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Igreja modelo em Tessalônica

1 Tessalonicenses 1:1-10

INTRODUÇÃO

O que é um modelo? É elemento fundamental e indispensável na “produção” de coisas ou nas “realizações” da vida. Exemplos: na produção industrial da moda, dos bens duráveis ou não duráveis, da construção e de outros itens, das diversas áreas industriais que devem ser produzidos em série e oferecidos ao consumo em condições de uso; nas realizações, de qualquer ordem e caráter, que devem servir na formação de opinião correta ou na prestação de serviços essenciais à vida humana. Para ser obtido, o “modelo” passa por um processo longo, trabalhoso e de difícil realização, que requer o fiel atendimento a requisitos e padrões preestabelecidos e bem definidos.

No âmbito espiritual o “modelo” não foge a esse tipo de processo, tendo por base inquestionável os requisitos e os padrões estabelecidos por Deus em Sua Palavra. O “modelo” espiritual é forjado por Deus, através da Sua Palavra e da atuação ampla do Espírito Santo (Salmo 119:105; 2 Timóteo 3:14-17; João 1:16-17,26; 16:13-15).

O “modelo” para ter eficácia e funcionalidade aprovada deve se submeter aos seguintes requisitos básicos, sem os quais deixa de ser “modelo”:

1. Não ter defeitos quando disponível para utilização;
2. Ser referência indispensável em todo o processo de utilização;
3. Manter as características de perfeita utilização.

No trecho base para este estudo, “IGREJA MODELO”, o apóstolo Paulo se dirige à igreja em Tessalônica, cuja implantação ele sofridamente participou, afirmando que se tornou ela “modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia”. Impressiona a menção de caráter total que Paulo faz a respeito do fato: “modelo para todos os crentes...”.

A igreja Tessalônica era o “modelo” para todos. Fosse qual fosse o tipo de crente, no seu estágio espiritual, na sua atividade desenvolvida, estava o modelo correto dessa igreja a nortear a gloriosa Obra do Senhor através do Seu povo em toda aquela região; e não era pequena a extensão geográfica abrangida: “na Macedônia e na Acaia”.

Mas, notemos como essa igreja começou (Atos 17:1-9): com muita confusão, oposição e perseguição! Entretanto, no suporte de inúmeras e tremendas dificuldades e incompreensões dos religiosos da época, o Espírito Santo forjou essa igreja, que se apegou com firmeza à Palavra da Verdade que lhe foi anunciada, e assim se tornou nesse belo modelo de igreja, que Paulo destaca, com cores fortes, nessa instrutiva carta!

Por isso, diz: “Damos, sempre, graças a Deus, por todos vós, em nossas orações e sem cessar recordando-nos, diante de nosso Deus e Pai da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (vs. 2, 3).

Recorda, ele, diante de Deus, as características básicas do modelo que passaremos a examinar.

I - A OPEROSIDADE DA FÉ

Ele começa com uma das três chamadas “virtudes cristãs” (1 Coríntios 13:13). A FÉ é uma delas.

  • A FÉ é essencial à relação do homem com Deus e à sua correta utilização, na plena vontade de Deus, na experiência de sua vida. O primeiro pecado cometido pelo ser humano, ainda no Éden, foi a prática da “incredulidade”. Duvidando da Palavra de Deus o homem caiu na desgraça da pecaminosidade. A “incredulidade” afasta o homem de Deus e o coloca na inutilidade total (2 Coríntios 4:4, conforme romanos 3:12). A FÉ aproxima o homem de Deus e o capacita a ser por Ele usado (Hebreus 11:6);
  • Pela FÉ somos salvos (Efésios 2:8). Trata-se, aí, da FÉ estática, manifestação de vontade do pecador, na crise do reconhecimento do seu pecado, sua confissão sincera e sua entrega incondicional e submissa ao Senhor Jesus, recebendo-O como seu Salvador pessoal e Senhor de sua vida, à vista da Sua Obra redentora, na qual passa a confiar plenamente. Muitos a denominam “Fé Salvadora”.
  • Mas a FÉ, também, é essencial ao desenvolvimento da vida cristã, à formação do “homem espiritual” e à realização da plena vontade de Deus, utilizando-nos no Seu glorioso serviço, com resultado eficaz nos frutos alcançados, segundo o Seu soberano propósito, como se lê em Hebreus 11:6... “sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus CREIA que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. Trata-se, aí, da chamada “Fé dinâmica”.

    É a atitude correta do cristão, submetendo-se aos ditames da Palavra de Deus, única norteadora do comportamento do verdadeiro cristão, para encontrar a senda da realização da vontade de Deus em tudo o que se envolva. É, pois, a FÉ, nessas circunstâncias, essencialmente dinâmica. É ela que abre as estradas das realizações de Deus através da vida do cristão, que a exercita com fidelidade.
  • Em Hebreus 11:1-3 encontramos uma excelente conceituação da FÉ, no seu verdadeiro sentido escriturístico, onde se destaca:

a) A FÉ é incompatível com a dúvida;
b) A FÉ viabiliza o futuro e o impossível;
c) A FÉ anula as incertezas e a insegurança;
d) A FÉ nos faz obter um “bom testemunho” (é o que o Senhor mais deseja de nós);
e) A FÉ agiliza a “razão” e nos traz o verdadeiro “conhecimento”, fazendo-nos entender Deus, as Suas atitudes e a Sua Palavra.

A FÉ vai, pois, além do racional. O “conhecimento” humano lastreia-se no empirismo. Baseia-se, apenas, nos princípios científicos; estes resultam das experiências humanas. Só é verdadeiro o conhecimento que se submete aos princípios científicos, estes sempre resultantes do empirismo. O “conhecimento” aí é sobremodo precário e falível, pois se sustenta na “verdade relativa” dos fatos experimentados.

O “conhecimento” humano submete-se ao seguinte processo: experiências, princípios científicos e conhecimento. A FÉ, entretanto, não só leva a razão a ampliar o âmbito do “conhecimento”, como lhe dá a segurança da VERDADE ABSOLUTA, pois faz o homem estar convicto de fatos que não podem ser experimentados, mas que são verdadeiros, porque afirmados pela Palavra de Deus.

Deus é infalível e a VERDADE por Ele enunciada é ABSOLUTA! Esse é o sentido de: “pela fé entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. A FÉ consolida em nós o “conhecimento”, através da “convicção” da VERDADE, que ela propicia, e não através da “experimentação”, que subsidia o “intelecto” para a conceituação dos falíveis princípios científicos!

Paulo, ao referir-se ao modelo de FÉ da igreja em Tessalônica, afirma-a “OPEROSA” dizendo: “operosidade da vossa fé”. A Fé não deve ser um elemento de conteúdo apenas intelectual, um saber teológico, mas uma experiência efetiva e permanente no comportamento do cristão, para ter sentido prático e útil.

Se a FÉ não opera nada, se não se evidencia em termos de realizações práticas, nada vale! É, apenas, “rótulo religioso”, não “experiência espiritual”. Por isso o escritor sagrado, em Hebreus 11:6, descreve a Fé em termos de ação ampla, quando diz: “sem fé é impossível agradar a Deus”. Essa expressão pressupõe “ação”, “operosidade”. O mesmo se observa em outras expressões desse texto: “se aproxima de Deus”; “creia que ele existe”; e “galardoador dos que o buscam”.

Todas essas expressões são descritivas da “operosidade da FÉ”, tanto na atitude dos que a exercem (veja os verbos: “se aproxima”, “creia”, “buscam”); como nos resultados que alcançam (veja a expressão “galardoador”) o que pressupõe obtenção de recompensa do Senhor em razão do que for feito. Em todo o processo de exercício da Fé a “operosidade” é fundamental, indispensável e imprescindível!

Vejamos três aspectos da “operosidade” da FÉ:

a) A Fé deve Ser “operante” para NORTEAR o comportamento da experiência cristã. Quem não evidencia FÉ operante revela-se pusilânime, indolente, inconstante, ineficiente e, afinal, incapaz de ter o comportamento cristão adequado à realização da vontade do Senhor. Não chega a lugar nenhum, não alcança nada. Torna-se inútil!

b) A FÉ deve ser “operante” para VIABILIZAR as realizações dos propósitos do Senhor na nossa experiência de vida, apesar das circunstâncias adversas e opositoras da experiência cristã. A extraordinária lista de heróis da Fé que temos em Hebreus 11 é uma larga demonstração dessa verdade! Veja o verso 2: “pela fé, os antigos obtiveram BOM TESTEMUNHO”; ainda o verso 39: “Ora, todos esses que obtiveram bom testemunho por sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa”. O contexto fala, amplamente, das agruras terríveis que suportaram no exercício da sua fé! Mas ALCANÇARAM o BOM TESTEMUNHO! Somente a Fé “operante” faz isso!

c) A FÉ deve ser “operante” para nos fazer ALCANÇAR os resultados que o Senhor deseja na nossa experiência cristã. Muitos ficam pelo caminho! Como diz o hino: “quantos que corriam bem, manquejando agora vão” (H&C 243). Mas quando exercitamos a FÉ “operante” chegaremos, sempre, ao termo final da carreira, no tempo certo e o mister ultimado, consoante o querer do Senhor!

Quão glorioso é o testemunho final que Paulo dá, nesse sentido, ao termo da sua gloriosa carreira: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a Fé” (2 Timóteo 4:7). Não é uma afirmação de ter chegado ao fim da vida, mas de tê-la levado ao fim do propósito do Senhor, sem deixar nada por fazer! Quem propõe a carreira é o Senhor. Veja o texto: “corramos a carreira que nos está proposta” (Hebreus 12:1).

 


II. A ABNEGAÇÃO DO AMOR

Reporta-se Paulo, agora, à segunda característica da Igreja em Tessalônica como MODELO, dizendo: “à abnegação do vosso amor” (v. 3). O AMOR é outra das chamadas virtudes cristãs (1 Coríntios 13:13).
■O AMOR é a marca dos grandes! Dos que realizam sem o detestável recurso da prepotência ou do autoritarismo. É a arma mais poderosa das realizações que valem a pena. Que constroem. Que ficam. Que não se apagam. Monumentos indestrutíveis da história verdadeira da grandeza do ser humano! O AMOR não é mero sentimento. É atitude! O AMOR é, acima de tudo, um ingrediente primordial da ação Divina! Veja João 3:16... “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Vemos aí claramente evidenciada a espontânea atitude Divina, desinteresseira, graciosa e sacrificial (conforme Romanos 5:8). Em toda a Sua manifestação de vida humana o Senhor Jesus foi a personificação essencial do AMOR. Mesmo nas atitudes em que teve de repreender, censurar, reprovar e até, castigar, fê-lo com uma indisfarçável e sublime atitude de amor! (João 5:14; 3:1). Isso não significou Seu comprometimento, ou transigência com o pecado, e com os erros de comportamento que feriam a ética de Deus.

Ele foi rigorosamente intransigente com o cometimento de pecado, mas nunca, ao manifestar essa intransigência, deixou de amar, pois a aplicação da disciplina necessária, subsequente à efetiva exortação, não é dispensável à santidade que Deus exige do ser humano, assim o impunha.
■Deus nos criou no AMOR, com capacidade para AMAR e com vocação eterna de AMAR, pois fomos criados à Sua imagem e semelhança. Deus é AMOR (1 João 4:8,16). O propósito básico de Deus ao criar o ser humano, claramente definido na Bíblia, foi para que O amasse e amasse ao seu próximo. O Senhor Jesus deixou isso bem claro em Mateus 22:34-40.

Aí vemos alguns princípios fundamentais da essencialidade do exercício do AMOR pela criatura, na realização do sublime propósito de Deus para o homem:

a) O homem DEVE (mandamento maior) amar a Deus, em manifestação integral do seu ser: de todo o seu coração (emoção); de toda a sua alma (vontade); de todo o seu entendimento (intelecto). Note o sentido necessário da “totalidade” do seu ser no exercício essencial do amor pelo ser criado para com o seu Criador: “todo o seu coração”, “toda a sua alma” e “todo o seu entendimento”. O amor só é AMOR quando a atitude é integral e total! Não se pode amar pela metade! Ou se ama totalmente ou não se ama! Esse é o exemplo notável do amor de Deus para conosco!

b) O homem DEVE (ainda mandamento maior, porque, embora sendo o segundo na enunciação, no dizer de Cristo é semelhante ao primeiro) AMAR ao SEU PRÓXIMO. O paradigma do Senhor para o exercício desse tipo de amor é sobremodo desafiante e nos compromete tremendamente! Diz o Senhor: “como a ti mesmo”.

c) A autêntica ESPIRITUALIDADE só pode ser alcançada através do exercício do AMOR. É o que se depreende do dizer de Cristo no verso 40... “destes dois mandamentos dependem TODA A LEI E OS PROFETAS”. Jesus Cristo está enfatizando a inutilidade da religiosidade aparente sem o exercício do amor! Por isso ela se torna vã! A expressão “lei e profetas” define o exercício religioso, tão ao gosto dos religiosos hipócritas do seu tempo, sem nenhum resquício de amor em suas atitudes. Para Deus isso vale nada! É esse um mal de todos os tempos. Vemos, hoje, muitos com aparência de religiosidade, mas carentes do essencial para dar autenticidade ao seu comportamento cristão: o AMOR. Deus não quer “religiosos”, mas "espirituais” e a espiritualidade só se alcança com o exercício efetivo do amor a Deus e aos outros!
■O apóstolo Paulo deixa-nos uma recomendação de profundo conteúdo espiritual para o comportamento cristão quando escreve as exortações finais para a Igreja em Corinto: “todos os vossos atos sejam feitos com amor” (1 Coríntios 16:14). Que notável exortação! Quando levamos a sério essa advertência oportuna de Paulo, nossa vida tem sentido verdadeiro. Passa a valer a pena perante Deus e aos nossos semelhantes! Não é fácil, mas é essencial. Que o Senhor nos ajude a alcançar esse tipo de atitude.
■Cabe-nos ainda conferir o que ensina o notável “apóstolo do amor”, o evangelista João, em sua preciosa e amorável primeira carta (1 João 4:7-21). Destacamos, apenas, alguns pontos importantes:


a) Deus é AMOR – vs. 8,16;

b) O AMOR procede de Deus – vs. 7, 8;

c) O AMOR é provisão graciosa de Deus. Veja o verbo: “enviado” (v.9) e “enviou” (v. 10);

d) Só os nascidos de Deus podem AMAR – v. 7;

e) A prática do AMOR está ligada ao conhecimento de Deus – vs. 7,8;

f) O AMOR é dever pessoal – vs. 11, 20, 21. Veja as expressões “devemos” e “ame”; este último verbo está no modo imperativo. Veja, ainda, as passagens paralelas: Lucas 6:32-36; João 13:3; Romanos 12:9-10;

g) O AMOR exige comunhão com Deus – vs. 12, 13, 15, 16. Veja nesses versículos a expressão “permanecer”: Deus permanece em nós; permanecemos nEle; quem permanece no AMOR permanece nEle;

h) O AMOR produz confiança – v. 17;

i) O AMOR afasta o medo – v. 18;

j) O AMOR aperfeiçoa-se em nós – vs. 12, 17, 18.
■Oferecemos “quatro” testes do nosso AMOR:


a) Quem ama ocupa a sua mente com a pessoa amada – Salmo 143:5; 48:9; 1 Coríntios 2:16; Colossenses 3:2;

b) Quem ama busca conhecer mais a pessoa amada – Filipenses 3:8-10; 1 Pedro 4:8; 2 Coríntios 2:13-14 (“manifesta em nós a fragrância do seu conhecimento”);

c) Quem ama se entristece quando peca contra a pessoa amada – Neemias 1:3-11; 1 João 1:5-10; 2:15-17;

d) Quem ama tem prazer em obedecer à pessoa amada – Salmo 1:2; 1 João 2:5-6.
■Ao mencionar a Igreja de Tessalônica como “Modelo de Igreja” o apóstolo Paulo qualifica o seu AMOR com a expressão “ABNEGADO” (latim = “abnegatto”). Ele diz: “da abnegação do vosso amor” (v. 3). Essa expressão dá uma cor bem forte e muito especial ao exercício do amor dos tessalonicenses. A expressão “abnegado” é composta do prefixo “ab”, o qual, no latim, tem o sentido de “ausência” e da palavra “negado”, cujo sentido é “recusar”, “renunciar”, “abster-se”. Essa palavra composta significa, pois, abster-se totalmente, renunciar de forma irreversível. O seu conceito traz implícita a ideia de “sacrifício”.

Um bom exemplo é o de Abraão, quando renunciou o seu filho Isaac, dispondo-se a sacrificá-lo, por amor a Deus, amor tão grande que o fez disposto a obedecer ao Senhor, aceitando o pagamento do alto preço que lhe foi cobrado. “Abnegar-se” é renunciar a sua própria vontade, a favor da vontade de outro. Um desprendimento total e desapego completo de tudo que não diga respeito a Deus e ao Seu propósito para as nossas vidas. Foi o que aquela igreja modelar demonstrou. Que exemplo notável para nós! É, historicamente, uma das principais virtudes do exercício consagrado do ministério.
■Apresentamos “cinco” aspectos da ABNEGAÇÃO DO AMOR:


a) A “abnegação do amor” permite que possamos ENTENDER as situações, sejam elas quais forem, no necessário exercício do AMOR;

b) A “abnegação do amor” permite que o cristão SUPORTE as incompreensões, indiferenças, contestações e até perseguições que, muitas vezes, ocorrem no seu exercício necessário do amor;

c) A “abnegação do amor” faz com que, no necessário exercício do amor, o cristão BUSQUE a restauração dos outros, mesmo quando caídos por comprometimento consentido com o pecado, inclusive, na aplicação necessária da disciplina bíblica (Hebreus 12:5-12);

d) A “abnegação do amor” faz com que, no exercício necessário do amor, o cristão RENUNCIE aos seus próprios interesses em jogo, a sua vontade própria, as suas perspectivas vantajosas, para realizar e sustentar a felicidade dos outros;

e) A “abnegação do amor” faz com que, no exercício do amor, o cristão PRIORIZE sempre o outro, as suas carências, as suas necessidades, os seus problemas, as suas angústias e as suas perplexidades, aplicando-se, totalmente, com todos os recursos pessoais e materiais ao seu alcance, para solucionar, em primeiro lugar, a situação do seu semelhante.


III. FIRMEZA DA SUA ESPERANÇA

Diz ele: “da firmeza da vossa esperança” (v. 2). Volta a mencionar uma das três virtudes cristãs (1 Coríntios 13:13).

1. A ESPERANÇA

Um ditado popular, muito conhecido, diz: “a esperança é a última que morre”. Reflete ele o sentimento generalizado das pessoas sobre a expectativa de poderem chegar onde pretendem ou alcançar o que desejam, apesar das sucessivas frustrações e das respectivas tentativas de conquista. Mas note que ele põe um limite natural à esperança, que é o do término da vida física humana. O dicionário informa (Caldas Aulete) que “esperança” é a expectativa de um bem, cuja posse se reputa provável; é a tendência de espírito para considerar como provável a realização de um bem que se deseja. O verbo “esperar”, no mesmo informe, é ter como provável ou certo o obter alguma coisa, contar com a realização de coisa desejada, provável ou prometida.

Desses conceitos concluímos que a “esperança”, do ponto de vista humano: a) é sempre uma expectativa de se possuir ou realizar algo; b) carece de segurança ou certeza da realização; c) pressupõe a frustração; d) pode sempre ser renovada; e) limita-se ao termo da existência física do esperançoso. Essa é uma concepção meramente humana.

Do ponto de vista bíblico as coisas funcionam de forma diferente. Os salmistas, inúmeras vezes, se utilizaram adequadamente dessa expressão, ou de outras dela derivadas, para cantar e exaltar a bênção que a “esperança” representa no contexto mais aflitivo e opressor da vida, sendo uma concessão bondosa do Senhor aos que o buscam com sinceridade e verdade (Salmos 25:2; 27:14; 33:20; 37:34; 38:15; 40:1; 42:5,11; 52:9; 59:9; 62:1,5; 69:6; 119:74,81,82, 147,166).

São muitas as passagens bíblicas que a mencionam, como a solução divina, que extrapola as possibilidades humanas, nas expectativas das suas realizações e das suas conquistas, as quais, inclusive, ultrapassam o limite da existência física e penetram na “eternidade”!

Vejamos algumas características bíblicas da “esperança”:

a) A nossa ESPERANÇA é uma concessão da GRAÇA de Deus, à vista da situação do homem, em razão da sua pecaminosidade: “espera pelo Senhor, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo Senhor” (Salmo 27:14); “tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus” (1 Pedro 1:21); “porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis” (1 Timóteo 4:10).

Que contraste entre a “esperança” humana, que se sustenta na precariedade dos recursos do homem e nas frágeis concepções da sabedoria humana, com a ESPERANÇA que nos sustenta espiritualmente, que vem de Deus, e está eternamente em Deus, como manifestação extraordinária da Sua GRAÇA, em termos de imensa misericórdia, como afirma o profeta Jeremias: “as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lamentações 3:22-23). A nossa ESPERANÇA vem de Deus e só se encontra em Deus;

b) A nossa ESPERANÇA é VIVA: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma VIVA ESPERANÇA, mediante a ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:3). Contrasta-se com a esperança humana pelo fato de que esta se limita à realidade existencial física do ser humano. Rende-se, melancolicamente, ao fato inevitável da experiência mortal. Morre com o homem! Ao contrário, a nossa ESPERANÇA jamais perece, por que é VIVA, ultrapassando a dramática consequência do pecado, que é a morte. Como afirma Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55);

c) A nossa ESPERANÇA é ETERNA. Paulo afirma em Tito 1:2... “na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos”. A eternidade dessa Esperança tem a ver com a própria realidade Divina (Deus é Eterno) e com os Seus propósitos, que sempre são eternos;

d) A nossa ESPERANÇA é BENDITA. Foi assim que Paulo a chamou em Tito 2:13... “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”. Esse singular aspecto tem a ver com a Glória de Deus, porque quando ela se manifesta em nós Deus é glorificado, seja na presente dispensação, seja na futura. Por isso, Paulo relaciona esse aspecto com a manifestação da glória de Deus na Sua vinda para nós, a qual é chamada de “bendita esperança”;

e) A nossa ESPERANÇA resulta da NOVA VIDA em Cristo. O apóstolo Pedro afirma em 1 Pedro 1:3... “nos regenerou para uma viva esperança”. Paulo ensina em Efésios 2... “nos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados” (v. 1); “naquele tempo, estáveis sem Cristo... não tendo esperança e sem Deus no mundo” (v. 12). É pela regeneração, necessidade essencial do ser humano (veja João 3:3-8), que o homem adquire tal ESPERANÇA, com a apropriação dos valores espirituais que dela decorrem;

f) A nossa ESPERANÇA é a garantia do usufruto das bênçãos de Deus, no presente e no futuro. Várias são as menções de bênçãos garantidas aos verdadeiros cristãos: “a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segunda a esperança da vida eterna” (Tito 3:7); “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1 João 3:2,3); “esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pedro 3:12,13). Os privilégios nossos decorrentes dessa ESPERANÇA são inauditos e incomparáveis! Não se trata de uma mera expectativa, de uma experiência eventual, dependendo de circunstâncias supervenientes fora do nosso controle, mas de algo garantido pela Palavra do Senhor.

g) A nossa ESPERANÇA é o Senhor Jesus Cristo. Fora dEle não há ESPERANÇA alguma para a criatura humana. Paulo inicia a sua primeira epístola a Timóteo afirmando... “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandamento de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, NOSSA ESPERANÇA” (1 Timóteo 1:1). Ensina, ainda, Paulo, escrevendo aos Colossenses: “aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1:27). A nossa ESPERANÇA está fundamentada na Pessoa, na Obra e na Palavra do Senhor Jesus Cristo.

h) A nossa ESPERANÇA não garante que vamos alcançar ou possuir tudo o que desejamos e julguemos ser o melhor para nós, nem tampouco fazer o que entendemos ser oportuno. O controle de nossa vida deve ser sempre do Senhor e não nosso. Devemos nos submeter à Sua Soberania para experimentar, no tempo certo, os resultados benéficos do exercício da nossa ESPERANÇA. Devemos pôr em prática constante o princípio da correta submissão ao Senhorio de Cristo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm... O corpo é para o Senhor” (1 Coríntios 6:12-13).

Por isso, o exercício correto da ESPERANÇA tem muito a ver com o exercício da “paciência” e com a nossa convicção de que Deus sabe o que precisamos e quando precisamos.

2. A FIRMEZA DA ESPERANÇA

Ao referir-se à Igreja em Tessalônica como “modelo” Paulo a qualifica pela firmeza da sua ESPERANÇA: “da firmeza da vossa esperança” (v. 2). ESPERANÇA que não é firme, deixa de ser esperança adequada aos propósitos de Deus para a nossa vida cristã.

Vejamos “quatro” aspectos que a caracterizam:

a) Sendo firme, a ESPERANÇA não se abala mesmo que todas as circunstâncias da vida possam mudar. É importante manter FIRMEZA em nossa ESPERANÇA, para que ela não se abale, apesar de tantas coisas que possam surgir no curso da nossa experiência de vida, algumas demasiadamente penosas. Paulo é um exemplo digno desse tipo de comportamento quando afirma: “aprendi a viver contente em qualquer situação.Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez. Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:11-13). Veja, também, o que o apóstolo afirma em 2 Coríntios 4:7-10;

b) A FIRMEZA da nossa ESPERANÇA é que motiva todas as realizações da nossa experiência cristã na soberana vontade do Senhor. Essa FIRMEZA é que transforma as expectativas que acalentamos nos resultados esperados para a glória do Senhor. Faz com que os “alvos” sejam alcançados. Gratifica amplamente os esforços feitos. Paulo exorta: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Coríntios 15:18).

Os grandes servos do Senhor não foram os que tiveram grandes projetos a realizar ou excelentes “alvos” a alcançar, mas os que, com paciência, souberam esperar ver tudo conseguido, exatamente no tempo de Deus. É a lição de Paulo: “prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:14);

c) A FIRMEZA da ESPERANÇA é que estabelece em nós a convicção dos fatos ou das realizações esperadas, ainda que eles não existam. É, pois, a FIRMEZA da Esperança que corporifica e torna real em nós a Fé, essencial às experiências da vida, principalmente as de conteúdo espiritual. Lemos em Hebreus 11:1...“Ora, a fé é a certeza (convicção) de coisas que se esperam”;

d) A FIRMEZA da ESPERANÇA faz-nos ver as realidades futuras como se fossem realidades presentes. Paulo, em Romanos 8:24-25, afirma: “Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos”. É o privilégio dos filhos de Deus ter essa capacidade espiritual da visão dos fatos e realizações futuras, mesmo nos anais da eternidade, como se presentes fossem!

CONCLUSÃO

Constata-se nos dias que correm, indubitavelmente, um panorama de lamentável carência de autênticos valores espirituais, na postura das igrejas locais que compõem o chamado “mundo” evangélico atual. Creio que não são muitas que poderiam hoje merecer, como a igreja em Tessalônica, a nobre qualificação de “modelo”, na competente avaliação do apóstolo Paulo, considerando os três valores espirituais básicos que constatou e destacou na postura dessa notável igreja local, ao avaliá-la: A OPEROSIDADE DA SUA FÉ; A ABNEGAÇÃO DO SEU AMOR; A FIRMEZA DA SUA ESPERANÇA.

 

autor: Jayro Gonçalves.