grego é “parakaleo”, usado cerca de cento e oito vezes no Novo Testamento, com as ideias de “consolar” e “exortar”.

    No texto em Tito, sob exame, a ”exortação” está em foco, especialmente, para a repreensão das heresias confundindo os hereges para convencê-los e convertê-los a Cristo. A exortação só terá eficácia se for feita através do reto ensino. Trata-se da “doutrina sã” que promove vida e bem espiritual.

    A mesma expressão Paulo usa em outras passagens como em 2 Timóteo 1:13... “mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouvistes”; 2 Timóteo 4:3... “pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina”; Tito 2:1... “tu, porém, fala o que convém à sã doutrina”. Toda a “exortação” cristã deve ser feita mediante o uso dessa sã doutrina, ficando negadas as inovações dos hereges.

    Em segundo lugar, o exercício do poder mencionado objetivava “convencer”. No grego é “elegcho” e significa “reprovar”, isto é, mudar a ideia através da reprovação. Vejamos 2 Timóteo 4:2... “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”; também a palavra pode significar “repreender”; veja Tito 1:13... “repreende-os, para que sejam sadios na fé”; 2:15... “repreende com toda a autoridade”.

    O convencimento deve ser o resultado da reprovação e repreensão. É o que Paulo descreve como atitude assumida através desse processo em 2 Timóteo 2:25-26, a saber: “disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda, não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se ele dos laços do diabo, tendo sido feito cativo por ele, para cumprirem a sua vontade”. A “exortação“ e o “convencimento”, com base na verdadeira doutrina, produzem esses notáveis resultados.

    “Os que contradizem” são os que “falam contra”, “opõem-se e repelem”. No trecho é uma referência direta aos gnósticos que se opunham às doutrina paulina, com a suas doutrinas infundadas. A principal preocupação deles era contradizer os ensinamentos cristãos normais em seus sermões zombeteiros, menosprezando o valor do ensino cristão como inferiores.

    Os mestres gnósticos eram orgulhosos de seu suposto elevado conhecimento. Os que têm liderança nas igrejas têm grande responsabilidade em adotar esta qualificação anotada pelo apóstolo Paulo, como meio de preservação da saúde espiritual do rebanho que o Senhor lhes confiou.

    F I M