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A Responsabilidade do Cristão Perante o Mundo - 3

E, assim, se alguém está em Cristo é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas"
2 Coríntios 5:17

Conferência proferida pelo irmão Jayro Gonçalves no Congresso das Igrejas dos Irmãos de Portugal em 17/04/2010

I - O MUNDO COMO ESPAÇO TERRESTRE: DEVEMOS TESTEMUNHAR DO EVANGELHO

4. O QUE NOS FAZ EFICIENTES TESTEMUNHAS:

Anotemos três atitudes essenciais que nos levam ao cumprimento fiel da responsabilidade de testemunhar do Evangelho ao mundo:

• A instrução

A primeira atitude é aplicar-se, diligentemente, na obtenção, contínua e crescente, da instrução contida na Palavra de Deus, necessária para o fiel testemunho do Evangelho. É preciso que sejamos cristãos autênticos para podermos cumprir bem a nossa responsabilidade de verdadeiros evangelistas. Infelizmente a expressão “evangélico“ está vulgarizada, tornou-se um modismo dizer-se que se é “evangélico”, e se tornou conveniente para muitos, pois abre portas que facilitam a obtenção de pretensões humanas de caráter material e satisfazem a escusos interesses pessoais.

É lamentável ver-se a generalização do uso da expressão “evangélico” atribuída a pessoas interesseiras, de baixo caráter moral e de indecente comportamento, sem nenhum compromisso com Deus e com a Sua Palavra, e sem nenhuma capacitação espiritual. Portanto, é a “instrução” o elemento essencial para a nossa capacitação, na realização, com sucesso, de qualquer empreendimento.

Ser “evangélico” autêntico é aquele que está sempre se capacitando espiritualmente, através da constante e crescente instrução evangélica haurida nas Escrituras. No crescimento permanente do conhecimento das verdades evangélicas, nos capacitamos, mais e mais, para um eficiente testemunho do Evangelho. O Senhor Jesus preocupou-Se, sobremodo, em instruir amplamente os Seus discípulos sobre as verdades do Evangelho, tanto pelo Seu ministério verbal, como pelo Seu digno exemplo. Em Lucas 24:44-48, após a Sua ressurreição, na iminência de partir para a Glória, já cumprida a missão que o Pai Lhe entregara, de redimir o pecador, vemo-Lo reunido com os Seus discípulos para lhes dar a última e a mais consistente lição sobre o dever e a maneira de testemunharem do Evangelho no mundo. Diz o texto: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas dessas coisas”.

Sem dúvida, uma “instrução” oportuna, fundamental e abrangente sobre a necessária e fiel atuação evangelística. Note:

  • A base da “instrução” eram as Escrituras (Lei de Moisés, Profetas e Salmos); 
  • Fora isso que sempre lhes falara durante o Seu ministério (“estando ainda convosco”). A “instrução” só aconteceria com a compreensão ampla das Escrituras (“lhes abriu o entendimento”);
  • A Sua missão era o fiel cumprimento das Escrituras (“importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito”);
  • A Sua missão consistia em padecer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia, conteúdo básico do Evangelho;
  • Era fundamental a propagação desse Evangelho, pela pregação do arrependimento para a remissão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém;
  • Os Seus discípulos foram, expressamente, responsabilizados como testemunhas de todas essas verdades (“vós sois testemunhas dessas coisas”).

Essa histórica “instrução” foi fundamental para a expansão do cristianismo no mundo, e tem tudo a ver conosco. Dela dependemos para sermos testemunhas fiéis do Evangelho. O Senhor Jesus, ao comissionar os Seus a esse precioso ministério disse: “fazei discípulos de todas as nações... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado” (Mateus 28:19-20).

Não há como ser uma testemunha fiel sem ser um aluno dedicado e fiel no aprendizado! Jesus Cristo disse: “aprendei de mim” (Mateus 11:29). Os hipócritas religiosos, ao tempo de Cristo, sabiam muito das Escrituras, mas apenas tinham conhecimento intelectual-teológico; mera religiosidade sem nenhuma capacidade espiritual. De nada lhes valia esse tipo de conhecimento teórico. Faltava-lhes a aplicação humilde e correta na busca da “instrução” do Senhor, oriunda das Escrituras. Por isso o Senhor verberou a hipocrisia deles e lhes disse: “errais não sabendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29).

Este foi o Evangelho, ensinado pelo apóstolo Paulo! Apliquemo-nos, intensamente, na capacitação espiritual, somente obtida pela “instrução” do Evangelho, para dele sermos fiéis testemunhas.

• A proclamação

A segunda atitude que nos faz eficientes testemunhas é a prática diligente da proclamação do evangelho. A expressão “testemunhar” tem o sentido de “falar o que se viu”, “o que se sabe”, “do que se teve real experiência”, “do que tem convicção”. Vivo exemplo disso encontramos em Atos 4:18-20 onde se registra a resposta peremptória dada por Pedro e João ao sinédrio, que lhes ordenava que não falassem, nem ensinassem em Nome de Jesus: “não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”. E não se calaram mesmo!

A missão de “proclamar” o Evangelho é irrecusável na atuação do verdadeiro discípulo. Se aprendemos as verdades evangélicas, que tanto nos valem espiritualmente, não há como silenciá-las e deixar de proclamá-las em alto e bom som àqueles que ainda não as conhecem. Não estaremos cumprindo a nossa responsabilidade, como igreja e como cristãos, negligenciando nessa importante área de nosso testemunho. A ênfase que o Senhor Jesus deu, ao nos atribuir essa inescusável responsabilidade perante o mundo, tem caráter imperativo: “ide... fazei discípulos... pregai” (Mateus 28:19; Marcos 16:15); e “sereis minhas testemunhas” (Atos 1:8).

O apóstolo Paulo se declara exemplo vivo dessa irrecusável atitude do verdadeiro cristão: “Se anuncio o evangelho, não tenho do que me gloriar, pois sobre mim, pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Coríntios 9:16).

Há, pelo menos, três modos distintos pelos quais podemos cumprir a responsabilidade de testemunhar o Evangelho ao mundo, como igreja ou como cristãos individualmente considerados:

  • Através do evangelismo público, o que é dirigido às massas. É praticado, em geral, nos cultos normais, em templos e em lugares próprios para grandes auditórios, através de campanhas especiais promovidas pelas igrejas locais. É o que mais se pratica no meio cristão atualmente. Bom é que seja praticado com amor e interesse real pela salvação dos pecadores perdidos, para que não resulte infrutífero! Devem os cristãos darem o seu suporte em oração pelos que pregam e pelos que ouvem a mensagem, bem como devem procurar trazer para esses ambientes coletivos os que ainda estão sem a Salvação.
  • Através do evangelismo missionário, realizado pela atuação de missionários enviados a espaços terrestres muitas vezes longínquos, para alcançar povos e culturas sem o testemunho do Evangelho. O envio e a sustentação de missionários, bem como o acompanhamento do seu trabalho no campo em que se encontram, precipuamente é responsabilidade da igreja local. Nos dias que correm isso não é praticado com a força e amplitude de outros tempos. Os cristãos que não se sentem chamados para irem, devem participar desse tipo de ação evangelística missionária com o seu útil suporte de intercessão e financeiro. Quem não vai, manda!
  • Através do evangelismo pessoal, pela prática do testemunho pessoal do Evangelho que incumbe a cada cristão fazer, nos espaços terrestres que ocupa, aos que nesse espaço venham a se encontrar, sem qualquer preconceito ou discriminação. Creio ser o mais eficiente meio de evangelização, como provam à saciedade, os abundantes resultados alcançados no curso do tempo.
  • Esse eficiente método de evangelismo tem sido utilizado desde o início da igreja e em muitos períodos áureos da sua história, marcando os melhores momentos do seu notório progresso. Lamentavelmente, tem sido deixado de lado, sendo, a meu ver, uma das razões do reduzido progresso na atuação evangelística atual. É porque exige, de cada cristão, consagração, porte espiritual, íntima e permanente comunhão com Deus e com o Seu povo, aplicação séria no exercício da oração, santidade prática evidente e constante, consciência de responsabilidade evangelística, testemunho correto em todas as áreas da vida, paixão pelas almas perdidas.

    Exige, ainda, aplicação esmerada na busca e aproveitamento de oportunidades e na criação de pontos de contacto. Infelizmente há muita carência dessas qualificações espirituais no porte dos cristãos dos nossos dias. Na vida eclesiástica a disciplina é negligenciada, o comportamento espiritual é marcado pela indolência para com os princípios cristãos válidos, constantes da Palavra de Deus.

    Há pouco interesse nas coisas de Deus. Igrejas que mais parecem clubes do que igrejas, preocupando-se com atividades afins, não especificamente de nível espiritual, que pouco ou nada têm a ver com o projeto de Deus para a Sua amada igreja. Esse contexto negativo da igreja resulta na inibição dos cristãos para a prática do eficiente Evangelismo pessoal, anulando, consequentemente, o progresso da Igreja nos nossos dias.

    Foi o evangelismo pessoal que deu vertiginosa e ampla expansão ao cristianismo nos primórdios e no curso da sua história:

    Atos 5:42 – “todos os dias no templo e de casa em casa não cessavam de ensinar e pegar Jesus Cristo”.

    Atos 8:1,4,5 – “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria”... “entrementes, os que foram dispersos iam por toda a parte pregando a palavra... Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo”.

    Mostram-nos esses textos que a igreja em Jerusalém estava voltada para dentro, sem atuação evangelística fora do âmbito do templo. O martírio de Estevão aconteceu para reverter esse quadro de inércia, provocando uma grande investida expansionista do Evangelho, através de ampla e eficiente atuação de evangelismo pessoal praticado por todos os dispersos em várias regiões, por causa da perseguição que se seguiu ao martírio de Estevão.

    Atos 11:19-20 completa esse notável relatório da expansão do Evangelho: “os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estevão se espalharam até a Fenicia, Chipre e Antioquia... anunciando... a palavra... aos judeus... falavam também aos gregos” O expressivo resultado dessa atuação evangelística pessoal foi o surgimento da primorosa igreja em Antioquia, onde os discípulos, pela primeira vez, foram chamados cristãos (v. 26), e de onde teve início a extraordinária e abençoada atuação missionária do apóstolo Paulo (Atos 13:1).

Creio que é tempo de a igreja reverter o quadro de indolência, negligência e desinteresse pelas almas perdidas, empenhando-se, através da atuação eficaz de todos os seus membros, no frutífero trabalho de evangelismo pessoal!

autor: Jayro Gonçalves.