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A ressurreição de Cristo

1 Coríntios 15:1-11

Neste mês de abril celebra-se o auspicioso fato da ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Fato inquestionável que se constitui no fundamento maior da validade da obra da Redenção e da nossa fé. É lamentável que ainda muitos se arvorem, estultamente, em negá-la, buscando anular o valor da notável obra da Graça de Deus, com argumentos fúteis que jamais se sustentam, não resistindo a qualquer análise correta.

No texto acima Paulo trata desse que é um dos mais gloriosos temas do cristianismo. Sendo Corinto uma cidade grega, seus habitantes não acreditavam na ressurreição dos mortos. Ao pregar em Atenas foi Paulo ridicularizado por alguns dos seus ouvintes, por referir-se a ressurreição de Cristo (Atos 17:32). A maioria dos filósofos gregos considerava o corpo humano uma espécie de prisão, considerando a morte uma libertação de escravatura. Alguns cristãos, na igreja em Corinto, negavam que os mortos pudessem ressuscitar (v. 12). Paulo, por isso, inicia demonstrando que não se poderia negar a ressurreição, pois esta é parte integrante da fé cristã. Sem essa esperança, os cristãos seriam “os mais infelizes de todos os homens” (v. 19).

Ele desenvolve a sua argumentação com a afirmação de que a ressurreição de Cristo é fundamental para o Evangelho, e, partindo desse ponto, demonstra que a ressurreição de Cristo implica, necessariamente, na ressurreição do cristão. Afinal, considera algumas objeções levantadas na igreja, demonstrando que eram todas infundadas. A ressurreição dos crentes tem sérias implicações doutrinárias e, também, de ordem prática. Podemos dividir o trecho em três partes:

  • A ressurreição no contexto do Evangelho pregado (vs. 1-4) - Prova escriturística;
  • As provas testemunhais da ressurreição (vs. 5-7) - Provas do testemunho de terceiros;
  • O depoimento de Paulo, corroborado pelo seu comissionamento apostólico, operado pela graça de Deus (vs. 8-11) - Prova do seu testemunho pessoal.

1.  A ressurreição no contexto do Evangelho pregado (vs. 1-4)

(I) - A compreensão correta do Evangelho (vs. 1-2) – Ao inserir o tema da ressurreição na pregação do Evangelho, faz concisa, mas profunda e forte definição dessa gloriosa mensagem. Lembrando os irmãos o Evangelho (v. 1), não lhes diz, apenas, que o pregara, mas que o fizera conhecido deles. O verbo no grego “gnorizo” aí traduzido por “lembrar”, tem o sentido de “feito conhecido”. O erro deles estava no fato de não apreciarem o Evangelho no seu conteúdo total, no seu verdadeiro significado. Por isso, Paulo afirma “o qual recebestes”, usando um verbo que, no original, tem o sentido de um ato único de recebimento. Acrescenta ainda: “no qual ainda perseverais”, isto é, nessa verdade é que deviam estar firmados.

No v. 2 ele aumenta a força do seu argumento a respeito do conteúdo completo do Evangelho, ao dizer-lhes: “por ele também sois salvos”. O Evangelho é o meio que Cristo usa para efetuar a salvação. A expressão “sois salvos” está no presente contínuo, significando: “estais sendo salvos”. A salvação acontece no ato da fé (recebido uma vez por todas, como o momento a que se referiu no v. 1: “o qual recebestes”), mas também tem um sentido progressivo como em 1:18 e 2 Coríntios 2:15. É para esse caráter progressivo da salvação que Paulo aponta na sua argumentação.

A salvação não se esgota com a experiência que se dá no momento da fé salvadora. É algo que progride, de força em força, de glória em glória. É nesse sentido que ele usa a expressão “se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei” (v. 2). Essa expressão tem o sentido de “se mantiverdes firmes”. Ao afirmar “a menos que tenhais crido em vão” refere-se à possibilidade de uma crença fundada em base errada, ou sem a percepção clara e completa de todos os aspectos da nova vida operada pela salvação progressiva. E essa percepção implica, necessariamente, em compromisso sério com as verdades que a mensagem do Evangelho encerra, aplicáveis a todos os aspectos da vida cristã, no presente e na eternidade.

Infelizmente hoje muitos dos que se dizem “salvos”, longe estão de compreenderem o amplo significado do Evangelho, no seu contexto doutrinário e prático. Por isso vivem mal como cristãos e não alimentam a segura esperança sobre a eternidade. Concluímos, do que já vimos, que há quatro pensamentos básicos no conceito do evangelho:

  • O Evangelho deve ser pregado;
  • O Evangelho deve ser recebido;
  • No Evangelho deve-se permanecer;
  • O Evangelho opera a salvação no sentido amplo.

(II) – O conteúdo escriturístico do Evangelho (vs. 3-4) – Ao tratar do conteúdo do Evangelho, Paulo acentua a natureza derivativa do mesmo. Não foi Paulo quem deu origem à mensagem que lhes transmitiu. Era algo que ele próprio recebera (“antes de tudo vos entreguei o que também recebi” v. 3). Note os verbos “recebi” e “entreguei”. Que consciência notável da sua responsabilidade evangelística! Como hoje nos falta esse tipo de atitude! A expressão “antes de tudo”, provavelmente não se refere ao tempo, mas à importância do fato. Tal maneira de colocar as coisas faz-nos ver da importância de se pregar o Evangelho como nos foi deixado pelo Senhor originalmente (gr= kerigma). É tão comum, hoje em dia, a apresentação da mensagem do Evangelho totalmente distorcida da verdade original, para servir aos interesses imediatistas das contingências modernas. A seguir, Paulo faz menção ao conteúdo do Evangelho:

a) - “Cristo morreu pelos nossos pecados” (v. 3) – A cruz está no coração do Evangelho. Temos aí a importância da Sua morte expiatória. Essa expressão é a explicação teológica dos fatos históricos. Muitos foram crucificados pelos romanos, mas somente um morreu pelos nossos pecados. A expressão “segundo as Escrituras” indica que o Evangelho não foi nenhuma ideia surgida por acaso ou inesperadamente. A morte scrificial e expiatória de Cristo foi algo predito muito tempo antes nas Escrituras. Paulo não menciona passagens específicas, mas ao usar essa expressão estava se referindo ao Velho Testamento. Muito do sistema sacrifical, no Velho Testamento, apontava para o sacrifício de Cristo, como nosso substituto e Salvador: o anual Dia da Expiação (Levítico 16) e as profecias, como Isaías 53, deveria estar na sua mente.

b) - “foi sepultado” (v. 4) – É muito breve a menção que Paulo faz ao sepultamento do Senhor. O fato, porém, é mencionado nos quatro Evangelhos.

c) - “ressuscitou ao terceiro dia” (v. 4) – A expressão, no original (gr=egegertai), está no tempo perfeito e é empregado desse modo mais seis vezes no capítulo 15 (vs. 12, 13, 14, 16, 17, 20) e só duas vezes em todo Novo Testamento, indicando uma condição continuada. Cristo continua no caráter de Senhor ressuscitado. Não há evidências explícitas no Velho Testamento quanto à ressurreição dar-se no 3º dia. A expressão “segundo as Escrituras” deve ser entendida referindo-se à ressurreição pròpriamente dita. Mas há circunstâncias que conduzem ao fato mencionado por Paulo (“ao terceiro dia”). O Senhor Jesus mencionou a experiência de Jonas (Mateus 12:38-41). O próprio Paulo comparou a ressurreição de Cristo com as “primícias” e as primícias eram apresentadas a Deus sempre no dia depois do sábado, seguindo a Páscoa (Levítico 23:9-14; 1 Coríntios 15:23). Desde que o sábado é o sétimo dia, o dia depois do sábado será o primeiro dia da semana, ou seja, domingo, o dia da ressurreição do Senhor, cobrindo-se, assim, os três dias do calendário judaico. À margem da festa das primícias, outras referências proféticas sobre a ressurreição do Messias são encontradas no Velho Testamento: Salmo 16:8-11 (veja Atos 2:25-28); Salmo 22:22 (veja Hebreus 2:12); Isaías 53:10-12 e Salmo 2:7 (veja Atos 13:32-33). O significado da ressurreição envolve três aspectos: (1) “para Cristo”: Provou que Ele era o Filho de Deus (Romanos 1:4) e confirmou a verdade do que Ele dissera (Mateus 28:6). (2) para todos os homens: Torna certa a ressurreição de todos (1 Coríntios 15:20-22) e garante a certeza do juízo vindouro (Atos 17:31). (3) “para os crentes”: Dá a certeza da aceitação perante Deus (Romanos 4:25), supre poder para o serviço cristão (Efésios 1:19-22), garante a ressurreição do crente (2 Coríntios 4:14), designa Cristo como Cabeça da Igreja (Efésios 1:19-22) e garante-nos um Sumo Sacerdote misericordioso no céu (Hebreus 4:14-16).

2.  As provas testemunhais da ressurreição (vs. 5-7)

Na cruz o Senhor Jesus foi exposto aos olhos de descrentes, mas após a Sua ressurreição foi visto por crentes que poderiam ser testemunhas oculares da Sua ressurreição (Atos 1:22; 2:32; 3:15; 5:32). Pedro O viu, como também os discípulos coletivamente (Atos 10:40-42). O aparecimento a Cefas (Pedro) vê-se em Lucas 24:34 (conforme Marcos 16:7). A expressão “depois, aos doze” representa um título geral de identificação dos apóstolos, pois Judas não estava lá, sendo referência ao aparecimento do Senhor ocorrido na noite do dia da Páscoa (Lucas 24:36 e seguintes, e João 20:19 e seguintes, Tomé também não estava nessa ocasião). O aparecimento a “mais de quinhentos irmãos” pode ser o referido em Mateus 28:16 e seguintes. A afirmação de que “a maioria sobrevive até agora” demonstra a confiança com que Paulo alude a tal testemunho coletivo. Paulo afirma que todos viram “de uma só vez”, o que anula qualquer hipótese de alucinação. Tiago era um meio irmão do Senhor que se tornou crente depois que o Senhor lhe apareceu. Sabemos que os irmãos do Senhor não criam nEle durante o Seu ministério (João 7:5), mas os vemos entre os crentes em Atos 1:14. A expressão “mais tarde por todos os apóstolos” deve ser referente à aparição ocorrida quando da ascensão (Atos 1:1 e seguintes).

3.  O depoimento de Paulo, corroborado pelo seu comissionamento apostólico, operado pela Graça de Deus (vs. 8-11)

Paulo se apresenta como uma das mais expressivas e fortes testemunhas da ressurreição de Cristo. Como descrente, tinha plena e irremovível convicção de que o Senhor Jesus continuava morto. A radical mudança da sua vida - o que lhe trouxe perseguição e muito sofrimento - era, sem dúvida, resultado da indiscutível realidade da ressurreição do Senhor Jesus, que ele mesmo teve oportunidade de constatar pessoalmente. Paulo coloca a visão que teve no caminho de Damasco no mesmo nível das outras aparições da ressurreição. Pensa em si como o último da fila dos que viram o Senhor, “um nascido fora do tempo”, ou seja, nascimento fora da época própria, na família apostólica (aborto). Essa expressão talvez se refira à salvação futura de Israel quando os judeus, como nação, tal como Paulo, verão o Messias em glória. A manifestação a Paulo foi a última a ser registrada por ser um ou dois anos após a ascensão. Paulo era um apóstolo autêntico, porque viu o Senhor pessoalmente e foi comissionado por Ele (Atos 22:14 e seguintes). Seu depoimento era, assim, corroborado pelo seu comissionamento apostólico, resultante da sua visão pessoal do Cristo ressurreto. Paulo se declara “o menor dos apóstolos” (v. 9), dando a entender que a sua reputação anterior fê-lo o menor de todos eles. Na verdade, afirma, “não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus” (v. 9), mas Paulo foi apóstolo no sentido mais completo (2 Coríntios 11:5; Gálatas 2:11).

No versículo 10 Paulo enfatiza que a sua salvação e o seu comissionamento apostólico tinham sido um ato da Graça de Deus. Tal Graça operou nele e por intermédio dele. Paulo atribuiu tudo o que fez à ”graça de Deus”. Esta sozinha o transformou de perseguidor em zeloso pregador. Longe de ser vã (“não se tornou vã” - gr=kene, isto é “vazia”, “sem conteúdo”) ela o fizera “trabalhar muito mais do que todos eles”. O sentido, no original, é “muito mais do que todos eles juntos”! A graça de Deus possibilitou a realização de um maravilhoso volume de trabalho. É bom notar a maneira como ele conclama a exclusividade da atuação da Graça de Deus através dele: “todavia não eu, mas a graça de Deus comigo”! Não queria ser mal interpretado, como se estivesse a reivindicar créditos especiais na obra do Senhor. Não foi o homem Paulo, mas a Graça de Deus que fez a obra. Aprendamos essa bela lição de humildade e de confiabilidade na Graça de Deus, para que Deus possa fazer o que desejar por nosso intermédio.

No versículo 11 ele volta a ressaltar a importância do Evangelho que se deve pregar e no qual se deve crer, à margem da instrumentalidade humana. Paulo já salientara que recebera o Evangelho e que não o originou (v. 3). Enumerou alguns dos mais importantes pontos dessa mensagem apostólica, mencionando, em particular, provas da ressurreição. Agora ele pode afirmar que é a mensagem comum dos pregadores. O verbo “pregamos” é presente contínuo. Paulo está indicando o modo como ele e todos os outros apóstolos pregam habitualmente. Esse é o Evangelho autêntico, o Evangelho que todos os apóstolos fazem seu costume de proclamar. Foi nesta mensagem, não noutra, que eles tinham crido quando se tornaram cristãos. Qualquer outra coisa é inovação. Cuidado com o que se prega hoje em dia!.

Conclusão: Como diz Paulo, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé (15:14). Celebremos com júbilo e convicção o fato auspicioso da ressurreição de Cristo, na expectativa certa de logo encontra-Lo nos ares e estarmos para sempre com Ele (1 Tessalonicenses 4:17).

autor: Jayro Gonçalves.