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A pregação da Palavra e a sabedoria humana

1 Coríntios 2:1-9

É notória a constatação da acentuada preocupação no atual exercício do ministério predicatório da Palavra com o envolvimento do intelectualismo-teológico e do suporte da sabedoria humana, moldurada com as habilidades oratórias pessoais tecnicamente buscadas. Não desprezamos a natural preocupação em se qualificar pessoalmente bem, com os recursos que Deus põe ao nosso alcance, na prática desse precioso ministério, os quais devem ser adotados com muita humildade, mas sem prejuízo dos valores espirituais que envolvem esse ministério corretamente. O texto desta crônica nos leva a sérias considerações sobre o assunto, no exemplo digno do próprio expositor da matéria, o apóstolo Paulo.
   
Paulo pregava o Evangelho de modo simples. Mas exatamente porque a sua pregação tinha essa característica os resultados demonstraram, de modo convincente, o poder de Deus.

1. Nos versículos 1 e 2, notamos a sua preocupação em ser fiel na atuação predicatória:  

a) Preservando-se para não suportar a pregação na sua capacidade intelectual: “não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria” (v. 1). A expressão “eu” (“koigo”) evidencia ser ele exemplo vivo da verdade que expunha. Mas Paulo não queria “ostentação” pessoal, isto é, evidenciar a sua “superioridade” ou “preeminência”, tanto no que dizia respeito à linguagem (a maneira como expunha os fatos), como quanto à sabedoria (a maneira como a sua mente comandava a exposição dos mesmos). A sua mensagem é dita por ele como “testemunho de Deus”. No Novo Testamento a pregação do Evangelho é, frequentemente, considerada como a atividade de um “arauto”. É a transmissão de uma mensagem dada, incluindo o ato de dar testemunho de dados fatos. É dar testemunho daquilo que Deus em Cristo fez pela salvação do homem. Pregadores não devem ser só oradores, mas testemunhas. A expressão “testemunho” significava, ainda, a operação do conhecimento de Deus na vida do próprio apóstolo Paulo. Alguns manuscritos usam a expressão “mistérios de Deus”. A palavra “mistério” no Novo Testamento tem o sentido de algo que está sendo revelado, não alguma coisa que nos mistifica. Nesse sentido o ensino de Paulo é que Deus Se revela aos que dEle se aproximam em Cristo.  O conhecimento de Deus é, pois, “misterioso” no sentido de que o homem natural, agindo por suas próprias faculdades, não pode recebê-lo (v. 14).     

b) Preocupando-se em ocupar-se com a crucificação de Jesus Cristo: A crucificação é o coração do Evangelho (v 2). Em Gálatas 6:14, Paulo reafirma essa sua essencial atitude predicatória, quando escreve: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”.

2. Nos versículos 3 e 4, Paulo aborda alguns aspectos relativos à sua condição pessoal em contraste com a eficácia da sua palavra predicatória. Quando chegou a Corinto o seu estado de ânimo não era dos melhores. Paulo chegou a Corinto depois de uma experiência desanimadora em Atenas e estava ansioso quanto aos crentes em Tessalônica (Atos 17).  A massacrante impiedade da cidade de Corinto, sem dúvida, contribuiu para sua ansiedade. Seu temor reflete o “angustiado desejo de cumprir o seu dever”. As expressões “palavra” e “pregação” incluem tanto o modo de expor como o conteúdo da exposição. Os dois termos são empregados para salientar tanto a mensagem que pregava como o modo pelo qual pregava. A expressão “persuasiva” é tradução de uma palavra muito rara (só aparece aqui) e refere-se à ineficácia de argumentos racionais, oratória, pressão psicológica, emocionalismo etc. Convicção baseada apenas em argumentos racionais fica à mercê de melhores argumentos, embora necessários para captar o ouvido do descrente (Atos 17:2,17; 18:28; 1 Pedro 3:15). Paulo evita os métodos da sabedoria humana, para afirmar, em contraste, que a sua pregação fora “uma demonstração do Espírito e de poder”. A expressão “demonstração” (apodaxis = gr) significa a “prova mais rigorosa”. A “conclusão” não é apenas lógica, mas certamente verdadeira, porque baseada em premissas verdadeiras. Por isso a sua precária condição pessoal era irrelevante. O resultado não dependia dele ou de como se achasse pessoalmente, mas da manifestação do poder do Espírito. Ao contrário, a fraqueza de Paulo era de fato um auxílio para que o poder do Espírito se demonstrasse (2 Coríntios 12:9), contrariando toda a expectativa dos coríntios, que não compreendiam um pregador sem oratória.

3. No versículo 5, ele deixa claro que a razão desse seu correto procedimento predicatório, era para evitar que os coríntios fossem levados a exalta-lo em lugar de Deus. Paulo queria fundamentar a fé dos convertidos no poder divino e torná-los independentes da sabedoria humana.

4. Nos versículos 6 a 9, Paulo demonstra a relação do Evangelho com a Sabedoria de Deus. Ele ressalta o contraste entre a profundidade e a dignidade do Evangelho com a sabedoria humana, pois aquele incorpora a Sabedoria de Deus, diante da qual toda sabedoria humana se desvanece.

a) No versículo 6, Paulo fala das coisas de Deus para os que são de Deus. A verdadeira sabedoria tem origem em Deus, todo o seu conteúdo dEle é derivado (Jó 28:28... “o temor de Deus é a sabedoria”). Já a sabedoria humana tem numerosos pontos de partida e, igualmente, diversos conteúdos, de modo que nela não há unidade. A expressão “experimentados” (teleioi=gr) significa “perfeitos” e é um termo aplicado no Novo Testamento em relação ao crente, como uma nova criatura, o qual, aos olhos de Deus participa da “perfeição” em Cristo. Não implica “impecabilidade” enquanto estiver na carne (1 João 1:8). Em Cristo o crente tem a experiência das realidades finais.  Paulo persiste no argumento de que a sabedoria de que fala não é “sabedoria deste século” nem dos “poderosos desta época”, referindo-se aí não a demônios, mas às autoridades temporais, remanas e judaicas (Atos 3:17; Marcos 1:24,34). A expressão “que se reduzem a nada” contrasta a verdade do Evangelho, que é permanente, com a transitoriedade da sabedoria humana. O verbo “kartageo=gr” (1:28) tem o sentido de que os mencionados poderosos são completamente ineficientes. O seu vaidoso poder e a sua precária sabedoria se tornam nada e absolutamente inócuos.
 
b) Nos versículos 7 a 9, ele apresenta algumas características da “Sabedoria de Deus”:

I) É de Deus – É a própria Palavra de Deus manifesta. Não tem origem humana

II) É mistério revelado – Uma verdade antes oculta, agora revelada por Deus e aceita somente pela fé. A palavra “misterion=gr”, não tem o caráter de misterioso ou enigma que o homem tem dificuldade em resolver, mas um segredo que o homem é totalmente incapaz de penetrar. Um segredo que agora Deus revelou. Mas também o termo implica na impossibilidade que o homem tem em saber o segredo de Deus e o amor de Deus que torna esse segredo conhecido do homem.   Paulo diz “outrora oculto”, acentuando o fato de que os homens que não estão em Cristo estão ainda às escuras em relação a tal segredo.

III) É preordenada por Deus – O Evangelho não é uma ideia superveniente na mente de Deus, mas coisa planejada e ordenada desde a Eternidade (literalmente “antes das eras”). O verbo grego “proorizo” significa “preordenar”. Isso salienta o plano de Deus e a Sabedoria de Deus.
 
IV) Resulta em glorificação do povo de Deus – Desde a eternidade Deus teve interesse no nosso bem-estar e planejou o Evangelho para alcançarmos a nossa glória, perdida por causa do pecado (Romanos 3:23). Essa glória significa transformação física, perfeição moral e participação do Seu futuro como co-herdeiros (Romanos 8:17-30).
 
V) É desconhecida pelos que não são salvos (v. 8) – O segredo de Deus não foi conhecido por nenhum outro meio que a revelação. Em toda a sua eminência os poderosos deste século não o conheceram, o que os levou a crucificarem o Senhor Jesus Cristo: “não sabem o que fazem” (Lucas 23:24). Se tivessem realmente compreendido quem era Cristo e a enormidade consequente de rejeitá-Lo, nunca teriam praticado o ato que praticaram. A expressão “O Senhor da Glória” é um título preeminente e incomum. Aqui é o único lugar em que é aplicado a Cristo, embora em Tiago 2:1 haja algo semelhante. O epíteto da “Glória” é aplicado ao Pai (Atos 7:2; Efésios 1:17).
VI) É aplicada à vida cristã (v. 9) – O texto aí não corresponde exatamente ao que Paulo teria citado. A expressão “kathos gegraptai=gr” é empregada por Paulo citando as Escrituras, mas não corresponde a nenhuma passagem do Velho Testamento que diga exatamente a mesma coisa. A passagem mais aproximada é em Isaías 64:4. Pode ter sido uma adaptação feita por Paulo. Há quem sugira, ainda, Isaías 65:17 e 52:15. Paulo aplicou o texto à Igreja. O nosso futuro está garantido em Jesus Cristo, independentemente das circunstâncias. Os planos de Deus são tão maravilhosos para o Seu povo que temos dificuldade em alcançá-los com a nossa compreensão através das capacidades que integram a nossa personalidade (olhos, ouvidos ou entendimento).  Não alcançamos com elas a ideia exata das coisas maravilhosas que Deus tem preparado para os que O amam (Romanos 8:28). A expressão “tem preparado” reforça o pensamento do versículo 7, de que Deus está pondo em execução o Seu plano. As glórias que vêm aos crentes não lhes vêm por acaso, mas estão em harmonia com o plano de Deus desde os tempos antigos.

Conclusão: Aprender e aplicar essa preciosa lição de Paulo, subsidiada com o seu próprio exemplo ministerial predicatório, trará benefícios incontáveis na eficácia da pregação da Palavra nos dias que correm.

autor: Jayro Gonçalves.