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O governo da igreja local (15)

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual Ele comprou com o seu próprio sangue”

IV. QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

20 – Uma das qualificações mais importantes para o exercício da liderança na igreja local é a que Paulo menciona em Tito 1:8... “que tenha domínio de si mesmo”. Essa expressão no grego é “ëgkrates” aparece no Novo Testamento somente neste texto e em Gálatas 5:23 como um dos aspectos do fruto do Espírito. Significa “autocontrole”, ou seja, o controle do crente sobre todos os impulsos que podem levá-lo a macular a sua santidade.

Sendo um dos aspectos do fruto do Espírito, claro está que a ação pessoal do crente acontece em razão da sua permissibilidade à liberdade da atuação do Espírito Santo no seu próprio ser. Com isso entendemos que o homem não tem em si recurso que lhe permita tal autocontrole. Só no poder do Espírito Santo o crente realiza essa ação vitoriosa sobre o pecado.

Em 1 Coríntios 7:9, o apóstolo Paulo usa o verbo “dominar” para indicar o controle em relação ao impulso pessoal, quando, aconselhando o celibato (seu estado próprio), ele sugere aos que “não se dominam” casar em vez de se abrasar. Em 1 Coríntios 9:5, refere-se o apóstolo à autodisciplina que o atleta precisa exercer para ser bem-sucedido em suas tentativas de obter a coroa da vitória.

Para que seja vitorioso e obtenha a coroa na luta contra o mal, o crente precisa de uma completa autodisciplina e de total autocontrole. Mas isso só será possível com a ajuda do Espírito Santo. Diz Paulo que “o atleta em tudo se domina”.

Em Provérbios 16:32, afirma o sábio: “melhor é... o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade”. Deus dá muito valor à nossa vitória sobre nós próprios do que as nossas conquistas sobre outras forças exteriores.

A nossa grande luta é interior, contra os impulsos do homem natural, estimulados pelos agentes do pecado (Satanás, o mundo e a carne). É por isso que Paulo lembra que “a carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gálatas 5:17). O seu conselho é: “andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne” (v. 16).

Paulo ainda nos coloca perante o seu exemplo de homem de Deus quando declara: “todas as coisas me são licitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são licitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Coríntios 6:12). O exercício do “domínio de si mesmo” implica, pois, em um esforço consciente de nossa parte no sentido de anular todos os impulsos carnais de que somos possuídos em nossa condição de homem natural.

O Espírito Santo age poderosamente quando evidenciamos essa disposição de atitude. Os filósofos estoicos percebiam claramente a verdade expressa por essa virtude do domínio próprio. Eles procuravam fazer com que a razão dominasse a vida inteira, controlando as paixões e firmando a alma. Porém, o poder atuante do Espírito Santo, no íntimo dos crentes, é mais forte do que a razão humana, embora a razão seja um útil aliado e instrumento dessa habilidade que nos é propiciada pelo Espírito de Deus.

Está ai, pois, uma qualificação de grande importância no comportamento dos que têm responsabilidade no governo da igreja local.

21 – Chegamos à última qualificação que Paulo apresenta em sua carta a Tito, necessária ao que aspira ao episcopado: “apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina, e modo que tenha poder para exortar pelo reto ensino, como assim, para convencer os que contradizem” (Tito 1:9).

Ressalta aí Paulo a importância da Palavra de Deus (o Evangelho e o ensino doutrinário) no ministério verbal do presbítero. A eficácia desse ministério dependerá de seu apego à Palavra fiel. Já destacara o apóstolo na carta a Timóteo, tratando também da qualificação dos presbíteros, que estes devem ser aptos para ensinar.

Essa aptidão se alcança pelo apego à Palavra, à margem do exercício de dom de ensino. No grego o termo que corresponde à palavra “apegado” significa “agarrar-se-á”, “devotar-se-á”. Tendo sido consagrado ao ministério da Palavra, o presbítero deveria apegar-se firmemente aos ensinamentos da mesma, defendendo-os contra os ataques hereges.

A expressão “palavra fiel” não se refere aí, como em muitas ocasiões em que aparece o termo “palavra” no Novo Testamento, à Escritura Sagrada em sua forma escrita. Esse termo se refere à mensagem divina entregue aos homens por Cristo expressa no Evangelho. Naturalmente, mais tarde, a mensagem essencial neotestamentaria assumiu forma escrita.

Cristo é a “Palavra Encarnada” (João 1:1 e Hebreus 1:2), sendo Ele o tema central da mensagem divina. Esta palavra é essencialmente remidora em sua natureza, embora algumas vezes o vocábulo “palavra” inclua a totalidade dos ensinamentos cristãos. Normalmente, quando no Novo Testamento o termo “palavra” é usado de forma absoluta ou em forma combinada como “Palavra de Deus” (Atos 4:31; 6:2), “Palavra do Senhor” (Atos 23:49), “Palavra de fé” (Romanos 1:8), “Palavra da verdade” (2 Coríntios 6:7; Efésios 1:13) e “Palavra da vida” (Filipenses 2:16), sempre está em foco o “Evangelho”.

Continua na próxima crônica.

autor: Jayro Gonçalves.