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O governo da igreja local (8)

 

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual Ele comprou com o seu próprio sangue”

IV. QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

Continuamos a considerar o ensino de Paulo sobre as qualificações dos presbíteros.

10. Diz Paulo que os presbíteros devem ser “cordatos”. Ser “cordato” não significa “concordar” com tudo, ter complacência com o erro. A palavra não tem como raiz esse verbo “concordar” como muitos pensam. É interessante notar que o Senhor Jesus Cristo, que é a expressão maior do “amor”, porque Ele é amor (1 João 4:8), foi muito firme e até contundente na sua atitude intransigente, contra os erros dos religiosos da Sua época (Mateus 12:34, 13:13-36).

Verberou-os com franqueza, visando a afirmação e a aceitação da Verdade, tantas vezes obscurecida no ensino e na prática dos que tinham a responsabilidade das lideranças religiosas (Mateus 15:6... “e assim invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição”). Infelizmente há os que hoje, em nome de um falso amor, pretendem a acomodação com o erro, preocupados em não melindrar as pessoas.

É preferível “magoar” alguém para corrigi-lo a tolerar o erro para manter a amizade. A política “de panos quentes” ou de se “fazer média” não é compatível com o exercício da correta liderança espiritual e nada tem a ver com a aludida qualificação paulina para o presbítero: ser “cordato” (Hebreus 12:11... “toda a disciplina, com efeito, no momento não parece ter motivo de alegria, mas de tristeza;  entretanto, depois produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados fruto de justiça”).

Então, o que vem a ser “cordato”?

Cordato é o “prudente”, o que tem “bom senso”. Jesus Cristo recomendou aos Seus discípulos, quando os enviou para o ministério: “Sede, portanto, prudentes como a serpente e símplices como as pombas” (Mateus 10:16). Na consideração dos inúmeros problemas que lhe são entregues à consideração e deslinde, na aplicação dos critérios de aconselhamento e orientação, deve o presbítero ser prudente, isto é, não precipitado na apreciação de fatos e ter bom discernimento de todas as circunstâncias que envolvem cada situação examinada.

O “bom senso” deve ter presença constante no difícil mister de orientar, repreender, corrigir ou exortar. É o “bom senso” necessário para não ser levado a tirar conclusões apressadas ou infundadas. Assim agindo estará sendo útil no ministério como presbíteros.

11. Afirma o apóstolo Paulo que o presbítero deve ser “inimigo de contendas”. Essa qualificação se alinha com duas outras já examinadas e lhe são correlatas: “não violento” e “cordato”. O “contencioso” é o que gosta de brigar ou discutir por qualquer coisa, estar sempre se rivalizando com os outros, buscando a altercação. Claro que essa característica negativa (contencioso) é incompatível com a condição de liderança na igreja local.

Não há necessidade de se “partir para a briga” quando se quer pôr as coisas em ordem. Nem altercar quando se pretende corrigir o erro. A “contenda” é uma manifestação do homem natural que, infelizmente, tem trazido muito dano à necessária boa comunhão entre o povo de Deus. Deus repulsa esse comportamento.

Em Provérbios 6:16 lemos: “seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina”; no versículo 19 temos a sétima coisa que a alma do Senhor abomina: “o que semeia contendas entre irmãos”. A contenda é altamente danosa porque envolve os irmãos, quebrando a comunhão entre todos e de todos com Deus. Por isso o Senhor a considera muito grave.

Ainda, em Provérbios 13:10... “da soberba só resulta a contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria”. A nossa soberba, isto é, o nosso orgulho, pecado grave que levou satanás à rebeldia contra Deus, leva-nos à contenda. O sábio Salomão nos exorta a adotar a atitude humilde do mútuo aconselhamento para que alcancemos a sabedoria. Quando nos julgamos mais do que os outros ou mais sábios entre muitos, manifestamos pretensão pecaminosa que leva à contenda.

Sobremodo judicioso o pronunciamento de Salomão em Provérbios 17:14... “como o abrir-se da represa, assim é o começo da contenda: desiste, pois, antes que haja rixas”. Mais adiante diz o sábio em Provérbios 18:6... “os lábios do insensato entram na contenda, e por açoite brada a sua boca”. Vê-se aí que Deus considera insensato o que se envolve em contendas. Ainda em Provérbios 28:25... “o cobiçoso levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará”.

A cobiça é, pois, estímulo ao espírito contencioso, porque desejando mais e mais egoisticamente, não nos admitindo inferiorizados em relação aos outros, acabamos levantando contendas. Antes de querer ser mais é preciso confiar mais no Senhor. A prosperidade resultará da nossa confiança no Senhor e não na nossa busca contenciosa!

Outro aspecto que Salomão destaca sobre o assunto está em Provérbios 30:33... “porque o bater do leite produz manteiga e o torcer o nariz produz sangue, o açular a ira produz contendas”. Vemos aí, que é necessário não alimentar dentro de nós situações que nos provoquem à ira, pois o resultado há de ser, inevitavelmente, a contenda.

O apóstolo Paulo foi enfático e abundante na exortação contra as contendas, tão em voga no comportamento de muitos cristãos da igreja primitiva, ao dizer: “fui informado, pelos da casa de Cloé de que há contendas entre vós” (1 Coríntios 3:3); “temo, pois, que indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero... e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intriga, orgulho e tumulto” (2 Coríntios 1:20). “Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei: porque não tem utilidade e são fúteis” (Tito 3:9),

Muitas vezes o espírito contencioso se revela no próprio exercício do ministério seja o da edificação, seja o de evangelização, motivado pela competividade pessoal ou sectária. É comportamento que o Senhor não aprova porque não O Glorifica!

Para finalizar, fiquemos com o ensino de Paulo em 2 Timóteo 2:23-25... “E repele as questões insensatas e absurdas, pois sabe que só engendram contendas. Ora, é necessário que o servo de Deus não viva a contender e que deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem”. Dispensamos maiores comentários pelo expressivo ensino do próprio conteúdo espiritual a respeito.

Que o Senhor ajude a sermos inimigos de contendas!

Continua na próxima crônica.

 

autor: Jayro Gonçalves.