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O governo da igreja local (14)

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual Ele comprou com o seu próprio sangue”

IV. QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

18 – A qualificação seguinte que Paulo aponta na carta a Tito, necessária ao comportamento do presbítero, é “justo” (Tito 1:7).

Deixamos de lado a expressão “sóbrio”, que em Tito vem depois de “amigo do bem”, porque já foi considerada quando do estudo do texto em Timóteo. Será que Paulo está correto ao exigir esta qualificação para aqueles que exercem o episcopado? É o mesmo Paulo que em Romanos 3:10 afirma que não há “justo” nem sequer um.

Esse é um dos atributos de Deus. Só Deus é absolutamente justo. Só Ele possui e manifesta perfeita “justiça” (Salmo 119:137). Em virtude da Sua justiça, Deus manifesta o governo moral do mundo e impõe ao homem uma lei justa, galardoando a obediência (Salmo 99:4, Isaías 33:22 e Romanos 1:32). Jesus Cristo, o Filho de Deus, manifestou esse atributo mesmo na Sua condição de homem e por essa razão pôde substituir-nos na recepção da ação judicante de Deus que os nossos pecados exigiram.

Ele veio para cumprir toda a justiça (Mateus 3:15). É o que Paulo afirma: “aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós, para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Ele, então, nos justificou, isto é, nos tornou justos perante Deus, já que o castigo que nos traz a paz caiu sobre Ele (Isaías 53:5; Romanos 5:1). Por isso Jeremias O chama profeticamente de “o Senhor Justiça Nossa” (Jeremias 23:6).

Mas Paulo não se refere a esse aspecto quando menciona o termo em Tito, como qualificação de bispo; não está aí Paulo a reportar-se à nossa condição de “justo” por atribuição da graça divina em razão da obra justificadora de Jesus Cristo. Paulo está mostrando a necessidade de uma característica toda especial que há de se evidenciar pelo comportamento justo do presbítero. Não é fácil manifestar tal condição, mas ela deve ser buscada e cultivada.

No grego, a palavra é “dikaios”, significa mais especificamente “reto” segundo as exigências da lei. “Justo” é o que manifesta retidão no seu comportamento em geral pelo fato de possuir “a santidade” atribuída pelo Senhor. Ser justo é manifestar praticamente um aspecto da santidade de que somos revestidos como novas criaturas. É evidência de maturidade e estatura espirituais, por isso é condição exigida no presbítero.

Ser justo nesse sentido é manifestar correção de vida em todos os seus aspectos. Envolve todas as nossas ações para com o nosso próximo, as quais devem ser praticadas com retidão, sem parcialidade, com equidade, sempre dentro do padrão de Deus revelado em Sua Palavra.

19 – Mais uma importante característica de presbítero, indica Paulo na carta a Tito: “piedoso” (Tito 1:7). É essa, quando efetivamente presente no comportamento do cristão, uma qualificação de alto grau de espiritualidade. Não significa religiosidade formal, nem sempre a aparência religiosa identifica o “piedoso”, não se confunde com atitudes filantrópicas, muitas vezes adotadas como compensação para manifestações deficientes de caráter, embora a filantropia cristã e sincera possa revelar o caráter piedoso.

No grego é a palavra “osios” significa “piedoso”. O sentido aí é “aquele que é agradável a Deus”. A nota marcante na atitude dos grandes servos de Deus sempre foi essa: “agradaram a Deus”. Abel teve a aprovação de Deus para o seu sacrifício. Enoque obteve testemunho de haver agradado a Deus (Hebreus 11:4-5). No exercício da piedade o que importa é agradar a Deus e não aos homens.

Para se agradar a Deus é necessário estar livre de máculas morais, possuidor de autêntica santidade, em que a natureza de Cristo vai sendo formada no homem interior. Por isso incluem-se no conceito da ”piedade” a pureza e inculpabilidade. É o adjetivo que indica a santidade divina, o termo focaliza a perfeição moral, o estar isento de qualquer pecado e envolve, necessariamente, a possessão de virtudes positivas, como a bondade e a santidade.

Em 1 Timóteo 6:3, Paulo mostra que não adianta nada o muito conhecimento intelectual e o seu ensino sem a piedade, pois isso evidencia carnalidade. Diz mais, no versículo 5, que os que assim agem supõem que a piedade é fonte de lucro. O que Paulo quer deixar claro é que muitos buscam na aparência religiosa, que confundem com a verdadeira piedade, vantagens pessoais.

A piedade é muito mais o que somos perante Deus do que o que fazemos perante os homens. A essa altura do nosso estudo devemos dar atenção à ordem da apresentação que Paulo faz na carta a Tito das três qualificações que vimos estudando.

Primeiro, fala Paulo: “sóbrio”, que indica a atitude e as ações de um homem para consigo mesmo. Depois diz: “justo”, referindo-se às ações do homem para com o seu semelhante. Finalmente, menciona Paulo: “piedoso”, que salienta as relações de um homem para com Deus, conforme as Suas exigências.

Em tudo e para com todos, nesta esfera terrena e naquilo que tange ao Senhor, O qual nos contempla desde os lugares celestiais, todo o crente deve ser moralmente correto, ainda mais se aspira a ocupar lugar de liderança na igreja local.

Continua na próxima crônica.

autor: Jayro Gonçalves.