• Português

O governo da igreja local (7)

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual Ele comprou com o seu próprio sangue”

IV.  QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

Continuamos a expor sobre as qualificações dos Presbíteros.

 

  1. Diz Paulo em 1 Timóteo 3:2 que o bispo (presbítero) deve ser “hospitaleiro”. A hospitalidade é uma notória evidência de maturidade espiritual. Em Tito 1:8, Paulo a menciona novamente como característica indispensável no presbítero. O que hospeda é aquele que dá “hospedagem por bondade”; é o que “acolhe com satisfação”. Não constrangido ou por obrigação. Não é muito comum em nossos dias a constatação desse tipo de comportamento no cristão. A presença estranha no aconchego do lar muitas vezes incomoda.

    Preferimos pagar a hospedagem em hotéis para irmãos que deveríamos receber em nosso lar, para não sermos incomodados com a sua presença, tolhendo a nossa liberdade. Ora, o que aspira ao episcopado não deve ter esse tipo de comportamento. Deve estar sempre pronto ao exercício glorioso da “hospitalidade”, ainda que ela restrinja certas regalias pessoais ou familiares, fazendo-o com amor e espontaneidade, acolhendo com satisfação.

    Essa atitude deve envolver todos os que são de sua casa. Em Romanos 12:13, Paulo recomenda: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade”. A prática da hospitalidade passa a ser o nosso compartilhamento nas necessidades dos santos. O apóstolo Pedro exorta que devemos ser “hospitaleiros sem murmuração” (1 Pedro 4:9). Em Hebreus 13:2 o ensino é para que não negligenciemos a hospitalidade, “pois alguns, praticando-a, sem o saber, acolheram anjos”.

  2. Continua Paulo a relação das características dos presbíteros, afirmando que o mesmo deve ser “apto para ensinar” (1 Timóteo 3:2). Temos aqui uma característica de “capacidade”. Apto é o hábil, capaz, idôneo, que satisfaz as condições impostas ao cumprimento da missão de que é incumbido, rigorosamente dentro do padrão.

    No caso específico, essa “capacidade” está ligada ao manejo das Escrituras, principalmente no auxílio dos outros. Ninguém pode ensinar o que não sabe. Para saber é necessário meditação no estudo das Escrituras.

    Escrevendo a Timóteo, Paulo enfatizou a importância do estudo da Palavra de Deus na “capacitação do ensinador” (2 Timóteo 3:14-17). A habilitação de Timóteo deu-se através do seu longo aprendizado, desde a infância, das Sagradas Letras que podiam torná-lo sábio.

    É o estudo constante e dedicado das Escrituras que leva o cristão à maturidade espiritual, ou seja, o homem de Deus, habilitando-o perfeitamente para toda a boa obra. A “capacitação” para o ensino é a única forma de se poder cumprir a determinação paulina quanto ao dever de se transmitir o ensino a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros (2 Timóteo 2:2).

  3. A seguir, Paulo declara que o presbítero “não deve ser dado a vinho” (1 Timóteo 3:3). A mesma coisa diz Paulo em Tito 1:7. É interessante notar a diferença entre essa expressão, ligada ao comportamento do presbítero e a que se refere ao diácono: “não inclinado a muito vinho” (v. 8). Veem muitos nessa diferença da exigência a necessidade de rigorosa abstinência por parte do presbítero. A condição de governo e de exemplo do presbítero impõe-lhe essa abstinência.

  4. Seguindo a relação de qualificações em 1 Timóteo 3:3, Paulo declara que o presbítero “não deve ser violento”. A “violência” é o argumento dos que não têm razão, dos incapazes e dos incompetentes. Muitos querem impor as suas ideias e opiniões sem lastro, através da violência. Não cabe ao presbítero, pela sua condição de líder, tal atitude. Sabendo o que diz e porque diz, há de ter suficientes argumentos para fazer-se acatado e respeitado sem o recurso da violência, em qualquer esfera da sua vida, seja familiar, profissional, social ou mesmo religiosa.

    A palavra aí pode se referir à “violência física”, lamentavelmente utilizada por pessoas que se dizem cristãs, algumas vezes exercida covardemente, contra aqueles que são mais fracos ou estão em condição de inferioridade situacional, como no caso do marido em relação à sua esposa ou dos pais em relação aos filhos.

    Não se pode justificar a violência pela necessidade de disciplina, embora essa tenha que, às vezes, ser rigorosa. O castigo disciplinador nada tem a ver com a “violência” ao que se refere o apóstolo neste trecho, mas a expressão pode também relacionar-se com a violência moral ou psicológica.

    Falo da coação que muitos exercem sobre os outros pela sua condição de liderança, levando-os a agir, não raras vezes, de forma contrária à sua própria condição ou vontade, por meio de forte sugestão ou irresistível constrangimento que lhes são impostos. Aí se patenteia claramente a “violência” condenada pelo apóstolo, no comportamento de quem aspira ou já exerce o episcopado.

    O presbítero tem uma tremenda responsabilidade nesse aspecto. Talvez, mesmo inconscientemente por estar mal preparado e dando muita importância à sua condição de líder e responsável pelo governo da igreja, age violentamente através de atitudes ou palavras coercitivas, levando o rebanho a suportar o ônus do seu erro.

    Lamentavelmente, vê-se também, às vezes, o presbítero agindo truculentamente através do exercício autoritário e despótico da sua função, por mera vaidade pessoal e o desejo de se afirmar como tal. Não é necessário que se recorra a esse tipo de comportamento para se impor como presbítero, já que o reconhecimento como tal decorre do bom exercício das qualificações bíblicas.

    Creio que na época que estamos vivendo a recomendação paulina é muito oportuna para que não se transforme o governo da igreja em similar aos governos que pretendem se impor pela força para se manterem. Quem usa da “violência” para se manter na liderança, já a perdeu. O Senhor não honrará a autoridade violenta, porque a “violência” é a própria negação da autoridade.

 

Continua na próxima crônica.

 

autor: Jayro Gonçalves.